quarta-feira, 16 de maio de 2018

O momento literário em que fui minha mãe: Memórias de meus tempos (na verdade, os tempos dela) de fábrica


No último domingo, dia 13 de maio, foi Dia das Mães. Devido a essa data comemorativa superespecial, lembrei-me de um texto que eu escrevera há alguns anos atrás, utilizando como personagem narradora em 1.ª pessoa a minha mãe Vanda Silva Barbosa.
Na época (julho/agosto de 2012), o Sarau Solidões Coletivas vivia tempos áureos e tínhamos uma parceria fodástica com o outrora recém-ressuscitado (hoje, mais uma vez, ‘falecido’) Jornal Valença em Questão (VQ). Meio que a pedido (na verdade, fiz a sugestão, ainda meio sem saber como seria o escrito final, e o pessoal do jornal abraçou a ideia e me cobrou) de um dos principais articuladores do VQ na época, Vitor Castro, construí um texto de memórias, inspirado nas lembranças de minha mãe sobre a Valença de sua juventude e início de trabalho nas fábricas têxteis da cidade (na época, em ascensão; hoje, fechadas).  Para a produção do texto, utilizei técnicas parecidas com as apresentadas na Olimpíada de Língua Portuguesa e os métodos conhecidos dos escritores ghostwriters: entrevistei mamãe e, a partir das informações retiradas da entrevista somadas à percepção de marcas coloquiais da fala da entrevistada, elaborei o texto de memórias, me passando como protagonista-narrador por minha mãe. Ela possuía histórias maravilhosas do seu passado e considerei que tais narrativas orais mereciam ser passadas para a narrativa escrita.
Abaixo os amigos leitores poderão ler o texto de memórias que escrevi, o momento em que liricamente ‘fui minha mãe’. Espero que gostem. Abraços e Arte Sempre!

