quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Canto plebeu pra Princesinha Rainha

No dia 29 de setembro deste ano, Valença/RJ, minha cidade lírico-afetiva, fez 157 anos e tive que assistir à festa de comemoração de longe, devido a compromissos literários em outras cidades e por ser véspera do meu dia de retorno ao trabalho em Teresópolis/RJ.
Os céticos, abraçados a visões tradicionais sobre as raízes humanas, poderia comentar: “E daí, rapaz? Você nem nasceu lá...” Sim, há muita verdade e também muita mentira nessa afirmação: nasci na cidade vizinha Barra do Piraí/RJ e tenho orgulho disso, afinal minha formação literária e intelectual começou lá, através de meus pais e, principalmente, do estímulo de minha madrinha, Tia Celeste Cicchelli, de 1979 a 1992. Minha formação acadêmica, inesquecível pra mim, também se deu em Barra do Piraí, no meu retorno á cidade (período de 2000 a maio de 2006, quando residi na casa de meus avós, trabalhando numa fábrica de papel em Piraí e fazendo Letras na Universidade Geraldo di Biase – antiga FERP). Mas o poeta Carlos Brunno (que não é parente da família Bruno, por favor, não insistam em sobrenomes pomposos pra mim, ok?) nasceu em 1994, quando estava residindo em Valença/RJ e pude respirar mais profundamente os ares sublimamente líricos – e um tanto aristocráticos decadentes – da Princesinha da Serra. Além disso, desde pequeno, Valença era minha região preferida para passar os fins de semana, férias e feriados e só pus um pouco de mim em tudo que li a partir de meu contato visceral com Valença durante a adolescência. E quem registrou meu nascimento líricos foram os professores que tive quando estudava no Colégio Theodorico Fonseca (dona Ângela, a divina professora Ieda, Selma Monteiro, Márcio Souza, etc) e o poeta-mestre-maior Moacyr Sacramento que, numa stande da Festa da Glória de 1995, abandonou por um tempo o seu lançamento de livro e passou horas analisando meus escritos, me lapidando. Em resumo: Ok, senhores céticos, abraçados a visões tradicionais sobre as raízes humanas, eu não nasci em Valença, porém o poeta nasceu lá e minha certidão lírica desse nascimento está em cada poema que escrevo e em todos os concursos literários que já conquistei (até hoje concorro literariamente por Valença, apesar de eu residir em outras cidades).
Outros céticos, mais vorazes, podem afirmar: “Ta, tá, tá bom, meu caro ex-garoto. Mas você nem reside aqui mais...” Sim, há muita veracidade e também muita maldade nessa afirmação: atualmente resido em Teresópolis/RJ, devido a compromissos com a minha profissão de professor, trabalho que amo de coração realizar na região serrana e não pretendo me mudar daqui. Antes, residi em Barra do Piraí, restando apenas reminiscências de minha juventude como morador realmente residente em Valença. Ok, o meu corpo físico diversas vezes abandonou a Princesinha da Serra (quase sempre em busca de oportunidades melhores de emprego – como uma vez citei em minha crônica valenciana “Conto de Partida”, na qual chamo Valença de “cidade-desempregada”, afinal eu precisava ajudar nas contas da casa e viver no marasmo desempregado não me possibilitava realizar tal meta). Porém, contudo, todavia, entretanto, meu umbigo astral, meu espírito louco lúcido jamais deixou Valença, tanto que noventa por cento de meus projetos culturais tem como alvo a cidade que amei, amo e amarei eternamente. Quem lê meus livros, principalmente o “Eu & Outras Províncias – Progressos & Regressos” (clara homenagem à banda valenciana de rock Província e vasta sacanagem aos trajetos políticos da época) e futuramente o “Foda-se! E Outras palavras Poéticas...”, sabe que Valença vive em mim. Mesmo que a negasse (já tentei, em 2009, cansado da politicalha que paralisava a cidade e em outros momentos, farto de ficar sendo puxado pra trás em todos os meus projetos), Valença é uma musa essencial – apesar de ser muitas vezes cruel e soberba -  e inegável em meu lirismo ( a amo intensamente até quando estamos brigados). Ok, outros céticos, mais vorazes, não moro mais em Valença há muito tempo, mas meu espírito vive apaixonadamente aprisionado nessas terras, onde o velho café seco é sempre a nova moda turística única que, para muitos, importa. Minha Valença é outra, outros céticos, mais vorazes, é uma Valença que vocês não se cansam de ver, pisar e ignorar e é, talvez, a Valença mais viva, a única que mantém, no meio de tantas ruínas estagnadas, a cidade ainda de pé e altiva, soberana das derrotas mais vitoriosas.
Por isso, o poema de hoje: é algo que há muito tempo eu devia a minha cidade afetiva e também por isso a insistência em concorrer a uma vaga na Antologia de Poetas Valencianos com este mesmo poema. Não sei se conseguirei conquistar tal feito. Seja como for, o poema sobrevive, independentemente de resultados positivos ou negativos (já sou artista calejado; apesar de muitas vezes indignado, o corpo lírico já trata as porradas como massagem). Mesmo que seja publicado em livro, não terei como presentear a todos os amigos leitores, por isso o antecipo e o publico aqui no blog, para todos os valencianos e não-valencianos, céticos, mais céticos ou não céticos, esta é a minha Valença, esta é minha poesia mais valenciana e tenho orgulho de tê-la escrito, por ter lutado com as palavras por ela (não pretendo soar arrogante ou presunçoso, mas também não vou ser hipócrita de esconder minha alegria sofrida numa máscara de polidez indefinidamente humilde).
Bem-vindos à Princesinha da Serra mais doida-lúcida-lírica-porra-louca de minha vida, amigos leitores! Boa Leitura (ou péssima – a liberdade de críticas e opiniões permanece no ideal libertário do blogue – só coloquei o moderador devido aos spams e para evitar que escritoramigos compartilhados sejam alvos de cyberbullying de gente sem noção) e Arte Sempre!

