domingo, 25 de fevereiro de 2018

Poemas comemorativos: Magia Psicodélica para Gilson e George

O poema de hoje, inédito, foi escrito ontem, durante o "Zungu da Comuna", evento em comemoração ao aniversário de Gilson Gabriel e de George Harrison. A festa rolou durante a tarde de ontem até o anoitecer no quintal da Quinta das Bicas, na casa de Erli e de Gilson Gabriel. Os humanos e artistas mais convencionais podem até questionar a pessoalidade do poema, mas fazer o quê:: o poema me saiu assim, deletilírico, e é assim que o publico.


Magia psicodélica

Uma nuvem cinza de Londres
(talvez vapor do último trem
no qual Sweet Lorde George embarcou e tocou
o último solo de uma canção
que jamais compartilhou)
flerta com os céus de um bairro sereno
de uma cidadezinha qualquer
num canto do Brasil.
A tarde é nublada, mas os ventos me sorriem,
magia psicodélica do dia em que comemoramos
o aniversário de Gilson Gabriel
e de outros poetas suseranos
da arte democrática, sem absolutismos.
Hoje é o dia em que a chuva ameaça chorar,
mas se controla - nenhuma lágrima vai nos ferir;
hoje é só uma triste ameaça que não nos ataca,
Hoje é uma tarde feliz que nos embriaga.
É hora de glória, de orar
sem obrigação de rezar para um qualquer deus,
hoje somos todos deuses ateus
abençoados pela santa cerveja
que os amigos deixam sobre minha mesa.
Outro amigo me abraça,
há quanto tempo a vida passa
sem te ver?
Outro amor me afaga,
olá, folia desvairada,
é bom rever você!
É outra festa da vida sem despedidas,
é a vida insistida,
latente, infinita,
brindada com pinga com mel
sem ressaca, sem fel:
é outra tarde de incont(roll)ável alegria
na casa festiva de Gilson Gabriel.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Conto inédito para outro eterno retorno: Rosana (Ou Dançando na chuva com você)

Imagem da instalação "Rain Room",
montada no Barbican Centro de Londres

Faz um bom tempo que não venho aqui atualizar as postagens do blog. Os motivos desta vez são diversos e, ao mesmo tempo, muito parecidos com os de outras vezes: 1) motivo mais novo: estou numa fase de nova rotina de trabalho, com novos desafios e aprendizados – por sinal e graças a Deus, bastante ativa, fato que me deixa bastante atarefado; 2) motivos que são problemas que vão além de quaisquer previsões: internet que não pega – sim, a ‘bendita’ Oi  na casa de meu irmão, cujo wi fi capturo nos fins de semana em Valença/RJ, ironicamente chamada de “Velox” e “Total”, designações completamente opostas a um serviço de m... que a operadora ‘disponibiliza’ (estávamos sem internet desde 27 de janeiro e, depois de mil ligações e uma coleção de protocolos, nada se resolveu)  -, problemas de saúde com familiares, etc; 3) motivos de sempre: eu mesmo, inimigo meu – às vezes, procrastino um pouco depois de momentos febris de preparação de textos literários e/ou material de aula, rola aquela preguiça, às vezes desânimo, recolhimento existencial que se contrapõe ao virtual, etc. Bem, seja como for, estou de volta e, como sempre, com novas e velhas novidades para os amigos leitores!
Para (re)começarmos (afinal, o blog é assim como o diário que é assim como relatar experiências diárias que é assim como viver e reviver cada momento que é o essencial do ser: seguir em frente, sempre trazendo as experiências que ficaram pra trás, num eterno “restart”, passando por longos ciclos de começar e recomeçar os dias o tempo todo), bem, pra (re)começarmos, trago um brinde aos leitores fiéis: um conto inédito meu chamado “Rosana”, previsto para meu próximo livro, cujo nome provisório é “O estranho que me vejo”. Apesar de ser uma obra fictícia e curta, se encaixando melhor com o gênero textual conto, sua estrutura e inspiração flertam com a crônica pela proximidade de fatos do cotidiano e ter base em alguns acontecimentos reais (o que também aproxima o texto do relato autobiográfico, mas cuidado: é um conto, ou seja, o narrador pode parecer estar numa confissão honesta e/ou o autor está apenas desenvolvendo uma nova forma sincera de mentir, iludir o amigo leitor – por exemplo, o protagonista de outro conto meu “A última poeta”, do livro “Diários de Solidão” [2010], já postado aqui no blog, vive sendo confundido comigo, o autor, fato que me dá ares de extrema satisfação [como afirma {acho que a frase é de} Caio Fernando Abreu, todo escritor é um cretino, logo saber que sua farsa convenceu outrem só dá alegria a nós, escritores ).
Bem, seja como for, o conto “Rosana” tem tudo a ver com essas noites meio chuvosas. Espero que gostem, amigos leitores! Boa leitura e Arte Sempre!

