sábado, 15 de setembro de 2018

Prosa premiada: Despertar atrasado


Quem nunca dormiu demais e perdeu a hora do serviço em alguma fase da vida? Quem nunca chegou atrasado (as postagens aqui então... nem se fala rs)?
Ontem, falei de um poema premiado neste ano; hoje trago a crônica, classificada e premiada como conto, chamada “Despertar atrasado” (sim, essa prosa fala daquele momento conturbado, pesadelo de todo trabalhador que tenta seguir uma rotina honrada e, por algum lapso sem grandes motivações, tropeça em Cronos por ficar muito tempo no reino de Morfeu).
Na quinta-feira, dia 26 de Julho, participei da festa de encerramento do Concurso de Obras Literárias do Clube dos Funcionários em Volta Redonda/RJ. Duas obras minhas foram premiadas, ambas em sétimo lugar, cada uma em sua categoria: "Despertar atrasado" (em contos) e "Balada de sol para o nublado em teus olhos" (poesia). Foi uma noite festiva e lírica, em companhia de artistamigos e familiares. No retorno à casa de minha tia Yara, mamãe, tia Yara, meu primo Charles e eu paramos em um bar para bebermorarmos - foi nesse momento que li o 'conto' (considero-o uma crônica, pelo valor episódico cotidiano, mas, como foi vencedor como outro gênero, aceito a oferenda sem pestanejar) premiado, cujo fragmento final vocês podem assistir e ouvir no vídeo compartilhado aqui.
Aproveito também o momento (semana) de menor agitação cultural para finalmente postar a prosa  premiada na íntegra para que todos possam ler, curtir, analisar, etc.
Boa leitura e Arte Sempre, amigos leitores!

Despertar atrasado

Os raios de sol gritam em minha janela e ferem meus olhos recém-despertos.  A fúria com que a claridade dança na vidraça me informa que alguma coisa está muito errada. Um leve desespero beija meus primeiros pensamentos, então olho para o relógio despertador que não me despertou: 8 horas e 40 minutos, perdi a hora do trabalho...  O leve desespero agora é um grande pesadelo, pior que qualquer outro pesadelo que já tive, pois é real: eu perdi a hora e não existe, nesse mundo, nenhuma máquina do tempo que recupere esse tempo perdido.
                Levanto-me completamente desolado – não ativei o alarme do despertador? Não, isso não justifica, afinal, independente dele, sempre acordei ao menos mais cedo.  Estou muito cansado? Não, isso não justifica, afinal, todas as pessoas vivem períodos de enorme cansaço. Não há desculpa, não há explicação, é como viver um momento ardente e o corpo não corresponder, tentar buscar água num ambiente deserto e sentir a derrota, a angústia, a sede e não ter o que fazer pra aplacar todo essa tempestade num ambiente árido.
Na casa do vizinho, o rádio, no volume alto, toca as canções do momento e o locutor, de vez em quando, informa as horas, o tempo perdido cada vez mais perdido, ah, e eu tão perdido quanto. Na estrada, próxima a minha casa, o barulho dos carros me informa que o mundo lá fora segue pontualmente seu destino; na oficina mecânica, ao lado de minha residência, ninguém parece estar atrasado; são nesses momentos que nos percebemos mais poeira do universo – o mundo segue aceleradamente a sua rota e apenas eu estou atrasado.
O tempo escorre pelas mãos e não há tempo que volte, amor. Os versos da canção de Lulu Santos escorrem em meus ouvidos, carentes da palavra final, afinal, neste momento, não há amor, apenas uma profunda dor de vazio. Sinto vergonha e raiva de mim mesmo e a única coisa que consigo pensar é como posso me ajoelhar pro mundo e pra mim mesmo e pedir desculpas pelos erros que nem sei como cometi. No rádio da casa do vizinho, escapa o verso de outra canção, “deixe o agora pra depois”, acho que é Victor e Léo, mas o que fazer quando o agora acordou depois?
Recolho os cacos de mim mesmo, adiantando o serviço que deixei pra casa, mas a inglória acompanha meus passos, o sol, cada vez mais radiante, parece me humilhar. Só me resta esquecer o inesquecível, conviver mais uma vez com o insustentável, seguir em frente, acompanhado do tempo perdido que me arrasta pra trás.
Dois passos pra frente, um minuto do tempo perdido me puxando pra trás. É lento o avanço, mas, depois de muito andar, talvez esse tempo que perdi pare de me puxar.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Poema premiado exposto por escrito e fragmentado em vídeo: Balada de sol para o nublado em teus olhos