Memórias de meus tempos de fábrica

Não que eu seja uma daquelas pessoas que só vê o lado negativo das coisas; nem fica bem pra um ser humano ser assim, né? Mas confesso que às vezes me dá uma sensação estranha, meio que uma tristeza, quando vejo todas essas fábricas têxteis fechadas aqui em Valença. Elas fazem parte de minha história, de minhas memórias. Sou de um tempo em que essas fábricas moviam a economia da cidade; você saía de uma delas e logo em seguida já arrumava emprego em outra.
Me lembro bem de meu início de trabalho nessas fábricas. Acho que foi nos idos de 1969 quando comecei a trabalhar em fábrica (me desculpe, mas faz muito tempo e a gente sabe como é a nossa memória: às vezes ela engana a gente e recria as nossas histórias). Fazia um ano que papai tinha morrido, éramos 11 pessoas na família numa casa grande na roça e precisávamos ajudar nas finanças da casa. Como eu já tinha completado 14 anos, mamãe conseguira uma vaga na Fábrica da Chueke pra mim (sim, é aquela mesma onde fica a Richards hoje em dia).
Eu morava no Cambota. Naquele tempo, o bairro não era asfaltado; ainda havia até os trilhos de trem na estrada. Como não havia mais trem por lá, colocaram até um ferro pra impedir a passagem deles nos trilhos – minha irmã Maria e eu já nos machucamos passando por ali naquela época. Tenho a cicatriz até hoje, bem aqui nessa perna, veja só. Pra chegar na Chueke, andava quatro quilômetros e meio e trabalhava na noveleira – aquela que fazia os rolos - das cinco da manhã até uma da tarde. Trabalhei apenas um mês lá, pois mamãe achava ruim eu caminhar tão mocinha pela estrada de madrugada.
Mamãe optou por me colocar na Fábrica de Renda e Bordado, em frente ao que hoje é a Metamorfose, pois minha irmã mais velha, a Yara (na época com 20 anos de idade) trabalhava lá e assim poderíamos sempre ir juntas ao trabalho. Lá trabalhei na máquina automática de fiação durante um ano e pouco. Todas as meninas da família, minhas irmãs, trabalharam lá, com exceção da Dinah, minha irmã mais nova. Como eu dissera antes, a história dessas fábricas fazia parte da trajetória de trabalho de nossa família, de nossa luta pela sobrevivência sem papai aqui para nos amparar – tínhamos que manter nossa casa, dar boas condições para mamãe e para nós mesmas.
E deu tudo certo, graças a Deus! Após a Fábrica de Renda e Bordado, trabalhei na Fábrica Progresso e na Santa Rosa. Não faltava trabalho em fábrica naquela época.
Como os tempos mudam. Hoje, se você não quer ficar desempregado, tem que buscar vaga no comércio, que, naquela época, era quase inexistente. As pessoas saíam de Valença pra comprar as coisas, nenhuma loja grande durava na cidade por muito tempo. Agora, está tudo mudado: o comércio cresceu muito e todas as fábricas nas quais trabalhei fecharam. Fico impressionada com essas mudanças bruscas; se bem que eu adoro passar no centro e poder fazer minhas comprinhas sem ter que sair da cidade. Como disse, não se pode ver só o lado negativo das coisas.
Ah, mas tinha uma coisa que eu não gostava nem um pouquinho da época em que trabalhava em fábrica: como eu era menor de idade, meu salário era muito mais baixo que de um trabalhador maior de idade. E tinha que dar a mesma produção [atingir as metas] que os mais velhos, veja só! Era uma pressão danada, eu me virava, até dava produção, mas não passava da meta. As colegas que davam produção maior às vezes me ajudavam. Não posso esquecer jamais da minha amiga Zilma, que, na época da Santa Rosa, dava produção e ainda me ajudava pra que eu alcançasse a minha meta.
Atitudes como essa não acontecem muito hoje em dia, com todas essas câmeras internas, com todo esse desespero para se manter no emprego. Hoje é mais cada um por si. Mas acaba que, pensando nas fábricas de Valença hoje em dia, não há nem união, nem cada um por si, afinal, não há mais fábricas como antigamente por aqui. Às vezes, vem gente me dizer que foi por causa do sindicato que as fábricas fecharam, mas eu não sou boba: na década de 1990, a Santa Rosa, por exemplo, muito antes das brigas com o sindicato, já funcionava meia boca, pagava os funcionários com atraso; esse negócio de ficar culpando os outros pelos nossos próprios erros é uma atitude que eu não aceito, sempre fui muito honrada e não gosto de mentira e covardia. Que cada um admita o seu defeito, conviva com seus pecados e arrume um jeito de encontrar a sua redenção.
É... parece que pecamos demais como cidadãos valencianos e nada de acharmos uma redenção. Continuamos votando errado, trocando voto por saco de cimento, dentadura, um dinheirinho e quem paga a conta somos nós mesmos: aí estão as fábricas fechadas, Valença estagnada, um cenário triste que não me deixa mentir. A cidade tinha tudo pra dar certo, não tinha? Mas não dá. Ver as fábricas fechadas me faz pensar em tudo isso, me faz relembrar – se a gente não tiver memória, como vamos conquistar um futuro melhor para nossa terrinha? Mas, já disse isso e nunca custa lembrar, não devemos trazer na cabeça só coisas negativas, a gente fica até doente assim, não é verdade? Tenho fé em Deus que um dia Ele vai iluminar a cabeça da minha gente e o povo vai se conscientizar. Sim, um dia, a gente vai usar a memória pra funcionar, aprender com nossos erros e ver nossa cidade voltar a crescer!
(Texto escrito por mim, baseado nas memórias de minhaa mãe, Vanda Silva Barbosa, publicado anteriormente no Jornal Valença em Questão n.º 43, de Agosto de 2012. Texto também acessível no link: http://blogdovq.blogspot.com.br/2012/08/vq-n-43-memoria.html)



sábado, 12 de maio de 2018

Solidões Compartilhadas: A Premiada Vida e O Emblemático Viajante do Futuro de Débora Branco