Rosana (Ou Dançando na chuva com você)

Havia uma garoa assim caindo naquela tarde distante... Éramos dois adolescentes saindo mais cedo da escola (o professor faltara, ah! surto de hepatite abençoada!). Corríamos na chuva, em direção das nossas casas. Eu, nem delinquente, nem nerd, eu apenas eu. Você, nem a mais linda, nem a mais genial, você apenas você. Dois jovens tão jovens; você um pouco menos jovem que eu. Nem amigos íntimos, nem desconhecidos ligados pelo acaso – apenas colegas de escola, estudantes na mesma turma, quase vizinhos, saindo mais cedo da aula numa tarde chuvosa.
Em algum momento, a chuva parou. Possivelmente o céu ainda nublado estava satisfeito com sua traquinagem: estávamos encharcados e cansados de correr. Então você olhou para o chão e observou as poças que a chuva deixou no asfalto esburacado. Eu fiquei ali acompanhando seu movimento e seu silêncio, tentando imaginar o que você planejava... Então você esboçou um sorriso inicialmente enigmático, chutou uma das poças e atirou lama contra mim. Enigma desvendado: seu sorriso era pueril, de adolescente voltou a ser criança. Naquele momento, a menina mais linda, como eu jamais a vira antes.
Revidei a brincadeira, chutei outra poça mais próxima de mim, atirei lama em sua direção e você fugiu, pediu para eu parar. Sapeca, você queria sempre me atingir sem jamais ser atingida. Outro sorriso pueril de rendição, cada vez mais a menina mais linda de meu pequeno universo.
Sorrindo de volta pra você, me distraí, esqueci minha adolescência, minhas invenções de problemas, meu crescimento inconstante. A brincadeira mantinha um ritmo pueril, até que reparei o quanto estávamos molhados e que a alvura e o pano barato de nossas camisas de escola acusavam transparências, quando o uniforme ficava umedecido, como naquela hora...  Foi nesse momento que reparei pela primeira e única vez nos seus seios, o desenho perfeito deles pintado pelas gotas de chuva sobre sua camisa umedecida.
Não consegui disfarçar o olhar imprudente e safado, de novo um adolescente com hormônios descontrolados, Adão revisitando o corpo de Eva, despido do olhar sagrado. E você, não mais menina, parou de sorrir e cobriu a quase nudez com o caderno molhado, Eva ofendida pela profanação do olhar intruso de Adão. Seu movimento lento em defesa do pudor contrastava com a velocidade dos acontecimentos anteriores. Baixei os olhos, de novo um adolescente bobo, o pecador inocente mais envergonhado de todos os universos, Adão condenado à expulsão do Paraíso.
Ficamos calados por intermináveis segundos, as nuvens negras sem chuva pareciam mais pesadas que outrora, então você disse que era melhor seguirmos os nossos caminhos. A frase ganhou terríveis duplos sentidos. Subimos a escadaria para o nosso bairro com passos pesados, apenas os degraus ainda molhados testemunhavam a estranha tristeza dessa nossa via crúcis. Não havia mais leveza em nós; a inocência falecida repousava um sono intranquilo, entremeado de pesadelos, enquanto ultrapassávamos os degraus, buscando um ar, tantas vezes farto, mas, naquele momento, tão rarefeito...
Falamos pouco, quase nada, até cada um seguir seu caminho e alcançar a sua respectiva morada. Na despedida, um adeus sem graça. Nunca mais faríamos companhia um para o outro no trajeto de casa pra escola, da escola pra casa... Teríamos breves contatos superficiais na sala de aula, algumas trocas de palavras necessárias para quem convive na mesma prisão social. Nem Éden, nem maçã – de Adão herdei apenas o sonho de um paraíso perdido inatingível e muita vergonha. E você seguiu seu rumo indiferente – Eva de uma costela que não perdi, Eva de outro Adão.
O ano letivo acabou e nos formamos sem muita badalação. Algum tempo depois, você se mudou e eu também mudei. O tempo continuou passando, nos mudando e muito pouco nos esbarramos.
Hoje (tanto tempo depois!), a chuva antiga me reencontrou: numa noite de tempestade, enquanto eu bebia num bar próximo a minha casa, um amigo se aproximou, puxou assunto e, no meio da conversa, me contou que você se matou. Ele nem sabia que eu a conhecia; como é comum em cidades pequenas, meu amigo apenas me contava as parcas e trágicas novidades desse cantinho meio escondido de tudo, até de Deus. Seu nome, associado a uma morte que você própria se causou, ecoou em minha cabeça cheia de lembranças adormecidas (ah, de novo o Éden perdido e inatingível, de novo eu Adão lamentando uma parte perdida de mim, uma parte perdida que jamais perdi!).
Lembrei-me de você, Rosana, ah, seu nome calado em meus lábios envergonhados por tantos anos! Meu amigo percebeu que fiquei meio distante após a notícia de sua morte, Rosana, então tentou mudar de assunto, reclamar do mau tempo e da falta de entrosamento do time para o qual torcemos, ou melhor, sofremos. Mas eu não consegui acompanhar mais os pensamentos de meu amigo, Rosana, eu não consegui mais esquecer você. Assim como eu, a chuva insistia em tocar sua melancólica sinfonia do lado de fora do bar.
Sem mais assunto ou sorrisos, me despedi de meu amigo, saí do bar e caminhei na chuva. Vi várias poças d’água que se formavam com a tempestade... Tanto tempo passado, Rosana, e ninguém conseguiu consertar direito os buracos históricos das calçadas e do asfalto de nosso bairro. Então eles permanecem aqui, feito aquele antigo eu, feito eu agora, feito você outrora, formando poças e mais poças. Ameacei chutar uma delas, mas hesitei. Medo de chutar alguma gota do passado, medo de escorregar, medo de me machucar outra vez, medo, simplesmente medo, triste e sem explicação.
Por isso agora danço entre as poças enquanto falo com uma impossível você neste momento – sou Adão ridículo falando sozinho e evitando os vazios do Paraíso Perdido. E essa dança é tão delirante, Rosana, que, por mais que lhe conte, nunca saberei explicar se as gotas da chuva que molham meu rosto nesta hora são puras ou se estão misturadas com alguma lágrima que deixo cair... E, por mais que eu dance, lhe conte e evite explicar, Rosana, sempre caio em alguma das diversas poças, não consigo mais evitar...

