sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Mandando o "Foda-se!" (liricamente) em São Gonçalo/RJ

Ok, amigo leitor, sei que não tenho sido um blogueiro muito assíduo, mas tenho minhas razões: com o lançamento de meu oitavo livro "Foda! E outras palavras poéticas...", estou percorrendo várias regiões do Brasil para divulgar minha nova obra (Valença/RJ, Maringá/PR, São Gonçalo/RJ, etc) na "Foda-se Tour" e, somados aos meus compromissos profissionais como professor, meu tempo virtual tem sido absorvido pelo universo real. Mas, antes que as postagens aqui fiquem empoeiradas e esquecidas, sou como gripe: eu sempre retorno (nossa, que comparação cafona e escrota, putz, estou liricamente cansado de tanto corre-corre rs).
Hoje trago os vídeos da minha visita em dose dupla a São Gonçalo/RJ, acompanhado de meu recente livro "Foda-se! E outras palavras poéticas...", realizada no dia 25 de outubro: o primeiro vídeo mostra como foi a apresentação do livro no Evento Identidade Cultural & Movimento Culturista, organizado por Janaína da Cunha, no Restaurante Sintonia Fina, dirigido por Fábio Hartmann, onde contei com as participações super-especiais de Patricia Correa, Juliana Guida Maia e do músico Fabricio Hartmann; o segundo traz a minha participação durante a apresentação da cantora Evangelina Corrêa, acompanhada pelo violão de Rafael Almeida, no Circuito Jovem Fica Vivo, no Metallica Pub.
E amanhã, sábado, dia 01 de novembro, tem mais evento: retorno a Valença/RJ, acompanhado da galera do Sarau Solidões Coletivas e de outros artistamigos, às 17 h, na Biblioteca D. Pedro II (Rua Padre Luna, 68, sala 101, Centro.
Yeah, amigos leitores, a "Foda-se Tour" está frenética! Bons Vídeos e Arte Sempre!




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Contra o preconceito após a corrida eleitoral, eu voto no pensamento lírico-racional da Tia Lu

No último domingo, nós, povo brasileiro, passamos pela disputa eleitoral mais acirrada de todos os tempos, protagonizada por Dilma Roussef (PT) e Aécio Neves (PSDB). Entre acusações e ataques de ambos os lados, a presidente Dilma foi reeleita “sem folga” (a reeleição que parecia garantida no início da corrida eleitoral passou por viradas alucinantes desde o falecimento do candidato Eduardo Campos, do PSB) e alguns eleitores tucanos mais exaltados libertaram nas redes sociais seus comentários mais furiosos e preconceituosos sobre o resultado da eleição: nordestinos e pobres foram alvos-vítimas das piores ofensas em discursos de ódio sem limites, transformando um momento histórico da democracia brasileira num episódio de vergonha nacional. E, nesse momento extremamente irracional, quem poderia nos salvar? A poesia, é claro! No meio dessa guerra histericamente preconceituosa entre petistas e tucanos, fico com a fodástica reflexão poética e pacificadora da poetamiga Luciana Do Rocio Mallon:

"NÃO tenho preconceito, eu trato bem estrelas e tucanos.
Afinal meu espírito é ECO LÓGICO, ele respeita astros e aves."
( Reflexões da Tia Lu )


Fiquemos, amigos leitores, com as “Reflexões da Tia Lu”, de Luciana Do Rocio Mallon, e, por favor, esqueçamos esse vômitos-comentários de discursos de ódio. Democracia (mesmo que meio fud...) e Arte Sempre, amigos leitores!

