segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Pálido à luz de um haicai sombrio

O dia foi cinza. A realidade tem sido cinza. Há um mundo colorido, mas, de tanto ver cinza hoje, hoje o cinza me absorve. Então saiu o haicai sombrio que posto hoje. Não sei se está bom, não sei se deveria ser bom. Não estou bem, não estou bom. Não doente, só quase algo estranho que adoece, só, só por hoje, só e desanimado. Também sei que haicais não têm título, mas sempre coloco título neles, negue o haicai que afirmo à vontade (se fosse pra seguir cegamente as regras, seria um famoso escritor de manuais e não um obscuro rabiscador de vanguardas gloriosamente frustradas. Tenho direito de seguir na minha útil inutilidade como me convém, seguindo regras ou não, até que uma ditadura se reinstale e me julguem subversivo demais ou até depois disso ou até que não ou até nenhum até então).Que se foda: eis meu haicai “Haicai Sombrio”.

Haicai Sombrio

O dia nublado
Flerta com meu triste estado.
Cedo, morre a tarde.

Foto "Tarde Sombria", de Arthur Oliveira,
disponível no link: https://olhares.uol.com.br/tarde-sombria-foto7507715.html

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Poema sem nome, mas com alma, de Thay Lucas

Yeah, amigos leitores, hoje tenho a imensa honra de estrear o compartilhamento de solidões líricas com a genial e mais-que-fodástica artistamiga Thay Lucas, de Teresópolis/RJ. Defensora do grito lírico das minorias, artistamiga de talento infinito, compositora, música e intérprete da banda Boule de Suif (cujas composições e vídeos pretendo também compartilhar com os amigos leitores em breve. Já adianto o link da página da banda no face:  https://www.facebook.com/bouledesuifoficial), Thay Lucas também brilha intensamente na escrita poética. Com uma linguagem que dialoga com o popular e o protesto lírico, contra todo preconceito, os eus líricos de sua poética denunciam com energia os atos violentos contra as imensas minorias e possuem versos cortantes, hiper-bem compostos, com emoção à flor da pele e uma energia lírica grandiosa e única. Mesmo o olhar mais preconceituoso é incapaz de se fechar e negar o intenso, imenso e fodástico grito lírico que transborda na mudez indignada da escrita poética de Thay Lucas. Vale a pena ler e reler o “Poema sem nome, mas com alma” de Thay Lucas, amigos leitores.
Em tempo: Entre os poemas que declamarei, às 19:30h, durante a II Feira da Diversidade, que acontecerá amanhã, dia 07 de outubro, no Clube dos Democráticos, no Centro de Valença/RJ (ao lado do Posto JB e da Câmara Municipal e em frente ao Jardim de Baixo), terei a honra de declamar este fodástico “Poema sem nome, mas com alma”, de Thay Lucas, o qual já tive a oportunidade de ouvir ser declamado pela própria autora, durante um sarau do Grupo Liberdade Poética, na Feira Agroecológica, em Teresópolis/RJ. Não percam essa segunda edição da Feira da Diversidade em Valença/RJ, amigos leitores!

Poema sem nome, mas com alma

As palavras não foram ouvidas.
A voz foi calada.
Uma rua sacudida
Pela morte de uma trava.

Mas ela mereceu, dizia o povo.
Tinha que morrer,
Essa bicha pão com ovo.
E por quê?

Porque assim a sociedade queria.
Um homem vestido de mulher?
No reino dos céus, não entraria.
Que homem a quereria?

Chutada, pisoteada...
Pelo mundo temos muitas "Dandara's",
Que entraram na “glória” com a carne manchada.

