domingo, 8 de julho de 2018

As Novas Cartas de Amor aos Mortos, escritas pelo Oitavo Ano do Centro de Ensino Serrano de Teresópolis/RJ


Inspirados na proposta de redação sugerida nos primeiros fragmentos do romance “Cartas de Amor aos Mortos”, da escritora Ava Dellaira, os escritores alunos do Oitavo Ano do Centro de Ensino Serrano de Teresópolis/RJ produziram cartas em homenagem a seus ídolos que faleceram.

                No livro “Cartas de Amor aos Mortos”, tudo começa com uma tarefa para a escola: escrever uma carta para alguém que já morreu. Logo o caderno da protagonista Laurel está repleto de mensagens para Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Heath Ledger, Judy Garland, Elizabeth Bishop… apesar de ela jamais entregá-las à professora. Já os escritores alunos do Centro de Ensino Serrano escolheram outros ídolos para seu “Correio do Além”: parentes queridos que partiram (estas cartas, mesmo sendo belíssimas, foram omitidas nesta postagem, em razão do caráter extremamente pessoal  e confessional dos escritos), Martin Luther King Jr., Stephen Hawking, Ayrton Senna, Roberto Gomez Bolaños  e Renato Russo.
Hoje, trago algumas dessas cartas, que fizeram parte da exposição da Feira Literária do Centro de Ensino Serrano de 2018.
Boa leitura e Arte Sempre!



Teresópolis/RJ, Brasil, 04/04/2018 


Querido Martin Luther King Jr.,


Olá, Martin, decidi escrever para você porque hoje é o dia em que você morreu, porém exatos cinquenta anos depois. Gosto muito de seus discursos e suas frases. A que mais gosto é: “Para criar inimigos não é necessário declarar guerra, basta dizer o que pensa”.


Sei que, na sua época, você tinha muitos inimigos e era contra toda política americana e contra o racismo. Porém, com somente 39 anos, já tinha conseguido balançar todos os Estados Unidos com uma política de paz.


Atualmente, você, Martin Luther King Jr., é o maior símbolo contra o racismo nos Estados Unidos e no mundo. O que você disse no seu discurso “Eu tenho um sonho” se tornou realidade, e não só para seus filhos, mas para o mundo.


Atenciosamente,


Daniel da Rocha Lima


Teresópolis/RJ, Brasil, 10/04/2018 

Querido Stephen Hawking,

Venho, por essa carta, te dizer que você foi um guerreiro, pois, com essa doença degenerativa, você poderia simplesmente “desistir da vida”, mas foi além, fez cálculos complexos e escreveu livros, ações que homens “normais” não fazem.

Você lutou até o fim, ao ponto que só conseguiu falar usando um adaptador que captava o movimento de sua bochecha.

Obrigado por todas suas frases ditas nesse mundo.

Adeus,

Arthur Andrade Corrêa de Melo


Teresópolis/RJ, Brasil, 12/04/2018 

Ayrton Senna,

Gostaria de te conhecer, pois as pessoas me falam que você corria muito e, quando botava o carro na frente dos outros, ninguém conseguia chegar em você e te passar.

Você poderia ter muitos anos de carreira, mas infelizmente morreu.

Atenciosamente,

Filipe Soares Pereira de Medeiros


Teresópolis/RJ, Brasil, 04/04/2018 

Incrível pesquisador sobre Física e lutador Stephen Hawking,

Gostaria de parabenizar você.

Sei que nasceu na Inglaterra, Oxford, em 8 de janeiro de 1942. Ao contrário do que seu pai desejava, que era que você cursasse Medicina, seguiu sua paixão que era saber mais sobre a galáxia.

Aos seus 21 anos, descobriu sua doença que não havia cura, a esclerose lateral amiotrófica.Você participou de filmes e seriados conhecidos, entre eles The Simpsons, Futurama, Dexter’s Laboratory, The Big Bang Theory. Seus temas abordados eram sensacionais, como: natureza da gravidade, a origem do universo. Apesar de sua luta em relação à doença, você não deixou de lutar e estudar. Em um de seus documentários, alegou que é uma necessidade sua saber mais sobre o universo.

Você morreu em casa em Cambridge, na Inglaterra, no começo da manhã de 14 de março de 2018, com 76 anos. Foi elogiado em diversas áreas na Ciência.

