domingo, 8 de setembro de 2019

Solidões Compartilhadas de Poesia sem Palavras: Tatiane Jesus dos Santos e Leticia Siqueira da Silva mostram que toda arte, amor e tolerância valem a pena


A notícia, com a qual inicio a introdução das Solidões Compartilhadas de hoje, vocês já conhecem: neste tenebroso início de setembro (e depois é o coitado do agosto que é considerado o mês do desgosto): numa operação inédita na história da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, um grupo de fiscais da Secretaria Municipal de Ordem Pública percorreu, no início da tarde desta sexta, os estandes do evento para recolher livros com temas ligados à homossexualidade. O fato se deu por determinação do prefeito Marcelo Crivella, que havia visitado o evento um dia antes e se escandalizou com o romance gráfico da Marvel “Vingadores: A cruzada das crianças”, da conhecida Coleção Salvat Capa Preta. A obra traz dois personagens gays, Wiccano e Hulkling, que se beijam em uma das páginas. O prefeito, evangélico conservador, considerou a cena inapropriada e determinou que a obra fosse retirada das prateleiras, mas a organização recusou —e, mais tarde, a Justiça proibiu. Os livros, no entanto, desapareceram em poucas horas. Assim que a polêmica ganhou as redes, todos os exemplares que estavam disponíveis foram comprados. "Livros assim precisam estar embalados em plástico preto lacrado e do lado de fora avisando o conteúdo", afirmou Crivella, em um vídeo publicado em seu Twitter. O prefeito argumentou a necessidade de "proteger as crianças" para que elas não tenham "acesso precoce a assuntos que não estão de acordo com suas idades". As declarações do político, somadas à atuação dos fiscais, geraram um levante em massa de livreiros e editoras, que consideraram o ato uma grave ameaça para a liberdade de expressão. Este é mais um capítulo vergonhoso da nova velha e retrógrada maneira de  se ‘fazer política’ atual: agradar sua minoria extremista (nesse caso, evangélica e de direita, mas a prática estúpida do disfarce da incompetência administrativa por meio de atitudes polêmicas insossas e escandalizadoras tem sido uma constante tanto da maioria da direita quanto da esquerda). Agora o que eu, como conhecedor, leitor e pesquisador de quadrinhos, sabe e talvez vocês não saibam, amigos leitores: pra demonstrar o quanto a prática do político (chamá-lo de prefeito novamente, diante de tanta incompetência administrativa – o Rio está um caos e sua ‘atuação’ à frente do desgoverno é, isso sim, censurável de tão escandalizante) Crivella é oportunista [mal realizada, como todo seu desgoverno], retrógada, atrasada, a revista ‘censurada’ pela Vossa Estúpida Excelência foi lançada  em Julho de 2016 – ele tentou censurar uma obra que circula há 3 anos em todas as bancas e sites de quadrinhos, ou seja, ele está mais atrasado e apalermado do que pensa. Outro detalhe: a obra que o escandalizou pertence à Coleção Salvat Capa Preta que comumente republica material já publicado no Brasil: a mesma história já havia sido publicada nas revistas X-men e Os Vingadores Especial, da Editora Panini, em 2012, e o original americano é de 2010 – ou seja, Crivella não prestou nem para mostrar um conservadorismo viril, foi insosso, pois condenou uma obra amplamente divulgada há 7 anos no Brasil e 9 nos EUA. Como declarou Flávio Moura,  editor da Todavia, em declaração ao El País: "Não há eufemismo para o que aconteceu. É uma tentativa horrorosa de censura”. E acrescento: além de horrorosa, é mais uma trapalhada conservadora de Crivella. Nem pra ser um censor competente ele serve.