Há 2 dias atrás (10/05), a fodástica poetamiga teresopolitana Débora Branco fez aniversário.
Conheci seus poemas na época em que ela ainda era estudante na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, em 2014. Eu ainda não lecionava Português na turma dela (isso só aconteceria no ano seguinte), mas, por recomendação de vários artistalunos, voltei minha atenção para sua poética e, assim, conheci um de seus mais formidáveis poemas, “Vida”, já publicado aqui no blog (e relembrado nesta postado junto de outros). Diante do fodástico poema, não resisti e, mesmo Débora não sendo minha aluna, apadrinhei seu lirismo e enviei seu poema para disputar a Categoria Juvenil do Concurso de Poesia da Alap (Academia de Letras de Paranapuã) de 2014, no Rio de Janeiro/RJ. Não deu outra: o poema “Vida” de Débora Branco foi laureado com Medalha de Ouro no certame literário daquele ano!
Em 2015, Débora Branco esporadicamente me entregou uma série de poema, entre eles - outro que destaco nesta postagem – o intrigante, emblemático “Viajante do futuro”, cheio de referências literárias e reflexões filosóficas (marca principal dos escritos poéticos da jovem escritora). Como uma “viajante do futuro”, Débora sempre esteve liricamente à frente de seu tempo, com uma poética madura e sublime. É sempre uma honra compartilhar minhas solidões poéticas com essa fodástica e merecidamente premiada escritoramiga.
Fiquemos com a vitoriosa “Vida” e as passadas viagens “do futuro” de Débora Branco, amigos leitores!

Vida

Às vezes penso em acreditar,
Mas prefiro sonhar.
Às vezes quero correr
Em vez de caminhar.

Não penso no distante futuro,
Apenas no imediato amanhã;
Hoje foi descoberto,
Hoje o presente,
Amanhã o mistério.

Mas a vida nos surpreende
Em cada minuto,
Enfim somos
Apenas marionetes do absurdo da vida.
(Poema de Débora Branco, premiado com Medalha de Ouro, na Categoria Juvenil do XXV Concurso de Poesia da ALAP [2014])




O viajante do futuro

Quem é esse?
Um viajante do futuro?
Quando olhares para o futuro o que verás?
Tantas perguntas e tão poucas respostas.
Não se preocupe com as perguntas
E sim com as respostas.

Mas que mistério há nesse viajante...
Sabe todos os segredos da vida,
Tantas vividas e tão pouca sabedoria,
O mundo gira, a tristeza fica
E uma nação na solidão.

Não desiste do impossível,
Não deixe de descobri-lo.
O que é a ilusão?
Uma armadilha do destino
Ou a última solução?

Esta é a cicatriz que o tempo nos deixou.
Sabes quem é o viajante do futuro?
O próprio tempo que nos adiantou!



terça-feira, 8 de maio de 2018

Solidões Aniversariantes Compartilhadas: O Coração Acelerado de Laura Evangelista


