sexta-feira, 12 de abril de 2019

Lembrando a Folia Lírica deste Março Carnavalesco: Luz, Câmera...Alcino! apresenta Euridíce e Orfeu do Monte Alcino no carnaval da mitologia


É, eu sei, eu sei, vou chover no molhado: tem acontecido tanta coisa, tantos eventos, tanto trabalho, que apareço pouquíssimo nesse meu querido (e meio que mal atendido) espaço lírico virtual; e toda vez arrumo uma desculpas – ora é trabalho demais, acontecimentos demais, o tempo não para e segue frenético. E ontem, quinta-feira, dia 11/04, foi um dia desses: de manhã, o Luz, Câmera...Alcino! fez sua segunda apresentação (a peça "Monólogos de Dor e a Alegria do Circo Musical”, sobre a violência nas escolas e um pedido de paz e esperança, com o histórico encontro dos artistalunos dos nossos anos com o Pré II, da formidável professoramiga Patricia Ignácio – em breve no Youtube e no blog) e sarau à noite, com participação minha e das queridíssimas artistalunas Leticia Vieira e Maria Gabriela Luz na Oficina de Poesia e Criação, no SESC/Teresópolis. Tantos eventos já seriam mais uma óbvia desculpa pra declarar-me um caco e adiar meu retorno ao blog, mas hoje, diante de tantos eventos realizados, porém deixados pra trás no blog, ou seja, ainda não publicados aqui, resolvi fazer um sacrifício, lutar contra o cansaço e, finalmente, atualizar as postagens.
A postagem de hoje, como tantas outras que virão, já deveria ter sido publicada há tempos (atrasado, o mundo segue tão veloz que vivo em estado de permanente atraso, mesmo tentando me adiantar).
Mal o ano letivo tinha começado e já estávamos de volta às atividades líricas e cênicas. Na manhã de sexta-feira, dia 02/03/2019, o Grupo de Teatro da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, o Luz,Câmera...Alcino!, apresentou um novo esquete, chamado "Eurídice e Orfeu do Monte Alcino", versão carnavalesca alcinense do mito grego "Orfeu e Eurídice", dirigido e roteirizado por mim (com acréscimo do poema premiado "Uma causa", do jovem artistaluno Walace Rezende, do 9.º C) e interpretado por Juslaine Bepler (Oráculo), Vitória Fernandes (Orfeu), Isabelle (Eurídice), Julia (Hades), Cleyton Filgueiras (Cérbero), Ryan (vento da Desconfiança) e o quarteto de mênades que viraram musas por causa do carnaval Ana Julia Duarte, Maria Gabriela Ferreira, Maria Vitória Souza e Érica Ribeiro.
Foi um esquete histórico (desde 2011, não fazíamos um esquete de carnaval) e o primeiro de muitos de 2019.
Hoje trago ao blog o texto do esquete e o vídeo da nossa apresentação lírico teatral.
Boa leitura, bom divertimento e Arte Sempre!







Euridíce e Orfeu do Monte Alcino no carnaval da mitologia

Personagens:
ORÁCULO: Juslaine Bepler Soares
HADES: Julia de Caldas Marques
ORFEU: Vitória Fernandes da Silva Carvalho
EURÍDICE: Isabelle Mello Provadelli
CÉRBERO: Cleyton Filgueiras Arruda
VENTO DA DESCONFIANÇA: Ryan Garcia Portilho
MÊNADES: Ana Julia Duarte da Silva, Maria Gabriela Ferreira Luz, Maria Vitória Souza do Carmo e Érica Ribeiro Souza da Silva

ORÁCULO (ar solene, dirige-se ao público):
Sou o Oráculo do Monte Alcino Folia
E trago-lhes uma nova versão para uma história muito antiga.
É o mito de Orfeu e Eurídice, dois personagens da grega mitologia
Que hoje ganha novo enredo, nova melodia
Neste carnaval de arte e magia.

Sai Oráculo. Atrás dele, estava Hades congelado (como numa cena pausada), sentado no trono, com uma caveira nas mãos. Ergue-se para falar.