Bem, mas o que isso tem a ver com a postagem de hoje? Primeiramente, para lembrar que homofobia ainda é crime e relembrar que os tais kits gays – que cada político incompetente apresenta um pra chamar de seu – permanecem como obras de ficção – quase uma obra de fantasia obscura de porões da mais tenebrosa fase da Idade Média -, ‘segundamente’, porque eu não ia perder a oportunidade de zoar que o Crivellla nem pra censor retrógrado conservador competente serve, ‘terceiramente’, para demonstrar minha preocupação com tal conservadorismo sem noção que só serve como manutenção do retrocesso injustificado e como distração para evitar discussão, debate e busca de resolução para problemas reais e imediatos, e ‘quartamente’, mas também principalmente, porque isso me lembrou de que eu ainda não fizera uma solidão compartilhada há tempos guardada nos meus arquivos, fruto de boas lembranças de maravilhosas artes de duas grandes artistamigas, que, na época, eram artistalunas da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, da região rural de Teresópolis/RJ. Estou falando das formidáveis, mais que fodásticas desenhistas, artistas da poesia sem palavra, da poesia da imagem sublime, Tatiane de Jesus Santos e Leticia Siqueira da Silva.
No sábado, dia 07/10/2017, a convite de Fernanda Monteiro e demais amigos do Grupo Diversidade, tive a honra de participar e curtir a II Feira da Diversidade, no Clube dos Democráticos, em Valença/RJ. Uma semana antes, idealizei fazer cartazes com o tema “Todo amor vale a pena”, demonstrando a diversidade de relações amorosas entre nós, seres humanos. Mas, para isso, precisava de jovens e talentosos desenhistas e, por isso, convidei as duas artistamigas citadas (na época, artistalunas do 9.º Ano) para fazerem arte com o tema - lembrando que o convite foi feito fora do horário de aula, em cima da hora, com a possibilidade de recusa [em nenhum momento foi imposto; só sugerido, como diz aquela canção de Lulu Santos, sem a “menor obrigação de acontecer”], com liberdade de expressão artística (sem imagens pré-concebidas), não valia ponto, remuneração ou algo do tipo, tudo por amor à arte, e as duas deram conta do recado, foram sublimes. A Exposição de cartazes com os desenhos delas foi realizada e elogiada na II Feira da Diversidade, no Clube dos Democráticos, em Valença/RJ, no dia 07/10/2017.
Diante do capítulo envolvendo o político Crivella e os quadrinhos de diversidade super-heróica da Marvel, me dei conta de que ainda não havia postado (ai, ai, tô atrasado nas publicações do blog, como o Crivella nas suas ‘censuras’ e ‘preocupações’ – aff, nunca pensei que um dia ia me comparar a este bestificado político do Rio) os desenhos da Exposição  “Todo amor vale a pena” sublimemente criados pelas maravilhosas artistamigas teresopolitanas Tatiane de Jesus Santos e Leticia Siqueira da Silva.
Encantem seus olhos com a sublime arte destas duas mais que fodásticas artistamigas, amigos leitores. Toda arte, amor e tolerância valem a pena.


