quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Arte com Xadrez: Luz, Câmera... Alcino! no Reino do Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro com o Homem Enxadrista que Sabiamente Calculava


Recebi com felicidade a notícia de que, capitaneados pelo Professor de Educação Física, Treinador, Enxadrista, Maratoneiro, Mestre Poetatleta Genaldo da Silva Lial, vários jogadores artistalunos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva representarão esta unidade escolar na qual leciono no Torneio de Xadrez que acontecerá amanhã, de manhã e de tarde, durante o tradicional evento (que ressurge após um breve hiato de alguns anos) dos Jogos Estudantis de Teresópolis/RJ. Tal notícia me fez lembrar que ainda não compartilhei com os amigos leitores do blog o texto do esquete teatral escrito por mim, neste ano de 2019, para o tradicional e popular Torneio Xeque Mate, que ocorre há 9 anos na escola (sendo que o nosso grupo teatral escolar, chamado Luz, Câmera...Alcino!, tem a honra de apresentar um esquete de abertura – sempre inédito e envolvendo de forma direta ou indireta a literatura, os quadrinhos, a cultura pop, a sátira a assuntos contemporâneos e o xadrez -  há 5 edições do maravilhoso evento esportivo), nem o vídeo com a encenação e sua ficha técnica, nem o vídeo documentário produzido após a apresentação.

Ciente desta ausência, preenchemos as lacunas e trago aos amigos leitores o esquete "Luz, Câmera...Alcino! no Reino do Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro com o Homem que Sabiamente Calculava", obra satírica escrita por mim e livremente inspirada no conto do xadrez do livro "O Homem que Calculava", de Malba Tahan, + poema de Gregório de Matos + poema de Genaldo Lial, o vídeo com as duas apresentações do Luz, Câmera...Alcino! 2019 e o divertido documentário gravado após a apresentação pelos próprios artistalunos envolvidos no esquete.
Espero que os amigos leitores do blog curtam o esquete em seus vários formatos e se divirtam e se encantem como nós com a magia da arte e do xadrez (e lembrem-se de torcer pelos nossos queridos enxadristas artistalunos amanhã de manhã e de tarde na disputa esportiva interescolar de xadrez).
Boa Diversão! Alcino, Educação, Esporte e Arte Sempre!

Esquete “Luz, Câmera... Alcino! no Reino do Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro com o Homem Enxadrista que Sabiamente Calculava”, o texto
Personagens:
BEREMIZ
MALBA TAHAN_
JÚLIO CÉSAR DE MELLO E SOUZA
DIRETOR
CONTRARREGRA
NARRADOR/SANDMAN
SERVA DE VÉU 1
SERVA DE VÉU 2
REI IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO PRIMEIRO
SÚDITO QUARTZO LORENZETTI
DIPLOMATA PEDRERNESTO
PROFESSOR DA ALEGRIA
CHEFE DA GUARDA
GUARDA 1
GUARDA 2
POETA
DICIONÁRIO VIVO
LAHUR SESSA
CORINGA
ARLEQUINA
CONTADOR GUEDIM

No palco, mais para trás, estarão as duas Servas de Véu segurando um lençol/pano ocultando parte do cenário (que será onde acontecerá os eventos principais – atrás do lençol/pano estará o Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro em trono e uma mesa). Mais ao lado, NARRADOR/SANDMAN dorme. Os primeiros personagens se apresentarão à frente desta imagem.