Na quinta-feira, dia 26 de Julho, participei da festa de encerramento do Concurso de Obras Literárias do Clube dos Funcionários em Volta Redonda/RJ. Duas obras minhas foram premiadas, ambas em sétimo lugar, cada uma em sua categoria: "Despertar atrasado" (em contos) e "Balada de sol para o nublado em teus olhos" (poesia).
Foi uma noite festiva e lírica, em companhia de artistamigos e familiares. No retorno à casa de minha tia Yara, mamãe, tia Yara, meu primo Charles e eu paramos em um bar para bebermorarmos - foi nesse momento que declamei o poema premiado, cujo vídeo com o fragmento final vocês podem assistir e ouvir no vídeo no final desta postagem.
Apesar de (infinitamente) bastante atrasado nas atualizações do blog, aproveito também  o momento (semana) de menor agitação cultural para finalmente postar o poema  premiado na íntegra para que todos possam ler, curtir, analisar, etc.
Boa leitura e Arte Sempre, amigos leitores!

Balada de sol para o nublado 
em teus olhos

Não te nego, Mofina,
que flores de tristeza às vezes invadem meu jardim,
mas também afirmo, querida,
que os pólens de melancolia
jamais alcançam meu recanto de alegria.
Por isso te trago estes versos de sol:
para evitar que o nublado em teus olhos
se transforme em trevas e tempestades,
pois minha loucura por ti
só te deseja felicidades.

Não chores neste canto, Mofina,
sai dessa casa vazia
e atravessa a cidade de possibilidades infinitas.
Reencontra aquela velha avenida,
onde a tua alma recolhida
beijou a tarde colorida
e fez um ditongo aberto
nos hiatos da minha poesia.

Não me negues, Mofina,
a beleza lírica de tuas cores frias,
pois ainda te espero, querida,
com o sorriso aberto,
naquela velha avenida colorida...
(Carlos Brunno Silva Barbosa, 7.º lugar no Concurso de Obras Literárias do Clube dos Funcionários em Volta Redonda/RJ 2018, na Categoria Poesia)


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Solidões Aldravistas Compartilhadas: O conceito de uma nova forma poética e as aldravias selecionadas pelo Mestre Poetamigo Paulo Caruso


Hoje falarei no blog sobre um movimento artístico que tem conquistado cada vez mais adeptos poetamigos: a aldravia.
Antes de mostrar-lhes alguns exemplos, preciso mostrar-lhes um pouco da história dessa revolucionária e recente tendência poética. Para isso, cito trechos adaptados do texto original do Prof. J. B. Donadon-Leal  "ALDRAVIA – nova forma, nova poesia", cuja obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons (sendo assim, relembro e dou crédito ao autor original: jbdonadon@jornalaldrava.com.br ):
Em novembro de 2000, com o lançamento do Jornal Aldrava Cultural, nascia o novo movimento poético em Mariana/MG. Do permanente congresso do movimento aldravista de artes, do qual participam ativamente Andreia Donadon Leal, Gabriel Bicalho, J. B. Donadon-Leal e J. S. Ferreira, surgiu uma nova forma de poesia: a aldravia, nome sugerido por Andreia Donadon Leal a uma forma elaborada por Gabriel Bicalho, com base na concepção de encontro com os sentidos na possibilidade real de se ter o máximo de poesia no mínimo de palavras, acompanhando a tendência minimalista mundial.
ALDRAVIA tem origem em "aldrava", batedor, argola de metal com que se bate às portas para que estas sejam abertas por quem está dentro da casa. Era comum na maioria dos casarões antigos de Mariana, Sabará, Ouro Preto e outras cidades mineiras.
Trata-se de um poema sintético, capaz de inverter ideias correntes de que a poesia está num beco sem saída.
Essa forma nova demonstra uma via de saída para a poesia – aldravia.
O poema é estruturado em seis versos univocabulares, ou seja: somente 6 palavras, uma em cada verso. Esse limite de 06 palavras se dá de forma aleatória, porém preocupada com a produção de um poema que condense significação com um mínimo de palavras, sem que isso signifique extremo esforço para sua elaboração.
Para trazer ao amigo leitor uma coletânea mais rica dessa nova forma poética chamada aldravia, pedi ao mais que fodástico artistamigo Paulo Roberto de Oliveira Caruso, Presidente da Academia Brasileira de Trova, Diretor Financeiro e Cultural da Academia de Letras e Artes de Paranapuã e Administrador e Advogado pela Universidade Federal Fluminense, Especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ), dono do site https://reinodosconcursos.com.br/ que fizesse a seleção. Segundo Paulo Caruso me informou por e-mail, seu critério de seleção baseou-se em me enviar aldravias vencedoras de concursos.
Abaixo, compartilho minhas solidões poéticas com os mais que fodásticos aldravistas premiados, magistralmente selecionados pelo também mais que fodástico  multipremiado poetamigo Paulo Caruso. Boa leituras, amigos leitores! Aldravia e(é) Arte Sempre!