Adeus Tabata Brandão.
E, aí de cima, olhe por nós.
Interceda pelo nosso perdão.
Pela falha que somos, pela falta de coração.
Thay Lucas

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Os Formidáveis Diários de Meninos, Meninas, Homens e Mulheres da República Velha escritos pelos artistalunos dos nonos anos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, inspirados em "Minha Vida de Menina"

A vida de professor não é (nunca foi) fácil, amigos leitores, principalmente nos dias atuais. Ora há a insegurança financeira constante devido aos sucessivos atrasos de salário e cortes de direitos, ora a preocupação com o crescimento da constante ameaça conservadora e retrógrada do movimento Escola sem Partido, ora a decepção e tristeza com a apatia, mau desempenho em provas e falta de interesse dos alunos – é, às vezes, dá vontade de largar tudo e ir embora pra Pasárgada ou qualquer outro canto lírico utópico.  Mas essa vontade sempre acaba passando (após algumas dores de cabeça, alguns dias sem dormir direito, etc rs) e os artistalunos sempre, em algum momento, mesmo quando já aprontaram bastante em momentos anteriores, salvam o seu dia e renovam o desejo de seguir em frente. A arte sempre salva, amigos leitores, e nos surpreende quando menos esperamos. Uma prova disto está na postagem de hoje: relembro um projeto realizado no primeiro bimestre com os nonos anos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, na região rural de Teresópolis/RJ, onde leciono (ou, em vários momentos, me esforço para conseguir lecionar) Português.
Em meio ao caos de acontecimentos-problemas já citados no início dessa postagem, aproveitando a temática feminina, impulsionada pelo Dia da Mulher, decidi, com o apoio da equipe diretiva e da maioria do grupo de professores dos nonos anos, realizar um trabalho interdisciplinar (já realizamos há tempos as aulas interdisciplinares e uma prova interdisciplinar por bimestre, logo tal trabalho seria mais um acréscimo que uma completa novidade) sobre fragmentos do livro (do gênero textual diário) “Minha vida de menina”, da escritora brasileira Helena Morley (pseudônimo da fodástica escritora Alice Dayrell Caldeira Brant,  e a versão cinematográfica da obra, intitulada “Vida de menina”, filme de 2003, dirigido por Helena Solberg e estrelado por  Ludmila Dayer, Daniela Escobar, Dalton Vigh, entre outros grandes atores nacionais.  O livro e o filme se passam no Brasil do período pouco após a abolição da escravatura e a proclamação da república. Tanto no filme quanto no livro, Alice/Helena Morley, protagonista pobre, magra, agitada, nem um pouco bem comportada, desengonçada e sardenta, começa a escrever seu diário, debochando e desmascarando as pretensas virtudes alheias de Diamantina, cidade onde ela  vive, revelando seu universo feminino e um país tão adolescente quanto a menina. Durante todo livro e filme, Helena Morley procura com sofreguidão não perder uma infantil alegria de viver e reinventa o o mundo à sua maneira, tornando-se, como escritora, o diamante mais raro de Diamantina.
Na proposta de trabalho interdisciplinar, além de questões levantadas por várias matérias (o preconceito velado após a abolição da escravatura e a hipocrisia social da Velha República, em História e Geografia, o uso de vários tipos de energia nas atividades cotidianas no Brasil antigo, em Ciências, a importância dos primeiros socorros [se Helena Morley conhecesse os métodos de cuidados emergenciais], em Educação Física, a riqueza estilística da obra, em Português e Literatura), pedi uma produção textual na qual os escritores-alunos teriam que criar uma página de diário escrita por um dos personagens (que não fosse a própria Alice/Helena Morley) do livro “Minha vida de menina”, recontando um episódio dos fragmentos lidos do livro ou vistos no filme. E os escritores-alunos ousaram e brilharam na produção textual. Abaixo posto algumas dessas fodásticas páginas de diários, escritas com maestria, pelos escritores-alunos dos nonos anos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva.
A vida de professor não é fácil, mas existem momentos gloriosos, como esse de ter o privilégio de ler textos incríveis escritos com amadurecimento, habilidade e genialidade pelos talentosos e jovens escritores-alunos, que salvam a nossa alma e renovam a vontade de continuar. Boa leitura e Arte Sempre, amigos leitores!