BEREMIZ (orgulhoso): Bom dia, senhoras e senhores, sou Beremiz, um grande calculista persa, e a peça a qual vocês assistirão hoje é inspirada em um conto, uma história curta e inventada, que eu contei ao grande califa Al-Motacém.
Entra Malba Tahan
MALBA TAHAN (empurrando Beremiz): Mentira! Senhoras e senhores, sou Malba Tahan, o famoso escritor árabe, e a peça a qual vocês assistirão hoje é inspirada em um conto escrito por mim. Beremiz é apenas um personagem que eu criei para meu livro “O Homem que calculava”.
Entra Júlio César de Mello e Souza
JÚLIO CÉSAR DE MELLO E SOUZA (empurrando Malba Tahan): Mentira! Senhoras e senhores, sou Júlio César de Mello e Souza, famoso matemático e escritor brasileiro, e a peça a qual vocês assistirão hoje é inspirada em um conto escrito por mim. Malba Tahan é apenas um heterônimo meu, isto é, um personagem que eu inventei para assinar os livros em meu nome, para que os leitores comprassem os livros de um escritor brasileiro pensando que fosse de um escritor árabe. Beremiz é apenas um personagem que eu criei para meu livro “O homem que calculava”, cujo livro eu assinei como Malba Tahan.
Entra o diretor
DIRETOR (muito bravo): Que bagunça é essa na minha peça? Quem colocou esses três personagens aqui? Contrarregra!!!!
CONTRARREGRA (medroso): O que foi, chefinho? Bom dia (para o público). Bom dia (para o diretor)
DIRETOR: Que bom dia nada! Não tem nada de bom nesse dia! Já começaram bagunçando a minha peça! Quem mandou colocar esses três personagens no início desta peça?
CONTRARREGRA (mais medroso ainda): Vo-você sa-sabe como é, chefinho... Esses personagens vivem querendo aparecer, surgem do nada! Mas já tô expulsando eles, ok? Xô, xô, xô (enxota os personagens do palco como se fossem animais).
DIRETOR (sozinho e sempre bravo): Pra que que eu aceitei essa porcaria de trabalho? Pois bem, prezado público, uma explicação agora é necessária. A peça a qual vocês irão assistir é inspirada em um conto, uma história curta e inventada, contada pelo personagem Beremiz ao califa Al-Motacém no livro de contos “O homem que calculava” (mostra o livro), de Malba Tahan, heterônimo do escritor brasileiro Júlio César de Mello e Souza. A versão em peça é uma adaptação desse conto escrita por um professor maluco chamado Carlos Brunno, que eu nunca nem vi e tenho raiva de quem viu. A versão que esse tal de Carlos Brunno fez é muito diferente da versão original. Pra ser sincero, eu pessoalmente acho essa versão desse tal de Carlos Brunno uma porcaria e recomendo que vocês leiam o original que está no livro “O homem que calculava”, que tem na biblioteca da sua escola. Só aceitei dirigir essa peça porque, com a escassez de emprego hoje em dia, eu tinha que trabalhar. Bem, é isso. Agora assistam à peça QUIETOS e me deixem trabalhar! Contrarregra, chama o dorminhoco do Narrador pra gente começar logo essa peça!
CONTRARREGRA (acorda o narrador): Narrador, vai logo! É a sua vez! (fala pra si, enquanto o NARRADOR abre preguiçosamente os braços e se direciona vagarosamente para a frente do palco) Ô vida cansativa, ô cambada de personagens ruins de jogo! Preciso mudar de emprego urgentemente.
NARRADOR/SANDMAN (de frente para o público): Olá, meu nome é Sandman, sou o Senhor dos Sonhos. Hoje trago-vos a história de meu sonho mais recente que veio pra mim após a leitura de um livro. Peço que sonhem comigo para que possamos acompanhar a história. Por isso, peço que fechem os olhos. Fechem os olhos. (atira purpurina no público) Isso, fechem os olhos. E agora reabram os olhos e sejam bem-vindos à história do meu sonho. (as duas SERVAS DE VÉU que seguravam a cortina, afastam-na e percebe-se que havia ali um rei, aparentando tristeza, sentado em seu trono. À frente, uma mesa [que será usada de várias formas mais tarde; como para ser colocado o tabuleiro de xadrez]. As 2 SERVAS DE VÉU passam cada uma a um lado do rei e passam a abaná-lo com leques ou espanadores).  Era uma vez um reino muito distante, governado pelo Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro, que vivia muito triste... Acompanhemos sua trajetória.
Rei IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO PRIMEIRO chora copiosamente e assoa o nariz em um lenço. Entram o SÚDITO QUARTZO LORENZETTI e o DIPLOMATA PEDRERNESTO.
QUARTZO LORENZETTI: Meu rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro, precisa parar com essa tristeza! O reino está uma bagunça! Falta pão! O povo sente fome!
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO: Fome, ora, fome! São todos uns va-ga-bun-dos isso sim! Estão com fome, falta pão? Que comam as goiabas divinas das Damas de Ares; é só invadir os jardins das vizinhas, trabalhar o roubo e roubarem, táoquêi! Não me venham com problemas, pois minha tristeza é infinita. (volta a chorar copiosamente)
DIPLOMATA PEDRERNESTO: Nosso rei sofre muito desde a morte de seu filho Iadavinha Zahyrzinho Bozocracinho...
(Rei Iadava Zahyr Bozocrácio chora mais ainda e assoa o nariz)