ALDRAVIAS VENCEDORAS DO CONCURSO DE ALDRAVIA DO ANCINE:

1.º Alexandre Martins Teixeira Costa Monteiro
cheguei
chegaste
irreconhecíveis
reencontros
pavimentam
caminhos

2.º Bruno Rodrigues de Souza e Souza
tempo
caminho
longo
orvalho
no
oceano

3.º Adrianna da Silva Pinto
amar
sem
limites
viver
sem
palpites

4.º Paulo Costa Ribeiro
e
se
eu
tu
ele
Nostradamus?

5.º Paulo Costa Ribeiro
sétima
arte
quintessência
das
outras
seis

6.º Isabel Cristina Martins da Silva
Ator
Notório
Cria
Inventa
Nova
Emoção

7.º Alexandre Martins Teixeira Costa Monteiro
toda
regra
tem
exceção
até
essa

8.º Paulo Costa Ribeiro
cinéfila
atitude
sonhar
de
olhos
abertos

9.º Alexandre Martins Teixeira Costa Monteiro
teu
pavio
aqueceu
meu
frio

10.º Alexandre Martins Teixeira Costa Monteiro
velho
sorriso
doce
cheiro
de
abraço

11.º Paulo Costa Ribeiro
doses
de
aldravia
pílulas
de
poesia

12.º André Rocha Cordeiro
Tanto
Feio
Fez
Que
Beleza
Faltou


Aldravia premiada no Concurso literário da FALARJ 2017 – categoria: aldravia

1.º Lugar: Paulo Roberto de Oliveira Caruso (Niterói – RJ)

Caymmi
foi
pra
maracangalha
onde
descansa

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Lamentos da Pátria Pirossensívelmaníaca: Museu das formas nominais nacionais do Verbo


O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro/RJ me trouxe uma sequência de lembranças ruins: me lembrei do Casarão das Artes na subida da Catedral em Valença/RJ, incendiado e cujas vergonhosas ruínas aparecem como – pasmem – ‘atração turística’ da cidade; me lembrei do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, ainda cicatrizando suas queimaduras (conhece?); me lembrei de uma visita recente ao esvaziado museu dos correios bem no centro, no coração agitado de Niterói/RJ (quando lamentamos a perda de alguém, será que nos perguntamos há quanto tempo não o visitávamos?(; me lembrei do sucateamento da nossa cultura, da nossa falência de sabedoria e de compreensão histórica; me lembrei de eventos culturais recentemente vazios (Choramos a perda do que há tempos não vimos? Choramos os nosso vazios?); me lembrei como há tempos não visitava a região da Quinta da Boa Vista, sempre com medo da falta de segurança; me lembrei dos descuidos dos desgovernantes mal eleitos pelo povo (e com grandes chances de retornarem nas próximas eleições; me lembrei dos candidatos que queimam nossa História com histórias fakes minúsculas, que são exaltados pelo povo; me lembrei de Farenheit 451, de Ray Bradbury (você já leu ou já assistiu à excelente versão cinematográfica , dirigida por François Truffaut  [tem uma nova versão também, a qual ainda  não assisti  – mas pretendo assistir - , por sinal, pouco divulgada entre as diversas [nada contra, mas só falam disso?] guerras infinitas)ou só ouviu falar ou nunca nem viu e tem raiva de quem viu, leu, etc, e estou sendo pedante demais como se declarar-me leitor é o mesmo que se declarar arrogante, ‘comunista doutrinador’ [aff]  entre outros adjetivos pejorativos, mesmo quando o pejorativo não tem nada a ver com a questão a menos que se enxergue a carga de ironia que envolve essa digressão? [foi mal/fui mau; não ando muito polido ultimamente]); me lembrei das lágrimas forçosas dos crocodilos e finalmente me lembrei de que em breve esqueceremos isso tudo até vir outra tragédia que trará outra comoção coletiva, que unirá os povos contra culpados em 2.ªs pessoas (sois sempre vós os culpados, nós não temos nada a ver com isso) e que, com o tempo, será novamente esquecida, enquanto a cultura definha, enquanto continua a despolítica, a antidemocracia, a desculturação, a desorientação nacional.
Diante de tudo isso, escrevi o poema abaixo, me lembrando de que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro, segundo aponta a pesquisa Retratos da Leitura, realizada em 2016 (“O índice de leitura, apesar de ligeira melhora, indica que o brasileiro lê apenas 4,96 livros por ano – desses, 0,94 são indicados pela escola e 2,88 lidos por vontade própria. Do total de livros lidos, 2,43 foram terminados e 2,53 lidos em partes” – fonte: https://cultura.estadao.com.br/blogs/babel/44-da-populacao-brasileira-nao-le-e-30-nunca-comprou-um-livro-aponta-pesquisa-retratos-da-leitura/ ).
Boa leitura e Arte Sempre – ainda que carbonizada, enlutada, desfigurada, violentada, arrasada ...