Milla Miranda Silva Carvalho


Teresópolis. 9 de abril de 2018.

Caro C. S. Lewis,

Acho admirável seu trabalho, principalmente as suas produções voltadas ao cristianismo, como “Protestantismo Puro e Simples” e sua coleção “Milagres”. Gosto de assistir ao “As Crônicas de Nárnia”, que foi inspirado no seu livro.

Meu irmão tem uma biografia sua que foi escrita por David Downing, “C. S. Lewis, o mais relutante dos convertidos”. Esse livro tem como foco o período da sua infância até o início dos seus 30 anos, quando viveu uma jornada tumultuada de pesquisa espiritual e intelectual. Penso como marcou a história com suas obras, do modo que começou no início de 1930 e ainda é conhecido atualmente, em como seus livros escritos detalhadamente há anos são sucessos de vendas.

Você usou dedicação para defender sua fé – isso é admirável.

Respeitosamente,

Vitória Lopes de Carvalho Vidal 


Teresópolis/RJ, Brasil, 04/04/2018 

El Chavo,

Olá, Roberto Gomez Bolaños, eu não te conhecia com esse nome como creio que todos os meus amigos também não. Nós te conhecemos como Chaves. Eu sempre te via na televisão, suas piadas nunca perdiam a graça.

Todo o Brasil te conhece como Chaves, seu programa fez parte da infância de todos. Mesmo falecido, seu programa ainda faz sucesso. Se você estivesse vivo, estaria orgulhoso pelo império que construiu de pessoas que te conhecem.

Atenciosamente,

Anderson Siqueira Junior 


Teresópolis/RJ, Brasil, 14/04/2018 

Querido Renato Russo,

É um grande prazer escrever uma carta para um grande ídolo como você.

Gostaria de agradecer pela grande geração de músicos que se espelham em você e em suas composições. Gostaria de agradecer também pelas suas músicas que são como uma herança para o mundo.

Fico triste por saber que muitas pessoas ainda não conhecem suas músicas e a Legião Urbana. Mas isso pode mudar, essa “geração coca-cola” pode mudar, e isso me deixa entusiasmada.

Às vezes brinco dizendo que “nasci na época errada” e que nunca irá existir alguém como você, um grande cantor e compositor, com tanta dedicação pelo nosso país, que infelizmente está cada vez mais em decadência; não digo só em relação à política, mas à cultura. Como sua música cita: “Que país é esse?”.

Beijos,

Giovanna Pimentel Lage




sexta-feira, 6 de julho de 2018

Os mais que fodásticos Planos e Poemas de Nanny Oliveira


E, mais uma vez, a Seleção Brasileira, “a pátria de chuteira no pé”, é eliminada nas quartas de final  da Copa do Mundo  (já colecionamos 4 eliminações [3 nas quartas] para seleções europeias, cujos países possuem um índice muito superior ao nosso no investimento em saúde, educação e, pasmem, até no esporte do qual somos tão vidrados). Como afirma a fodástica escritoramiga valenciana Nanny Oliveira, com sua ironia lírica sutil, “pelo jeito, acabou a alegria do brasileiro, volta a rotina... Fora Temer, abaixar a gasolina.... e não ser liberado mais cedo do trabalho!”
E por que estou falando da fodástica artistamiga Nanny Oliveira? Porque, pela primeira vez no blog, tenho a honra de compartilhar minhas solidões poéticas com os mais que fodásticos escritos dela. Conheço Nanny Oliveira há tempos, antes mesmo de ela surgir com esse quase pseudônimo (na verdade, é uma espécie de diminutivo do nome dela – e fato poético: com essa diminuta alteração, ela revelou sua grandeza lírica). Conhecia-a com seu nome de batismo, com seu nome do dia a dia, da rotina e das muitas vezes que nos esbarramos na zoeira ou no caminho para casa (somos de bairros vizinhos em Valença/RJ). Já a Nanny Oliveira conheço há pouco frequentando a rede social virtual facebook (“como eu não conhecera esse lado lírico dela antes?”, minha alma sedenta pelo vigor da fodástica poesia me pergunta, constrangida) não deixa de ser a Regiane dos dias a dias às vezes loucos, às vezes simplesmente iguais a outros dias,  vive a mesma rotina, mas a sublima com um lirismo espetacular. Ela mesma se define: “Não sou fofa, não sou doce, sou amorosa com quem sabe extrair o meu melhor. Mas sei uma aspereza, uma rispidez e um sarcasmo que não desejo a ninguém. Isso pode ser chamado de crueldade. Eu chamo de posicionamento”. 
Sua prosa poética e seus contos breves, todos sem títulos, atirados à efemeridade das publicações no facebook,  trazem aquela alma esfacelada, mas rebelde, lutadora, resistente, grandiosa apesar de toda a falta de grandeza nos nossos dias (sim, combina exatamente com minha estética de “poeta da derrota gloriosa”; sim, foi fascínio à primeira vista ler as atualizações líricas de Nanny Oliveira). Como blogueiro e criador da seção das Solidões Compartilhadas, espaço onde apresento novos, velhos e eternos fodásticos autores amigos, não podia deixar esses textos apenas no espaço passageiro das publicações do facebook, pedi, implorei que Nanny Oliveira liberasse seus fodásticos escritos para serem postados aqui no blog. E ela disse sim! (Fiz o sinal da Cruz e Sousa quando ela permitiu, agradecendo a todos os Deuses da Poesia por essa sublime permissão).
Pensam que eu estou exagerando, amigos leitores? Pois então leiam, amigos, e tenho certeza de que ficarão tão fascinados quanto eu pelos mais que fodásticos escritos líricos de Nanny Oliveira. Boa leitura e Arte Sempre!