domingo, 19 de outubro de 2014

Tem uma galera fodendo comigo: O Foda-se no olhar lírico dos artistamigos

Desde que anunciei que meu oitavo livro chamar-se-ia (#usandomesóclisesópraparecermaissérioqueaparentoser) “Foda! E outras palavras poéticas...”, muitos já me avisavam: “Isso vai ser polêmico, cara...” (um amigo, meio preocupado), “Você está preparado para as críticas, filho?” (mamãe, muito preocupada), “Hã?” (um conhecido desavisado), “Ah, você escreve livros?” (outro conhecido, mais desavisado ainda), “Ah, mentira, fala sério!” (outro conhecido, cético pra raio), “Ai, que engraçadinho!” (outro conhecido, tão mais desavisado quanto o anterior), “Tinha que vir de você, né, o que se pode esperar de um baderneiro como você?” (ok, mais um conhecido, que não me conhece tanto assim), “Adorei o título!” (um fã !?!), “Ah, foda-se, cara, faz tua arte e que se foda!” (um grande amigo), “Que nome feio pra um livro de poemas que só deve refletir o aspecto bonito da vida, a alegria, o eterno sorrir ...” (os três pontinhos é porque não ouvi a crítica até o final), “Por que esse título tão agressivo?” (outro conhecido que não me conhece muito bem). Passado o lançamento do livro, ocorrido no dia 11/10, vou recebendo as críticas e elogios – aos que só leram a capa, só deixo o olhar que sussurra o título-mantra do livro – e o que é mais legal disso tudo: alguns artistamigos já compartilham e recriam o universo lírico do meu oitavo livro.
Rabib e eu
Denis Pereira
Para demonstrar a repercussão do meu oitavo livro “Foda-se! E outras palavras poéticas...”, hoje compartilho com os amigos leitores um poema escrito pelo artistamigo Rabib Floriano Antonio, após as primeiras leituras do livro citado, e um sketch (desenho livre, solto) do desenhista e artista plástico Denis Pereira (autor do desenho da capa de trás do livro).
Que a arte permaneça sendo essa fodástica foda coletiva, amigos leitores! Até Breve e Arte Coletiva Sempre!

Como ler Carlos Brunno?
(ou lendo "Foda-se" de rum)

Degusta-me em copo raso.
Sorva-me devagar...
Como líquido meio esparso;
Quase cantiga de ninar!

Mas não me cuspa!
Degusta!
Como um trago forte
que lhe tira o norte!

Deite e leia a sua sorte
como quem busca no fundo do copo
a solução que para o vazio da morte!
Rabib Floriano Antonio

Sketch de Denis Pereira

sábado, 18 de outubro de 2014

Poema de Janelas e Sonhos Contra as Trancas Hipócritas das Trevas Coloridas de Zuckerberg

Há poucos dias atrás, aconteceu mais um epísódio triste de hipocrisia da Era de Trevas Coloridas de Mark Zuckerberg! Fabiano Cafure, notório cineasta, natural de Valença/RJ, mestre na arte da fotografia libertária, expunha em seu facebook uma série de ensaios fotográficos chamada “Janela do Fabiano”, na qual ele explorava o lirismo do corpo de modelos nus no cenário cotidiano de sua janela, transformando um ambiente comum na mais sublime poesia. Há poucos dias atrás, o golpe das trevas coloridas: sua exposição fotográfica virtual foi “denunciada” por outros facebookianos, numa atitude não declarada, mas claramente hipócrita, homofóbica e racista. E tal atitude foi condenada? Não, amigos leitores: quem virou crime foi a arte de Fabiano Cafure. As fotos foram censuradas pelo facebook e o artistamigo Fabiano Cafure teve sua conta temporariamente cancelada. E mais: Fabiano Cafure não teve direito de resposta na “democrática” rede social de Mark Zuckerberg.
Se os aliados das trevas coloridas do facebook ganharam essa disputa, lembro que jamais ganharão essa pacífica guerra, pois a arte mantém-se viva apesar de todos os pesares (ou seja, apesar deles) e, por mais hostil que seja o ambiente hipocritamente sociável, a arte vai continuar expondo as lindas feridas e, como sempre, vai ensinar aos virtuais “vencedores” a sublimação da dor, a glorificação da mais vitoriosa derrota. O blogueiro que vos fala apóia a revolta de Fabiano Cafure e, como ele, tenta manter as janelas da arte libertária viva na eternidade, mesmo quando ameaçada da mais velada e covarde censura. A arte jamais perde, tolos aliados das trevas coloridas do facebook, um dia vocês aprendem, pois, por mais que evitem, rá, rá, rá, a arte vai penetrar em vocês sem vocês notarem e só lhes restará tentar esconder o coito e negar o implacável gozo.
O poema de hoje é uma homenagem à lírica “Janela de Fabiano Cafure” – se ela está trancada no facebook, ah, pobres mortais, na memória, ela permanece escancarada, mais lírica e linda do que jamais se esperava!