Museu das formas nominais nacionais do Verbo

Anteontem era esquecimento
Parente nobre, de história bonita lembrada por sussurros, deixado no canto do asilo da memória com mal de alzheimer, infinitivo impessoal
Ontem foi chama letal e labaredas de lágrimas, crônica de tragédia anunciada, mas que poucos anunciaram (o asilo da memória com mal de Alzheimer num instante de espanto e lucidez), gerúndio de perdas
Hoje é ídolo morto lamentado, corpo cremado espalhando cinzas na culpa oculta de cada olhos castanhos, negros, verdes e azuis, mais um canto coletivo de hino nacional cultuado cuja letra de sentidos figurados ainda é incompreendida na voz rouca, entristecida e intransitiva de cada um, choro crocodílico, particípio da ignorância proclamada, profundamente mascarada e enrugada
Amanhã será não será,
Depois de amanhã novo não lembrar
Até outro esquecer,
Até um novo velho queimar
E nós novamente impunemente relembrar, chorar
E novamente esquecer,
Infinitivo pessoal de seres que não sabem o que serem ou não serem
Apenas chorar sem se culpar, sem se entender
Apenas chorar sem querer



domingo, 19 de agosto de 2018

Solidões Compartilhadas: As Líricas Manchas de Sangue de Brendha Fernandes


Ela fez aniversário há pouco (dia 13 de agosto), traçou, durante seu período de artistaluna da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, um caminho brilhante e segue radiante, desfilando lirismo, beleza de estrela e genialidade por onde passa. Seu nome é Brendha Fernandes, é mora em Teresópolis/RJ, mas traz uma estrela lírica que ultrapassa geografias; o universo infinito da arte é sua verdadeira morada.
Hoje tenho o prazer de compartilhar minhas solidões poéticas com um superfodástico poema da estrela lírica Brendha Fernandes, que ela me enviou via whatsapp, no dia 16 de janeiro de 2018, quando retomamos contato. Seu emblemático poema “Manchas de sangue”, rico em plurissignificações, traz um sentimento feminino à flor da pele, ritmo encantador, um estilo único (e, ao mesmo tempo, que me lembra os melhores momentos da madura poética de Marina Colasanti) e um final que surpreende o incauto leitor. Segundo a autora, “foi um desabafo da alma”, que ela foi “escrevendo sem ver , só o que sentia” (quem me dera escrever tão majestosamente e fodasticamente assim!).
Leiam e fascinem-se, amigos leitores, com essas manchas de sangue que marcam nossos olhos, nossa alma, com a inigualável e fodástica veia poética de Brendha Fernandes!

Manchas de sangue

Na pureza da inocência,
Na doçura de um sorriso,
Na grandeza da pequena,
Fez do mundo um paraíso.

 Na alegria de um carinho,
Fez a luz do seu olhar.
Mal sabia das malícias,
Que logo iriam atormentar.

 Em uma tarde colorida,
Não sabia o que esperar.
Onde tudo era magia,
Veio a vida machucar.

Onde o céu virou inferno,
O sorriso virou dor.
Aquela tarde que passava,
Logo não teria mais cor.

 Na escuridão da inocência,
Só havia aflição e agonia.
Algo estava errado,
De tristeza sua alma morria.