“Seu Moço, acordei me perguntando por que a vida é essa reunião de sucatas e sucessão de ressacas. Pedaços de sonhos enferrujados espalhados pelo chão. Abraços a doses de euforia escorridas pelos dedos da mão. Pés bambeiam em lugar nenhum, coração se machuca em jejum e a cabeça lateja.
Veja: o nosso intento é um infortúnio. Por que destinos e bebidas sempre fogem ao nosso intuito? A gente se embriaga de planos e poemas e, no fim, nenhum sorriso é gratuito. Eu só pretendia colocar para fora o desejo que me preenche o peito e engolir uma garrafa cheia de mundo. É pedir muito?
Eu queria só por uma vez pagar a conta e chegar em casa com a certeza de que a felicidade realmente exige pouco. Mas, se tiver somente moedas de dor, Seu Moço, dessa vez não precisa trazer o troco.”
Nanny Oliveira



“Reconstruí meus dias do que não deixei ficar pelo caminho e percebi que o que restou foi minha mais pura essência.
Mergulhada em mim,decifrei todos os meus mistérios,encontrei a saída dos labirintos que o tempo causou,cicatrizei feridas que sofriam por doer,apaguei mensagens antes gravadas,que martelavam em meu ser de forma ensurdecedora.
Busquei a coragem que se acovardara na incerteza.
Agora me vejo inteira com as quatro estações dentro de mim: sei onde buscar meu sol e a hora de me deixar florir!”
Nanny Oliveira



“E bateu a exaustão.
Não, não da quarta-feira, mas sim dessa gente hipócrita e mesquinha, que fala uma coisa e faz outra, e que não faz nada de útil.
Bateu a exaustão dessas pessoas de sentimentos passageiros, do "eu te amo" sem valor algum que é dito como se fosse um "oi, tudo bem?".
Ela anda sem paciência com a maioria das pessoas, até se culpa por isso, mas não entende como atrai tanta gente imbecil pra sua vida.
Bateu a exaustão, das promessas não cumpridas, de doar-se e não ter o menor sinal de reciprocidade, de tentar resolver os problemas de todo mundo, e só receber ingratidão em troca.
E agora ela cansou de apanhar da vida, não vai bater de volta, não vai ficar revoltada, nem muito menos querer vingança por sofrimentos passados.
Bateu o amor próprio, ela apanhou todos os sorrisos que deixou pelo caminho e seguiu.”
Nanny Oliveira



terça-feira, 12 de junho de 2018

Solidões Compartilhadas de Eterno Amor: O Poema Romântico de Tuane Miranda finalmente no blog!