A vizinha e a janela fechada
Para Fabiano Cafure e sua janela lírica

Há tempos que aquele garoto mantém a janela fechada
Antes o menino desfilava por ela com seus sonhos nus
Iluminando de lirismo as minhas vistas cansadas.
Hoje a janela trancada marca o retorno de minha crônica catarata.
Alguns dizem que o menino virou homem e parou de despir seu sonhar,
Mas meu olhar outrora tão límpido, agora embaçado
Sabe que o garoto tão vizinho e tão conhecido
Jamais deixaria de revelar seu universo despido e destemido,
Pois o que é lindo é pra se mostrar.
Se o menino trancou o quarto lírico foi por causa de outros homens,
Ex-meninos que não sabem mais o que é crescer sem os sonhos abandonar,
Mas deixa estar, meu vizinho querido,
Sei também que, por entre as frestas de sua agora trancada janela,
Ainda escapam vestígios nus de seu eterno sonhar.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Contos letivos pra ouvir: Audioconto "A última poeta"

Há 3 anos atrás aqui no blog, publiquei o meu conto "A última poeta", uma "homenagem" literária e meio melancólica ao Dia do Professor (por isso, as aspas em homenagem). O conto publicado foi extraído de meu sexto livro "Diários de Solidão" (2010), obra-musa inspiradora deste blog e, consequentemente, do Sarau Solidões Coletivas, e, pode ser encontrado por aqui no seguinte link: http://diariosdesolidao.blogspot.com.br/2011/10/poema-letivo-ultima-poeta.html . Algum tempo após a publicação do conto no blog, tive a felicidade de ouvir meu conto interpretado por William Gonçalves na segunda temporada Programa Rádiola Literária, da Rádio Digital Rio. Hoje compartilho com os amigos leitores o audioconto de "A última poeta", produzido e apresentado por William Gonçalves e supervisionado por Anny Lucard, grande incentivadora de minha arte.
Boa audição e Arte Sempre!

domingo, 12 de outubro de 2014

Lançando o Foda-se na II FLIVA com o Coletivasom e o Sarau Solidões Coletivas

Galpão da Arena de Eventos, em Valença/RJ, 11 de outubro de 2014 - Lançamento de "Foda-se! E outras palavras poéticas...", oitavo livro de Carlos Brunno Silva Barbosa, no Galpão da Arena de Eventos na II Feira Literária de Valença (II FLIVA), com a participação do músico José Ricardo Maia, abertura/análise do livro por Alexandre Fonseca, participações especiais dos poetas Gilson Gabriel (Sarau Solidões Coletivas), Luiza Brault (de Teresópolis e Niterói/RJ), Sergio Almeida (o Jardim, também de Niterói/RJ), Luana Cavalera e Karina Silva (as duas últimas também do Sarau Solidões Coletivas), do rapper Paulo Roberto Gonçalves (do Movimento Coletivasom) e dos escritores Wilson Fort e Roberto Esteves Siqueira Jr. (que, no dia. também lançava o seu fodástico livro de 'autorruda', "Esquenta a cabeça comigo não").


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Introduzindo o Foda-se: O julgamento de Augusto