 Ao meio de manchas de sangue,
Enquanto seu espírito padecia.
Cor vermelha tão marcante,
Ao mesmo tempo tão sofrida.

No singelo e pequeno pedaço de pano,
Sua trilha mudou.
Não manchou apenas o pedaço de trapo,
Sua luz se apagou.

Logo o caminho seguiu,
Se entregar não deixou.
A pequena evoluiu,
A amargura superou.

As pequenas manchas de sangue,
ficaram só na memória.
Se engana quem achou
Que fosse triste sua história.

Por : Brendha Fernandes




segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Ainda sobre ontem: Guerra nas Estrelas - A ameaça fantasma paterna


Ainda sobre ontem, dia dos pais. A data me remete às sábias palavras da escritoramiga valenciana Nanny Oliveira:
“Agosto é o mês daqueles caras que fizeram, mas não que criaram seus filhos, procurarem alguma foto pra postar no dia dos pais. Eu aconselho a você parabenizar todos eles assim ó:
E o amor, a presença, estão em dia?!”
(Nanny Oliveira)


Inspirado nisso, trago hoje meu conto inédito, inspirado na famosa data do segundo domingo de agosto, um conto de Dia dos Pais, entre Luke Filho e Anakin ‘Darth Vader’ Pai.
Espero que curtam esse episódio carlosbrunniano de Guerra nas Estrelas. Boa leitura e Arte Sempre!





Guerra nas Estrelas – A ameaça fantasma paterna
(Carlos Brunno Silva Barbosa)