Mais um 12 de junho se inicia e o amor está no ar: é Dia dos Namorados! E é claro que o blog não poderia deixar de comemorar essa data com uma maravilhosa estreia na Seção Solidões Compartilhadas:  hoje tenho a honra de compartilhar neste espaço lírico-virtual um fodástico e romântico poema da super-professora-poetamiga teresopolitana Tuane Miranda.
Tuane Miranda é professora dos anos iniciais da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva – sim, é ela quem prepara, dá a base lírica para os futuros poetalunos para os quais lecionarei nos anos finais do ensino fundamental. Há tempos, durante as viagens pela BR 116, de casa para a escola, Tuane confessara que possuía “uns poemas guardados”. Desde então, o blogueiro que vos escreve tem insistido com a tímida poetamiga que ela me apresentasse seus escritos poéticos há tanto tempo guardados para que eu pudesse lançar seus inéditos e fodásticos poemas no blog. Durante muito tempo, insisti, mas a poetamiga Tuane fez que “nunca nem viu” meu pedido e seu lirismo permaneceu oculto, em gavetas secretas, trancadas pela própria poeta autora.
Mas o tempo passou, os deuses do lirismo conspiraram a favor de novas revelações poéticas e a proximidade do Dia dos Namorados influenciou na nova tomada de decisão de Tuane: finalmente ela resolveu revelar um de seus escritos poéticos e ainda permitiu que eu publicasse o sublime poema nessa data especial em que comemoramos o eterno amor entre os mortais!  Por isso, hoje publico e divulgo o fodástico e romântico poema “Meu amor por você”, de Tuane Miranda, declaradamente dedicado ao muso inspirador Leonardo Monteiro, marido e eterno (e)namorado da talentosa poetamiga. Vale destacar a emoção à flor da pele, presente nos versos confessionais de Tuane, além do excelente uso de figuras de linguagem (anáforas pontuais, metáforas singelas, etc) e do ritmo envolvente baseado em rimas simples que traduzem a sublime simplicidade do verdadeiro amor.
Apaixonemo-nos e celebremos o amor, amigos leitores, juntamente com o romântico eu lírico da fodástica poetamiga Tuane Miranda. Boa Leitura! Amor e Arte Sempre!

Meu amor por você

Eu procurei
Por muito tempo
Eu busquei
Um alguém que me amasse
Um alguém que me bastasse

Por muito tempo eu achei
Talvez não sei
Que tudo fosse ilusão
Que eu nunca preencheria meu coração

Nesse momento então
Te encontrei
Você era o amor
Você era o basta
A exatidão do que sonhei

E a ilusão?
Ah! Ela nunca mais coube
No meu coração.
Tuane Miranda



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Solidões Compartilhadas: A Revolta Lírica da Revolucionária Poetamiga Gisleny Almeida


Segundo o Ibope, sete em cada dez brasileiros estão insatisfeitos com governo Temer. E olha que essa pesquisa é de abril deste ano – nem a greve dos caminhoneiros tinha ocorrido, nem o aumento abusivo dos preços do combustível, nem a crise de abastecimento, etc... A insatisfação com a classe política em geral é tão grande quanto a que temos com o desgoverno atual do Brasil. E isso não é de hoje, como podemos comprovar pelo poema da fodástica poetamiga teresopolitana Gisleny Almeida.
No ano passado, Gisleny (que já foi uma das grandes poetalunas da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, onde leciono) me enviou o fodástico poema de elevada revolta e crítica social com o qual compartilho minhas solidões poéticas hoje. Na época, ela me pediu que eu o declamasse em um evento, porém não tive a oportunidade de realizar o desejo dela (não houve microfone livre; entrei mudo e sai calado rs). Seja como for, outras oportunidades para declamá-lo virão. Por enquanto, divulgo-o como um grito calado, com um eu lírico feroz e disposto a atirar em versos cortantes todas as suas mágoas com os descaminhos da pátria que há tempos deixou de ser “mãe gentil”. Vale a pena destacar a energia lírica do poema, impulsionada pelo ritmo forte, pela escolha de palavras e expressões contundentes e pela rebeldia inabalável transformada em apelo poético (não se pode ignorar o vigor lírico da premiada poeta, traduzindo em versos a insatisfação de nossa nação).
Reflitamos e nos revoltemos juntos com o feroz eu lírico da fodástica poetamiga Gisleny Almeida, amigos leitores.