Imagem da instalação "Rain Room", montada no Barbican Centro de Londres


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Eu poderia não te contar, poema de Diana Paim, contado pelo Luz, Câmera...Alcino! Veteranos

A postagem de hoje é muitíssimo especial por 2 motivos:
Motivo 1) traz de volta às Solidões Compartilhadas do blog a mais-que-fodástica ex-artistaluna e superartistamiga teresopolitana Diana Paim, com o tocante e profundo poema “Eu poderia não te contar” – naquele estilo marcante da artistamiga, com versos de peito aberto, escancarado, emoção à flor da pele e divisão/linguagem poética cujos versos flertam com a prosa.
Motivo 2) além do poema, compartilho com os amigos leitores um vídeo/curta metragem que marca o início de um novo projeto artístico-cultural de continuidade a um outro projeto,  já estabelecido há 7 anos. Inspirado nas ideias da Professora Margareth sobre o futuro dos ex-artistalunos do Luz, Câmera...Alcino!, decidi expandir o universo do grupo e reuni 3 gerações do Luz, Câmera...Alcino! no mesmo curta metragem, iniciando o Luz, Câmera...Alcino! Veteranos (para ex-artistalunos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva que tenham vontade e disponibilidade de fazerem mais vídeos/curtas metragens com o diretor-professor-poeta-pateta que vos escreve).
Neste curta, adaptamos o poema “Eu poderia não te contar” de Diana Paim (a autora fez parte do Luz, Câmera...Alcino! 2011/2012) com atuação, filmagem, roteiro e codireção da também poeta e atriz Thayslane Freitas (da geração Luz, Câmera...Alcino 2013) e declamação de Thaynara Medeiros (Luz, Câmera...Alcino! 2017). O resultado é um curta metragem divinamente melancólico (como o eu lírico do poema de Diana Paim propõe) que agrega novos estilos cinematográficos ao já versátil Luz, Câmera...Alcino!
A arte não tem limites, amigos!