Ontem foi meu aniversário, mas os grandes presentes me aparecem todos os dias de todas as formas: na poesia infinita na folha finita escritos por mãos amigas que desenham inúmeros sonhos e me trazem a visão de um milhão de céus. Sim, além da escrita, os maiores presentes que recebo e percebo no dia a dia, nesses 39 anos de líricos, antilíricos, sãos e loucos dias a dias, são as leituras de novos sonhos, escritos por outros eus em mim, escritos por outros eus em desconhecidos, em artistamigos, em artistalunos, em ex-artistalunos, em novos artistamigos. Essa frequência poética, esse giro lírico que mantém o nosso mundo vida dia a dia, muito além do mundo planeta cientieficienticida. E isso me faz lembrar que ontem, dia 7 de maio, não foi apenas meu aniversário, mas também da superfodástica e intensa prosapoetamiga teresopolitana Laura Evangelista, que há menos de um mês me presenteou, confiando-me uma de suas prosas poéticas mais recentes e, segundo ela, “uma das melhores” que ela escreveu (sim, amigo leitor, você lerá e entenderá a poética irrefreável e segura dessa afirmação.
O novo poema da ex-artistaluna, madura nova artistamiga Laura Evangelista traz erotismo sem medo temperado com romantismo à flor da pele, num transbordamento de emoções e lirismo que só os escritores capazes de expor a alma nua e sem pudor são capazes de escrever! Quando ela me confidenciou seu novo escrito, luzes líricas e portentosas incendiaram a noite outrora sem poesia e inundaram meus olhos leitores com a satisfação da leitura de um poema intenso, de sentimentos harmoniosamente turbulentos e imensos, potentes, fodásticos!
Ontem foi meu aniversário e também o aniversário da superfodástica Laura Evangelista, mas quem ganha o presente, a mais carnalmente sublime oferenda lírica, a mais fodástica prosa poética de Laura Evangelista, é você, amigo leitor!

Acelerado (Laura Evangelista)

Às vezes eu queria ter coragem de olhar nos teus olhos e te dizer tudo que tá entalado em mim e que grita pra sair sempre que te vejo, sempre que ouço tua voz, que vejo teu sorriso: eu amo você, amo você com todas as letras que a palavra amor tem, eu amo você, com toda dor que a palavra amor pode causar em alguém, eu amo você, em cada acorde de música romântica que eu escuto eu penso em você, nos teus doces olhos castanhos, eu me pego te amando a cada amanhecer que abro meus olhos e meus pensamentos se direcionam a você, a cada vez que te pego me olhando, sorrindo ou até mesmo não fazendo nada. Teus lábios ainda formigam a minha boca e meu coração acelerado ainda me faz questão de lembrar em como teu beijo é o lugar no qual eu gostaria de morar, teus lábios tão macios e gostosos encaixados nos meus, enquanto meu coração batia freneticamente gritando pelo teu nome e o quanto eu queria que nunca acabasse, tuas mãos nas minhas, tens o encaixe perfeito e todas as vezes que eu fecho meus olhos eu vejo você deitada na minha cama completamente nua enquanto se entrega de corpo e alma pra mim e deixa eu te amar como se fosse a primeira e última vez. Meus pensamentos teimam em acreditar que você está aqui comigo e que um dia será apenas eu e você nos amando embaixo da lua, no nosso cenário perfeito, meus beijos pelo teu corpo, enquanto você se remexe pra mim, enquanto teu corpo tá em êxtase pelo desejo que eu causo em você, pelo brilho dos teus olhos e pelos gemidos da tua boca, teu corpo tremendo em puro desejo pelos meus dedos te tocando por completo, tocando tua alma, te enxergando por dentro, curando teus monstros internos com meus beijos que te reiniciam por inteiro, cuidando de você, amando você. E, com o tempo, aprendemos que o amor é isso, é mais do que somos por fora, é algo que vem de dentro, que cura, que reinicia, que completa, o amor é o que eu sinto por você, o amor é o que me faz me apaixonar por você a cada dia que passa, o amor é o que me dói e, ao mesmo tempo, me constrói, o amor é o que futuramente vamos viver, eu e você!



sexta-feira, 4 de maio de 2018

O Abraço Mais Quente para o Eterno Retorno, a minha Volta ou a Volta dos que jamais foram