Ei, a injustiça tá demais
E ninguém se importa mais
Já cortaram nossas pernas
Já cortaram nossos braços
E ai, vai deixar que cortem mais?

Zumbi lutou tanto pra conquistar a liberdade
Tiradentes teve o corpo espalhado pela cidade
E hoje a liberdade tá ai, cativa e liberta
Será que a gente a utiliza de forma certa?

Justiça só contra pobre
Não é justiça, é ditadura
Não vão calar minha voz,
Nem vou me fazer de surda!

Teve quem tentou calar minha boca
E até me calava
Mas só com o meu dedo do meio
Falei tudo que eu precisava

No meu mundo, o dinheiro traz comida pra mesa...
Mas lá fora eu o vi levando maldade e frieza

Tristeza, fome, poluição
O mundo anda assistindo o mundo
Em defecação
Pessoas sendo compradas e vendidas
Sem nem ter noção.

Criminosos  amadores são presos,
Os profissionais são eleitos,
Um Brasil que não sabe lidar
Com seus eternos defeitos!

Eles ficam com a carne
Nós ficamos com a banha
A gente que dá duro
E só a massa corrupta e rica que ganha
Se isso é ordem o que é desordem então?

Então vamos lutar
E fazer nossa parte
Pessoas ordinárias
Não calarão nossa arte.



domingo, 27 de maio de 2018

Fim da greve de escrita: Pra não dizer que não falei dos caminhões parados nas estradas do Brasil


Em momentos tensos e contemporâneos nos é difícil fazermos uma análise de um acontecimento histórico, pois estamos envolvidos emocionalmente no evento e, devido ao nosso não distanciamento de tempo dos fatos, não prevemos consequências, nem interesses implícitos além dos explícitos, nem intenções posteriores pelos que lideram a organização dos movimentos e contraste de ideias. Em um evento histórico e contemporâneo, simplesmente tomamos um lado a partir dos nossos juízos de valores e próprios interesses. Nesse período de greve dos caminhoneiros, tomei um lado, tendi a favor dos grevistas, mas não oficializei meu posicionamento favorável a eles, não por covardia, mas por eterna desconfiança. Sou a favor da quase toda a pauta de reivindicações dos caminhoneiros em greve, mas, nas minhas experiências (ativas, na maioria, outras apenas testemunhais) com grandes movimentos históricos populares, algo(zes) implícito(s), ainda não completamente acessível para análise, nesses eventos me faz torcer o nariz. Vejo atitudes altruístas entre os caminhoneiros grevistas, além de uma sensação que lhes foi merecidamente colocada pela bravura e resistência como representantes de um país inconformado com a falta de rumo e corrupção, ao mesmo tempo que estranho a unanimidade ‘nelson rodriguiana’ – esse olhar único favorável que lados outrora plenamente polarizados (mesmo quando apresentam projetos semelhantes) [extrema direita, direita, centro, esquerda, extrema esquerda, acima, abaixo, de ladinho] depositam sobre o acontecimento: cada um toma pra si os méritos do evento (inclusive os defensores da intervenção militar, que, considero, seria a primeira a pôr fim a essa desobediência civil), fazendo-me questionar: afinal, como algo pode agradar todos os lados? Estamos realmente analisando o fato como um todo ou a crise de abastecimento proveniente da greve também está encerrando quaisquer análises distanciadas da emotividade ou pautadas na razão do evento? Pergunto isso, pois, apesar de nos ligarmos emocionalmente aos fatos, há, em todo grupo organizador de um movimento histórico, muitos alguéns (nesse caso, de vários lados) calculando friamente algo – sempre tem; seremos ingênuos mais uma vez? Em nenhum momento, pretendo tirar o mérito da greve dos caminhoneiros, entendam, apenas quero lembrar que isso não é uma partida de futebol na qual você anula sua visão crítica diante das ocorrências e simplesmente torce bestialmente para o seu time favorito.
Considero que o que mais motivou essa quase unanimidade de opiniões diversas e adversas favoráveis à greve dos caminhoneiros se deve à situação caótica na qual nos encontramos - o governo vem pisando na bola há tempos e, consequentemente, tem desagradado impunemente todos os lados outrora inconciliáveis (e, por incrível e inédito que pareça, apesar de se acordarem abraçados na mesma causa, a favor dos caminhoneiros, ainda conseguem se metralhar como em fogo amigo dividindo o mesmo espaço, a mesma trincheira, cada um acusando o outro de ser o causador da guerra, mesmo batalhando com a mesma farda – é a comparação que me veio à mente; por favor, não confundam: sou completamente desfavorável à intervenção militar, que, por esquisito/esquizofrênico sinal, alguns grupos de grevistas defendem arduamente). O desgoverno do Brasil é historicamente corrupto, mas o atual, além disso, é extremamente babaca (o que foi a tentativa de declarar fim da greve a partir de pronunciamentos, acordos e divulgações fakes?), autossabotador (a ameaça insossa de chamar o exército para expulsar os grevistas foi quase que um “olha, eu sei que sou fracote, mas, se me bater, eu chamo meu irmão mais velho e mais forte”, sendo que o tal “irmão mais velho e mais forte” fingiu que nem ouviu ou nem foi realmente acionado ao ataque) e, consequentemente, expressivamente incompetente e impopular (a prova máxima é o fato de que todos os lados se voltam contra ele, pois já conseguiu vacilar com todos). O mérito mais evidente e consagrado da greve dos caminhoneiros foi retirar a máscara, foi gritar para todos os cantos do Brasil o quão impopular é o Governo Temer – era um fato que todos sabiam, mas foi o evento histórico e popular citado quem gritou com voz firme e incontestável essa monstruosidade, outrora disfarçada, fingindo-se de popularizada. Seja qual for o resultado da peleja entre caminhoneiros e desgoverno federal, se daí só sairão consequências positivas e um futuro completamente promissor só o tempo irá dizer (sinceramente, duvido, me desculpem, mas, depois de 39 anos de Brasil e muitos estudos, não me ufano, nem me fantasio mais), um prêmio a greve dos caminhoneiros vai manter durante toda nossa História: ter agido como aquele menininho (mas nem tão inocente e sincero quanto o personagem original, por favor, sem ilusões) do conto da “A Roupa Nova do Rei”, que, observando o desfile absurdo de hipocrisia, grita “O rei está nu!”, tirando toda a população do estupor cúmplice e revelando ao mundo as fragilidades e vergonhas de seus (des)governantes.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O momento literário em que fui minha mãe: Memórias de meus tempos (na verdade, os tempos dela) de fábrica