Canto plebeu pra Princesinha Rainha

Lembras daquele dia, Princesinha,
quando eu, menino, perdi minha primeira pipa
para o cerol de outras pipas mais vividas
nos morros de minha infância em teu bairro João Dias?
Minha vó, sempre protetora, me prometeu outra pipa,
mas a melancolia do primeiro Ícaro caído em minha vida
permaneceu comigo depois daquele dia.
A partir daí, aprendi a voar com pipas abstratas
sem jamais sentir as asas cortadas
pelo cerol da molecada.

Lembras daquele dia, Princesinha,
quando eu, garoto, desbravei as matas
de tua Cambota cheia de fazendas, sítios e glórias passadas?
Meus parentes procuraram por mim, explorador louco;
me reencontrei com eles apenas de corpo,
pois a alma permaneceu naquelas paisagens árcades
e, até hoje, eu só a reencontro durante as tardes
que passo pela piscina de minha tia Odete,
nadando a favor da natureza infinita
em minhas idas e vindas
pela minha cidade perdida.

Lembras daquela noite, Princesinha,
quando eu, jovem rebelde, conquistei o primeiro beijo
nas paredes laterais de tua Catedral,
quintal dos desejos de todo adolescente casal?
Meu inferno de amar começou ali
e, daquele dia em diante, me esqueci de mim
e passei a rezar todos os pecados inocentes
em teus cantos mais beatos.
Anjos pagãos até hoje flecham meu coração
com setas de insana paixão
toda vez que meus olhos miram
aquele ambiente de tentação.

Lembras daquela madrugada, Princesinha,
quando meus amigos e eu nos atiramos no chafariz
da tua Praça da Bandeira?
Ou daquela outra em que, bêbados, cantávamos em tom feliz
pra todos que carregavam uma loucura sedenta?
Meus amigos agora estão por aí,
ressaqueados das boemias intensas;
às vezes, os reencontro,
às vezes não,
mas nenhum deles perde seu canto de luz
em minha orquestra de malucas recordações.

Lembras daquela noite, Princesinha,
quando eu, finalmente adulto, lancei meus primeiros livros
em teu Casarão das Artes agora extinto?
Toda vez que vejo as ruínas de teu reinado,
cinzas molham meus olhos cansados.
E lembras das outras noites, velha e nobre amiga,
quando eu reencontrei o caminho da poesia
em tua Casa Léa Pentagna,
ah, de volta à louca lucidez lírica, de volta à vida!?!

E as noites solitárias no banco da praça
do teu São José das Palmeiras?
E as cruzadas líricas à sombra da cruz
de teu Cruzeiro?
E o descanso silencioso em teu Ronco d’Água?
E as longas caminhadas
pra encontrar a tua Torre mais almejada?
E os dias e noites de solidão,
afastado de ti, longe daqui,
buscando teu nome em vão,
tentando sobreviver sem conseguir te esquecer?
E eu, Princesinha, e eu,
ainda lembras de mim?

Lembras do que te prometi antes de partir?
Eu te disse que jamais te esqueceria
e jamais te esqueci,
por isso te escrevo, Princesinha,
pra que também não me esqueças,
por favor, não me esqueças...
Por mais desertos que sejam os dias,
nossas lembranças ainda molham a minha poesia
e vai ser assim pra toda vida, minha Princesinha tão Rainha...


Um comentário:

  1. Emocionante, de levar lágrimas de amor aos olhos de quem conhece o paradoxo de amar essa princesa, por vezes tão nobre, por vezes tão plebeia, mas sempre tão lírica!

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