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO: Aqueles bárbaros vermelhos e barbudos, cambada de va-ga-bun-dos, mataram meu pobre filhinho Iadavinha Zahyrzinho Bozocracinho, só porque a gente queria invadir o país deles. Assassinos va-ga-bun-dos! Agora eu sofro eternamente sem meu filhinho querido, tico-tico do paipai... (e chora e assoa o nariz)
QUARTZO LORENZETTI: Mas, piedoso e majestoso chefe, precisa se recuperar do luto...
DIPLOMATA PEDRERNESTO: Para tirá-lo desta tristeza sem fim, trouxemos um professor de alegria.
(entra o Professor de Alegria, todo sorridente)
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO (triste e irritado): Professor? Não preciso de professor, eu aprendi tudo sozinho, sou um autoditado!
PROFESSOR DA ALEGRIA (sempre sorridente, intervém didático): Desculpe-me, majestosa prepotência, mas a palavra adequada para designar uma pessoa que aprende as coisas sozinha, sem necessidade de professor é “autodidata”.
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO (mais irritado ainda): Ousa me corrigir, seu idiota útil duma figa! Guardas, prendam esse va-ga-bun-do! (Guardas prendem o Professor da Alegria, que agora sorri timidamente. Iadava Zahyr Bozocrácio dirige-se para o súdito QUARTZO LORENZETTI) Súdito Quartzo Lorenzetti, avise o Ministro Oláquio Pau de Sebo pra cortar toda verba da educação.
SÚDITO QUARTZO LORENZETTI: Já cortamos, piedoso e majestoso chefe.
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO: Ah, tá. Então aumentem o imposto dessa cambada de va-ga-bun-dos! E, agora, me deixa aqui com minha tristeza sem fim, táoquêi. (volta a chorar e assoar o nariz)
DIPLOMATA PEDRERNESTO: Ainda não podemos deixá-lo-á com tamanha tristeza, magnânimo mestre. Se professores não te satisfazem, trouxe-te-lhe um poeta.
Guardas trazem arrastado o poeta.
DIPLOMATA PEDRERNESTO: O poeta veio de bom grado (nesse momento, o poeta tenta fugir, mas os guardas o seguram), pra declamar-te-lhe um poema pra alegrá-lo-ei. Comece a declamar o poema para seu piedoso e majestoso chefe, prezado poeta!
POETA (descontente): Trouxe-te um soneto, majestoso sacripanta.
(cena congela. Entra DICIONÁRIO VIVO)
DICIONÁRIO VIVO (com um dicionário nas mãos): Soneto é um poema de quatorze versos, distribuído em duas estrofes com 4 versos cada e 2 estrofes com 3 versos cada. Costuma ter seus versos (linhas) contados em dez ou doze sílabas poéticas e costuma ter rima. Já sacripanta significa aquele que é velhaco, patife, indigno. Continuemos a história...
(cena descongela com a saída do Narrador/Sandman.)
POETA: Eis o poema que faço em sua homenagem, majestoso senhor das bestas.
“Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.”
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO (triste e irritado): Bela porcaria! Não entendi nada! Poema é coisa de va-ga-bun-do, táoquêi! (saudoso) Ah, que saudades do meu falecido filhinho Iadavinha Zahyrzinho Bozocracinho, ele adorava cortar o pescoço desses poetas va-ga-bun-dos! O Rei da Nova Inglaterra, meu querido amigo Donats Trumpet já dizia: ‘Poetas são seres ‘dangerigosos’!” Guardas, prendam esse va-ga-bun-do! (Guardas levam o poeta, que vai embora com ar debochado). Agora chega das suas trapalhadas, Diplomata Pedrernesto, ninguém pode me tirar desta tristeza sem fim.
Entra Lahur Sessa.
LAHUR SESSA: Eu posso, querida majestade!
SERVA DE VÉU 1: É um iluminado?
SERVA DE VÉU 2:  É um pavão?
QUARTZO LORENZETTI (empolgado): Não, é o sábio Lahur Sessa com um tabuleiro de xadrez na mão!
DIPLOMATA PEDRERNESTO (agradecido): Graças, Lahur Sessa é nosso herói e da tristeza tirá-lo-á, piedoso e majestoso chefe!
Lahur Sessa coloca um tabuleiro de xadrez na mesa.
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO (surpreendido): O que é isso, jovenzinho?
LAHUR SESSA: Este é um tabuleiro de xadrez, querida e desafortunada majestade. Tal jogo dispõe de oito peças pequeninas - os peões. Representam a infantaria, que ameaça avançar sobre o inimigo para desbaratá-lo. Secundando a ação dos peões vêm as torres, representadas por peças maiores e mais poderosas; a cavalaria, indispensável no combate, aparece, igualmente, no jogo, simbolizada por duas peças que podem saltar, como dois cavalos, sobre as outras; e, para intensificar o ataque, incluem-se – para representar os guerreiros cheios de nobreza e prestígio - os dois vizires do rei . Outra peça, dotada de amplos movimentos, mais eficiente e poderosa do que as demais, representará o espírito de nacionalidade do povo e será chamada a rainha. Completa a coleção uma peça que isolada pouco vale, mas se torna muito forte quando amparada pelas outras. É o rei.
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO (intrigado): Hum, interessante! Mas por que é a rainha mais forte e mais poderosa que o próprio rei? Que eu saiba mulher só nasce depois de uma fraquejada dos homens, esses sim, mais poderosos que o sexo frágil.
LAHUR SESSA: A rainha é mais poderosa, porque representa, nesse jogo, o patriotismo do povo. A maior força do trono reside, principalmente, na exaltação de seus súditos. Como poderia o rei resistir ao ataque dos adversários, se não contasse com o espírito de abnegação e sacrifício daqueles que o cercam e zelam pela integridade da pátria?