Às vésperas da véspera do lançamento de meu oitavo livro, “Foda-se! E outras palavras poéticas...”, que acontecerá no sábado, dia 11/10, às 15:30h, durante a II Feira Literária de Valença/RJ (II FLIVA), na Arena de Eventos (ao lado da rodoviária), no centro de Valença/RJ, trago aos amigos leitores uma prévia do livro: o esquete “O julgamento de Augusto”.
O desenho da capa de trás, feito por Denis Pereira,
é inspirado no esquete que compartilho hoje
“Opa!”, dirá o leitor distraído, “Mas isso é um esquete; não é um poema; o livro não era de poemas?” Sim, amigos leitores, o livro “Foda-se! E outras palavras poéticas...” é minha sétima obra de poemas. Mas, o leitor mais atento, que conhece um pouco minha louca lucidez, sabe que minhas últimas obras trazem um gênero híbrido (ou seja, misturado a outros gêneros) ou ‘multinãorotulável’ (ou seja, ampliado por diversos gêneros): em 2010, no meu primeiro livro de contos, “Diários de Solidão”, os contos eram entremeados por microcontos líricos que intertextualizavam com versos conhecidos das diversas fases da literatura brasileira e portuguesa, além de o livro ainda trazer o poema “Pinóquio Apaixonado” e ser encerrado com o fragmento de um poema fodástico de Roberto Esteves Siqueira Jr.; em 2013, no livro “Bebendo Beatles e Silêncios”, os rock poemas em tributo poético ao ex-beatle George Harrison eram entremeados por contos nos quais o eu lírico conversava com o ex-beatle num bar da minha semi-inventada Shangri-lá (o nome deste lugar lírico-inventado já aparecera em meu quinto livro “Eu e Outras Províncias”, de 2008)... Agora, em 2014, neste meu oitavo livro, os poemas são entremeados por esquetes que informam, vagamente, as mudanças de temas do livro, até os versos se alongarem como os poemas de Álvaro de Campos, que beiram a prosa poética, além de que todos os textos virão com uma epígrafe de letras de músicas, poemas, contos e romances diversos, quase que preparando para o que virá no poema correspondente ao diálogo de textos. Ou seja, o esquete que compartilho com vocês hoje é uma das ‘peças’ introdutórias do livro, como eu disse, um prévia do que virá em “Foda-se! E outras palavras poéticas...”
Espero que gostem (se bem que, se não gostarem também, espero que se fodam... rs). Bom Foda-se pra vocês e Arte Sempre, amigos leitores!

O julgamento de Augusto
(Peça introdutória)

“Anjo bom, anjo mau”
Lobão, Cartola e Cazuza , “Azul e amarelo”

            A peça se passa no Tribunal Celeste, cujo ambiente é o mesmo de um tribunal real. O JUIZ está em sua bancada - uma venda negra cobre seus olhos (parecendo com a imagem da Justiça).
            Entra o anjo AUGUSTO com suas asas brilhantes, acorrentado e escoltado por um Guarda Divino até  o centro do Tribunal. Inicia-se o Grande Julgamento.