Diário 1
Diamantina, algum dia de 1893
                Fomos Helena e eu lavar roupa na cascata. Helena e a prima dela ficaram brincando de corrida de barco feito de folha. A avó de Helena tacou uma pedra no barco de Naná e Helena ganhou o primeiro lugar. Naná ficou com raiva, fez um monte de bolinhos de lama e ofereceu a Helena. Percebendo a maldade de Naná, Helena ficou com raiva e atirou os bolinhos de lama em Naná, que logo chamou a mãe dela.
                A mãe de Naná ficou com raiva de Helena e botou a sobrinha de castigo. Helena tentou conversar com o pai dela e se livrar do castigo. Mas nada se pôde fazer: Helena ficou sem almoço, mas levei uma fruta para ela não ficar com fome. Depois de tantas confusões, fomos embora para casa.
Arinda (amiga afrodescendente de Helena)
(David, Gilvan, Brenno, Lucas, Matheus - 9.º B)


Diário 2
Diamantina, algum dia de 1893
                Hoje minha prima Helena sujou o meu vestido novinho; primeira vez que eu o usava. Me jogou bolinhos de lama que eu mesma fiz. Fiquei com tanto ódio que chamei mamãe. Ela deu fortes beliscões em Helena, fiquei muito feliz por isso. Helena, além de chorar, foi obrigada a ficar sem almoço. Mas vovó, como sempre, abraçou Helena e ficou adulando-a. Às vezes sinto raiva de vovó.
Naná (prima de Helena)
(Thais, Thaynara, Hevelyn e Angélica - 9.º B)


Diário 3
Diamantina, algum dia de 1893
                Não sei por que ainda existe essa discriminação conosco, os negros.
                Ainda ontem fui carregar a lenha e um amigo branco veio me ajudar. Quando ele encostou na lenha, a mãe dele veio correndo e disse: “Tire as mãos da lenha! Isso é serviço para os negros!”
                Não entendo. Nós, negros, não somos algum tipo de animal escravo, somos seres humanos. Mas, como eu já me acostumei, não me preocupo muito.
                Espero o dia em que todos nós, humanos, tenhamos os mesmos direitos, independente de raça, cor, sexo, etc. Queria que nós vivêssemos em harmonia.
                Mas esse dia vai chegar sim. Vou pedir a Papai do Céu que isso aconteça e, se Ele quiser, vai acontecer.
Arinda (amiga afrodescendente de Helena)
(Carlos Eduardo Freitas – 9.º C)

Diário 4
Quarta-feira de Trevas, 29 de março de 1893
                Hoje várias mulheres vieram se confessar para mim, o que é costume na Semana Santa. Dentre elas, estava a Sra. Carlota. Eu logo comecei perguntando:
                - Você fala mal da vida alheia?
                Ela respondeu:
                - Muito, Senhor Bispo.
                - Perde missa aos domingos?
                - Muito, Senhor Bispo.
                - Deseja mal aos outros?
                - Muito.
                - Você furta?
                - Muito.
                Então eu disse:
                - Você está é muito bêbada. Vá curar essa mona e volte.
                Por sorte, só ela estava nesse estado.
Bispo
(Isabela Correa, Tatiane, Alessandro, Carlos Daniel – 9.º A)

Diário 5
Terça-feira, 29 de agosto de 1893
                Minha irmã e eu nem parecemos filhas dos mesmos pais. Alice é respondona e impaciente. Eu já sou sossegada.
                Hoje ela me roubou cinquenta mil réis que eu estava guardando para comprar um vestido. Ela me pediu o dinheiro para fazer sua festa de aniversário, alegando que ia dividir comigo a metade dos vinte presentes que ela iria ganhar. Após a festa, só me deu uns biscoitos. Eu reclamei, aí ela me deu um sabonete e um par de meias.
Luisinha (irmã de Helena)
(Paulo Sérgio – 9.º C)