"Toda forma de amor vale a pena", 
por Tatiane Jesus Santos





"Toda forma de amor vale a pena", 
por Leticia Siqueira da Silva









sábado, 7 de setembro de 2019

Privatizando (e, consequentemente, privando) o prefixo In de nossa Independência


Como é Dia da Independência do Brasil, vamos abordar na crônica-postagem de hoje o antônimo da palavra: falemos sobre dependência.
Segundo matéria de 1.º de agosto de 2019, do site Extra, baseada nos dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados pelo IBGE, o número de desempregados no Brasil foi de 12,8 milhões de pessoas no 2.º trimestre. Apesar da ligeira diminuição de desempregados em comparação ao trimestre anterior, ainda há 12,8 milhões de brasileiros DEPENDENTES de uma política melhor de geração de empregos. Segundo matéria de 31 de outubro de 2016 do site Superinteressante, há uma drogaria para cada 3 mil habitantes, mais que o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Ou seja: há mais pontos-de-venda de remédios no Brasil do que de pão – são 54 mil farmácias contra 50 mil padarias. O site nos alerta que a máquina de propaganda da indústria farmacêutica, a irresponsabilidade de muitos médicos e a ignorância dos usuários criaram um novo tipo de vício, tão perigoso quanto o das drogas ilegais: a farmacodependência. E o número de farmacodependentes só aumenta a cada dia, a cada inauguração de uma nova matriz ou filial de empresa farmacêutica. Por falar em excesso de drogas e falta de pão, a matéria de 29 de abril de 2019 do site Observatório do Terceiro Setor, baseada no relatório internacional ‘O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018′, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mostrou que a fome atinge 5,2 milhões de pessoas no Brasil (ou seja, o número de pessoas que passam fome no Brasil supera em 1,7 milhão a população inteira do Uruguai). Contabilizando: temos 5,2 milhões de brasileiros que DEPENDEM de uma política mais humana na distribuição de renda e de assistência social. Isso sem contar os crescentes números de DEPENDENTES químicos, de DEPENDENTES familiares, de DEPENDENTES de uma figura política para se endeusar e se proclamar, num olhar retrógado paternalista, como salvadora do país, etc. No variado grupo de DEPENDENTES que o Brasil sustenta com soberania agora surge uma nova super equipe: a dos políticos que, incapazes de uma boa administração (ao contrário: precisam de algo para esconderem uma governabilidade insossa e/ou cada vez mais desastrosa), DEPENDEM de ‘propagandismo autopreservativo com deturpamento moral e cívico’, DEPENDEM de manifestações e censuras absurdas para sustentarem um conservadorismo que não sustentam, uma moralidade que não mantêm e uma competência que nunca tiveram. Não é preciso pesquisas, pois proliferam-se as notícias desta DEPENDÊNCIA: político que declara DEPENDÊNCIA de manifestações pró-ele mesmo (e não pró-governo, pois, se não se governa bem, não há governo pra se defender) no dia da nossa InDEPENDÊNCIA, outros que praticam censuras e proibições em eventos de natureza artística, literária e independente agrícola, pois DEPENDEM disso para terem ao menos uma migalha dos conservadores mais radicais, já que os demais brasileiros já estão de saco cheio da evidente desgovernabilidade destes políticos eternamente DEPENDENTES de jogarem poeira onde não há para que todos deixem de reparar seus escritórios já cheios de obscuras sujeiras depositadas por debaixo do já e cada vez mais imundo tapete público (isso sempre me lembra cenas do filme “O cheiro do ralo”, excelentíssimo filme nacional, dirigido por Heitor Dhalia e escrito por Lourenço Mutarelli, em que o escroto protagonista, viciado colecionador e explorador e redutor de objetos de significativas lembranças afetivas alheias através da pechincha amarga e sórdida, diz a todos que o cheiro ruim do escritório de sua loja de penhores vem do ralo, até que uma das vítimas da pechincha implacável lhe diz que a sujeira vem do ralo e quem vai no banheiro é o protagonista, então o cheiro podre é dele, e não do ralo. Por sinal, me pergunto se, diante de tantos mecanismos de censura, filmes corajosos como "O cheiro do ralo" conseguiriam resistir à onda hipócrita moralista).
Nunca convivemos com tantos DEPENDENTES – na maioria, frios, calculistas e orgulhosos de sua ignorância à DEPENDÊNCIA exibida e proclamada - quanto nesses tempos atuais, amigos, e, como a DEPENDÊNCIA se torna algo cada vez mais comum, os seres DEPENDENTES mantêm-se sólidos e sórdidos em todas as esferas de poder, tanto que uma manifestação a favor do apoio às DEPENDÊNCIAS soberanas e em repúdio aos setores críticos independentes no Dia da InDEPENDÊNCIA do Brasil é um absurdo hipócrita bonito, visto como natural.
Contribuo com os manifestantes com meu cartaz irônico: retiremos o prefixo in da InDEPENDÊNCIA, defendamos a soberania do absurdo diário autoritário com simpatia estúpida e comemoremos a nossa DEPENDÊNCIA enrustida com o verde do dinheiro que nos falta e lhes sobra e o amarelo do acovardar-se diante de uma crise séria de nossa identidade crítica e guerreira. Opa, palavras demais para um cartaz só; ninguém vai ler. Toquemos a profética música “Perfeição”, da Legião Urbana, composta por Renato Russo (já sei, vão chamá-lo de gayzista e esquerdista, aff), que, pelo menos, alguns ouvidos, ainda que meio surdos, vão entender:
“Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos covardes
Estupradores e ladrões

Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação

Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos

Comemorar a água podre e todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo, nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

Vamos festejar a inveja
A intolerância, a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror de tudo isto
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha que o que vem é perfeição”