HADES:
Assistam, mortais amigos e inimigos, à minha folia do horror,
Sou Hades, o rei do Camarote da Morte, o Príncipe da dor,
Sequestrei Eurídice, a musa de Orfeu, o poeta cantador
E, com esse ato vil, provoquei o fim de um grande amor.

ORFEU (aparece de repente, sempre tocando violão quando fala [e também quando não diz nada, continua tocando]):
Pois aqui estou, sou eu Orfeu, o poeta cantador,
Vim ao Camarote Maldito do vil senhor
Pra resgatar Eurídice, o meu único e grande amor.

HADES (irritado e surpreso):
Ora, que grande presunção!
Entra no meu seleto camarote um morto vivo, um pobretão!
Como passaste por Cérbero, meu segurança e meu cão?

CÉRBERO (meio tonto, rosna como cão, sem graça. Usa 3 bonés, 1 pra frente, outro pro lado e um pra trás):
Ah, meu Mestre Hades, mas que vergonha!
Orfeu me tocou uma moda muito risonha
E eu fiquei todo bobo, um verdadeiro pamonha,
Passou por mim, seu pesadelo, como quem bem sonha.

HADES:
Ah, meu fiel cão Cérbero,
Também sinto a música de Orfeu afetar meu cérebro.
(muda o tom, como se sofresse uma transformação de humor, fica amoroso)
De mim, já não sou senhor,
O que queres de mim, Orfeu querido poeta cantador?

ORFEU:
Quero que me devolva Eurídice, a minha amada,
Quero de volta o amor da minha vida. E mais nada.

HADES (encantado):
Ah, Orfeu, não consigo resistir à música do seu violão,
É uma magia invencível, uma incrível tentação!
Leve Eurídice contigo... (a partir do “mas”, faz tom maldoso) Mas, até sair, a mantenha longe da sua visão,
Pois, mesmo encantado, lanço-lhe a maldição:
Se olhar pra ela antes do fim da caminhada
Perderá para sempre a sua amada.

ORFEU começa a sair lentamente e Eurídice segue atrás.

HADES (confabula com VENTO DA DESCONFIANÇA):
Segue os dois, Vento da Desconfiança,
E afeta os ouvidos de Orfeu, acaba com sua confiança.

VENTO DA DESCONFIANÇA:
Deixe comigo, Mestre Hades, sou o maior fofoqueiro e corruptor,
Provoco brigas entre amigos e acabo com qualquer amor.
(vai na direção de Orfeu e fica falando ao seu lado)
Qual é, Orfeu, vai deixar a praga do Hades te assustar?
É mais forte que ele, grande Orfeu, não vai encarar?
E se Eurídice ficou feia, e se ela não te acompanhar,
Vamos, Orfeu, antes de acabar a caminhada,
Pra trás, dê uma olhada...
                                   
ORFEU acaba olhando pra trás.

HADES (sequestrando novamente Eurídice, sai do palco)
Eu te avisei pra não olhar pra trás, Orfeu,
Agora sua amada pra sempre você perdeu.

ORFEU larga o violão e ajoelha-se em desespero, com as mãos esticadas. VENTO DA DESCONFIANÇA assiste a tudo debochado.

VENTO DA DESCONFIANÇA:
Ah, Orfeu, és um músico grandioso,
Mas não passas de um tolo.
Como podes dar ouvido pro meu comentário maldoso?

ORFEU (sozinho, ajoelhado e triste)
Ah, Zeus do Monte Alcino,
Desconfiei do amor e fiquei sozinho!

Entram as seis mênades e cercam Orfeu. Não se sabe se são boas ou ruins.

Mênade 1:
Que isso, meu neguinho lindo,
Em pleno carnaval, estás chorando sozinho?

ORFEU (pego de surpresa, desesperado e triste):
As mênades, as mulheres que rejeitei!
Vieram me matar porque não as amei!

MÊNADE 2:
Ih, o Orfeu endoidou!
Um fora em nós você já deu e já passou.
Não viemos lhe tirar a vida;
Aqui é Brasil, e não a Grécia Antiga.