Diário 6
Quarta-feira, 29 de agosto de 1893
                Querido diário,
                Não sei escrever tão bem porque ainda sou pequenina, como vovó diz, porém vou tentar. Hoje de manhã minha irmã veio conversar comigo enquanto eu estava lá no galinheiro. Ela veio toda boazinha, eu sabia que queria alguma coisa... dito e feito!
                Depois de tanto tempo economizando, Helena veio pedir dinheiro para fazer uma festa de aniversário para ela. Na hora pensei: Não!!! Mas depois ela disse que os presentes que ganhasse iria dividir comigo, aí resolvi concordar. Helena fez a festa e ganhou 20 presentes. Sabe o que ela me deu? 3 presentes, os piores. Ela acha que não percebi porque sou pequena, mas percebi sim e que ela fique sabendo: vai ter volta!
Luisinha (irmã de Helena)
(Larissa, Eric, Samira, Tamara e Nicoly - 9.° B)    

Diário 7
Diamantina, algum dia de 1893
                Querido diário,
                Todos os meus vizinhos acham que eu sou ladrona de galinha. Pois é, eles estão certos. Já roubei várias galinhas dos meus vizinhos, inclusive a da Helena.
                Hoje de tarde, ela saiu de sua casa igual uma louca, ficou perguntando sobre sua galinha carijó. Helena colocou a culpa em mim, me xingou e até me ameaçou, falando coisas como “quando eu encontrar esse ladrão de galinhas, vou dar uma tunga nele” e olhou para mim enquanto falava.
                Uns dias depois, a mãe de Helena, Carolina, pegou gripe das feias. Fiquei com pena e fiz uma canja pra ela com a mesma galinha que roubei de sua filha.
                Sei que o que eu fiz foi errado e acho que Helena desconfiou disso, mas ela não disse nada. Depois disso, ela ficou bem comigo.
Siá Ritinha (vizinha de Helena)
(Yasmin, Thais, Helen, Leticia e Laura – 9.º C)    

Diário 8
Diamantina, algum dia de 1893
                Querido diário,
                Hoje o pai da Helena falou que não vamos para o mesmo céu. Eu não acho que isso seja verdade, penso que céu só tem um e que Deus é um só.
                Aqui nesse lugar eles nos tratam diferente porque somos negros e pobres.
                Eu não vejo tanta diferença assim, porque temos a mesma capacidade de pensar e sentir, somos seres humanos como eles ou somos até mais humanos que eles. Tenho certeza que lá no céu Deus não vê tantas diferenças como eles.
                Todos dizem que as doenças e a morte são coisas terríveis. Eu não acho, penso que as doenças e a morte são ideias que Deus teve para nos igualar, para todos verem que não somos diferentes. Eles morrem e ficam doentes como nós. Mas, bom, acho melhor deixar isso que penso ficar entre nós porque pode me trazer problemas. Vai ser nosso segredo.
Arinda (amiga afrodescendente de Helena)
(Shayane Domingos - 9.º A)

Diário 9
Diamantina, algum dia de 1894
                Querido diário,
                Hoje venho lhe falar como estou triste com minha filha Helena. Ela vendeu meu broche que seria seu de herança só para comprar um uniforme novo, sendo que nesta casa temos coisas mais urgentes para comprar. Eu sei que um dia o broche ia ser dela, mas, quando ela o vendeu, meu coração entristeceu.
                O que também me deixa triste é que agora ela dá mais valor à avó dela que dá tudo pra Helena. Isso me  humilha porque eu não posso dar nada para ela. Só posso lhe dar o amor de mãe e ela não me dá mais valor por isso. Este dia de hoje pra mim só foi dor.
Carolina (mãe de Helena)
(Matheus Quintieri, Talles, Carlos Fernando, David Pires e Robson - 9.º A)

Diário 10
Diamantina, algum dia de 1894
                Hoje minha filha Helena veio me contar que vendeu o broche da sua mãe. Fiquei um pouco nervoso, mas levei em conta que eu tinha pego o brilhante do mesmo. Então ela me abriu os olhos que ali naquela lavra não ia dar mais nada, que era perda de tempo. Eu ficava muito tempo longe da minha família e quase não vi meus filhos crescerem.
Alexandre (pai de Helena)
(Charles, Lorran, Victor, Gustavo - 9.º A)