O poema inspirador: 
“Eu poderia não te contar”, de Diana Paim


Eu poderia não te contar,
Eu poderia também deixar pra lá,
Eu poderia me queixar,
Eu poderia até mesmo menosprezar,
Mas eu não consigo, é mais forte que eu.
Você foi a melhor coisa que me aconteceu,
Nossa amizade nasceu no dia que te conheci
E desde então eu sempre tive você aqui
Erros eu sempre cometi, mas fazer o quê, eu sou assim;
O melhor de mim sempre tentei dar para te ver sorrir.
Joelhos ralados são fáceis de curar,
Mas uma amizade ferida é quase impossível recuperar.
Quero que você entenda que dei o melhor de mim,
Quero que saiba que sem você não consigo nem sorrir.
A distância é fácil ultrapassar,
Mas a mágoa é impossível  deixar pra lá.
Eu não sei bem o motivo de você estar assim,
Eu não sei bem o que eu fiz,
Mas, vindo de mim, acredito em qualquer coisa,
Afinal faço tudo errado.
Essa dor que sinto é maior que qualquer coisa,
Pois não sei viver sabendo que magoei o presente mais valioso que Deus me deu.
A vida é apenas uma jornada de momentos bons e ruins,
Mas, sem você para eu poder contar e me alegrar ou até mesmo chorar, ela não vale de nada.
Eu te amo do fundo do mar até o céu
E, se eu te magoei, me desculpa, eu sempre decepciono quem eu quero proteger...

O curta – o primeiro do Luz, Câmera...Alcino! Veteranos - inspirado no poema inspirador: 
Luz, Câmera...Alcino apresenta "Eu poderia não te contar", um poema de Diana Paim




Título: Luz, Câmera...Alcino apresenta "Eu poderia não te contar", um poema de Diana Paim
Gênero: Drama Cotidiano Lírico
Origem: Teresópolis/RJ, Brasil, 2017
Curta metragem inspirado em poema homônimo de Diana Paim (veterana do Luz, Câmera...Alcino! 2011/2012)
Produção:
Luz, Câmera...Alcino!
Roteiro:
Prof. Carlos Brunno e Thayslane Freitas
Direção e edição:
Prof. Carlos Brunno
Codireção:
Thayslane Freitas
Cenário:
Casa de Thayslane Freitas
Filmagem (utilizando celular e pau de selfie) e atuação:
Thaslane Freitas (veterana do Luz, Câmera...Alcino! 2013)
Declamação:
Thaynara Medeiros (Luz, Câmera...Alcino! 2017)
Trilha sonora:
"Cold morning", de Audionatrix
Você pode usar esta música em qualquer um de seus vídeos, mas você deve incluir o seguinte na descrição de seu vídeo:
Cold Morning de Audionautix está licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/...)
Artista: http://audionautix.com/
"Secrets Conversations", de The126ers
Gravado num dia frio de 2017, em Teresópolis/RJ
Este curta metragem é o resultado coletivo da união de 3 gerações do Grupo Teatral Escolar Luz, Câmera...Alcino! (a autora do poema inspirador fez parte do grupo nos anos de 2011 e 2012, a atriz, câmera, roteirista e codiretora participou do grupo em 2013 e a declamadora é artistaluna do grupo em 2017)
Agradecimentos especiais à professora Margareth do Carmo, que sempre estimulou projetos com ex-alunos do Luz, Câmera...Alcino!
Seja na escola, na rua ou em casa,
Seja hoje, amanhã ou outrora,
Uma vez Luz, Câmera...Alcino!
Sempre Luz, Câmera...Alcino!
A arte desconhece limitações temporais ou geográficas,
A arte é pra sempre!
Teresópolis/RJ
2017

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Iniciando voo com Aderito, o Passarinho Lusófono, direto do universo criativo de Nico Bezerra

As Solidões Compartilhadas de hoje são um misto de estreia (pois é mais um escritor-amigo com o qual compartilho minhas solidões líricas), divulgação/notícia (pois anuncia mais um livro de qualidade que está saindo do forno criativo da comunidade literária maranhense) e ótimas lembranças (pois citar o autor de hoje é relembrar onde e quando o conheci).
Vamos primeiro às ótimas lembranças: a convite da divartistamiga Dilercy Aragão Adler, no sábado e domingo, respectivamente, dias 18/11 e 19/11, durante a manhã, tarde e noite, no estande da Academia Ludovicense de Letras (ALL), expus e comercializei a preços promocionais meus livros (com destaque para o mais recente, o meu 9.º livro-filho "O nada temperado com orégano [Receitas poéticas para um país sem poesia e com crise na receita])" na 11.ª Edição da Feira do Livro de São Luís/MA (FeliS). Foi um excelentíssimo momento para, entre tantas coisas, fazer aquele intercâmbio cultural que eu amo (São Luís/MA já se tornou uma das minhas cidades afetivas - tanto que no meu livro mais recente dedico vários poemas a autores queridos maranhenses).  Lá conheci novos leitores-escritores amigos.
Assim, chegamos à estreia de hoje: durante a FeliS, conheci o mais-que-fodástico escritor-amigo maranhense Nico Bezerra, que, além de adquirir meu 3.º livro “Note or not ser” (2001), me informou que, em breve, lançaria seu livro “Aderito, o passarinho lusófono”, cujo material de divulgação compartilho abaixo (faltou um trecho do livro, mas é intencional: a primeira solidão compartilhada é só pra dar um gostinho lírico, um breve aperitivo da obra).
Iniciemos nosso voo com “Aderito, o passarinho lusófono”, do brilhante escritor-amigo maranhense Nico Bezerra, amigos leitores!