No último domingo, dia 13 de maio, foi Dia das Mães. Devido a essa data comemorativa superespecial, lembrei-me de um texto que eu escrevera há alguns anos atrás, utilizando como personagem narradora em 1.ª pessoa a minha mãe Vanda Silva Barbosa.
Na época (julho/agosto de 2012), o Sarau Solidões Coletivas vivia tempos áureos e tínhamos uma parceria fodástica com o outrora recém-ressuscitado (hoje, mais uma vez, ‘falecido’) Jornal Valença em Questão (VQ). Meio que a pedido (na verdade, fiz a sugestão, ainda meio sem saber como seria o escrito final, e o pessoal do jornal abraçou a ideia e me cobrou) de um dos principais articuladores do VQ na época, Vitor Castro, construí um texto de memórias, inspirado nas lembranças de minha mãe sobre a Valença de sua juventude e início de trabalho nas fábricas têxteis da cidade (na época, em ascensão; hoje, fechadas).  Para a produção do texto, utilizei técnicas parecidas com as apresentadas na Olimpíada de Língua Portuguesa e os métodos conhecidos dos escritores ghostwriters: entrevistei mamãe e, a partir das informações retiradas da entrevista somadas à percepção de marcas coloquiais da fala da entrevistada, elaborei o texto de memórias, me passando como protagonista-narrador por minha mãe. Ela possuía histórias maravilhosas do seu passado e considerei que tais narrativas orais mereciam ser passadas para a narrativa escrita.
Abaixo os amigos leitores poderão ler o texto de memórias que escrevi, o momento em que liricamente ‘fui minha mãe’. Espero que gostem. Abraços e Arte Sempre!