            JUIZ: Augusto Rimbaud Azevedo Sousa dos Anjos, você está sendo acusado de perturbação da Sagrada Paz Celestial. O réu tem alguma coisa a declarar?
            AUGUSTO: Tenho: Foda-se!
            Guarda Divino aperta AUGUSTO, repreendendo-o.
            JUIZ: Gostaria de lembrar ao réu que qualquer coisa que o senhor disser neste Tribunal poderá agravar sua situação no julgamento.
            AUGUSTO: Mas eu disse apenas “foda-se”.
            AUGUSTO recebe nova repreensão do Guarda Divino.
            JUIZ  (irritado): Eu não admitirei que o réu desrespeite a autoridade deste Tribunal Celeste.
            AUGUSTO: Ora, senhor Juiz, há pessoas ganhando dez vezes na loteria em uma semana, deputados ganhando mensalidades para votarem leis, governantes explorando contribuintes, empresas explorando trabalhadores, existem tantos desrespeitando a vossa autoridade e eu serei condenado por um simples foda-se?
            JUIZ (levanta-se e aponta para vários lados. Como seus olhos são vendados, ele nunca localiza o réu): Retire esta palavra de baixo calão desse Recinto Celestial ou serei obrigado a condená-lo sumariamente por desvio de Conduta Celestial!!!
            AUGUSTO: Não posso negar o que herdei, Senhor Juiz. Foda-se é minha vida. Há tanta impunidade nesse mundo, Senhor, tanto desrespeito, tanto egoísmo, tanto mal, e eu tento ser bom, tento respirar nesse mundo de poeiras escondidas nos tapetes que pisamos. Então digo: “Foda-se!” e encaro o mundo. Foda-se é uma forma poética de sobreviver sem enlouquecer, Senhor.
            JUIZ (bate o martelo): Silêncio, senhor Augusto! As acusações que recebi sobre sua conduta neste mundo são gravíssimas. Primeiro: o réu é acusado de estar em companhia de uma mulher em lugar proibido.
            AUGUSTO: Mas era apenas uma boate, Senhor.
            JUIZ (com ar ofendido): Uma boate, ainda ousa admitir sem nenhum remorso que era somente uma boate? Que anjo o réu pensa estar sendo freqüentando antros de luxúrias?
            AUGUSTO (com ar deslumbrado): A música estava boa. Tentei me manter afastado, mas a música me chamava, Senhor. Já ouviu alguma vez o seu coração bater forte, tão forte que se perde o controle do resto do corpo, Senhor?
            JUIZ (constrangido): Quem faz perguntas aqui sou eu, senhor Augusto. Não sabia que tais antros de luxúrias lhe são proibidos?
            AUGUSTO: Já foi lá, Senhor Juiz?
            JUIZ (misto de ofendido e constrangido): Nã-Não. Ora! Claro que não! Que absurdo!
            AUGUSTO: Então como pode julgar assim o lugar, Senhor? O pré-conceito é um crime previsto no Estatuto Celestial...
            JUIZ (muito embaraçado): Ora! Quem pergunta e acusa aqui sou eu. Ponha-se no seu lugar.
            AUGUSTO: Tire as algemas e ponho-me no meu lugar: na minha casa.
            JUIZ (irritado): Continua me desafiando, seu rebelde?
            AUGUSTO (revoltado - Guarda Celestial não consegue controlá-lo): Rebelde! Rebelde por quê? Por que não digo “sim, Senhor, sim Senhor”? Por que não conservo a Hipocrisia e Alienação Celestial? Por que o Senhor não admite que, como a moeda possui dois lados, nossas ações não admitem duas interpretações? Por que tudo que o Senhor diz tem que estar certo? Se está certo, por que tantos presos, tanto medo, tanta dor oculta no peito? Por quê? E, afinal, por que tenho que chamá-lo de Senhor e não de você, se somos iguais perante a Divina Lei?
            JUIZ: Ora, jovem insano! Como ousa?... (pausa embaraçado) O réu ainda beijou uma humana!
            AUGUSTO (sorriso e olhar brilhante, sonhador): Mas ela era tão linda, senhor. Tinha lábios de sonho e perfume de ninfa. Eu a desejei... ela me desejou... foi recíproco, senhor!
            JUIZ: Anjos não beijam mulheres - ainda mais anjos novos como o réu!
            AUGUSTO: Mas e o desejo, senhor? Essa chama, esse inferno de amar em meu peito, senhor? Ficar a vida inteira me queimando por dentro, viver pensando em tudo que poderia ter sido e não foi?
            JUIZ: Cortaremos suas asinhas, Augusto.
            AUGUSTO: Podem cortar! De que adiantam asas se não posso voar?
            JUIZ: O réu também foi visto fumando o cigarro proibido...
            AUGUSTO (sutilmente debochado): O cigarro proibido já é legal há muito tempo, senhor. Está em todas as esquinas celestes. Pequei, confesso que pequei, fui fraco, senti-me um fraco. Mas que regras são essas que me condenam? Eu não criei estas regras, não ajudei a criar estas regras, já nasci condenado; um anjo torto a tropeçar nos alienados terrestres.
            JUIZ (irritadíssimo, bate o martelo): Basta! (como usa vendas e não vê o réu, aponta para todos os lados, com um semblante de raiva) O réu é culpado, culpado, culpado! Culpado e condenado à perda das asas, a 100 anos de trabalho assalariado e fica, a partir desta data, desempregado do cargo especial de anjo da guarda. Declaro encerrado o julgamento.
            AUGUSTO: Só mais uma palavra, senhor.
            JUIZ (entediado): Fale, condenado Augusto...
            AUGUSTO: Foda-se!

            Augusto é levado do Tribunal  Celeste pelo Guarda Divino


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Solidões Crônicas Compartilhadas: O sublime amor de poucos ais de Paulo Ras

Enquanto alguns preferem delimitar seu poder de voto em eleições insossas, como escolher entre Dilma ou Aécio (ou seja, entre porco e toucinho), prefiro eleger, sem risco de segundo turno (ou seja, sem dúvidas), as manifestações artísticas fodásticas dos escritoramigos. Por isso, hoje tenho o prazer de compartilhar mais uma vez minhas solidões poéticas com o mais-que-fodástico escritoramigo paranaense Paulo Ras, residente em Paranaguá/PR.
Nesta postagem, trago uma das mais fodásticas crônicas de Paulo Ras, “Era um amor de poucos ais”, selecionada no rigoroso Prêmio Escriba de Crônicas de Piracicaba/SP 2014. Destaco que este prêmio é um dos concursos literários mais seletivos, ou seja, a crônica de Paulo Ras é comprovadamente, no mínimo, super-ultra-brilhante, uma obra-prima do gênero, com estilo sublimamente lírico, daquelas obras primas de dar inveja aos mestres desse estilo Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.
Jamais percamos nossos rumos lírico e nos lembremos sempre, amigos leitores: seja qual for a eleição ou não-eleição, eleja sem medo a Arte Sempre, pois só ela pode nos transformar e trazer alguma magia pra nossa maçante rotina. Após passarmos pelo primeiro turno dos maus tratos com as palavras, após sobrevivermos à primeira fase das eleições das mentiras sem poesia, fiquemos com mais uma apaixonante obra-prima lírica de Paulo Ras, amigos leitores!