domingo, 18 de agosto de 2019

Focando na cultura e Florescendo Liricamente: Trajetória Poética que segue


Exausto após um sábado culturalmente frenético – ontem participei de um maravilhoso sarau, o “Sarau Florescer”, organizado pela mais que fodástica divartistamiga Jammy Said, na Biblioteca Parque de Niterói, que se localiza em frente à Praça da República, no Centro de Niterói/RJ – e também pela longa viagem de volta a Teresópolis/RJ, ontem acabei dormindo bem cedo e, consequentemente, acordando também bem mais cedo que o comum nesta fria manhã de domingo. Mas o calor das boas lembranças, dos grandes momentos líricos mantém-se incansáveis em minha alma de poeta.
Pensando nestes momentos liricamente iluminados, posto hoje os dois vídeos nos quais sou entrevistado pela mais que fodástica divartistamiga Jammy Said para o Canal Foca na Cultura, presente no canal dela no Youtube. A entrevista foi realizada no sábado, dia 29 de julho, no finzinho do recesso escolar, e também culminou com o recebimento do convite para participar do Sarau Florescer, representando o Sarau Solidões Coletivas de Valença/RJ, e com minha posterior confirmação de presença no maravilhoso evento.
Além dos dois vídeos da entrevista, deixo um breve fragmento em vídeo da minha apresentação no Sarau Florescer: um pequeno trecho (a declamação não está completa no vídeo; falta parte da estrofe final) de minha interpretação para o premiado poema “Uma causa”, de autoria de Walace Resende de Moraes, poetaluno da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, da região rural de Teresópolis/RJ, onde leciono. Na apresentação, fiz uma parceria lírico-musical com a mais que fodástica divartistamiga Lis Romero (que conheci na hora do evento, quando realizamos um fantástico improviso lírico-musical). A gravação do fragmento foi feita pela divartistamiga Jammy Said.





quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Solidões Compartilhadas: Então... A poesia permanece viva nos amores líricos de Maria Eduarda Rodrigues


Apesar de ser um gênero textual pouco apreciado por pessoas que se consideram ‘muito adultas e realistas’ (num mundo infantilizado e surreal, como o atual, não considero classificar-se assim – embora o interlocutor considere o contrário - como algo muito maduro), o poema, renegado pelo universo galanteador de trabalhos forçados e defensor da ilusão de enriquecimento fácil, mantém seus palácios de cristais absolutos nos reinos dos leitores e escritores mais jovens. Com base na minha experiência de professor, o que consequentemente me permite que mantenha contato constante com o universo adolescente, tenho o privilégio de perceber que a poesia, tão rejeitada pelos mais rigorosos ostentadores da realidade opressiva, a poesia, essa coisa estranha e tão linda, que não deveríamos abandonar por mais ferina que seja nossa rotina, a poesia permanece viva, impávida, colossal, graças principalmente aos mais jovens, aos ainda capazes de sonhar e de acreditar. Um exemplo iluminado e singelo disso está nas solidões compartilhadas de hoje: num mundo constantemente agredido por discursos de ódios e imbecilidades ‘adultas’ governamentais, poetalunas brilhantes como Maria Eduarda Rodrigues conseguem sublimar a opressão diária e dedicar valiosos momentos de sua vida para dedicarem-se à (ainda, apesar dos pesares) maravilhosa arte da escrita poética, do rico cultivo do lirismo, para defenderem com ardor artístico a primazia do multifacetário sentimento chamado amor.
Trago hoje para os amigos leitores um dos maravilhosos poemas de amor de Maria Eduarda Rodrigues, artistaluna da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, da região rural de Teresópolis/RJ. O poema abaixo, intitulado “Então”, é de sua autoria e foi escrito e entregue a mim logo no início deste ano letivo (não, não valia ponto; é fruto da paixão lírica por escrever sem necessidade de retribuição, tendo como base a necessidade de expressar poeticamente suas reações diante desse sentimento confuso e ao mesmo tempo inebriante chamado amor).
Esta é a primeira de muitas solidões compartilhadas com esta escritora fantástica chamada Maria Eduarda Rodrigues (e rebeldemente autointitulada como ‘Poeta sem noção’). Abram os olhos e o coração e deixem a poesia e a emoção guiarem-nos, amigos leitores!

Então

Não sei como explicar o que sinto por você,
Não sei como dizer se é pra valer,
Não sei se gosta de mim,
Não sei nem o que fazer,
Não quero me magoar,
Nem fazê-lo sofrer.

Tô me envolvendo muito,
Sem medo de me prender.
Quero ver o seu sorriso,
Quero estar perto de você,
Quero poder ajudá-lo quando mais precisar,
Quero seu corpo abraçar,
Quero fazê-lo feliz de um jeito que nunca se viu.