“Aderito, o Passarinho Lusófono”: de Timor-Leste para o Brasil, um voo nas asas da Poesia, no vasto mundo da língua portuguesa!


Será lançado no Maranhão o livro “Aderito, o passarinho lusófono” do autor Nico Bezerra, publicado pelo selo Pingo de Gente, da Scortecci Editora. Em uma segunda edição a obra será lançada na versão bilíngue Português-Tétum, tradução feita com muita maestria pelo jovem tradutor timorense Marcelo Nunes.
A obra conta a história de um garoto timorense que ao vencer um concurso de poesia ganha uma viagem ao Brasil. Lá ele faz uma imersão na língua portuguesa e na cultura maranhense. A ilha de São Luis é o cenário dessa aventura. Única cidade brasileira fundada por franceses, mas colonizada pelos portugueses, é também chamada de Ilha do Amor e Terra dos Poetas. A cidade acolhe Aderito e o encanta com suas danças, seu rico folclore, suas lendas e com as histórias da cidade mais portuguesa do Brasil.
O autor, NICO BEZERRA, é escritor, poeta, pedagogo e professor de português, membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes. Segundo ele essa obra é o início de uma série de publicações voltadas para o público infanto-juvenil da comunidade lusófona. Lembrando que os países lusófonos, conforme a COMUNIDADE DOS PAISES DE LÍNGUA PORTUGUESA (CPLP) é composta de Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
Segundo o autor, que diz ser apaixonado pela língua portuguesa e por ter acompanhado a história da luta e da resistência do povo timorense aprendeu a admirá-lo e com muito respeito diz que a vivência do português apenas no ambiente escolar precisa de um reforço, visto que a maioria das crianças timorenses têm o tétum como língua permanente no seu ambiente familiar. Sabe também que há grande carência de livros no país, o que impede que crianças, adolescentes e jovens possam praticar a leitura e a plena aquisição do português. É por isso que o autor pretende disponibilizar essa obra, sem custos de direitos autorais, às crianças timorenses. Para isso ele conclama Editoras e outras instituições que queiram contribuir na promoção e na difusão da língua portuguesa junto às crianças daquele país. “Todos nós que, de alguma forma, temos ligação com o Timor-Leste sabemos que o português tem um papel predominante na atualidade e, como tal, ela deve servir de ferramenta para a internacionalização do país” diz ele.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Meu Bate-Bola Fictício Premiado: Miserável Futebol Clube

Ontem, começou a primeira rodada da tradicional Taça Guanabara (com um empate  de 2 a 2 entre Botafogo e Portuguesa), fase do Campeonato Carioca 2018 na qual os clubes considerados ‘maiores’ (Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo) e os clubes ‘pequenos’ melhores classificados no campeonato do ano passado participam com outros dois ‘pequenos’ classificados na primeira fase, Tal fato me fez lembrar do meu conto “Miserável Futebol Clube”, que posto hoje no blog.
Livremente inspirado na matéria “O jogo dos miseráveis”, de Flávio Adauto, publicada na Folha de São Paulo, em 31/08/1975 (a reportagem inspiradora, que recebeu o Prêmio Esso de Informação da época, mostrava que mais de 7.000 jogadores de futebol, em 21 Estados, viviam sem direitos previdenciários, apesar de pagarem impostos), “Miserável Futebol Clube” narra as desventuras do universo futebolístico em 1975. Com este conto, conquistei a honraria de “Destaque Sul Fluminense” no Prêmio Maria José Maldonado de Literatura 2017, realizado pela Academia Volta-Redondense de Letras.
Esse meu conto premiado também pode ser encontrado na Coletânea Digital “Prêmio Maria José Maldonado de Literatura 2017 - Antologia de Textos Premiados”, que pode ser baixada no site da Academia Volta-Redondense de Letras (segue o link: https://www.avl.org.br/livros ).
Espero que gostem, amigos leitores! Boa leitura e Arte Sempre!