Faz um bom (ou mau?) tempo que não venho aqui (mais uma vez sumido, mais uma vez...). Os motivos são diversos, o amigo leitor pode até escolher: um período contemporâneo estranho, cheio de extremismos e imensos vazios, que me afastou da poesia cotidiana; o cansaço; um certo bloqueio criativo; crises existenciais repentinas; estranha sensação de breve tristeza infinita como agulha fina e invisível perfurando o corpo e a mente lentamente – há um turbilhão de problemas que quase todo ser humano anda passando e eu também, eu talvez com mais intensidade, talvez não (sem medições; somos tendenciosos a sempre julgarmos sofrermos mais que os outros e está todo mundo no mesmo circo de horror, revendo as mesmas terríveis atrações: queda de valores humanos, terror do violento cotidiano, temor diante da involução humana, corrupção, carga de trabalho sempre acima da nossa capacidade, solidão na multidão composta por indivíduos que assim como nós sente a mesma sensação, etc, etc).
Passei várias vezes pelo blog, pensando em como recomeçar: desabafando? Desabando? Ignorando o sumiço? Criando outra persona? Deixando pra lá? E assim o tempo, ser workaholic  que não se deixa abalar para os dramas dos mortais ao seu redor, seguiu seu percurso acelerado e nada de eu, nada de recomeçar as postagens.
Porém, contudo, todavia,  quando nos pegamos completamente perdidos, numa frágil fortaleza de solidão, numa estranha ilha deserta sem mar ou areia, a arte nos resgata, nos chama pelo nome; super-herói mais poderoso, mesmo sem poderes e com tendências anti-heroicas, a arte sempre nos salva. Desta vez, veio pela mensagem amiga, via whatsapp: a divartistamiga Helene Camille me relembrou de um conto meu que sempre foi o seu declaradamente favorito entre os meus escritos: o “Amor é fogo que arde sem se ver” (sim, o título é uma irônica referência a um soneto de Camões) e me mostrou uma versão em curta metragem dele que ela produzira, com o apoio de artistamigos dela, conforme poderão conferir na descrição que ela fizera ao postar o vídeo (e que eu reproduzo na íntegra mais abaixo nesta postagem).
Diante da maravilhosa e lírica homenagem a um conto-filho meu, finalmente achei uma motivação, uma desculpa pra retornar ao blog. Compartilho nesta postagem minhas solidões poéticas com Helene Camille e todos os demais artistas envolvidos na produção do curta. Para isso, trago o conto-filho inspirador e a fodástica versão cinematográfica idealizada e produzida pela divartistamiga Helene Camille.
Em resumo: estamos de volta aos diários de solidões coletivas, amigos leitores! Espero que gostem desse novo eterno retorno!

Amor é fogo que arde sem se ver

                Cego pela solidão que se arrastava pelos móveis, espalhou álcool sobre a mesa fria, sobre o sofá antiquado, sobre a biblioteca de livros empoeirados, sobre o guarda-roupa de sobretudos guardados para encontros que não se consumaram.
                Acendeu o fósforo e, com olhos de criança travessa, observou as chamas consumirem a casa.
                Pela primeira vez, o triste homem sentiu calor. Feliz com o sentimento inédito, acendeu um cigarro e deitou-se de olhos fechados no chão incendiado.

“O Abraço mais Quente”:
O curta de Helene Camille, inspirado no conto “Amor é fogo que arde sem se ver”

Comentário de Helene Camille sobre o curta metragem:
“É uma das minhas mais recentes experimentações na vida é o cinema. Não como espectadora, mas como produtora kkkkkkk. Não bastando isso, ainda arrasto meu aluno-ator, Gabriel Pompeu, com seu talento mais do que comprovado no teatro, sob a batuta de meu queridíssimo Fernando Mattos. Contudo, a qualidade da imagem não é uma das melhores porque minha câmera fotográfica está completamente obsoleta, o que não dá ao meu ator o brilho que ele merece. Este então é a minha primeira obra: O Abraço mais Quente", tem exatos 59s, pois o exercício que o curso que o Laboratório Kumã, da UFF, propôs para os alunos que filmássemos um "Minuto Lumier" em homenagem aos irmãos Lumière. Então adaptei o microconto "Amor é fogo que arde sem se ver", de meu amigo valenciano, Carlos Brunno S. Barbosa, para a telinha minúscula de minha NIKON amada com o a ajuda luxuosa de Mirela Cesária e da queridíssima Carla Verônica Cesaria.”