Diário 11
Diamantina, algum dia de 1894
                Olá, papel confidente,
                Hoje tive uma experiência extraordinária. Helena, minha prima, me perguntou se eu queria cometer um “pecado mortal”. Por curiosidade, perguntei qual deles. Ela respondeu, com um sorriso malicioso no rosto: “Não furtarás”. Fomos até o Empório do Seu Antonio e, enquanto Helena o distraía, fui sorrateiramente até a vidraça onde estava o desejado caderno do interesse dela. Olhei para eles e vi que o senhor estava distraído o suficiente para não me ver cometendo o delito, então peguei o objeto e o pus entre meu paletó. Depois disso, voltei até a bancada ao lado da minha prima e coloquei minhas mãos sobre o seu ombro. Ela entendeu o sinal. Despedimos do senhor, saímos e fomos em direção à praça.
                Quando nos olhamos nos olhos, um sorriso surgiu em nossos lábios. Partimos de lá correndo feito loucos. Depois de uma boa distância, Helena se jogou nos degraus de uma pequena escadaria. Estávamos ofegantes pela correria. Sentei-me junto dela e entreguei o caderno, que agora lhe pertencia. Um sorriso mais brilhante tomou conta de sua face; ela estava feliz. Eu não conseguia me controlar, tomei os lábios dela em um beijo casto, mas cheio de sentimentos, pelo menos de minha parte. Assim encerramos a aventura e voltamos para nossas moradas.
Leontino (primo e futuro marido de Helena)
(Angélica, Livia, Lidiane e Flaviane – 9.º A)
Diário 12
Diamantina, algum dia de 1894
                Hoje eu não estava me sentindo muito bem. Acho que é por causa da idade. A Helena ficou sabendo do meu estado e veio me visitar.
                Comecei a passar mal, ela correu e chamou o médico. Ele me consultou e me passou alguns remédios.
                Quando eu era mais jovem, meu marido havia me dado um broche, o qual eu guardei e deixei para minha filha Carolina que um dia o daria de herança para Helena. Mas o marido de Carolina e minha neta Helena roubaram cada um uma parte do broche e o venderam. Mas eu o recuperei, sem que eles soubessem.
                Naquele momento, com Helena cuidando de mim, percebi que este era o dia para entregar o presente para ela. Então entreguei o broche,  ela me agradeceu e leu um dos seus castelos para mim.
Teodora (vó de Helena)
(Laysa, Christian, Cintielen e Karina – 9.º A)

Diário 13
Diamantina, algum dia de 1894
                Hoje de manhã acordei em Diamantina e Helena não estava na cama. Fui para o quarto de minha mãe e percebi que a sua cama já estava arrumada.  Possivelmente mamãe já se levantara há algum tempo. Lá Helena também não estava. Fui para a cozinha. Logo no corredor senti o cheirinho de café fresquinho. Assim que entrei na cozinha percebi que Helena também não estava lá. Perguntei para minha mãe e ela disse que Helena estava na casa da vovó.
Tomei café e fui pra lá. Assim que cheguei na varanda, avistei Helena deitada na rede, olhando para o céu, com seu livro ao lado. Deitei do lado dela e começamos a conversar. Ela me contou que vovó tinha lhe devolvido o broche que minha própria irmã havia vendido. Percebi que, mesmo assim, Helena estava triste. Será que é por que não achou mais sua galinha? Comecei a conversar com ela, lembrando os momentos que tivemos juntas. Helena olhou dentro dos meus olhos, respirou fundo e me abraçou com o sorriso de canto a canto. Levantamo-nos da rede e percebemos que as horas já tinham passado. Enfim, voltamos para casa juntas.
Luisinha (irmã de Helena)
(Andressa Sabino, Karolayne, Carlos Emanuel e Josias – 9.º A)