Mênade 3:
Você chamou Zeus do Monte do Alcino Folia
Então Ele nos convocou pra sermos suas amigas.
Já denunciamos pro tribunal da mitologia
E foi-se feita a justiça divina:
Condenou-se a maldade de Hades
E a maldição dele perdeu a validade. (traz Eurídice)
Amigo Orfeu, é o fim do luto e da agonia
Eis aqui de volta a sua Eurídice querida.

ORFEU (apaixonado, levanta-se, segurando o violão e abrindo os braços):
Eurídice querida,
Retornaste à minha vida!

EURÍDICE (emburrada, com os braços cruzados):
Muita calma aí, Orfeu do Monte Alcino, filho dos sóis,
Até agora nada falei, porque o terror roubou minha voz.
Mas agora digo que contigo não mais fico
Desconfiou de mim, ouviu o inimigo.
Sou mulher de respeito
E você me vem com despeito!
Sai pra lá, seu bobão,
Comigo não, violão!

ORFEU (volta a tocar):
Ah, perdoa esse sambista bobo, Eurídice querida!
Toco agora meu violão com todo amor e harmonia,
Perdoa esse violeiro tolo, que te quer bem por toda vida!

EURÍDICE (mudando de postura, abrindo um sorriso):
Ah, Orfeu querido, não toca essa modinha,
Senão eu não resisto, fico toda molinha...

ORFEU:
Vencemos a morte, a desconfiança e o tormento
E, com essa melodia, te peço em casamento.
Ah, Eurídice, amada e muito querida,
Contigo quero formar a mais bela e apaixonada família.

ORFEU E EURÍDICE SE ABRAÇAM.

Mênade 4:
Mortais carnavalescos de Terê,
Através desse mito façamos crer
Que o amor tudo pode vencer.

ORÁCULO (entra para declamar o poema premiado de Walace Resende de Moraes):
Uma causa

O amor é uma causa
que Deus abençoa sem pausa.
O amor é de verdade
Quando há respeito e lealdade.

O amor é uma constante,
deve ser cuidado a todo instante.
O amor cultiva na alma
o melhor de nós.

Sentimentos ruins ele acalma,
faz-nos encontrar esperança
pra que nunca fiquemos sós.
           
Um desejo ele desperta,
puro como criança,
o amor liberta.

(Poema de Walace Resende de Moraes [na época, 8.º C], 2.º Lugar na Categoria III [8.º Ano] do “1.º Jovem Talento Teresopolitano – Concurso de Poesia Olavo Bilac 2018”, organizado pela Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura Municipal de Teresópolis/RJ)

Mênade 5:
Deixemos no reino do submundo
A desesperança, o ódio, as tragédias e outros absurdos
E levemos só presentes bons aos nossos carnavais futuros.

Mênade 6:
Que nesta nova folia celebremos uma nova vida,
Sem violência; só amor, paz e harmonia
Entre mim e você, você e o outro, somos todos uma só família.
Toquemos com Eurídice e Orfeu as notas da vitória da mais sublime alegria!



domingo, 31 de março de 2019

Solidões Memorialistas Compartilhadas: Leticia de Lima Gonçalves nos tempos do feijão com farinha e jiló