Não gosto de deixar de ver você,
Não gosto de vê-lo perto de ninguém,
Sei que tenho ciúmes,
Mas só defendo o que chamo de meu...
Maria Eduarda Rodrigues



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Elegia a Erli Gabriel


Faz um tempo (mais uma vez) que eu não venho aqui. O fim de recesso escolar foi um período acelerado: muitas conquistas, muitas transformações, shows vibrantes, boemia necessária depois de um primeiro semestre bastante tenso, participações culturais marcantes e perdas. Sim, por mais que digamos não, somos seres humanos, falíveis e mortais: não nos acostumamos, mas convivemos com grandes perdas. Parafraseando o meu antigo poema “Árvores que morrem” (de meu terceiro livro “Note or not ser”), cada noite que vivemos é um dia que morremos. E, neste período de recesso escolar, a perda foi imensa, capaz de abalar o tradicional “levantar-se e seguir em frente” – é difícil caminhar, os pés ficam pesados a cada passo, quando perdemos alguém tão especial quanto Erli Gabriel, esposa do mestre mais que fodástico artistamigo Gilson Gabriel, eterna anfitriã das festas líricas e boêmias da Quinta das Bicas, maravilhoso quintal da casa do casal e abrigo de momentos marcantes do Sarau Solidões Coletivas, das conversas poéticas, dos movimentos socioculturais, da alegria mais espontânea e mais infinita. A aura de Erli Gabriel sempre transmitiu felicidade inebriante, sendo capaz de sublimar quaisquer dores do corpo e da alma. Mulher guerreira, amiga das boas causas e incentivadora da poesia mais bonita dentro de cada um nós, Erli Gabriel agora descansa em algum lugar especial, deixando a palavra saudade com um significado mais cortante e dando às boas lembranças um sentido mais infinito.
O enterro de Erli Gabriel, na triste tarde de 26 de julho foi um momento difícil, pesaroso. Durante o período em que se velava o corpo de Erli Gabriel, a divartistativistamiga Ana Vaz, com aquele ar lírico observador único que ela possui, percebeu que o bem-te-vi da Capela Mortuária cantava sem parar, enquanto Erli se despedia sem se despedir. Meu coração estava enlutado e abalado demais; naquele período eu nada vi nem percebi além da grande comoção que a perda de uma grande amiga nos deixou. Ao fim do enterro, Ana Vaz me contou sua observação e isso me lembrou mais Erli que a comoção anterior: o canto do bem-te-vi mesmo no momento triste era mais o jeito feliz e poético do espírito de Erli lidar com as coisas mais dilacerantes que toda – apesar de infalível – onda de tristeza na qual nos mergulhávamos.
Logo depois do enterro, caminhei pela estrada de Cambota – tenho esse lance meio “Forrest Gump” (a diferença é que eu ando, enquanto o personagem do famoso filme corria) de, meio perdido, sair andando meio sem rumo certo, apenas caminhar pelo desejo de não parar até que a exaustão traga um paliativo para as dores, um certo cansaço vazio. Durante o caminho, me deparei com bem-te-vis e o comentário de Ana Vaz e o desejo de registrar a partida de Erli Gabriel de uma forma que fosse triste, ao mesmo tempo que feliz, pois ela era alguém sempre de bem com a vida e um poema carregado apenas de tristeza não traduziria o espírito livre, sutil e alegre dela, intensificou-se a tal ponto que, como raras vezes fiz, escrevi uma elegia a Erli no celular enquanto caminhava indiscriminadamente para lugar nenhum (prefiro sempre parar e escrever à mão ou em frente ao computador  – sim, mesmo diante das inovações tecnológicas, sou um poeta quase primitivo; uma prova disso é insistir no blog, apesar de tal plataforma virtual estar quase que completamente ultrapassada por outras modas virtuais -, raras são as vezes em que escrevo um poema em celular; o texto abaixo talvez seja o terceiro ou quarto, sendo que, por sinal, o anterior fora escrito após uma marcante festa na casa de Erli e  de Gilson Gabriel).
A elegia que escrevi a Erli chega atrasada ao blogue, mas mantém o desejo de eternizá-la liricamente. Fiquei dias adiando a postagem, hesitei, mas o blog sempre foi um registro de minha trajetória lírica e essa perda foi marcante; por mais que evitasse, precisaria em algum momento registrá-la nesse espaço lírico virtual que me serve meio como um diário solitário coletivo.
Como declarou Ana Vaz: “Voou nossa Erli!! E cantou a manhã inteira o bem te vi!”
Também cantemos, amigos leitores, cantemos que a nova ave poesia eterna Erli gostava de canto, de festa, de vida, mesmo que sofrida, mesmo diante de tantas esperanças e vidas perdidas.

