quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Vencendo os medos e plantando flores belas com os eus líricos de Thaynara Medeiros

Ela não é de falar muito, mas é extremamente dedicada às atividades que se propõe e quando escreve... Uau!  Será tímida? Talvez... Observadora silenciosa do mundo à sua volta?  É quase certo. Uma brilhante escritoraluna? Com certeza! Ela não precisa berrar e/ou sinalizar aos quatro ventos para brilhar;  seus gritos silenciosos em versos ecoam nos olhos fascinados de quem a lê e caminham rumo às maiores constelações! Estou falando da superlírica, a mais que fodástica Thaynara Medeiros, de Teresópolis/RJ.
Quando comecei a lecionar na turma dela, neste ano, na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, não sabia muito bem o que esperar e o que buscar nela: quase não falava, mas fazia todas as tarefas sem muita dificuldade, tirava uma dúvida ou outra quando sentia necessidade, só se comunicava quando achava necessário e ainda aparentava um certo ar misto de blasé com tédio. Falhei feio nesta primeira interpretação; depois de um tempo, percebi que seu ar estava mais para observadora constante e secretamente atenta a tudo, aprendendo e apreendendo silenciosamente todo lirismo que rondava fora e dentro da sala. Thaynara já meio que se destacava nas notas e nas atividades, mas foi nas aulas de produção textual que vi seu maior potencial: seus textos transcendem os temas que ela se propõe a escrever, sua face ganha uma luminosidade única quando está em rigoroso e intenso processo de escrita lírica e ela sorri suavemente, num misto de satisfação e de segura insegurança com o texto concluído (comum nos grandes escritores que procuram a perfeição), quando encerra e me apresenta um novo e genial texto – como eu não tinha percebido logo de cara? Ali estava uma mais que fodástica escritoraluna!
E para que você, amigo leitor, também possa curtir a arte dessa iluminada escritoraluna, trago ao blog dois fodásticos poemas de Thaynara Medeiros: o primeiro (“Meus medos”) foi finalista na seletiva de poemas para representar Teresópolis/RJ no V Festival Intercolegial de Poesias (aquele certame literário, cujo poema escolhido foi o da também mais que fodástica Nathacha Felippe Corrêa, coincidentemente da mesma turma da qual Thaynara fazia parte) e ganhou uma versão em curta metragem do Luz, Câmera...Alcino!, dirigido por mim e interpretado por Alessandro Rofrigues, Isabela Corrêa, Samira Ferreira e Hevelyn Silva (posto-o logo abaixo, juntamente com o poema); o segundo (“Flor bela”), Thaynara se inspirou no pseudônimo que dei a ela na seletiva de poemas (batizei-a de Florbela, em homenagem à fodástica poeta portuguesa) e, mesmo desconhecendo poemas da escritora portuguesa homenageada, a talentosa poetaluna acabou fazendo intuitivamente um poema em tributo a uma flor bela, tão sublime e melancólico que também serve, numa leitura mais figurada, como homenagem à ilustre  Florbela Espanca. Esses dois fodásticos poemas de Thaynara Medeiros, iluminados de grande brilhantismo lírico, são só o início – Thaynara possui muitos outros fodásticos poemas, que serão compartilhados em outras postagens.
Boa leitura, amigos leitores e sigamos o exemplo da super poetaluna  Thaynara Medeiros: que vençamos nossos medos e plantemos sempre flores belas em nosso jardim.

Meus medos

Essa manhã acordei...
E venci mais alguns dos meus medos
Medo de viver e medo de morrer
Medo de te perder e medo de te esquecer

Medo do agora, medo daquela hora
Medo do novo, medo daquele nosso acordo
Medo da verdade e medo da maldade
Medo do escuro, medo de ver o futuro

Medos, por que me assombram?
Não sabem que eu não queria estar aqui
Nesse mundo cruel, onde todos são réus,
Onde até o fel ficou melhor que o mel.

O meu peito está ferido,
A minha voz parece que está embaixo de lençóis.
Precisamos de alguém que pense em nós!
Não podemos calar nossa voz...



Meus medos – O Curta Metragem
do Luz, Câmera...Alcino!