Memórias de meus tempos de fábrica

Não que eu seja uma daquelas pessoas que só vê o lado negativo das coisas; nem fica bem pra um ser humano ser assim, né? Mas confesso que às vezes me dá uma sensação estranha, meio que uma tristeza, quando vejo todas essas fábricas têxteis fechadas aqui em Valença. Elas fazem parte de minha história, de minhas memórias. Sou de um tempo em que essas fábricas moviam a economia da cidade; você saía de uma delas e logo em seguida já arrumava emprego em outra.
Me lembro bem de meu início de trabalho nessas fábricas. Acho que foi nos idos de 1969 quando comecei a trabalhar em fábrica (me desculpe, mas faz muito tempo e a gente sabe como é a nossa memória: às vezes ela engana a gente e recria as nossas histórias). Fazia um ano que papai tinha morrido, éramos 11 pessoas na família numa casa grande na roça e precisávamos ajudar nas finanças da casa. Como eu já tinha completado 14 anos, mamãe conseguira uma vaga na Fábrica da Chueke pra mim (sim, é aquela mesma onde fica a Richards hoje em dia).
Eu morava no Cambota. Naquele tempo, o bairro não era asfaltado; ainda havia até os trilhos de trem na estrada. Como não havia mais trem por lá, colocaram até um ferro pra impedir a passagem deles nos trilhos – minha irmã Maria e eu já nos machucamos passando por ali naquela época. Tenho a cicatriz até hoje, bem aqui nessa perna, veja só. Pra chegar na Chueke, andava quatro quilômetros e meio e trabalhava na noveleira – aquela que fazia os rolos - das cinco da manhã até uma da tarde. Trabalhei apenas um mês lá, pois mamãe achava ruim eu caminhar tão mocinha pela estrada de madrugada.
Mamãe optou por me colocar na Fábrica de Renda e Bordado, em frente ao que hoje é a Metamorfose, pois minha irmã mais velha, a Yara (na época com 20 anos de idade) trabalhava lá e assim poderíamos sempre ir juntas ao trabalho. Lá trabalhei na máquina automática de fiação durante um ano e pouco. Todas as meninas da família, minhas irmãs, trabalharam lá, com exceção da Dinah, minha irmã mais nova. Como eu dissera antes, a história dessas fábricas fazia parte da trajetória de trabalho de nossa família, de nossa luta pela sobrevivência sem papai aqui para nos amparar – tínhamos que manter nossa casa, dar boas condições para mamãe e para nós mesmas.
E deu tudo certo, graças a Deus! Após a Fábrica de Renda e Bordado, trabalhei na Fábrica Progresso e na Santa Rosa. Não faltava trabalho em fábrica naquela época.
Como os tempos mudam. Hoje, se você não quer ficar desempregado, tem que buscar vaga no comércio, que, naquela época, era quase inexistente. As pessoas saíam de Valença pra comprar as coisas, nenhuma loja grande durava na cidade por muito tempo. Agora, está tudo mudado: o comércio cresceu muito e todas as fábricas nas quais trabalhei fecharam. Fico impressionada com essas mudanças bruscas; se bem que eu adoro passar no centro e poder fazer minhas comprinhas sem ter que sair da cidade. Como disse, não se pode ver só o lado negativo das coisas.
Ah, mas tinha uma coisa que eu não gostava nem um pouquinho da época em que trabalhava em fábrica: como eu era menor de idade, meu salário era muito mais baixo que de um trabalhador maior de idade. E tinha que dar a mesma produção [atingir as metas] que os mais velhos, veja só! Era uma pressão danada, eu me virava, até dava produção, mas não passava da meta. As colegas que davam produção maior às vezes me ajudavam. Não posso esquecer jamais da minha amiga Zilma, que, na época da Santa Rosa, dava produção e ainda me ajudava pra que eu alcançasse a minha meta.
Atitudes como essa não acontecem muito hoje em dia, com todas essas câmeras internas, com todo esse desespero para se manter no emprego. Hoje é mais cada um por si. Mas acaba que, pensando nas fábricas de Valença hoje em dia, não há nem união, nem cada um por si, afinal, não há mais fábricas como antigamente por aqui. Às vezes, vem gente me dizer que foi por causa do sindicato que as fábricas fecharam, mas eu não sou boba: na década de 1990, a Santa Rosa, por exemplo, muito antes das brigas com o sindicato, já funcionava meia boca, pagava os funcionários com atraso; esse negócio de ficar culpando os outros pelos nossos próprios erros é uma atitude que eu não aceito, sempre fui muito honrada e não gosto de mentira e covardia. Que cada um admita o seu defeito, conviva com seus pecados e arrume um jeito de encontrar a sua redenção.
É... parece que pecamos demais como cidadãos valencianos e nada de acharmos uma redenção. Continuamos votando errado, trocando voto por saco de cimento, dentadura, um dinheirinho e quem paga a conta somos nós mesmos: aí estão as fábricas fechadas, Valença estagnada, um cenário triste que não me deixa mentir. A cidade tinha tudo pra dar certo, não tinha? Mas não dá. Ver as fábricas fechadas me faz pensar em tudo isso, me faz relembrar – se a gente não tiver memória, como vamos conquistar um futuro melhor para nossa terrinha? Mas, já disse isso e nunca custa lembrar, não devemos trazer na cabeça só coisas negativas, a gente fica até doente assim, não é verdade? Tenho fé em Deus que um dia Ele vai iluminar a cabeça da minha gente e o povo vai se conscientizar. Sim, um dia, a gente vai usar a memória pra funcionar, aprender com nossos erros e ver nossa cidade voltar a crescer!
(Texto escrito por mim, baseado nas memórias de minhaa mãe, Vanda Silva Barbosa, publicado anteriormente no Jornal Valença em Questão n.º 43, de Agosto de 2012. Texto também acessível no link: http://blogdovq.blogspot.com.br/2012/08/vq-n-43-memoria.html)