Diário 14
Diamantina, algum dia de 1894
                Helena é minha neta preferida, tudo que eu tenho compartilho com ela e, de alguma forma, tento ajudar em qualquer coisa.
                Ela adora me fazer companhia e, apesar de aprontar um montão de coisas, no fundo, ela é uma boa pessoa. Faz de tudo para ganhar vantagem e até aprontou com sua irmã para isso.
                Quando comecei a ficar doente, senti que não me resta muito tempo de vida e que Helena ficou muito triste e preocupada. Mesmo assim, ela tenta permanecer forte e conta histórias para mim. Dei um broche para ela e tenho certeza de que, quando eu partir, isso vai ser uma forma de Helena se lembrar de mim e seguir em frente.
                Espero que ela seja uma menina com um futuro brilhante, carinhosa, em busca de coisas boas e que nunca se esqueça de quem ela realmente é.
Teodora (vó de Helena)
(Livia de Jesus, Erica Charles, Carlos Eduardo Xavier – 9.º C)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O lirismo nos desenhos de Tatiane de Jesus Santos, Carlos Daniel de Souza Warol de Siqueira e Leticia Siqueira da Silva

Eles estão nas salas de aula de sua cidade. Numa olhada distraída, talvez passem despercebidos. Mas estão lá: os artistalunos do desenho, dos poemas em forma de imagem, da poesia que não necessita de palavras. Costumam ficar nos fundos da sala, não para bagunçarem  a aula; quase sempre, preferem o anonimato entre os professores, apesar de, muitas vezes, já serem artistas consagrados entre suas turmas de amigos, se recolhem à sua atividade artística extracurricular no fim de atividades regulares (ou, cuidado!, antes do fim dos deveres!) – nos cantos das salas, podem fazer isso mais à vontade, sem o olhar muitas vezes inquisidor do professor. Outras vezes,  posicionam suas carteiras mais à frente, mas mantêm o dom secreto oculto em pastas e cadernos de desenhos, que seus amigos conhecem, mas que é assunto quase proibido na proximidade das vistas do professor. Seja nos fundos da sala ou bem à nossa frente, eles estão nas salas de aula de nossa cidade e trazem uma arte jovem,  rica em referências geek numa renovação constante do universo pop contemporâneo, do transitório ao atemporal, arte plástica brilhante que merece ser destacada! São os artistalunos do desenho. Hoje destaco nesta postagem três desses geniais artistalunos, descobertos neste ano, nas salas de nonos anos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, da região rural de Teresópolis/RJ. São eles:  Tatiane de Jesus Santos, do 9.º A,  Carlos Daniel de Souza Warol de Siqueira, também do 9.º A, e Leticia Siqueira da Silva, do 9.º C.
Leiamos seus desenhos, seus poemas em forma de imagens, suas poesias que não necessitam de palavras, amigos leitores! Bem-vindos ao admirável universo novo dos desenhos sonhados por 3 fodásticos artistalunos!

Desenhos de Tatiane de Jesus Santos


























Desenhos de Carlos Daniel de Souza Warol de Siqueira




Desenhos de Leticia Siqueira da Silva
















segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Sobre estrelas líricas que brilharam e continuam a brilhar: Os formidáveis poemas e cartas antigos e atemporais de Izabela Araújo