Era um amor de poucos ais.

A caminhada pelas ruas. As conversas sem sentido. Os passos sem destino. Tudo era uníssono naqueles dias. Os desejos, as palavras, os murmúrios. Amor de eternidade, dizia ele. Amor de vidas, acreditava ela. E tudo neles se enchia de sons, de cores. Era a vida se multiplicando, um azulado aquarelado no horizonte, um sorriso de sol na boca do destino. Um amor poético, pensava ele. Um amor de sussurros, murmurava ela, com os lábios entreabertos, os olhos fechados, enquanto a brisa abusada lambia o cabelo solto, o pescoço ávido, o corpo morno. Parecia o beijo daquela boca que ela tão bem conhecia, parecia as mãos cujas digitais ela já decorara. E nisso tudo ainda há desejo, ela repetia milhares de vezes, talvez tentando se convencer de que tudo aquilo era tão verdadeiro quanto mágico.
Era um amor de muitos horizontes. Todos tão belos quanto infinitos. As mãos dadas. Os dedos entrelaçados. Os olhos sem desvios. As vidas em rota de colisão. O tato, o cheiro, o gosto, o calor. Tudo era complexo, qual um idioma morto, latim ou sânscrito talvez, e que apenas os dois pareciam compreender – e era o que acontecia. Então, como poderia um amor ininteligível sobreviver em um mundo globalizado? Vai ser eterno, era a fé dele. Será imenso, era a certeza dela. E nesse mundo em que se enclausuraram, nada mais que sonhos podia entrar, nada mais que desejos poderia crescer.
Era um amor com cheiro de café da manhã. Da visão etérea da fumaça se espalhando pela casa de amar. O aroma se perdendo entre as torradas preguiçosas, dentro das manhãs quentes, tudo impregnado de camadas generosas de geleia de amora e de requeijão. E nada light - lembrava ela, com aquela voz hipnotizante e lânguida que apenas as doces amadas que vão receber o desjejum na cama sabem ter - afinal, de saudável basta você meu amor! E a faca corria pela superfície áspera do pão quente. E o amor corria quente pelo coração antes áspero. O café servido. O corpo nu se desenrolando das cobertas, os cabelos soltos, o cheiro de prazer amanhecido. Tudo era tão simples, refletia ele. Tudo é tão maravilhoso, filosofava ela, e o café está delicioso. E antes que a dona dos mimos suspirasse, antes que ela chorasse, ele simplesmente a beijou, como desejava fazer por todas as manhãs pelo resto da vida. Um beijo de café forte, de amor puro, das coisas impublicáveis que a madrugada nervosa jamais esqueceu.
Era um amor desses, pensava ele.
Que a gente nunca encontra, refletia ela.
E os dois, de pensamentos em punho, se deitaram no leito, e ali, com os olhares fixos, nasceu a certeza que às vezes aquilo que não se encontra, existe. E que uma pitada de sorte e destino é essencial para quem quer se perder em amores.
Paulo Ras


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Canto plebeu pra Princesinha Rainha