O Luz, Câmera...Alcino! continua ativo nas filmagens de curtas e, desta vez, aborda os medos numa interpretação lírica do fodástico poema "Meus Medos", da poetaluna Thaynara Medeiros, da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, da região rural de Teresópolis/RJ.
Ficha Técnica:
Curta metragem: Meus Medos
Inspirado em poema homônimo de Thaynara Medeiros
Gênero: Drama Lírico
Origem: Teresópolis/RJ,  Brasil, 2017
Produção: Luz, Câmera...Alcino!
Direção, filmagem e edição: Professor Carlos Brunno
Roteiro: Autoria Coletiva
Cenário: Sala do 9.º A.
Figurino: Artistalunos ddo Luz, Câmera...Alcino! e Professor Carlos Brunno
Maquiagem:  Artistalunos do Luz, Câmera...Alcino!
(d)Efeitos Especiais: Professor Carlos Brunno
Atores/Declamadores:
Alessandro Conceição
Hevelyn Silva
Isabela Corrêa
Samira Ferreira
Trilha Sonora:
"Horror Music", de Audionautix (música de abertura)
licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/...)
Artista: http://audionautix.com/
"Italian Afternoon" de Twin Musicom (canção dos créditos)
licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/...)
Artista: http://www.twinmusicom.org/

Flor bela

Uma linda flor a desabrochar
Com sua dor a se destacar,
Cada propósito iluminar
E aos humanos inspirar.

Flor bela, onde tu estás?
De repente começou a murchar,
Foi ferida ou arrancada
Ou apenas ficou com suas pétalas amareladas...


sábado, 9 de dezembro de 2017

Hora do Terror Lírico: O Senhor Medo de Jackson Carvalho dos Santos em verso e vídeo!

É noite... é a hora em que o Senhor Medo te procura no quarto escuro e se alimenta dos teus pavores mais obscuros...


Hoje trago pela segunda vez ao blog o premiado poema “Senhor Medo”, do fodástico poetaluno Jackson Carvalho dos Santos. O emblemático poema motivou a volta do Luz, Câmera...Alcino! às filmagens de curtas. O curta aproveitou o poema para abordar o medo numa interpretação lírica e aterrorizadora – foi o primeiro curta de “Terror Lírico” do grupo teatral formado na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, da região rural de Teresópolis/RJ.
Abaixo trago o poema inspirador  e o curta metragem que ele inspirou. Boa leitura, Arte Sempre e... encaremos o Senhor Medo, amigos leitores.

Senhor Medo – o premiado poema de Jackson Carvalho dos Santos

Senhor Medo

Meia-noite, tudo escuro, som de nada,
ele vem mais negro que o carvão,
mais frio que toda Antártida,
com seu rosto desfigurado,
suas mãos cortadas,
seus lábios secos,
seus olhos amedrontadores:
isso é o Medo,
aquele que chega quando você vai,
aquele que deita comigo quando você está ausente,
aquele que cuida de mim calmamente.

Apesar de ser ruim na aparência,
o seu interior é o de uma criança solitária,
querendo fazer amizade.
Mas como fazer amizade com alguém tão feio assim? Como?
Isso se chama Medo, Medo do Desconhecido.
Por ser tão desvalorizado,
se vinga apavorando e amedrontando crianças,
adolescentes, adultos e velhinhos,
isso tudo pela sua ignorância...
 Jackson Carvalho dos Santos – Medalha de Bronze no XXVIII Concurso de Poesia da ALAP (Categoria Juvenil)