Elegia é canto triste que em ti sorri
Para Erli Gabriel in memoriam ad infinitum
(E inspirado na lírica observação de Ana Vaz)

A música
ainda que triste
te sorri.
Vem cantar
pra ti
à capela
da capela
o bem te vi:
ó abre alas
abre asas
ave Erli.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ilustres poetamigos volta-redondenses: Relembrando pérolas poéticas de Euzébio Nascimento Alves no aniversário de 65 anos da Cidade do Aço

Hoje, dia 17 de julho, é aniversário da querida Cidade do Aço, Volta Redonda/RJ, município vizinho de Valença/RJ e uma das minhas regiões lírico-afetivas. Em homenagem ao aniversário deste roteiro lírico-turístico de minhas andanças boêmio-poéticas (já curti e participei de muitos eventos culturais por lá), compartilho minhas solidões poéticas pela primeira vez com um antigo e sempre querido mestre poetamigo, residente em Volta Redonda/RJ, Euzébio Nascimento Alves, também conhecido como o Joãozinho do Gibi.
Bom prosador e grande poeta, Euzébio Nascimento Alves é bom de bate papo e, mesmo tendo meio que se aposentado da arte poética (“pra mim, envolvia muita dor, amigo, ficava triste por horas”, declarou-me uma vez), em uma postagem recente do blog, inspirou-se e retomara o hábito sublime de escrever fabulosos versos. Em mensagens virtuais, enviou-me, em formato de fotos, 2 poemas seus que foram publicados na histórica obra “X Coletânea de Contos e Poesias (1990-91)”, do famoso grupo artístico volta-redondense GLAN – Grêmio Literário de Autores Novos. Os 2 poemas foram publicados quando Euzébio tinha 24 anos e envolvem temas familiares/lírico-filosóficos (a onírica união do amor com a amizade em “Casamento”) e sociais (o eu lírico com condições razoáveis de vida diante da fome e pobreza em “Sem razão”). Publico-os em sua forma original, uma lembrança poética/oferenda lírica em comemoração aos 65 anos de Volta Redonda/RJ.

Boa leitura, amigos leitores!




terça-feira, 16 de julho de 2019

Invernal 2019 (ou Dois Mil e Dezenove Abaixo de Zero)


Um poema gelado ardeu em minhas mãos entre a manhã e tarde deste dia invernal. Eis o poema:



Invernal 2019 (ou Dois Mil e Dezenove Abaixo de Zero)

Os raios de sol beijam meu rosto sonâmbulo
como dedos precocemente envelhecidos, mas ainda ardentes,
que buscam notas aflitas em um piano de cordas desgastadas.
Vagarosas e próximas, as nuvens recitam versos sombrios
para o fogo cansado do astro rei.
Tudo parece antigo e fúnebre neste inverno.
Por mais que o dia seja novo e quase morno,
ainda é neve, haverá neve, mesmo que a neve não exista.

Ainda música ao longe, mas onipotentes e onipresentes,
os ventos entoam “A cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner,
regidos por Ravel – vão do sussurro suavemente gritante
à ocupação docemente feroz de todos os vazios
que, mesmo preenchidos, não deixam de ser espaços vazios.
Folhas morenas, viúvas do outono, são arrastadas
para o labirinto de Valhalla
pela ópera nórdica dos ventos invernais,
como crianças judias
guiadas por nazistas
para a câmara de gás.
Hitler ressuscita no auge
no inverno de dois mil e dezenove.

Meu coração re esfriado
- quem dera fosse apenas gripe a causa da frígida tormenta –
aproveita a geleira onírica para criar bonecos de neve
que, mesmo parecendo humanos,
continuam sendo bonecos de neve.
Sinto muito por não sentir nada
além do frio cons cortante:
a garotinha que vendia fósforos
nas calçadas das fadas atropeladas,
mesmo com a licença federal renovada,
jaz desempregada e desamparada
nos serenos de Hans Christian Andersen.
Sem lágrimas de cristal,
nem iluminações tardias,
mesmo que os olhos fossem lanternas acesas,
ainda seriam luzes tímidas
no fim do túnel,
na estação das trevas.

Em breve, será nublado novamente,
pois o nublado, mesmo quando invisível,
tornou-se permanente.
Por mais que o dia flerte com a luz tropical,
a escuridão sempre chega
cada vez mais cedo
no inverno atual.