Hoje, após um segundo turno quase impecável (sou vascaíno, mas não devemos omitir a realidade), o Flamengo conquistou a Taça Rio, parte do Campeonato Carioca de Futebol de 2019. Isso me fez lembrar-me de uma querida escritoramiga – ex-escritoraluna da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, onde leciono – fanática pelo Flamengo e também – quando se mostrava disposta – supertalentosa na escrita, a mais que fodástica artistamiga teresopolitana Leticia de Lima Gonçalves.
Voltando ao jogo de hoje, o Vasco ficou devendo um melhor desempenho nessa segunda fase do campeonato – e, voltando a mim e Leticia – da mesma forma como devo esta postagem há anos para a querida escritoramiga flamenguista. Trago hoje um dos grandes textos de memórias escrito por Leticia de Lima Gonçalves. Na época, sua dedicação às atividades escolares oscilavam bastante e, por isso, a importância maior do texto com o qual compartilho minhas solidões poéticas com Leticia: esse texto de memórias, derivado de uma entrevista dela com seu pai, foi um desafio – ela dificilmente antes tomava coragem para fazer as redações – e um ponto de virada para a talentosa escritoramiga – ela se dedicou, venceu a hesitação inicial, fez uma primorosa entrevista, escreveu, reescreveu, suou liricamente, esmerou seu texto ao máximo para que me entregasse orgulhosamente sua cristalizada versão final, que trago hoje ao blog.
Confesso vergonhosamente devo essa solidão compartilhada à escritoramiga e aos amigos leitores há tempos (arrumar a papelada de casa ontem auxiliou no meu reencontro com o texto em meio à babel de arquivos). Bem, na falta de desculpas melhores, só posso dizer o cretino “sinto muito, mas antes tarde do que nunca” rs. Outra confissão: me amarro nestes textos em que nos passamos por outra pessoa que nós conhecemos (já escrevi um texto desse tipo em homenagem à minha mãe, texto este já publicado em jornal e aqui no blog), traz aquela sensação fraterna, de se dispor a passar pelo outro, sentir como o outro sente, como os amigos leitores fazem quando se passam pelos personagens cujas peripécias são lidas vorazmente.
Viajemos, amigos leitores, através do formidável narrador em primeira pessoa da escritoramiga Leticia de Lima Gonçalves dos tempos do feijão com farinha e jiló até os dias atuais, refletindo o antes, o hoje e sonhando com o promissor depois.

Dos tempos do feijão com farinha e jiló

Eu me lembro como se fosse hoje: estava numa mesa comendo feijão com farinha e jiló. Na minha época, não tinha variedade de comida como tenho hoje em dia; eu só comia feijão com farinha e jiló. Era ruim, mas tinha que comer, senão apanhava. Minha mãe ficava perto de mim e de meus irmãos nos vigiando com uma vara de marmelo. Uma vez, meu irmão mais novo apanhou muito, nunca mais deixou de comer as refeições que meus pais ofereciam.
Eu me lembro de que trabalhava desde os 6 anos de idade na roça. Ia pra escola e, quando voltava, tinha de trabalhar, colher feijão, catar jiló, etc.
Hoje tenho uma família que eu amo, apesar de todos os problemas. Minha filha de 15 anos é meio desobediente, não cumpre com parte das tarefas de casa. Minha esposa vive brigando com ela e eu não posso fazer nada, porque é coisa de mãe e filha.
Apesar de seu comportamento complicado, minha filha me ajuda no trabalho, tanto que até dei uma parte da lavoura para ela cuidar. Assim, ela faz seu dinheiro e está juntando para comprar o que desejar.
Hoje moro em um lugar calmo, tranquilo. As pessoas são amigas, e é um lugar onde todo mundo é parente. Tenho um terreno que é só meu, da minha filha e da minha esposa, sempre foi assim. Tenho um sogro enviado por Deus e uma sogra abençoada que me ajudaram muito quando eu mais precisava.
Atualmente me considero um bom cidadão, tenho minha lavoura de tomate, couve e alface para fazer dinheiro e pagar as contas de luz, pagar o que eu devo e por aí vai minha vida, bem à frente dos tempos do feijão com farinha e jiló.
(Texto de memórias escrito por Leticia de Lima Gonçalves, 
baseada em entrevista feita com seu pai.)



quinta-feira, 21 de março de 2019

No Dia Mundial da Poesia, deixo meus olhos leitores penetrarem (e serem penetrados) pelo lirismo de Jardim


Hoje, dia 21 de março, como bem me lembrou o super mais que fodástico poetamigo Sergio Almeida, mais conhecido como Jardim, comemoramos o Dia Mundial da Poesia. Diante de data tão especial, nada mais apropriado que compartilhar minhas solidões poéticas na postagem de hoje com uma pequena (pequena, no sentido de quantidade, de leitura com desejo de ler mais; imensa, em seu esbanjamento lírico, grandiosa em sua plenitude e – principalmente nos dois últimos – sensualidade) seleção de 3 poemas do próprio  super mais que fodástico poetamigo Jardim.
O super mais que fodástico poetamigo Sergio Almeida, o Jardim, é um artistamigo multipremiado em diversos certames literários e tem vários livros publicados (“Filhas do Segundo Sexo”,  “Crônicas do amor impossível”, “Amores possíveis”, “Diário do desassossego”, “Dois” e “Faraway” – recomendo que acompanhem e obtenham mais informações sobre as obras primas do super poetamigo no blog pessoal dele; eis o link: https://sergioprof.wordpress.com  ).
Comemoremos esta marcante data deixando nossos olhos leitores penetrarem (e serem penetrados) pelos mais que fodáticos poemas de Jardim!