Senhor Medo – O curta metragem de Terror Lírico



Ficha Técnica:
Curta metragem: Senhor Medo
Inspirado em poema homônimo de Jackson Santos
Gênero: Terror Lírico
Origem: Teresópolis/RJ,  Brasil, 2017
Produção: Luz, Câmera...Alcino!
Direção, filmagem e edição: Professor Carlos Brunno
Roteiro: Autoria Coletiva
Cenário: Sala do 9.º A. Colchões da Sala de Materiais de Educação Física (Professor Genaldo) e Cobertas e Lençóis de tecidos TNT da Sala de Materiais da Secretaria (Jaqueline Santos), Livros da Sala da Biblioteca do EMAFS (Emidiã Fernandes)
Figurino: Artistalunos do Luz, Câmera...Alcino! e Professor Carlos Brunno
Maquiagem:  Artistalunos do Luz, Câmera...Alcino! e Professor Carlos Brunno
Iluminação: Tamara Pinheiro
(d)Efeitos Especiais: Professor Carlos Brunno
Atores:
Karolayne Gomes (Vítima do Senhor Medo)
Maria Emilia Oliveira (Mãe da Vítima do Senhor Medo)
Alessandro Conceição (Senhor Medo)
Vozes/Leitura do Poema "Senhor Medo", de Jackson Santos: Karolayne Gomes e Isabela Corrêa
Trilha Sonora:
"Dreams Become Real" de Kevin MacLeod
"Hush" de Kevin MacLeod
"Heart of the Beast" de Kevin MacLeod
Dreams Become Real de Kevin MacLeod está licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/...)
Origem: http://incompetech.com/music/royalty-...
Artista: http://incompetech.com/
Hush de Kevin MacLeod está licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/...)
Origem: http://incompetech.com/music/royalty-...
Artista: http://incompetech.com/
Heart of the Beast de Kevin MacLeod está licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/...)
Origem: http://incompetech.com/music/royalty-...
Artista: http://incompetech.com/
Apoio: Escola Municipal Alcino Francisco da Silva
Essa é mais uma produção do Luz, Câmera...Alcino! 2017


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O que era amor e o que são saudades na prosa poética de Laura Evangelista

Hoje estreia nas solidões compartilhadas a genial escritoraluna teresopolitana Laura Evangelista.
Conheci Laura neste ano, quando lecionei Português para o 9.º C da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva. Confesso que, no início, estranhei seu jeito agitado e falante (não, não vamos tapar o sol com a peneira – não houve muita empatia à primeira vista), mas, após os choques iniciais, nas aulas em que havia produção textual principalmente, Laura demonstrou interesse pelas aulas e revelou trazer, dentro de si, uma estrela lírica única e especial: apaixonada pela arte de escrever, ela brilha, reina na escrita de emocionantes prosas poéticas. Muitos de seus escritos fascinaram o professor-poeta-blogueiro-pateta que vos escreve.
Hoje trago duas prosas poéticas dela, de momentos distintos: a primeira, escrita no 1.º bimestre, e a segunda, mais recentemente. A primeira traz leve inspiração em uma carta de amor com versões variadas e popular na internet (mas considero essa versão de Laura a mais lírica e definitiva, bastante superior às que a inspiraram), enquanto a segunda, com um estilo confessional escancarado e extremamente vibrante, fala sobre as saudades (pra quem não sabe, a palavra “saudade” é privilégio de quem possui como código a Língua Portuguesa – nenhuma outra língua traz uma palavra que dê nome a esse sentimento tão marcante em nossas vidas).
Vale a pena ler e reler as fodásticas prosas poéticas da jovem e talentosa Laura Evangelista, amigos leitores!
Em tempo: Laura Evangelista topou o desafio e declamará algumas de suas prosas poéticas, amanhã (dia 07/12) no início do turno da manhã, no último Sarau do ano da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva. Façam como a Laura, amigos artistalunos, ex-artistalunos e familiares, venham curtir, declamar e ouvir algumas das pérolas mais líricas da poesia ultrajovem alcinense!

O que era o amor

Uma vez, me perguntaram se eu sabia o que era amor e a primeira coisa que me veio a cabeça foi você, e que sim, eu sabia o que era amor, amor é o que eu sinto por você.
Amor é sentir a necessidade de estar junto, amor é compreender, amor é colocar a pessoa que você ama em suas orações, amor é querer estar junto, amor é colocar o problema da pessoa acima do seu, amor é quando seu coração bate forte com apenas uma mensagem, amor também é quando você tá junto da pessoa que ama, pode não estar fazendo nada, mas só dela está ali, você se sente completa. Amor é cuidar, é mimar, é saber valorizar.
E eu sabia que era amor, porque eu sentia tudo isso, com você.
Laura Evangelista


Saudades

Eu não sou capaz de expressar toda essa dor que estou sentindo, toda mágoa, e todo sentimento acumulado dentro de mim, que grita pra sair. Não sou capaz de expressar a falta que você me faz, a falta do que você era antes. Sinto falta dos seus abraços, das suas mensagens dizendo que me amava e pedindo, com toda sinceridade, para eu me cuidar, saudades das suas mensagens de bom dia, de boa tarde e até as de boa noite. Saudades de quando você me fazia sentir especial e de quando dizia que eu era muito importante pra você, e que não queria me perder nunca. Saudades dos seus olhos nos meus, das suas mãos na minha, das suas palavras  sussurradas e da sua pele na minha. Saudades dos seus toques suaves e da sua boca colada na minha. Saudades do que você era, de como você era. Mas o que me resta é isso: saudades. Odeio que, pra mim, você seja muito, enquanto, pra você, eu sou tão pouco! Então tudo o que resta em mim são saudades!