Luke Filho bate na porta da casa paterna com uma firmeza inusitada. Apesar de todo ensaio e treinamento jedi que praticara para dar ao ato tal solidez, não imaginava ter tamanha firmeza... É dia dos pais e Luke Filho sente o desconforto constante que esta data lhe traz. Enquanto bate na porta, o coração jedi lhe alerta: “Perigo, perigo! Isso não vai dar certo de novo, não vai dar certo de novo!...” Mesmo assim, Luke Filho insiste – todo ano, reserva essa data ao sacrifício de se aproximar da criatura estranha que declarara ser seu pai.
            Anakin Pai atende a porta – tem olhos de real ressaca, tão diferentes dos oblíquos olhares das Capitus Machadianas que Luke Filho admira nas leituras cotidianas. A ressaca de papai é algo adoentado, misto de crise moral e existencial. “Perigo, perigo!”, o coração jedi grita. Mas, em silêncio, Luke Filho força um sorriso e deseja que este saia o menos amarelo possível. “Perigo, perigo!”, o coração jedi em histeria. Mas Luke Filho apenas sorri e diz a Anakin Pai um “Feliz Dia dos Pais!”, sem hesitar, bem firme, como treinara durante a longa viagem para este hostil planeta.
            Anakin Pai repete o ritual anual, demonstra satisfação com a chegada do filho pródigo, abraça-o com entusiasmo e comenta sobre planos imediatos e futuros que jamais concretiza ou concretizará. Combina com Luke Filho para que ambos saiam em direção à Galaxiária de Barra A-Li, pois juntos pegarão uma espaçonave para a Estrela Shagri-Lá, onde almoçarão com Princesa Léo, irmã-o de Luke e segundo filho de Anakin.
Antes de saírem, Anakin Pai conversa às ocultas com a irmã Madrinha Estelar, que ainda antes abraçara o afilhado Luke Filho e comentara com este os últimos acessos embriagados de fúria sith do nebuloso consanguíneo, atualmente brigado com os demais parentes da casa. Luke Filho observa à distância a tentativa de reunião sigilosa de Anakin Pai com Madrinha Estelar, mas nada escapa aos olhos jedi: seu pai, em eterna crise financeira, pegava mais um empréstimo fraterno que jamais iria pagar. “É pra eu poder curtir meus filhotes, irmã Estelar, você sabe...”, Anakin Pai sussurra para a consanguínea benevolente e protetora, que não percebe a farsa fantasma no tom suspirado do nebuloso consanguíneo. Luke Filho, de ouvidos apurados jedis, finge que não, mas ouve tudo e sente desconfortantes premonições. “Não vai dar certo, nunca dá certo!”, o coração jedi em colapso. Mas Luke Filho apenas acompanha a farsa de Anakin Pai e, após o comando paterno, segue com ele em direção da Galaxiária.
Cenário II da farsa: Galaxiária de Barra A-Li. Anakin Pai alega dores misteriosas e pede para parar no Bar do Bulba para relaxar e conversarem enquanto a espaçonave das 12:30 não chega. Retira do bolso puído da velha calça o dinheiro amassado, outrora sem vinco ou marcas quando Madrinha Estelar emprestara, e pede uma dose de Cerveja Letal Extra Sith, apesar de antes ter alegado a Luke Filho que pediria um H2O terráqueo. Anakin Pai percebe um certo desconforto no filho, mas a energia nebulosa no pai é mais forte que a censura velada do filho. “Não liga de eu estar bebendo só umazinha cervejinha letal, né?”, sorri nebulosamente, como cobra amiga que disfarça a periculosidade de seus venenos. “Perigo, perigo!”, novamente o coração jedi em histeria. Mas Luke Filho apenas ensaia um sorriso torto e responde um inócuo “Não” que nem ele mesmo acredita que sairia tão falsamente indiferente. É o dia dele, de Anakin Pai, e Luke Filho quer explodir, mas, por enquanto, pelo bem da paz nas estrelas, só implode.
Anakin Pai, após o primeiro copo de Cerveja Letal Extra Sith, dispara: “Sabe, filho, tô sentindo umas dorezinhas aqui, acho que não estou disposto a viajar.” Primeira desculpa – então o plano era só mesmo dar ‘um perdido’ na Madrinha Estelar, como as primeiras premonições jedis de Luke Filho desconfiavam. “Perigo, PERIGO!”, o coração jedi surta. Mas Luke Filho implode e só diz um “Ok” que soa mais irônico, desesperançado e desconfiado do que ele ensaiara fazer. Segundos de pesado silêncio, o bafo de Cerveja Letal Extra Sith incomoda o nariz jedi de Luke Filho, logo que o pai dispara o segundo e fatal tiro: “E o namorado de seu irmão deve estar lá...” “PERIGO, PERIGO!...” Além de dar ‘um perdido’ na Madrinha Estelar, agora Anakin Pai tenta se justificar com manobras homofóbicas do tradicional Império, atacando o seu segundo filho e irmã-o de Luke, Princesa Léo. É demais para qualquer zen budismo jedi! Luke Filho tenta conter a explosão, mas sua cara jedi não disfarça a expressão de fúria. O bafo letal extra sith de Anakin Pai dá a última estocada: “Você também fica zangadinho à toa...” “PERIGO, PERIG...” Luke Filho soca levemente o balcão, queria retirar o Sabre de Luz da Verdade e picotar o já despedaçado pai. A criatura a sua frente é tudo que ele não queria ser e tem o mesmo sangue que corre nas veias dele. Os olhos de Luke proferem Guerra, mas ele apenas se levanta e diz que prefere sair do bar e entrar mais cedo na espaçonave para a Estrela de Shangri-Lá. Luke Filho parte sem olhar pra trás.
“Não ia dar certo, você sabia que não ia dar certo”, o coração jedi dispara arritmado, mas controlado, como escombro sobrevivente de ataques de múltiplos furacões. Mas Luke Filho, mesmo sempre frustrado, o ignora, pois sabe, que, no ano que vem, nesta mesma fatídica data, retornará à casa paterna e repetirá o ritual, mesmo se opondo aos alertas do coração jedi.



sábado, 11 de agosto de 2018

Latinidade Valenciana Ludovicense: Apenas 3 poemas latino americanos sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes


Como eu já dissera na postagem anterior, no último período de folga, retornei a São Luís-MA para participar do"IV ENCONTRO NACIONAL DA SOCIEDADE DE CULTURA LATINA DO BRASIL", em São Luís/MA/Brasil, de 19 a 21 de julho, e curti muito essa jornada lírica ludovicense. Durante o evento, além ter tido o privilégio de declamar vários poemas meus, entre eles, como já informara na postagem anterior,  tive a sublime emoção de ver ao vivo e em múltiplas cores o lançamento da I Coletânea Poética da Sociedade de Cultura  Latina do Brasil: Construindo Pontes”, em comemoração aos 30 anos de fundação dessa importante instituição multicultural. 
A minha participação nessa coletânea é muito importante para minha bibliografia, pois, apesar da liberdade de temas, foquei nos meus 3 poemas inseridos na obra minha visão lírica de latinidade (mais próxima da ‘américa latinidade’) e seus elos históricos e suas pontes às vezes firmes, às vezes frágeis.
E, como o número de exemplares da coletânea são limitados, impedindo-me de doar, emprestar para cada leitor, trago hoje ao blog estes 3 poemas (2 inéditos – “Lá Tino” e “A cidade latina dos náufragos”  e 1 já publicado anteriormente no blog – San Vicente dos Convalescentes”).
Espero que tenham uma boa leitura. Abração (estou de volta!) e Arte Sempre!