Miserável Futebol Clube

- Intão, fessô?... O que o dotô disse? Eu vô ficá bão, né?
O rapaz finalmente acorda e me dirige a palavra. Encontro-me de frente para o rapaz, de 20 atléticos anos, uniforme sujo, corpo completamente suado, a respiração ainda arfante, no ritmo do jogo que pra ele encerrou bem antes da hora. Em contraste ao porte extremamente saudável do rapaz, o corpo exausto, atirado numa maca improvisada, sugere uma implacável derrota, a perna esquerda irremediavelmente fraturada. Estamos sozinhos no vestiário, os outros jogadores estavam muito apreensivos com a cena e pedi que saíssem. A tragédia já trazia drama demais para mim e para o garoto.
Retomo comigo mesmo os lances anteriores: o estádio pequeno, mas cheio de olheiros, jogo duro, placar empacado no zero a zero, o garoto quis mostrar serviço; extremamente habilidoso, craque nato, possível reforço de algum time de maior expressão, ele driblou o zagueiro e já partia para o gol e para glória, até o outro zagueiro dar aquele carrinho criminoso por trás. Apito do juiz, pênalti marcado, zagueiro adversário expulso, confusão, mesmo os culpados querem ter razão e o garoto ali, desmaiado, inconsciente da penalidade, fratura mais que exposta, chamo a atenção do capitão da nossa equipe – vai ver o garoto, pô! -, corre-corre, cadê o médico, caraca!, maca vagabunda, enfermeiros despreparados, “é o que deu pra arrumar”, afirma o dirigente pão-duro, alguns jogadores finalmente se desligam do frenesi do jogo – o camisa 10 tá mal, professor! Será que sai dessa? -, respondo que não sei. E agora o garoto me encara, busca desesperadamente uma esperança impossível em meu olhar falsamente firme.
Queria lhe dizer: já vi esse filme, rapaz, você é mais um que vai pro chuveiro pra sempre e logo, logo perceberá que nessa profissão não temos nenhum seguro, o governo planeja, o presidente da República Ernesto Geisel diz que apoia uma medida de assistência ao atleta profissional, diz que vai trazer uma solução pro desamparo da gente, mas até agora tudo promessa, somos artistas ilustres de um circo de luzes sem brilho e nesse miserável picadeiro da Confederação Brasileira de Desportos ainda não há planejamento, só desorganização, você está perdido, irremediavelmente perdido. Penso mil coisas em breves segundos, mas até o momento não lhe respondi nada, o garoto quer uma resposta, Otávio, vai jogar um papo furado ou vai dizer a verdade? Desvio o olhar, dou de cara com o calendário da Coca-Cola, com os dizeres “Isso é que é” ao lado da marca do refrigerante, na parede do vestiário – sexta-feira, 13 de junho de 1975, eu sabia que pôr o time pra jogar numa data dessa ia ser de lascar -, finalmente respondo, opto pelo esquema mais covarde, retrancado:
- Vamos ver, garoto, vamos ver...
Dá para perceber no semblante dele a decepção com minha resposta. A face bronzeada e iluminada como se um sol sempre traçasse um sorriso em seu rosto, o jeito brincalhão, sempre tentando manter o ânimo dos colegas, apesar dos frequentes atrasos de salário, toda elegância feliz do jovem se desfaz em uma ameaça de nebuloso pranto. Fraturado, esse será o nome do garoto agora, seu nome de batismo é passado, esquecimento, nem o mais fiel integrante de nossa humilde torcida se lembrará da breve passagem do rapaz pelo nosso pequeno clube. Mas o garoto não desiste, finge que não manja ou realmente não manja mesmo.
- Mas, fessor... é só dá um “taime”, né...
-  A fratura é séria, Beto...– desta vez, sai sem pausa. – O diagnóstico do médico, apesar do exame não ter sido completo, não é nada animador, rapaz. Ele te sedou e foi buscar a equipe médica, talvez você ainda não tenha manjado, sua perna esquerda está jogada pro lado, quebrada, daqui de onde vejo é como se ela estivesse fora do seu corpo. Acho que você vai ter que começar a pensar num outro meio de seguir em frente fora dos campos. Sou experiente nisso, garoto, sinto muito, mas acho que você vai ter que pendurar as chuteiras... – eu mesmo me interrompo, aterrorizado com meu surto de sinceridade. Deve ser cansaço, fico noites sem dormir e estou velho demais pra prosseguir nessa carreira, nem o bicho do jogo do mês passado os desgraçados me pagaram. Putz... Mas sou como o garoto... o que vamos fazer da vida sem a única coisa que nos prestamos a fazer? Aposentadoria não temos, apesar de pagarmos aquela porcaria de INPS. Como sobreviver sem esse maldito futebol? – Me desculpe, Bebeto, estou sendo brusco com você, rapaz...