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO (contente): Isso, isso, pátria acima de todos! Finalmente um jogo que me entende!
DIPLOMATA PEDRERNESTO (satisfeito): Olha, Quartzo Lorenzetti, Lahur Sessa conseguiu fazer o rei esquecer sua tristeza e sorrir.
QUARTZO LORENZETTI (também satisfeito): Sim! Agora deixemos eles a sós, se divertindo!
DIPLOMATA PEDRERNESTO: Sim, partamo-les.
DIPLOMATA PEDRERNESTO e QUARTZO LORENZETTI saem. Enquanto LAHUR SESSA mostra o jogo para IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO, entra NARRADOR/SANDMAN.
SANDMAN: E, encantado com o jogo, o rei Iadava Zahyr Bozocrácio passou horas e horas aprendendo o jogo de xadrez.
SANDMAN sai.
LAHUR SESSA: ... E essa aqui é uma jogada rara e rápida chamada Mate do Louco.
Entram CORINGA e ARLEQUINA.
CORINGA: Opa! Rá, rá, rá! Eu escutei “louco”! Opa, me chamaram, rá, rá, rá (atiram água no público)
DIRETOR (entra mais uma vez bravo no palco; cena congela): Contrarregra!!!! Que bagunça é essa!!! Quem mandou esses personagens malucos, que não tem nada a ver com a peça aparecerem! Eita trabalho desgraçado!
CONTRARREGRA (desesperado de medo): Ca-calma, chefinho! Já estou expulsando eles, ok? Xô, xô, xô (enxota os personagens do palco como se fossem animais. CORINGA e ARLEQUINA atiram água nele, enquanto são expulsos do palco).
(cena retorna)
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO (agradecido): Meu nobre Lahur Sessa, você me tirou da tristeza e me ensinou este jogo interessantíssimo! Como posso te recompensar?
LAHUR SESSA: Rei poderoso! Vou, pois, aceitar, pelo jogo que inventei, uma recompensa que corresponde à vossa generosidade; não desejo, contudo, nem ouro, nem terras ou palácios. Peço o meu pagamento em grãos de trigo.
IADAVA BOZOCRÁCIO: (para o público) Que otário! (para Lahur Sessa) Grãos de trigo? Então, táoquêi! Quantos você quer?
LAHUR SESSA: Vossa majestade vai me dar um grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro; dois pela segunda, quatro pela terceira, oito pela quarta, e, assim dobrando sucessivamente, até a sexagésima quarta e última casa do tabuleiro. Peço-lhe, ó rei, de acordo com a sua magnânima oferta, que autorize o pagamento em grãos de trigo, e assim como indiquei!
IADAVA BOZOCRÁCIO: (para o público) Mas é otário mesmo; me dei bem! (para Lahur Sessa) Negócio fechado! Autorizo o pagamento! (as DUAS SERVAS colocam a mão na testa, aparentando saberem que o rei fez besteira) Contador Guedim, venha pagar esse bondoso homem!
CONTADOR GUEDIM entra.
CONTADOR GUEDIM (entra com um caderno e caneta): Chamou-me, majestoso e piedoso arremedo de chefe. A quem devo pagar e como se dará o pagamento?
IADAVA BOZOCRÁCIO: Nobre Lahur Sessa, explique ao contador Guedim como o senhor quer receber o pagamento que esse negócio de conta é com ele.
LAHUR SESSA: Eu quero receber o pagamento assim...
(Lahur Sessa cochicha no ouvido de Guedim. Guedim vai fazendo as contas assombrado)
IADAVA BOZOCRÁCIO: Não demore tanto pra fazer umas continhas bobas, Contador Guedim. Paga logo o homem, táoquêi.
GUEDIM (embaraçado, puxa o rei para um canto): Majestade Iadava Zahyr Bozocrácio, como o senhor me fecha um negócio desse sem me consultar? Eu fiz as contas... Para se obter esse total de grãos de trigo, devemos elevar o número 2 ao expoente 64, e do resultado tirar uma unidade. Trata-se de um número verdadeiramente astronômico, de vinte algarismos. São 18 quintilhões 446 quadrilhões 744 trilhões 73 bilhões 709 milhões 551 mil e 615 grãos de trigo!
IADAVA BOZOCRÁCIO (incrédulo): Isso tudo?
GUEDIM (embaraçado): Nem em 2 000 séculos produziríamos a quantidade de trigo que, pela sua promessa, cabe, em pleno direito, ao jovem Sessa!
IADAVA BOZOCRÁCIO (desesperado): Diacho! E agora, contador Guedim, o que eu faço?
GUEDIM: O de sempre, majestoso e piedoso arremedo de chefe! Volta atrás com a sua promessa e dá um cargo no reino para o Lahur Sessa não denunciar a gente pra imprensa.
NARRADOR/SANDMAN entra.
NARRADOR/SANDMAN: E foi assim que o inteligente Lahur Sessa ganhou o cargo de Sábio Marajá no reino de Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro. Com salário alto e pouco trabalho, passou sua vida dedicando-se a jogar xadrez com o rei.
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO: Você me ensinou uma importante lição, nobre Sábio Marajá Lahur Sessa.
LAHUR SESSA: Ah, finalmente meu poderoso rei, você aprendeu que deve refletir, meditar bem, antes de agir?
IADAVA ZAHYR BOZOCRÁCIO: Claro que não, Sábio Marajá Lahur Sessa! Ora, eu sempre penso antes de agir ou falar, táoquêi! O que eu aprendi mesmo é que existem quadrilhão e quintilhão. Eu pensei que só existia números até o trilhão! Guardas, tragam aquele va-ga-bun-do daquele tal de poeta para encerrar essa história.
POETA:
Cumprimento a minha frente um forte adversário
E minhas negras peças ainda somam dezesseis
Tão grande e fascinante, és tu jogo lendário
Inicio agora, uma difícil batalha no xadrez:

Empurro meu peão que avança com alguma timidez
Quem me dera ser um mestre e ter alguma altivez
Neste jogo que, entre dois, cada um tem sua vez!
Hoje popular, mas que outrora foi somente de nobres e reis
Inspirado por Deus, com certeza, foi o sábio que o fez
Quem o aprende não consegue jogá-lo somente uma vez
O poeta que vos fala, do forte adversário, já virou freguês
És jogado por todos os povos, do brasileiro ao polonês
Comentado em todas as línguas, em árabe e também em português
Em terras tupiniquins, chegaste com pompa e sisudez
Mas, aos pouquinhos, conquistaste este povo que te chama de xadrez
E agora, peço desculpa e licença a todos vocês,
Pois, no tabuleiro da minha mesa, chegou de novo a minha vez.
(Todos os personagens, que iam se aproximando à medida que o poeta declamava, declamam os versos abaixo juntos)
TODOS:
“Vamos jogar xadrez
Vamos jogar xadrez
Nós todos já aprendemos
Agora é sua vez
Luz, Câmera...Alcino!
– Xeque-mate!”

Esquete "Luz, Câmera...Alcino! no Reino do Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro com o Homem que Sabiamente Calculava" em vídeo
O Grupo Luz, Câmera... Alcino! 2019 esteve presente na Abertura do IX Torneio Xeque Mate, organizado pelo mais que fodástico professoramigo poetatleta Genaldo Lial da Silva, na manhã e tarde do dia 06/06/2019, com o esquete "Luz, Câmera...Alcino! no Reino do Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro com o Homem que Sabiamente Calculava", obra satírica escrita por mim e livremente inspirada no conto do xadrez do livro "O Homem que Calculava", de Malba Tahan, + poema de Gregório de Matos + poema de Genaldo Lial. O texto final teve revisões dos artistalunos que atuaram no esquete.
O esquete contou com a atuação de Maria Vitória Souza do Carmo (Beremiz), Emily Correa da Silva (Malba Tahan), Natália Vitório R. Honório (Julio César Melllo e Souza), Julia Marques (Diretora), Juslaine Bepler (Contrarregra), Ingrid de Oliveira dos Santos (Sandman), Camila Vitória (Serva do Véu 1), Isabelle Mello (Serva do Véu 2), Maria Gabriela Ferreira Luz (Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro), Katheleen Maciel (Ministro Quartzo Lorenzetti), Leandro Hyatti Ciriaco (Diplomata Pedrernesto), Malu Carvalho (Professora de Alegria), Cleyton Arruda Filgueiras (Chefe da Guarda), Karolaine de Araújo (Guarda 1), Andressa Silva (Guarda 2),  Anna Julia de Jesus (Poeta), Daniele dos Santos (Dicionário Vivo), Andressa de Oliveira Silva (Lahur Sessa), Carlos Brunno (Coringa), Vitória Fernandes (Arlequina) e Michele Ponte (Contador Guedim). A direção do esquete e roteiro final foi de minha autoria. A apresentação da manhã teve supervisão e direção artística das artistalunas Ana Julia Duarte e Ana Clara Oliveira. A direção de som foi do Professor Artistativistamigo Daniel Coelho.
Agradecimentos especiais: Durante os ensaios, tivemos apoio e dicas de interpretação dos Professores Genaldo Lial e Antonio Carregosa.
 O registro em vídeo foi realizado pelos cineastas alunos Ana Clara Oliveira (manhã) e Raul Damazio da Silva (tarde).