Laura Evangelista


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Meu poema premiado, cheio de amor pelas causas perdidas: O sarau fracassado de Dom Quixote aos olhos de Sancho Pança, seu único espectador

Há uns dias atrás, na postagem anterior a este, trouxe ao blog o conto “Camila,Camila”, de minha autoria, premiado na Categoria Prosa com o 2.º Lugar no Concurso do GREBAL 2017 e publicado na Coletânea Prosa e Verso XX. Pois é, já foi gloriosa essa conquista literária, mas a alegria só começara... Hoje posto no blog o poema “O sarau fracassado de Dom Quixote aos olhos de Sancho Pança, seu único espectador”, premiado na Categoria Verso com o 3.º Lugar no mesmo Concurso do GREBAL 2017 (tanto o conto quanto o poema estão na Coletânea Prosa e Verso XX, que pode ser baixada no site do GREBAL: http://www.grebal.com.br/ ).
O poema “O sarau fracassado de Dom Quixote aos olhos de Sancho Pança, seu único espectador” é uma homenagem ao livro “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes (por sinal, uma curiosidade: é a segunda vez que faço um poema me referindo a Dom Quixote e, nas duas vezes, fui premiado – o primeiro [“Celeiro Dulcineia”] foi premiado em concurso da Academia de Letras de Maringá/PR, em 2011, e pode ser lido na primeira postagem deste blog, que possui o seguinte link: http://diariosdesolidao.blogspot.com.br/2011/07/celeiro-dulcineia.html ), uma crítica lírica aos eventos culturais cada vez mais carentes de público e, ao mesmo tempo, uma ode não convencional aos artistas quixotescos que resistem e insistem em realizarem saraus, mesmo nos períodos de trevas (sim, sou eu Sancho Pança lúcido eu pessoa comum olhando eke Dom Quixote eu poeta insano).
O poema premiado é dedicado, principalmente, aos meus familiares, ao Sarau Solidões Coletivas e Mestre-Poetamigo Grebalista Eternamente Lembrado J. M. Lago Leal (in memoriam), que sempre apoiaram minhas lúcidas insanidades líricas. Também registro como inspiração a canção “Dom Quixote”, da banda de rock gaúcha Engenheiros do Hawaii, que possui o belíssimo refrão: “Por amor às causas perdidas / Tudo bem, até pode ser / Que os dragões sejam moinhos de vento / Tudo bem, seja o que for / Seja por amor às causas perdidas”.
A luta pela arte continua, amigos leitores! Espero que gostem do poema, assim como a Comissão do Concurso Prosa e Verso XX do Grebal gostou! Boa leitura e Arte Sempre!

O sarau fracassado de Dom Quixote aos olhos de Sancho Pança, seu único espectador

Por que declamas tão alto para as paredes, se elas não te ouvem, incansável poeta?
Elas não te entendem e, mesmo se fossem gente,
se sensibilizariam com teu tão estranho ardor?
Nossos homens – aqui insistentemente ausentes – são tão paredes
que agora confundes ambos, meu louco senhor?
Fazes elos entre elas e eles pela falta de um vocábulo impessoal mais convincente
que expresse melhor essa nossa falta crescente
de ceder ao próximo um instante de amor?
As paredes – cada vez mais gente, com aquela impassividade urgente
de se manterem frígidas ao teu calor –,
as paredes – essa nova gente, tua ilusão de Maracanã lotado,
como se cada vazio espaço fosse um torcedor -,
as paredes... nem elas, nem aqueles ausentes tão insistentes
entendem esses teus versos pra ninguém, essa tua estranha dor.
Por que insistes numa epopeia se a sala vazia te despreza, indomável sonhador?
Qual mito ignorado te faz encerrar o poema declamado com um sorriso de esplendor?
Como podes ser motor gigante pra tantos moinhos de vento inoperantes,
sorridente cavaleiro andante?
Sou só eu, a falta de público e o excesso de perguntas,
enquanto desfilas como Deus entre invisíveis súditos, uma triste figura...
Consciente da tua inconsciência, choro por tua alegria aflita
que preenche a rotina da ausência, a eterna falta de um espectador.
Aplaudo teu sonho suicídio tão cheio de vida, enquanto teus olhos de iludida turmalina
enxergam esmeraldas no sarau vazio, na caverna pobre e sem brilho.
Como podes fazer minha mente rocinante, outrora domada pelo deserto dominante,
ser alagada por mares incertos de ilhas distantes
e como podes fazer de mim, outrora Sancho Pança cheio de desesperança,
novamente uma boba criança, teu mais fiel admirador?
Como consegues, neste mundo sem viço, trazer-me sempre uma lágrima, um cisco
deste teu ingênuo delírio, meu glorioso perdedor?