- Brus...quê, fessô?
Ah, meu Deus, o que vai ser desse moleque? Não deve ter nem o primário completo; uma vez que pedi aos jogadores que anotassem frases de incentivo ao lateral Jorginho, que ficaria lesionado por uns 3 meses, esse garoto demorou um século para anotar um “Milhoras, amigu” e mais meio século para assinar o próprio nome. Tive que dar uma bronca pra acelerar o processo. Ideia imbecil também aquela que eu tive... é, realmente preciso me aposentar, mesmo sem aposentadoria pra tirar.
- Eu quis dizer: me desculpe se fui grosso, Bebeto. – me esforço pela segunda vez para não esquecer seu nome, não lhe adiantar o desamparo ao qual o garoto vai ser atirado.
- ‘tendi, fessô!
Não sei porque esses moleques me chamam de professor, tomara que essa moda não pegue em outros times; não tenho nada demais pra ensinar a esses garotos, necessitam é de escola, alfabetização, um professor de verdade. Mas o fascínio com a bola gosta de flertar com a ignorância. A Loteria se aproveita dessa ingenuidade para faturar em cima desses pobres coitados e não dar nem um bicho minguado pra eles. Nem pra mim. Mal o Conselho Nacional de Desportos fatura uma merreca do montante fabuloso que a Loteria arrecada.
- Me’rmão tá no Framengo, fessor, tá de reserva, mas é fera e já ganha muito mais cruzero qui eu por mês. Quem sabe dispois de mim recuperá vô pra lá...
Deve ser uma espécie de trauma, o garoto parece estar em permanente delírio. Acabou, Bebeto! Agora é só desgraça: primeiro Fraturado, depois Desempregado, caçando bico, sem outro ofício conhecido fora das quatro linhas. Meu Deus, ele mal ouviu a última frase que eu lhe falei! Ele me encara mais uma vez, contorcendo um sorriso dolorido, seus olhos brilham. Me repito, de volta à retranca:
 - Vamos ver, garoto, vamos ver...
Miserável Futebol Clube... somos hábeis atletas do jogo dos miseráveis...
Ouço ruídos de alguém entrando no vestiário. É o doutor com a equipe da ambulância. Ao lado deles, Silvio, o vice-presidente do nosso clube, consternado. Pelo jeito, o nosso presidente nem quis dar as caras pelo vestiário hoje. Seja como for, aceno para eles e disfarço o alívio de vê-los se aproximando; os breves minutos com o garoto tiveram o peso de uma eternidade.
- O médico já está chegando, garoto. Vou indo... Fica em paz e melhoras, rapaz.
- Fessô...
Mais eternidade pesando sobre meus ombros cansados desse jogo truncado. Forço uma paciência que há tempos eu já perdera:
- Pois não, garoto...
- E o pênalti? O juiz marcô, né? Nosso ponta-direita qui bateu? Foi gol?
Sorrio. Como esse garoto ainda consegue me fazer sorrir em meio a toda essa tragédia? Deve ser dom, deve ser...
- Sim, o juiz marcou e foi o Mazão mesmo que bateu. E sim, garoto, foi gol, goleiro prum lado e bola pro outro. Foi gol graças a você, garoto, Parabéns!
Bebeto sorri. Cumprimento o médico, sua equipe e o Silvio. Antes de sair, cochicho nos ouvidos do último:
- Silvio, só te peço uma coisa: não conta pra ele que, depois do pênalti, o time adversário fez dois gols e virou o jogo, por favor. Se o garoto perguntar o placar, muda de assunto, finge que não ouviu. Deixa o garoto curtir, pelo menos por alguns segundos, a vitória efêmera.
Silvio dá um leve tapinha nas minhas costas, em sinal de concordância com o meu pedido. O clube não nos paga devidamente, mas, pelo menos, finge ser simpático aos nossos desejos mais simples.
Dirijo-me até a saída. Será que passarei a noite sem dormir mais uma vez?




segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Retrospectivas e retrocessos ferinos nos olhos líricos de Albinno Oliveira Grecco

Ao estudarmos a etimologia (área linguística na qual se faz o estudo da origem e da evolução das palavras) do prefixo “re”, descobrimos que ele é de origem latina e significa “volta, repetição” ou “reforço”. Logo, para REiniciarmos as Solidões Compartilhadas do blog e REforçarmos a aura lírico-coletiva do blog, compartilho mais uma vez minhas solidões líricas com o mais que fodástico poetamigo voltarredondense Albinno Oliveira Grecco (yeah, quem é fodástico sempre REtorna ao blog!) com dois poemas, cujos títulos são iniciados com palavras iniciadas com “re”: a “Retrospectiva ferina”, poema criado por ele após eu desafiá-lo a fazer uma “retrospectiva lírica ferina” de 2017, e “Retrocesso mental”, cujos versos reforçam a regressão de valores e de mentalidade do Brasil. Em ambos os textos, cabe observar o uso de versos cortantes que representam períodos [ou apenas frases] simples e curtos[as] (no caso do segundo poema compartilhado, a experiência poética é ainda mais radical, é quase um poema ‘concreto ferino’ de frases cortantes; o poema quase não apresenta verbos para reforçar a passividade do povo frente ao panorama de retrocessos).
Além dos poemas, trago também um vídeo que registra momentos de Albinno Oliveira Grecco no evento “As Solidões Coletivas das Voltas Redondas e dos Poetas de Aço”, organizado por mim, com apoio de Cláudio Alcântara, do site “Olho Vivo” (veja mais no link: http://www.olhovivoca.com.br/colunistas/6524/carlos-brunno-organizou-tarde-poetica-no-festival-olho-vivo/ ), que aconteceu durante o “Festival Olho Vivo de Artes Integradas”, no Centro Cultural Fundação CSN, em Volta Redonda/RJ, na tarde de 28/10/2017. (Observação: Há outro vídeo acessível na página do site Olho Vivo no facebook – eis o link: https://www.facebook.com/OlhoVivo.ca/videos/vl.162974307765626/1418655684899166/ )
Relembro também que o mais que fodástico poetamigo Albinno Oliveira Grecco possui uma formidável página lírico-virtual no facebook chamada “Versos ferinos” (segue o link para curtir e ler estes e outros fodásticos poemas: https://www.facebook.com/albinnogrecco/ ).
Boa leitura e REleitura dos fodásticos poemas ferinos de Albinno Oliveira Grecco, amigos leitores! Abração e Arte Sempre!


Retrospectiva ferina (Albinno Oliveira Grecco)

Castraram a liberdade do cidadão.
Assediaram a mente da população.
Estupraram os direitos dos servidores.
Tatuaram a testa dos ignorantes boçais.
Ejacularam na fuça do proletário.
Queimaram os sonhos da futura geração.
Estapearam os cornos da nação.
Meteram o pé no rabo do povão.

Retrocesso mental (Albinno Oliveira Grecco)

Brasil do Santo Ofício.
Retrocesso medieval.
Retrocesso mental.
Regressão.
Depravação.
Perversão.
Reversão moral.
Doente hipocrisia.
Demente hipocrisia.
O povo segue.
Um atrás do outro.
Cabeça arriada.
No cabresto.
Na rédea curta.
Zumbis imbecis.
Soa a sétima trombeta.
Esmagada mente careta.
Encaretados idiotas.
Jocosos patriotas.
Adoentados políticos.
Adoentados moralistas.
Adoentada sociedade.

Vídeo: Grandes momentos da apresentação de Albinno Oliveira Grecco no evento “As Solidões Coletivas das Voltas Redondas e dos Poetas de Aço”, durante o “Festival Olho Vivo de Artes Integradas”, no Centro Cultural Fundação CSN, em Volta Redonda/RJ, na tarde de 28/10/2017.






sábado, 6 de janeiro de 2018

Soneto para Cony durante a travessia

Hoje o blog se reserva ao luto lírico: o Mestre Mais Que Fodástico jornalista e escritor Carlos Heitor Cony morreu, por volta das 23h de ontem, dia 06/01/2018, aos 91 anos. Como diria o próprio escritor, autor de obras memoráveis como “Quase Memória” e “O Ventre”, "meu epitáfio seria: 'Aqui não jaz Carlos Heitor Cony. Porque, realmente, aquele que for para debaixo da terra não vai ter nada comigo do que sou hoje e do que eu represento'".
Pensando na partida de Carlos Heitor Cony e nas variações climáticas de hoje(ora um sol tímido, ora uma pancada de chuva agoniada, mas rápida), escrevi um poema, meu “Soneto para Cony durante a travessia”.
Cony partiu, mas as obras que ele deixara repousam nas livrarias e bibliotecas. Acesse-as e leve-as ao infinito, amigo leitor.

Soneto para Cony durante a travessia

O sol tímido nas calçadas tristes,
Molhadas por chuvas premonitórias,
Lê trechos de tuas quase memórias
E recita-os para os capins-alpistes:

“Que as palavras cresçam pelas estradas,
Gestem teu ontem no ventre das matas,
Nutrindo de hoje as aves mulatas
Que alam amanhãs nas manhãs frustradas

Resistirás no infinito comum,
Cada leitor será teu factótum,
Espalhando-te pra todos daqui.”

Tudo isto te falaria o sol tímido,
Se astros falassem, se fossem ouvidos,
Mas eis a chuva surda... Adeus, Cony...