IX Torneio Xeque Mate Alcino: 
O documentário
Luz, Câmera... Alcino! 2019, além de estar presente na Abertura do IX Torneio Xeque Mate, organizado pelo mais que fodástico professoramigo poetatleta Genaldo Lial dA Silva, na manhã e tarde do dia 06/06/2019, com o esquete "Luz, Câmera...Alcino! no Reino do Rei Iadava Zahyr Bozocrácio Primeiro com o Homem que Sabiamente Calculava", também elaborou um curta de entrevistas com participantes do esquete e do evento.
O maravilhoso vídeo de entrevistas foi idealizado pela artistaluna Maria Vitória Souza do Carmo (ela pensava até em um vídeo mais amplo e consequentemente maior, mas fatores não previstos impediram uma obra prima maior) foi filmado, produzido e editado por Malu Carvalho,  teve a participação de Julia Marques, Ana Julia de Jesus, Maria Vitória Souza do Carmo e Michele Ponte e conta com entrevistas com os atores Emily Correa da Silva (Malba Tahan), Vitória Fernandes (Arlequina), Camila Vitória (Serva de Véu), Andressa Silva (Guarda), Cleyton Arruda (Chefe dos Guardas) e o vilão Coringa (!).

domingo, 8 de setembro de 2019

Solidões Compartilhadas de Poesia sem Palavras: Tatiane Jesus dos Santos e Leticia Siqueira da Silva mostram que toda arte, amor e tolerância valem a pena