No dia 29 de setembro deste ano, Valença/RJ, minha cidade lírico-afetiva, fez 157 anos e tive que assistir à festa de comemoração de longe, devido a compromissos literários em outras cidades e por ser véspera do meu dia de retorno ao trabalho em Teresópolis/RJ.
Os céticos, abraçados a visões tradicionais sobre as raízes humanas, poderia comentar: “E daí, rapaz? Você nem nasceu lá...” Sim, há muita verdade e também muita mentira nessa afirmação: nasci na cidade vizinha Barra do Piraí/RJ e tenho orgulho disso, afinal minha formação literária e intelectual começou lá, através de meus pais e, principalmente, do estímulo de minha madrinha, Tia Celeste Cicchelli, de 1979 a 1992. Minha formação acadêmica, inesquecível pra mim, também se deu em Barra do Piraí, no meu retorno á cidade (período de 2000 a maio de 2006, quando residi na casa de meus avós, trabalhando numa fábrica de papel em Piraí e fazendo Letras na Universidade Geraldo di Biase – antiga FERP). Mas o poeta Carlos Brunno (que não é parente da família Bruno, por favor, não insistam em sobrenomes pomposos pra mim, ok?) nasceu em 1994, quando estava residindo em Valença/RJ e pude respirar mais profundamente os ares sublimamente líricos – e um tanto aristocráticos decadentes – da Princesinha da Serra. Além disso, desde pequeno, Valença era minha região preferida para passar os fins de semana, férias e feriados e só pus um pouco de mim em tudo que li a partir de meu contato visceral com Valença durante a adolescência. E quem registrou meu nascimento líricos foram os professores que tive quando estudava no Colégio Theodorico Fonseca (dona Ângela, a divina professora Ieda, Selma Monteiro, Márcio Souza, etc) e o poeta-mestre-maior Moacyr Sacramento que, numa stande da Festa da Glória de 1995, abandonou por um tempo o seu lançamento de livro e passou horas analisando meus escritos, me lapidando. Em resumo: Ok, senhores céticos, abraçados a visões tradicionais sobre as raízes humanas, eu não nasci em Valença, porém o poeta nasceu lá e minha certidão lírica desse nascimento está em cada poema que escrevo e em todos os concursos literários que já conquistei (até hoje concorro literariamente por Valença, apesar de eu residir em outras cidades).
Outros céticos, mais vorazes, podem afirmar: “Ta, tá, tá bom, meu caro ex-garoto. Mas você nem reside aqui mais...” Sim, há muita veracidade e também muita maldade nessa afirmação: atualmente resido em Teresópolis/RJ, devido a compromissos com a minha profissão de professor, trabalho que amo de coração realizar na região serrana e não pretendo me mudar daqui. Antes, residi em Barra do Piraí, restando apenas reminiscências de minha juventude como morador realmente residente em Valença. Ok, o meu corpo físico diversas vezes abandonou a Princesinha da Serra (quase sempre em busca de oportunidades melhores de emprego – como uma vez citei em minha crônica valenciana “Conto de Partida”, na qual chamo Valença de “cidade-desempregada”, afinal eu precisava ajudar nas contas da casa e viver no marasmo desempregado não me possibilitava realizar tal meta). Porém, contudo, todavia, entretanto, meu umbigo astral, meu espírito louco lúcido jamais deixou Valença, tanto que noventa por cento de meus projetos culturais tem como alvo a cidade que amei, amo e amarei eternamente. Quem lê meus livros, principalmente o “Eu & Outras Províncias – Progressos & Regressos” (clara homenagem à banda valenciana de rock Província e vasta sacanagem aos trajetos políticos da época) e futuramente o “Foda-se! E Outras palavras Poéticas...”, sabe que Valença vive em mim. Mesmo que a negasse (já tentei, em 2009, cansado da politicalha que paralisava a cidade e em outros momentos, farto de ficar sendo puxado pra trás em todos os meus projetos), Valença é uma musa essencial – apesar de ser muitas vezes cruel e soberba -  e inegável em meu lirismo ( a amo intensamente até quando estamos brigados). Ok, outros céticos, mais vorazes, não moro mais em Valença há muito tempo, mas meu espírito vive apaixonadamente aprisionado nessas terras, onde o velho café seco é sempre a nova moda turística única que, para muitos, importa. Minha Valença é outra, outros céticos, mais vorazes, é uma Valença que vocês não se cansam de ver, pisar e ignorar e é, talvez, a Valença mais viva, a única que mantém, no meio de tantas ruínas estagnadas, a cidade ainda de pé e altiva, soberana das derrotas mais vitoriosas.
Por isso, o poema de hoje: é algo que há muito tempo eu devia a minha cidade afetiva e também por isso a insistência em concorrer a uma vaga na Antologia de Poetas Valencianos com este mesmo poema. Não sei se conseguirei conquistar tal feito. Seja como for, o poema sobrevive, independentemente de resultados positivos ou negativos (já sou artista calejado; apesar de muitas vezes indignado, o corpo lírico já trata as porradas como massagem). Mesmo que seja publicado em livro, não terei como presentear a todos os amigos leitores, por isso o antecipo e o publico aqui no blog, para todos os valencianos e não-valencianos, céticos, mais céticos ou não céticos, esta é a minha Valença, esta é minha poesia mais valenciana e tenho orgulho de tê-la escrito, por ter lutado com as palavras por ela (não pretendo soar arrogante ou presunçoso, mas também não vou ser hipócrita de esconder minha alegria sofrida numa máscara de polidez indefinidamente humilde).
Bem-vindos à Princesinha da Serra mais doida-lúcida-lírica-porra-louca de minha vida, amigos leitores! Boa Leitura (ou péssima – a liberdade de críticas e opiniões permanece no ideal libertário do blogue – só coloquei o moderador devido aos spams e para evitar que escritoramigos compartilhados sejam alvos de cyberbullying de gente sem noção) e Arte Sempre!