Dia 11 de setembro pode ser relembrado como um dia trágico, no qual um atentado terrorista ceifou vidas inocentes, mas também é o dia de se reerguer dos escombros, sobreviver às violências diárias e mostrar que ainda há esperança, ainda há poesia! Dia 11 de setembro também é um dia mágico, especial, pois foi nesse dia que nasceu a jovem e talentosa escritora Izabela Souza de Araújo, para quem tive a honra de dar aula em 2010, quando ela completava com louvor e brilhantismo o ensino fundamental na saudosa Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira, em Três Córregos, Teresópolis/RJ.
Izabela foi uma aluna exemplar, teve seus altos e baixos como todos têm na adolescência (nos dias de mau humor dela, tremei, amigos!), mas sempre demonstrou dedicação e um lirismo natural. Sim, ela não acreditava muito no potencial imenso que possuía, mas era uma escritora nata e, nas vezes em que vencia a resistência e descrédito inicial (só no fim do ano de 2009, quando ela cursava o oitavo ano que consegui convencê-la do seu potencial - depois foi só luz e poesia!) brilhava na escrita. Compartilho minhas solidões líricas com alguns maravilhosos e fodásticos textos de Izabela Araújo, escritos, entre 2009 e 2010, no tempo em que ela brilhantemente frequentava e cumpria as atividades de produção das saudosas turmas de 8.º e 9;º Ano da também saudosa Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira, em Três Córregos, Teresópolis/RJ. Os temas e gêneros são variados, demonstrando o brilhantismo eclético da ex-escritoraluna – vão desde poemas para a lua (sim, esse poema recebeu menção de destaque em concurso literário de 2010) e para as árvore a carta-protesto de requerimento ao Secretário Municipal de Obras de Teresópolis em 2009 (sim, tal carta, juntamente com outras de outros escritores-alunos da época, foi entregue em mãos naquele ano, chegando a receber uma carta-reposta agradecendo a atitude cidadã – só não sei dizer se algo foi feito ao lago Iacy, pois há tempos não passo por lá). Espero que a ex-escritoraluna e atual escritoramiga Izabela Araújo me perdoe por revelar tais saudosos e fodásticos escritos – trago sempre o lema de que o que é mais que fodástico e maravilhoso de ser lido pode e deve ser compartilhado (se ela discordar, essa postagem perecerá em breve – tomara que não! Oh, Deuses da Maravilhosa Escrita, por favor, não!
Parabéns, Izabela Araújo, por ter feito e até hoje fazer história e arte entre as constelações líricas que mantém o caminho da vida brilhante para a continuação da esperança e do amor à natureza e à poesia.
Boa leitura, amigos leitores! Arte Sempre!

Minha lua

Minha linda lua
Como és bela
Teu sorriso, tua cratera
Oh, como és bela
Por favor, me libera!

Preciso de sua luz
Sem ela eu não vivo
Sem ela eu não sou ninguém
Por favor, me dá tua luz...

Queria poder te tocar
E de alguma forma te sentir
Como não posso, irei
Viajar em meus pensamentos
Até chegar a ti.
Izabela Souza de Araújo (na época, cursando o 9.º Ano)


Amiga da árvore

Te vi nascer
E de alguma maneira quero te ver crescer
Até que no chão tua semente caia
Para que possa em meu rosto
Um sorriso surgir, a alegria fluir.

As águas que em tua folha jorram
São as lágrimas que em meu rosto rolam.
Eu queria novamente ver os pássaros
Em teu galho cantando,
O vento em tua folha soprando
E a chuva teus pés molhando.

As árvores existem em todo lugar
Mas os homens, com seu egoísmo,
Querem matá-las
Enquanto vivo neste planeta
Quero a cada segundo tê-las.

O que posso fazer por ti
É tentar impedir
Aqueles que vêm destruir...

Prometo ao teu lado estar
E contigo lutar
Para que juntas possamos conquistar
As árvores que ainda vão brotar.
Izabela Souza de Araújo (na época, cursando o 9.º Ano)

 Teresópolis, 27 de novembro de 2009. 

Senhor Secretário de Obras,           

Primeiramente bom dia. Estou lhe enviando esta carta para esclarecer uma dúvida que tenho a respeito do lago Iacy: Por que o lago está praticamente seco e repleto de mato?           

O que eu não entendo é por que o lago secou se em uma placa no próprio diz que o lago Iacy foi “recuperado” em 2003. Só faz 6 anos e o lago já está nesse estado. Me desculpe, mas se ele está assim é porque não tiveram o cuidado que era pra ter tido. Se vocês não querem reconstruir o bendito lago, pelo menos tirem as placas dizendo onde ele fica, e, no lugar delas, botem outra placa dizendo que não existe mais o lago Iacy e o motivo. Enganar um turista não é ser humano e muito menos educado, é ser “mentiroso”.           

Mas como eu sei que não é o caso, espero uma providência.           

Ass.: Izabela Araújo (Turma 801)