sábado, 7 de abril de 2018

O Neo Romantismo Serrano


Nas últimas décadas do século XVIII, um movimento artístico, político e filosófico chamado Romantismo conquistou a Europa e, depois, o mundo, pregando uma visão de mundo contrária ao racionalismo e ao iluminismo.
A arte do sonho e da fantasia, com autores cada vez mais subjetivos, voltados para si mesmos, para o drama humano, para os amores trágicos, para os ideais utópicos e para os desejos de escapismo, tornou-se um sucesso na Literatura da época.
Agora, logo no início de 2018, os poetalunos do 2.º Ano do Ensino Médio do Centro de Ensino Serrano, em Teresópolis/RJ, estudaram esse antigo movimento literário e, com poemas de sua autoria, iniciaram um novo movimento: o Neo Romantismo Serrano. Eis alguns desses novos poemas:

Por você eu choro,
Por você eu morro.
Você é o brilho,
O brilho que me traz paixão.
A paixão que eu sinto
É maior que o Mundo,
Esse imenso Mundo
Com tantos perigos...
Estou aqui por você.
Lucas da Costa Pinto Cabral e João de Oliveira Neto
Paris é bela de noite e de dia,
como os olhos de uma criança.
Tudo passa, mas a solidão não.
O amor nasceu,
mas quase morreu,
como um judeu na Alemanha de Hitler.
Então, amada, não perca tempo
e venha me amar
que estou te esperando
no mesmo lugar.
Thalita Dias Pereira e Gabriel Correira Fernandes


Desde o primeiro dia em que te vi
Sabia que eras minha.
Olhares fumegantes
Derreteram meu coração de pedra
E acabaram contagiando
Todo o meu corpo e alma.

Mas olhares aterrorizantes
Infectaram meu olhar sublime e doce.
No final, sempre dá o esperado:
Felicidades de um inferno
E o coração partido do outro.
Giorgio Alessandro Ferreira da Cunha Filho e
Maria Antônia Sequeira Gomes
               
Melancolia

Sem ti não dá pra viver.
Como explicar o que sinto por ti?
Essa dor que me mata aos poucos...
Sem você eu fico louco!

Não dá pra negar
O brilho que vejo em teu olhar.
Fica ofegante a minha respiração
Só de pensar na dor de te amar.

Daqui a pouco vou morrer
Sem poder te dizer
O que sinto por ti.
               
Essa melancolia
Que intimamente me guia
No dia a dia,
Não me deixa parar de pensar
Que nunca vou deixar de te amar.
Letícia Cardoso de Lima e Letícia Alves de Medeiros

domingo, 25 de março de 2018

Karina Silva, uma garota, um poema (alguém que como eu ama Nirvana e Ramones)

Hoje esbarrei com a artistamiga Luana Cavalera e ela me lembrou de que hoje é um dia muito especial: é dia em que os deuses da poesia comemoram mais um aniversário de vida da fodástica artistamiga Karina Silva. Isso me fez lembrar de como ando atribulado e esquecido (como pude me esquecer de tão importante data?), me fez lembrar de que não vejo minha amiga e parceira lírica há tempos, de que há tempos não realizamos os outrora tradicionais e undergrounds Saraus Solidões Coletivas, de que há tempos não escrevia; o aniversário de Karina me fez lembrar de mil coisas líricas e bonitas que há tempos eu esquecia.
Por isso, o poema de hoje é dedicado a ti, Karina, e a todas as musas líricas que nos salvam do esquecimento da poesia que resiste a crueza atarefada do dia a dia. Feliz aniversário, Karina, comemoremos com poesia!