A notícia, com a qual inicio a introdução das Solidões Compartilhadas de hoje, vocês já conhecem: neste tenebroso início de setembro (e depois é o coitado do agosto que é considerado o mês do desgosto): numa operação inédita na história da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, um grupo de fiscais da Secretaria Municipal de Ordem Pública percorreu, no início da tarde desta sexta, os estandes do evento para recolher livros com temas ligados à homossexualidade. O fato se deu por determinação do prefeito Marcelo Crivella, que havia visitado o evento um dia antes e se escandalizou com o romance gráfico da Marvel “Vingadores: A cruzada das crianças”, da conhecida Coleção Salvat Capa Preta. A obra traz dois personagens gays, Wiccano e Hulkling, que se beijam em uma das páginas. O prefeito, evangélico conservador, considerou a cena inapropriada e determinou que a obra fosse retirada das prateleiras, mas a organização recusou —e, mais tarde, a Justiça proibiu. Os livros, no entanto, desapareceram em poucas horas. Assim que a polêmica ganhou as redes, todos os exemplares que estavam disponíveis foram comprados. "Livros assim precisam estar embalados em plástico preto lacrado e do lado de fora avisando o conteúdo", afirmou Crivella, em um vídeo publicado em seu Twitter. O prefeito argumentou a necessidade de "proteger as crianças" para que elas não tenham "acesso precoce a assuntos que não estão de acordo com suas idades". As declarações do político, somadas à atuação dos fiscais, geraram um levante em massa de livreiros e editoras, que consideraram o ato uma grave ameaça para a liberdade de expressão. Este é mais um capítulo vergonhoso da nova velha e retrógrada maneira de  se ‘fazer política’ atual: agradar sua minoria extremista (nesse caso, evangélica e de direita, mas a prática estúpida do disfarce da incompetência administrativa por meio de atitudes polêmicas insossas e escandalizadoras tem sido uma constante tanto da maioria da direita quanto da esquerda). Agora o que eu, como conhecedor, leitor e pesquisador de quadrinhos, sabe e talvez vocês não saibam, amigos leitores: pra demonstrar o quanto a prática do político (chamá-lo de prefeito novamente, diante de tanta incompetência administrativa – o Rio está um caos e sua ‘atuação’ à frente do desgoverno é, isso sim, censurável de tão escandalizante) Crivella é oportunista [mal realizada, como todo seu desgoverno], retrógada, atrasada, a revista ‘censurada’ pela Vossa Estúpida Excelência foi lançada  em Julho de 2016 – ele tentou censurar uma obra que circula há 3 anos em todas as bancas e sites de quadrinhos, ou seja, ele está mais atrasado e apalermado do que pensa. Outro detalhe: a obra que o escandalizou pertence à Coleção Salvat Capa Preta que comumente republica material já publicado no Brasil: a mesma história já havia sido publicada nas revistas X-men e Os Vingadores Especial, da Editora Panini, em 2012, e o original americano é de 2010 – ou seja, Crivella não prestou nem para mostrar um conservadorismo viril, foi insosso, pois condenou uma obra amplamente divulgada há 7 anos no Brasil e 9 nos EUA. Como declarou Flávio Moura,  editor da Todavia, em declaração ao El País: "Não há eufemismo para o que aconteceu. É uma tentativa horrorosa de censura”. E acrescento: além de horrorosa, é mais uma trapalhada conservadora de Crivella. Nem pra ser um censor competente ele serve.
Bem, mas o que isso tem a ver com a postagem de hoje? Primeiramente, para lembrar que homofobia ainda é crime e relembrar que os tais kits gays – que cada político incompetente apresenta um pra chamar de seu – permanecem como obras de ficção – quase uma obra de fantasia obscura de porões da mais tenebrosa fase da Idade Média -, ‘segundamente’, porque eu não ia perder a oportunidade de zoar que o Crivellla nem pra censor retrógrado conservador competente serve, ‘terceiramente’, para demonstrar minha preocupação com tal conservadorismo sem noção que só serve como manutenção do retrocesso injustificado e como distração para evitar discussão, debate e busca de resolução para problemas reais e imediatos, e ‘quartamente’, mas também principalmente, porque isso me lembrou de que eu ainda não fizera uma solidão compartilhada há tempos guardada nos meus arquivos, fruto de boas lembranças de maravilhosas artes de duas grandes artistamigas, que, na época, eram artistalunas da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, da região rural de Teresópolis/RJ. Estou falando das formidáveis, mais que fodásticas desenhistas, artistas da poesia sem palavra, da poesia da imagem sublime, Tatiane de Jesus Santos e Leticia Siqueira da Silva.
No sábado, dia 07/10/2017, a convite de Fernanda Monteiro e demais amigos do Grupo Diversidade, tive a honra de participar e curtir a II Feira da Diversidade, no Clube dos Democráticos, em Valença/RJ. Uma semana antes, idealizei fazer cartazes com o tema “Todo amor vale a pena”, demonstrando a diversidade de relações amorosas entre nós, seres humanos. Mas, para isso, precisava de jovens e talentosos desenhistas e, por isso, convidei as duas artistamigas citadas (na época, artistalunas do 9.º Ano) para fazerem arte com o tema - lembrando que o convite foi feito fora do horário de aula, em cima da hora, com a possibilidade de recusa [em nenhum momento foi imposto; só sugerido, como diz aquela canção de Lulu Santos, sem a “menor obrigação de acontecer”], com liberdade de expressão artística (sem imagens pré-concebidas), não valia ponto, remuneração ou algo do tipo, tudo por amor à arte, e as duas deram conta do recado, foram sublimes. A Exposição de cartazes com os desenhos delas foi realizada e elogiada na II Feira da Diversidade, no Clube dos Democráticos, em Valença/RJ, no dia 07/10/2017.
Diante do capítulo envolvendo o político Crivella e os quadrinhos de diversidade super-heróica da Marvel, me dei conta de que ainda não havia postado (ai, ai, tô atrasado nas publicações do blog, como o Crivella nas suas ‘censuras’ e ‘preocupações’ – aff, nunca pensei que um dia ia me comparar a este bestificado político do Rio) os desenhos da Exposição  “Todo amor vale a pena” sublimemente criados pelas maravilhosas artistamigas teresopolitanas Tatiane de Jesus Santos e Leticia Siqueira da Silva.
Encantem seus olhos com a sublime arte destas duas mais que fodásticas artistamigas, amigos leitores. Toda arte, amor e tolerância valem a pena.


