quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Elegia 2014 (ou Foda-se Todo Teto de Vidro, Inclusive o Meu - no estilo de Drummond)

Rompemos as algemas,
mas nos mantiveram as correntes
Vivemos momentos introspectivos, fenômenos dos amigos que partem apressadamente para os outros universos, fenômenos do marketing de desfazer protestos e incentivar o umbigo que de nada reclama – apenas quer se dar bem e ganhar os louros de batalhas que jamais promoveram -, fenômenos das faltas de fenômenos, fenômenos do não fenomenal, dos bondes sem maravilhas, dos trem balas da polícia refém dos patrões das injustiças e da mídia que elege caras de acordo com as bundas ou com o tamanho do crédito do cartão que os donos das caras prendem em suas bundas flácidas (ou com o sobrenome distinto de porco barão, caso a mídia seja de um Local mais interiorano) e nós, amigo leitor, nós vivemos, ou melhor, sobrevivemos, aturando tudo isso, reagindo no vazio, pois o sonho de um mundo melhor está num limbo, num espaço oculto por fazendas improdutivas e edifícios luxuosos sem arte alguma, em algum canto de nossas históricas monoculturas, cujas mentiras são a única plantação; vivemos no nada, lutando por um tudo que nunca chega, pois tudo foi declarado morto desde que o lucro virou palavra favorita para os donos da Copa do Mundo, para os promotores das Grades de Educação, Saúde, Cultura e Bem-Estar - se quisessem mesmo isso tudo que propõe, evitariam favorecimentos e destacariam a todos por igual -, para os donos do todo imundo, para os inventores da alegria consumista, para todos que reduzem as nossas vidas ao simples viver – nascer, trabalhar, comer, às vezes pular uma folia e, depois, morrer pra novamente nascer, trabalhar, comer, às vezes pular uma folia e assim sucessivamente, e só nos resta viver e escrever (mesmo que ninguém nos leia; ninguém às vezes é a melhor companhia); meu corpo está cansado da monotonia da rotina, da brincadeira quixotesca de tentar mudar o imutável, mas ainda existem em mim as palavras, elas persistem e, mesmo que eu desista, elas continuam. Por isso que o Sarau Solidões Coletivas entra em recesso e não realiza mais eventos, sinceramente desapontado com a putaria de quem poderia fazer algo e só azara o que não é evento dele e com todo descrédito da mídia e de muitos (mal) ditos ‘fodões’ de nossa hipócrita Valença/RJ que cansaram esse blogueiro que vos fala, cheio de dar murro em ponta de faca. Mas, também, por isso que o blog “Diários de Solidões Coletivas” continua cuspindo na corja toda. Por isso, essa elegia pessimista, muito escrota para o sorriso banal, um tributo ao Drummond mais sombrio, uma declaração: eu já desisti dessa vida, mas as palavras em mim não desistiram – por isso, permaneço aqui: mesmo eu descrente da resistência, meus eus líricos me escravizam e me penalizam com a manutenção do sonho da vida melhor que não mais acredito encontrar vivo, por isso sobrevivo, minha poesia é maior que eu e por isso me escravizo a ela, por mais que eu negue, por mais pessimista, Dom Quixote vive e amém.

Elegia 2014

Nenhum teto de vidro resiste
a uma pedrada bem dada
em sua matéria frágil,
mas, se há grades visíveis e invisíveis
que o protegem,
talvez a pedra não alcance o alvo
e, se o teto se mexe,
talvez atiremos pedras no vazio,
mas o mais difícil é entender
é que talvez o teto de vidro reaja,
talvez o teto de vidro esteja em mim
e em você.
Já fomos cães famintos
latindo pro mundo sem saber por quê;
hoje nos fazemos homens famintos
latimos conscientes, recebemos ossos de glórias,
mas o alimento de sobras não alimenta a alma
e, mesmo que a alma não exista, ela nos pergunta
por que a ceia não é rica pra todos os discípulos,
por que os traidores continuam na mesa,
por que continuamos famintos,
por quê?
Não adianta, amigo, atirarmos granadas sozinhos
em falidas manhattans,
se outras manhattans sombrias crescem no infinito
dos umbigos de outros amigos,
nos nossos próprios umbigos,
nos umbigos de quem finge estar com você.
O amor, a honra e a arte já morreram há tempos
e nos esperam em outro universo clandestino
e, sozinhos, só nos resta contar os corpos caídos
e, mesmo resistindo, esperar a nossa vez...
Toda essa luta perdida
só vale pelo sabor do esquisito,
pelo prazer de perder e manter-se invencível,
por ver os tetos de vidro romperem-se em sonhos
e, mesmo intactos, vê-los destruídos
nos olhos de quem lê você,
nos olhos de quem também perde sem perder.
- Toda essa luta perdida, amigo,
só vale se continuarmos a escrever!

2 comentários:

  1. Nossa!!Estou lendo esse grande desabafo e essa elegia no momento em que também me sinto assim...tão sem esperança,mas também ainda tenho as palavras que me forçam a acreditar que ainda haverá motivos para bradar!!!!!Lindo demais Carlos!!

    ResponderExcluir
  2. Por certo compartilho desse sentimento, porém, insanamente acredito no poder das palavras. Às vezes até mesmo elas destroem, mas, paradoxalmente elas insistem, persistem, re-constroem realidades...

    ResponderExcluir