Levaram meu ouro, minhas jazidas de sonhos e mataram parte de minha rebeldia.
Ainda assim, carrego comigo toda riqueza perdida nos olhos sem brilho cheios de fantasias.
Trago em meus sorrisos mais naturais todas as inconfidências tolhidas e dores incidentais.
Imagino sempre vinganças vãs e nunca cumpridas contra meus exploradores ancestrais.
Navego em calmarias revoltosas em busca eterna da metrópole a retratação.
O passado é um legado de sangue, dor e ingloriosa conquista que nunca deixo pra trás.

Tino

Latino é um ser assassino em potencial incapaz de assassinar qualquer forma de vida.
Ainda que a fúria incontida incendeie os olhos e a rotina, infinita é apenas a fumaça dos dias.
Tenho a faca da revolução nas mãos, mas apenas acaricio suas lâminas com amor e hesitação.
Impossível negar o clamor guerrilheiro, mas a guerrilha aberta só se manifesta
Nas trincheiras internas, nos confins do coração descompassado pelos fracassos diários.
O inglorioso legado de ser nativo explorado implode meu corpo que desfila
Sem brilho e pacífico no meio da violenta multidão.




A cidade latina dos náufragos

Ainda ontem mataram mais uma pomba da paz
Que passeava inocentemente pelas estradas da vida
Cantando músicas de conciliação
Para a população faminta e oprimida
De nossa cidade latina, ainda gripada com o vírus da farda
Trajada e disseminada por golpistas ancestrais.

Hoje os culpados são pegos aclamados por seus discursos de preconceito
Nas vias públicas e redes sociais virtuais.
Hoje os culpados são pegos, mas quem vive preso é o bom senso,
Encarcerado nas celas do retrocesso de uma nova e poderosa Alcatraz.

Ainda ontem espancaram mais um defensor dos humanos direitos
Que pensava inocentemente que haveria respeito
À vida de todo ser vivo que caminha pela cidade latina em busca de paz.
Enquanto o mundo se mata pela estável economia,
Aqui explodem granadas sobre os defensores do direito à vida pacífica;
A discussão estúpida mais popular é se devemos ou não nos matar.

Hoje a febre é verde e amarela e mata-nos um pouco a cada dia;
A doença se alastra por ruas e avenidas.
A falta de razão e de cortesia é agraciada
Pela nação violenta e enlouquecida.

Ainda ontem chorei de saudades pelos tempos cerebrais
Que os anos e a internet não trazem mais.
Hoje a vida acuada me visita,
Aflita com as novas notícias falsas e as vozes assassinas,
Com medo que novamente nos arrombem as portas
E marchem contra sua existência divina.

Declamo-lhe então essa vã poesia
E, mesmo refém do mesmo receio que a exila,
Abro a porta de casa pra vida.
A morte, popularizada, compartilhada e querida,
Ronda armada a vila e ameaça minha acolhida.
- Nesse continente insensato de nossa sociedade latina,
A vida e eu agora somos uma náufraga ilha...



San Vicente dos Convalescentes

Era um imenso coração sangrando
Que avistei em teus olhos castanhos
Indispostos pra vida ou pra morte
Com uma dor de nada que tudo invade.
Era o monstro e a verdade
Um horror de sina sem sorte
Eu vi nossa doce ilusão mancando
Depois do tiro e do golpe.

A América latina, com consciência,
É outra vez um gigante que adormeceu
Nas camas sitiadas de San Vicente,
Governada pelos demônios e suas cruzes.
Nas praças plácidas de San Vicente,
As velhas estátuas armadas de sobrenomes
Assistem a seus novos varões clamando
Por mais rancor entre os ricos e os pobres.

Os livros de História eles já rasgaram
E o que era sonho vivo desfaleceu.
Enquanto tu suspiravas
Por uma estrada nova pra San Vicente,
Os porcos cercavam tua avenida,
Mantendo a América convalescente.
Agora vejo velhos barões gritando
Por um novo circo cada vez mais torpe.