sábado, 2 de dezembro de 2017

Meu conto musical premiado: Camila, Camila

O conto, de minha autoria, que eu posto hoje retorna ao blog após alguns anos por 2 motivos especiais: a versão atual é a revisada e definitiva, foi premiada na Categoria Prosa com o 2.º Lugar no Concurso do GREBAL 2017 e, por isso, foi publicada na Coletânea Prosa e Verso XX (que poderá ser baixada em breve no site do GREBAL: http://www.grebal.com.br/ ).
O conto “Camila, Camila” é uma homenagem à canção homônima da banda de rock gaúcha Nenhum de Nós. Ouvi a música pela primeira vez num LP chamado “Amor é sempre amor” e, desde criança, jamais entendi por que uma canção sobre violência contra mulher fazia parte de um álbum cujo nome versava sobre amor. De qualquer forma, a música marcou-me e, até hoje, a banda Nenhum de Nós é uma de minhas preferidas. 
Meu conto é dedicado, principalmente, à banda citada, à minha mãe, principal responsável por minha formação cultural, e ao artistamigos do Sarau Solidões Coletivas (com destaque ao mestre-poetamigo Gilson Gabriel e aos músicos-amigos Gabriel Carvalho e Emanuel Coelho) e à escritoramiga Helene Camille, que sempre elogiaram o potencial da minha ficção citada, a ponto de me influenciarem na escolha do texto que foi enviado e premiado no concurso.

Em minha versão, tracei uma ficção curta memorialística na qual o jovem narrador-protagonista assiste à distância atos de violência contra a vizinha e musa idealizada Camila. Aproveitei no conto diversas passagens da icônica canção do Nenhum de Nós e usei-o para uma denúncia social da violência doméstica que as mulheres constantemente sofrem, através de um narrador-personagem que não sabe como agir diante de um amor ideal e praticamente impossível de se concretizar, muito menos diante da violência que acidentalmente testemunha.
Espero que os amigos leitores gostem do conto, assim como a Comissão do Concurso Prosa e Verso XX do Grebal gostou! Boa leitura e Arte Sempre!