sábado, 12 de maio de 2018

Solidões Compartilhadas: A Premiada Vida e O Emblemático Viajante do Futuro de Débora Branco


Há 2 dias atrás (10/05), a fodástica poetamiga teresopolitana Débora Branco fez aniversário.
Conheci seus poemas na época em que ela ainda era estudante na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, em 2014. Eu ainda não lecionava Português na turma dela (isso só aconteceria no ano seguinte), mas, por recomendação de vários artistalunos, voltei minha atenção para sua poética e, assim, conheci um de seus mais formidáveis poemas, “Vida”, já publicado aqui no blog (e relembrado nesta postado junto de outros). Diante do fodástico poema, não resisti e, mesmo Débora não sendo minha aluna, apadrinhei seu lirismo e enviei seu poema para disputar a Categoria Juvenil do Concurso de Poesia da Alap (Academia de Letras de Paranapuã) de 2014, no Rio de Janeiro/RJ. Não deu outra: o poema “Vida” de Débora Branco foi laureado com Medalha de Ouro no certame literário daquele ano!
Em 2015, Débora Branco esporadicamente me entregou uma série de poema, entre eles - outro que destaco nesta postagem – o intrigante, emblemático “Viajante do futuro”, cheio de referências literárias e reflexões filosóficas (marca principal dos escritos poéticos da jovem escritora). Como uma “viajante do futuro”, Débora sempre esteve liricamente à frente de seu tempo, com uma poética madura e sublime. É sempre uma honra compartilhar minhas solidões poéticas com essa fodástica e merecidamente premiada escritoramiga.
Fiquemos com a vitoriosa “Vida” e as passadas viagens “do futuro” de Débora Branco, amigos leitores!

Vida

Às vezes penso em acreditar,
Mas prefiro sonhar.
Às vezes quero correr
Em vez de caminhar.

Não penso no distante futuro,
Apenas no imediato amanhã;
Hoje foi descoberto,
Hoje o presente,
Amanhã o mistério.

Mas a vida nos surpreende
Em cada minuto,
Enfim somos
Apenas marionetes do absurdo da vida.
(Poema de Débora Branco, premiado com Medalha de Ouro, na Categoria Juvenil do XXV Concurso de Poesia da ALAP [2014])




O viajante do futuro

Quem é esse?
Um viajante do futuro?
Quando olhares para o futuro o que verás?
Tantas perguntas e tão poucas respostas.
Não se preocupe com as perguntas
E sim com as respostas.

Mas que mistério há nesse viajante...
Sabe todos os segredos da vida,
Tantas vividas e tão pouca sabedoria,
O mundo gira, a tristeza fica
E uma nação na solidão.

Não desiste do impossível,
Não deixe de descobri-lo.
O que é a ilusão?
Uma armadilha do destino
Ou a última solução?

Esta é a cicatriz que o tempo nos deixou.
Sabes quem é o viajante do futuro?
O próprio tempo que nos adiantou!