"Toda forma de amor vale a pena", 
por Tatiane Jesus Santos





"Toda forma de amor vale a pena", 
por Leticia Siqueira da Silva









sábado, 7 de setembro de 2019

Privatizando (e, consequentemente, privando) o prefixo In de nossa Independência


Como é Dia da Independência do Brasil, vamos abordar na crônica-postagem de hoje o antônimo da palavra: falemos sobre dependência.
Segundo matéria de 1.º de agosto de 2019, do site Extra, baseada nos dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados pelo IBGE, o número de desempregados no Brasil foi de 12,8 milhões de pessoas no 2.º trimestre. Apesar da ligeira diminuição de desempregados em comparação ao trimestre anterior, ainda há 12,8 milhões de brasileiros DEPENDENTES de uma política melhor de geração de empregos. Segundo matéria de 31 de outubro de 2016 do site Superinteressante, há uma drogaria para cada 3 mil habitantes, mais que o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Ou seja: há mais pontos-de-venda de remédios no Brasil do que de pão – são 54 mil farmácias contra 50 mil padarias. O site nos alerta que a máquina de propaganda da indústria farmacêutica, a irresponsabilidade de muitos médicos e a ignorância dos usuários criaram um novo tipo de vício, tão perigoso quanto o das drogas ilegais: a farmacodependência. E o número de farmacodependentes só aumenta a cada dia, a cada inauguração de uma nova matriz ou filial de empresa farmacêutica. Por falar em excesso de drogas e falta de pão, a matéria de 29 de abril de 2019 do site Observatório do Terceiro Setor, baseada no relatório internacional ‘O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018′, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mostrou que a fome atinge 5,2 milhões de pessoas no Brasil (ou seja, o número de pessoas que passam fome no Brasil supera em 1,7 milhão a população inteira do Uruguai). Contabilizando: temos 5,2 milhões de brasileiros que DEPENDEM de uma política mais humana na distribuição de renda e de assistência social. Isso sem contar os crescentes números de DEPENDENTES químicos, de DEPENDENTES familiares, de DEPENDENTES de uma figura política para se endeusar e se proclamar, num olhar retrógado paternalista, como salvadora do país, etc. No variado grupo de DEPENDENTES que o Brasil sustenta com soberania agora surge uma nova super equipe: a dos políticos que, incapazes de uma boa administração (ao contrário: precisam de algo para esconderem uma governabilidade insossa e/ou cada vez mais desastrosa), DEPENDEM de ‘propagandismo autopreservativo com deturpamento moral e cívico’, DEPENDEM de manifestações e censuras absurdas para sustentarem um conservadorismo que não sustentam, uma moralidade que não mantêm e uma competência que nunca tiveram. Não é preciso pesquisas, pois proliferam-se as notícias desta DEPENDÊNCIA: político que declara DEPENDÊNCIA de manifestações pró-ele mesmo (e não pró-governo, pois, se não se governa bem, não há governo pra se defender) no dia da nossa InDEPENDÊNCIA, outros que praticam censuras e proibições em eventos de natureza artística, literária e independente agrícola, pois DEPENDEM disso para terem ao menos uma migalha dos conservadores mais radicais, já que os demais brasileiros já estão de saco cheio da evidente desgovernabilidade destes políticos eternamente DEPENDENTES de jogarem poeira onde não há para que todos deixem de reparar seus escritórios já cheios de obscuras sujeiras depositadas por debaixo do já e cada vez mais imundo tapete público (isso sempre me lembra cenas do filme “O cheiro do ralo”, excelentíssimo filme nacional, dirigido por Heitor Dhalia e escrito por Lourenço Mutarelli, em que o escroto protagonista, viciado colecionador e explorador e redutor de objetos de significativas lembranças afetivas alheias através da pechincha amarga e sórdida, diz a todos que o cheiro ruim do escritório de sua loja de penhores vem do ralo, até que uma das vítimas da pechincha implacável lhe diz que a sujeira vem do ralo e quem vai no banheiro é o protagonista, então o cheiro podre é dele, e não do ralo. Por sinal, me pergunto se, diante de tantos mecanismos de censura, filmes corajosos como "O cheiro do ralo" conseguiriam resistir à onda hipócrita moralista).
Nunca convivemos com tantos DEPENDENTES – na maioria, frios, calculistas e orgulhosos de sua ignorância à DEPENDÊNCIA exibida e proclamada - quanto nesses tempos atuais, amigos, e, como a DEPENDÊNCIA se torna algo cada vez mais comum, os seres DEPENDENTES mantêm-se sólidos e sórdidos em todas as esferas de poder, tanto que uma manifestação a favor do apoio às DEPENDÊNCIAS soberanas e em repúdio aos setores críticos independentes no Dia da InDEPENDÊNCIA do Brasil é um absurdo hipócrita bonito, visto como natural.
Contribuo com os manifestantes com meu cartaz irônico: retiremos o prefixo in da InDEPENDÊNCIA, defendamos a soberania do absurdo diário autoritário com simpatia estúpida e comemoremos a nossa DEPENDÊNCIA enrustida com o verde do dinheiro que nos falta e lhes sobra e o amarelo do acovardar-se diante de uma crise séria de nossa identidade crítica e guerreira. Opa, palavras demais para um cartaz só; ninguém vai ler. Toquemos a profética música “Perfeição”, da Legião Urbana, composta por Renato Russo (já sei, vão chamá-lo de gayzista e esquerdista, aff), que, pelo menos, alguns ouvidos, ainda que meio surdos, vão entender:
“Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos covardes
Estupradores e ladrões

Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação

Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos

Comemorar a água podre e todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo, nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

Vamos festejar a inveja
A intolerância, a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror de tudo isto
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha que o que vem é perfeição”