Camila, Camila



Camila tinha os olhos mais lindos que já vi e eu tinha apenas dezessete anos.
Conheci Camila num tempo em que eu caminhava e fingia que o tempo passava. Melhor dizer que foi num tempo em que não conheci Camila, pois dirigia poucas palavras para minha vizinha. O ano era 1986, papai investia suas economias num sítio improdutivo, 2 km separavam nossas vidas, mas a casa de Camila ficava na mesma estrada que a minha e eu passava pelo caminho de terra batida todos os dias.
Todos os dias só para ver os olhos lindos de Camila me dizerem bom-dia, enquanto ela estendia as roupas no varal. Todos os dias eu lhe acenava bom-dia e só seus olhos me respondiam. Éramos bichos do mato trocando silêncios naquelas matas – a bela Camila que nada dizia e, eu, a fera que só gesticulava. Eu e minha paixão calada, ela e seu recato de mulher casada. O marido de Camila decretava bons-dias formais, enquanto seu corpanzil camponês fazia a sesta no quintal, e eu, jovem e frágil, lhe respondia com um breve levantar e abaixar de cabeça. Bicho mais estranho que nós, o marido de Camila também nada falava, mas uma silenciosa violência gritava em seus gestos formais.
Algumas lembranças de Camila jamais me abandonam quando retorno ao passado. Num fim de tarde nublado, voltava a pé de uma festa de aniversário, levemente embriagado (sim, menores não devem, mas também bebem em festas à americana em casas de amigos), e, por fazer parte de meu solitário trajeto, passei mais uma vez pela casa de Camila para chegar até a minha. Não sei se foi o álcool que me motivou a observar mais detidamente; só sei que parei em frente à casa dela e reparei que a janela de seu quarto estava aberta. Casa pequena de muros baixos e de janelas imensas, meus olhos inquietos de adolescente voyeur tudo espiavam: Camila de perfil, olhava para frente, possivelmente se via no espelho. Por algum motivo, ela se virou para a janela e seus olhos lindos viram meus olhos furtivos, mas dessa vez nenhum cumprimento, nenhuma resposta calada; apenas um silêncio tenso, quase urrado. Hipnotizado por seus olhos lindos e surpreendido pelo fim de meu anonimato, quase não percebi o seu rosto marcado, mas o resto de claridade do fim de tarde, mesmo que nublado, gritava os ferimentos na face de Camila. E eu tinha apenas dezessete anos de pacífica devoção; não entendia que uma deusa poderia ser ferida, eu não sabia que a violência às vezes gritava nas casas alheias. E talvez fosse o momento de romper a mudez, mas foi o marido de Camila quem quebrou o silêncio. Sua voz furiosa ecoava nos fundos da casa: “Camila, Camilaaa!”
E a janela foi fechada, o tempo fechado, e eu corri dali, e a chuva começou, e eu corri e chorei pela minha própria covardia, e foi o início das trevas e das manhãs tristes, e nunca mais vi Camila naquela casa. Em minhas caminhadas seguintes, passei a dar bom-dia para uma casa abandonada; não havia mais nada para se ver naquela estrada. Hoje sigo por outros caminhos, mas toda vez que retorno para minha casa e me olho no espelho é a imagem dos olhos lindos de Camila que eu vejo. Os olhos lindos e tristes de Camila e a minha imagem cada vez mais embaçada, cheia de marcas...


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Solidões Compartilhadas: Como andava liricamente Victor Santos nos idos de 2013?

Em 1.º de dezembro de 2013, li esse poema pela primeira vez, o texto me marcou, emocionou-me, não sei por que não mandei o texto logo para o blog (dezembro é um mês conturbado – fechamento de notas, fechamento de ano, fechamento de balanço interior, não sei; só sei que o poema me marcou, mas me esqueci de marcá-lo no blog; foi o “Neste dia”, ferramenta do facebook que relembra momentos passados, que me trouxe de volta à fascinação de poder ler este fodástico poema de Victor Santos da Silva mais uma vez).
A escrita poética do poetamigo teresopolitano Victor Santos é febril, vibrante, cheia de referências pop e literárias (no caso desse que posto hoje e com o qual compartilho minhas solidões poéticas pela primeira vez solo – Victor já aparecera em vídeos meus de eventos do Projeto Ponto de Luz, organizados por ele – a influência de Legião Urbana torna-se evidente em fragmentos como “ando metal contra as nuvens” e “de se sentir molestado e negligenciado” [mesma sensação do eu lírico da profunda composição de Renato Russo chamada “Clarisse”, e a lembrança de Raul Seixas no reflexivo trecho “Ando ouro dos tolos”, mais alguns paradoxos e tons sonoros de Cecilia Meireles, entre outros) e seus eus líricos trazem uma sensação de urgência inescapável, um leve desespero e versos que flertam com a prosa (bem no estilo Álvaro de Campos, famoso heterônimo de Fernando Pessoa) – tudo isso misturado produz um lirismo fodástico e marcante com uma escrita personalizada e profunda, única; vale a pena ler, reler, seja no ontem, no amanhã, no hoje, no sempre!
Vejamos como andava liricamente o fodástico poetamigo Victor Santos da Silva, amigos leitores! Boa leitura e Arte Sempre!