Uma garota que, como eu, ama Nirvana e Ramones

Seus cabelos são vermelhos
Como os de Sonja, a Guerreira,
Como os da Viúva Negra,
Como os da andróide rebelde e confusa
De Ghost in the Shell.
Ela é todas as musas ruivas e fatais
De um paraíso nerd inabalável.

Já foi cavaleira de famoso reino zodiacal,
Já foi aventureira do universo espectral,
Já transpôs todas as barreiras entre o mundo físico e o astral.

Não ouse invocá-la sem cachaça e violão.
Não lhe ofereça carne ou corrupção.
Deixa a natureza fluir
Em seu coração,
Ame gatos, cães e urubus
E terá sua benção.

Ela é uma canção reggae com guitarras grunges em kamikaze distorção,
Ela é a neta mais querida do homem que nasceu há mais de mil anos atrás,
A defensora de Atenas e da liberdade de lutar e sonhar,
É uma garota que, como eu, ama Nirvana, Ramones e a coletiva solidão,
É minha amiga Karina, heroína, musa, rainha,
Estrofe inédita repetida
Por coros de anjos loucos que defendem dos frutos proibidos a libertação,
Ela é a paz contida
No olho de um sereno  furacão,
Ela é um poema tranquilamente aflito,
Cujos versos lindos sempre me trazem a salvação.

sábado, 10 de março de 2018

Neve Quente no Verão Chuvoso de minha Existência: Balada de inverno para minha mãe biológica Barra do Piraí


Há pouco estive andando (virtualmente, claro) pelo facebook e li uma mensagem de meu pai, Carlos Fernando, me lembrando de que neste dia 10 de março comemoramos o aniversário de Barra do Piraí/RJ, minha cidade de origem.  Hoje é outro sábado chuvoso (parece que escolhi bem em fazer uma espécie de recolhimento nesse fim de semana como fiz no anterior), não estou com a menor vontade de sair, alterno meu tempo entre correções (a vida de professor já é árdua – mais árdua ainda é a do de Português, Redação e Literatura – pelo menos os textos e avaliações que ando corrigindo têm sido ótimos, ufa!), assistir séries que eu curto (encerrei a maratona de temporadas de “Better Call Saul” [sim, aquela do advogado que aparecia em “Breaking Bad” – sabe como é, uma série puxa outra, etc] e as de super-heróis da DC do canal CW [ok, é meio supernovelinha, mas o prazer de ver os meus heróis favoritos dos quadrinhos em live action, ah, não tem preço, curto muito]),  ler um pouco e ouvir música, alternando novos e velhos CDs como David Bowie, Nirvana, Caetano & Gil, Pitty, Paralamas do Sucesso, Pearl Jam, Zumbis do Espaço, Biquíni Cavadão e Lana Del Rey (sim, meu gosto é mais rock, mas ouço de quase tudo um pouco). Bem, e o que isso tem a ver com o aniversário de Barra do Piraí, a cidade onde nasci? Não sei, mas parece que o clima, o momento, tudo contribui para que eu compartilhe hoje o meu único poema que fiz para a cidade que me originou.
Minha relação com Barra do Piraí sempre foi meio que a do filho pródigo: passei a infância por lá, a base de minha formação inicial foi lá, mas os momentos mais marcantes passei em viagens para a vizinha Valença (onde depois residi na adolescência, juventude e início da fase adulta e onde descobri a poesia, a arte escrita, tornando a Princesinha da Serra minha principal cidade afetiva), entre outros lugares; retornei à cidade natal nos anos 2000 para trabalhar e , um tempo depois, cursar Letras na Ferp-UGB (ou seja,  a cidade me deu a formação básica e a universitária), fiz muitos amigos, fui em bons shows lá, tenho boas lembranças das duas fases em que vivi lá, mas sempre que pude escapei para as cidades dos arredores e as mais distantes. Havia algo entre Barra do Piraí e eu que não se solucionava: havia poucos espaços culturais, raros interesses, momentos e lugares para eu realizar eventos artísticos, que é uma das coisas que mais amo fazer. Esse fato contribuiu para dar uma pitada de amargura (daquele tipo santo da casa não faz milagre) em nossa relação.
O poema que posto hoje “Balada de inverno para minha mãe biológica Barra do Piraí “ foi publicado em meu 9.º e mais recente livro “O Nada Temperado com Orégano (Receitas poéticas para um país sem poesia e com crise na receita)” (2016) e foi escrito nesse processo de idas e vindas à cidade – sempre considerei esse poema em um estado meio de incompletude, mas ficou assim mesmo, talvez sua completude seja parecer incompleto. Esse poema já deveria ter ido para a panela do meu quinto livro “Eu & Outras Províncias – Progressos e Regressos” (2008), por mais que fosse um corpo estranho no livro que mais homenageio minha cidade afetiva Valença, mas não ficou pronto a tempo. É quase um poema-resposta aos queridos amigos barrenses (queridos mesmo, sem ironia – amo demais meus amigos da cidade onde nasci, cresci e, após um hiato, voltei e me formei professor de Português) que me cobravam em minha poética uma identidade mais barrense (esta acabava ficando meio oculta em meu lirismo pelo fato-mágoa de jamais ter conseguido desenvolver um projeto lírico sólidaona cidade onde nasci). O poema é quase que um confessionário de culpas e desculpas entre a cidade onde nasci e eu, sempre mais identificado com Valença, e traz um tempero inédito, com versos-molhos antigos conservados em novos olhos-óleos, um gostinho a mais no mexido de moshs mesclados outrora mantidos no armazém do esquecimento.
Feliz aniversário, Barra do Piraí, cidade onde nasci, Arte Sempre e boa leitura, amigos leitores!