Canto plebeu pra Princesinha Rainha

Lembras daquele dia, Princesinha,
quando eu, menino, perdi minha primeira pipa
para o cerol de outras pipas mais vividas
nos morros de minha infância em teu bairro João Dias?
Minha vó, sempre protetora, me prometeu outra pipa,
mas a melancolia do primeiro Ícaro caído em minha vida
permaneceu comigo depois daquele dia.
A partir daí, aprendi a voar com pipas abstratas
sem jamais sentir as asas cortadas
pelo cerol da molecada.

Lembras daquele dia, Princesinha,
quando eu, garoto, desbravei as matas
de tua Cambota cheia de fazendas, sítios e glórias passadas?
Meus parentes procuraram por mim, explorador louco;
me reencontrei com eles apenas de corpo,
pois a alma permaneceu naquelas paisagens árcades
e, até hoje, eu só a reencontro durante as tardes
que passo pela piscina de minha tia Odete,
nadando a favor da natureza infinita
em minhas idas e vindas
pela minha cidade perdida.

Lembras daquela noite, Princesinha,
quando eu, jovem rebelde, conquistei o primeiro beijo
nas paredes laterais de tua Catedral,
quintal dos desejos de todo adolescente casal?
Meu inferno de amar começou ali
e, daquele dia em diante, me esqueci de mim
e passei a rezar todos os pecados inocentes
em teus cantos mais beatos.
Anjos pagãos até hoje flecham meu coração
com setas de insana paixão
toda vez que meus olhos miram
aquele ambiente de tentação.

Lembras daquela madrugada, Princesinha,
quando meus amigos e eu nos atiramos no chafariz
da tua Praça da Bandeira?
Ou daquela outra em que, bêbados, cantávamos em tom feliz
pra todos que carregavam uma loucura sedenta?
Meus amigos agora estão por aí,
ressaqueados das boemias intensas;
às vezes, os reencontro,
às vezes não,
mas nenhum deles perde seu canto de luz
em minha orquestra de malucas recordações.

Lembras daquela noite, Princesinha,
quando eu, finalmente adulto, lancei meus primeiros livros
em teu Casarão das Artes agora extinto?
Toda vez que vejo as ruínas de teu reinado,
cinzas molham meus olhos cansados.
E lembras das outras noites, velha e nobre amiga,
quando eu reencontrei o caminho da poesia
em tua Casa Léa Pentagna,
ah, de volta à louca lucidez lírica, de volta à vida!?!

E as noites solitárias no banco da praça
do teu São José das Palmeiras?
E as cruzadas líricas à sombra da cruz
de teu Cruzeiro?
E o descanso silencioso em teu Ronco d’Água?
E as longas caminhadas
pra encontrar a tua Torre mais almejada?
E os dias e noites de solidão,
afastado de ti, longe daqui,
buscando teu nome em vão,
tentando sobreviver sem conseguir te esquecer?
E eu, Princesinha, e eu,
ainda lembras de mim?

Lembras do que te prometi antes de partir?
Eu te disse que jamais te esqueceria
e jamais te esqueci,
por isso te escrevo, Princesinha,
pra que também não me esqueças,
por favor, não me esqueças...
Por mais desertos que sejam os dias,
nossas lembranças ainda molham a minha poesia
e vai ser assim pra toda vida, minha Princesinha tão Rainha...