Ando travado com a solidão como quem espera a primavera no polo do planeta...
Ando careta...
Ando como se enchesse o vazio enquanto esvazio-me...
Ando com fome sem poder me alimentar das pessoas que cultivo...
Ando ouro dos tolos, ando metal contra as nuvens,
porque eu tenho o barato a diversão a palavra,
mas os seres aqui colhem os frutos, mas não regam a videira,
por isso estou assim seco como a figueira...
E sempre há um fel nos meus olhos que faz amargar tudo o que cobiço...
E sempre há uma lágrima engasgada como se meus órgãos se reorganizassem
e os sentimentos ficassem fora do lugar
e a culpa de se sentir molestado e negligenciado
e estar lá
e a vontade de fumar aquele cigarro,
comprar aquele cigarro e não voltar nunca mais
e nem querer olhar atrás,
porque o pior da solidão é isso de se sentir como um cuidador de pássaros que os recolhe ao chão de asas quebradas, ajuda e alimenta e depois fica esperando o fim da primavera onde enfim revigorados vão embora e te deixam mais uma vez sozinho...

-VICTOR SANTOS-


domingo, 26 de novembro de 2017

Solidões Compartilhadas: O Apocalipse Agora de Raquel Tavares/Kel Lestat

Há um bom tempo, pretendo compartilhar minhas solidões poéticas com a fodástica poetamiga que estreia hoje no blog: seu nome é Raquel Tavares, mas liricamente ela atende pelo codinome Kel Lestat. Conheci Raquel Tavares, através da divartistativistamiga Janaina da Cunha, em eventos do saudoso e sempre mais-que-fodástico Identidade Cultural e Movimento Culturista. Admirei e me fascinei logo pela fodástica poética de Raquel Tavares/Kel Lestat - ela levava quase sempre uma pasta com diversos poemas dela, de diversas fases e estilos e eu tive a honra de ler alguns destes poemas em primeira mão, entre eles o que destaco hoje aqui no blog: o emblemático “Apocalipse Agora”. Pode-se notar que o título é uma referência direta ao clássico Cult “Apocalipse now”, drama/aventura do renomado diretor Francis Ford Coppola, Palma de Ouro no Festival de Cannes e nomeado ao Oscar de Melhor Filme e o Globo de Ouro de Melhor Filme - Drama, com elementos de “Dispatches” de Michael Herr, a versão cinematográfica de 1965 da obra “Lord Jim” de Conrad, “Coração das trevas”, também de Conrad, e Aguirre, der Zorn Gottes (1972) de Werner Herzog.
Assim como o roteiro desse filme é super-complexo e passou por diversos percalços/momentos conturbados na produção até alcançar a glória, o eu lírico do poema de Raquel Tavares/Kel Lestat passa, verso a verso, por uma espécie de viagem de autodescoberta e destruição do que lhe foi pré-estabelecido até sua autorreconstrução (lembra muito o personagem lucidamente enlouquecido – e, ao mesmo tempo, alucinadamente são - magistralmente interpretado por Marlon Brando no filme “Apocalipse Now”).
A poética de Raquel Tavares/Kel Lestat é assim: mistura de forma genial referências cinematográficas, musicais (segundo a própria escritora, sua fase atual consiste em se inspirar em canções de seu gosto – por sinal, ela está me devendo algumas dessas produções líricas mais recentes), geeks, nerds e cults a um lirismo febril, emocionado (tanto que se torna emocionante) e vibrante, com uma linguagem sem rebuscamentos, mas por isso ardilosamente fodástica e complexa, pois esconde na primeira leitura a multiplicidade lírica maravilhosa e a riqueza de referências que pode passar despercebida à primeira vista. Aconselho aos amigos leitores que leiam e releiam o poema – na primeira leitura, já encontrarão algo fascinante; se lerem mais uma vez, ficarão ainda mais fascinados. Acompanhemos o Apocalipse agora de Raquel Tavares/Kel Lestat, amigos leitores! (segue também o link da página lírica dela no facebook, onde volta e meia, ela apresenta um novo poema: https://www.facebook.com/Meu-apocalipse-500559333420181/ )

Apocalipse agora
(Kel Lestat)

Meu apocalipse é agora
Eu quero me perder
Pra quem sabe assim poder me encontrar
E também a ti, amado meu,
Que nem sei quem és.
Destruir tudo a minha volta,
Apagar as lembranças,
Queimar as palavras,
Esquecer os rostos,
Deixar tudo em branco,
Limpo, vazio,
Libertar-me do que não me serve.
Desconstruir o meu mundo
E começar outro totalmente diferente.
Abrir espaço para felicidade.
Uma nova vida,
Um novo fôlego,
Um renascer sem último suspiro.
E continuar
Sem sustos,
Sem medos,
Sem mágoas.