Balada de inverno 
para minha mãe biológica 
Barra do Piraí

É tarde, Barra do Piraí...
Surpreendo-me envelhecido,
irreconhecível em teu colo frio
nesta noite de calor.
Apresentas-me a tua nova pele pálida,
tuas novas máscaras geladas
de dama enrugada pintada de lua nova
na noite de gala de volta ao nada,
ainda exibindo a face cortada por trens agora privatizados
que continuam atravessando sua pele pública
e cansada das lidas diárias.
A maquilagem não apaga tua inusitada frigidez ardente,
impassível Barra do Piraí,
apenas renova minhas antigas tristezas
de querer ser teu e parecer nunca te pertencer
- fiz vários poemas para ti, mas tu nem viste,
preferiste o barulho das fábricas, o crescimento do comércio,
enquanto meu lirismo adormecia em teu descrédito
a poemas de filho biológico criado em horizontes estrangeiros...
Somos conhecidos, convencidos,
fingidos estranhos, musa mãe muda mudada Barra do Piraí,
e por isso essa saudade de reuniões familiares que tivemos,
mas não aproveitamos
e por isso essa tempestade plácida de pedra que nos amolece,
somos um mundo de palavras não ditas,
um ciclo de travessias incompletas;
és minha identidade turva,
como as águas de nosso rio Paraíba do Sul
e eu sempre te nado de volta, Barra do Piraí,
mas continuamos afogados nesse ir e vir,
cúmplices culpados pelo crime de não nos admitir,
ouvindo um ao outro,
mas sempre fingindo não nos ouvir.
É tarde, Barra do Piraí,
mas continuamos aqui,
tu próxima distante em mim
e eu conservando traços que nego,
inegavelmente vindos de ti,
por isso essa balada agridoce de paixão amarga,
por isso essa volta desengonçada,
por isso nos reencontramos aqui,
eu também te amo, Barra do Piraí,
pode ser tarde pra dizer,
mas é sempre tempo de sentir.
É tarde, nós sabemos,
mas ainda é tempo, há tempos, há tempo, Barra do Piraí!