trago na alma o inventário das andanças,
palavras proferidas no deserto das planícies
que percorrem um tempo incontestável.
entre as árvores e as montanhas, a história,
o milho semeado e colhido.
a cana, o cacau, o tabaco, o trigo, o café.
entre serras e pampas o voo das mariposas
é uma prece debaixo dos olhos do deus católico.
ouço tuas sílabas de encanto.
américa.

desfilo meu enredo andarilho,
passo a passo rumo à alvorada.
quantas trilhas, quantos limites!
a travessia ao anoitecer no titicaca,
as cordilheiras dos andes aquecidas pelo sol
e a noite debaixo do céu de macchu picchu.
as águas de el nino vem inundar o passado
e tudo chega como um oceano de saudade
por todos los amigos e los hermanos.
américa.

doze de outubro,
mil quatrocentos e noventa e dois.
passos a ecoar pelos becos seculares
de quito e de la paz.
ainda não ouvi tudo quanto queria ouvir,
derramo o cântaro de minhas lástimas
sobre tuas feridas abertas.

lembro-me da fascinação do teu corpo
nascido da utopia, cenário manchado pelo suor
de negros homens no canavial
ou amarrados ao tronco, a chibata a ecoar
em suas costas, os campos semeados
e a esperança tatuada em tua pele.
o perfume da terra cultivada,
nos seus frutos germinava o encantamento
e nossas pálpebras se abriam para um novo dia.

américa que vivi,
entre risos e o pranto, o esplendor de tenochtitlan.
a américa primeira,
asteca, maia, inca e guarani,
a américa mãe,
sangrada por cortez e pizarro.
a pátria de todos nós,
a heroica pátria de bolívar
pilhada e consumida
pelas garras dos tiranos.
vi tuas casamatas abertas
e as densas trevas que caíram sobre ti.
vieram os anos de chumbo,
os labirintos de dor e as atrocidades.
na penumbra morreram todas as flores.

canto a liberdade asfixiada,
pronunciando nomes como médici, somoza, fidel, pinochet
e seus rastros homicidas naqueles dias amordaçados.
canto as valas comuns,
as ossadas do atacama,
os esqueletos do araguaia.
meu réquiem é para os desaparecidos,
meu canto é para os filhos da ditadura,
para os sobreviventes e suas cicatrizes,
para as viúvas e os órfãos.
para las madres de plaza de mayo
e suas lágrimas perenes.

séculos se passaram
e tuas chagas ainda emergem nos jornais.
malditos condores,
malditos generais.
canto por ti, américa, por tuas favelas,
por teus bairros miseráveis e por teus palácios,
por teu brilho ofuscado pela tortura.
américa de tantos massacres e cadafalsos,
ouço-te na voz melancólica das metralhadoras
derrubando o ultimo jagunço em canudos.
uma américa de martírios,
estrangulada em atahualpa,
esquartejada em cusco,
sacrificada em che guevara.
executada em cada prisão,
e nos rituais da morte do dói-codi.

tanto luto, tanta memória
e nenhum perdão,
um áspero clarim ao entardecer
distante, tão distante,
ressoa nos planaltos e nas cordilheiras
e hoje, em busca de si mesma
ainda abrigas o mesmo fragmentado coração.

o que te aguarda, américa?
os anos se foram, inquietantes e atrozes
restando um mundo com seu clamor colonizado.
busco em teu íntimo silêncio,
por tudo aquilo que perdemos.
meu pensamento numa oração e num lampejo,
viaja ao eldorado,
lá, muito além do amazonas, um lugar deslumbrante.
muito além do aconcágua
muito além da sombra de montezuma
e dos acordos de tordesilhas.

falo em nome desta américa indígena agonizante,
falo em nome de uma américa proletária
em nome do ouro e da prata ensanguentados.
das roupas gastas dos camponeses sobre a terra árida
e a resignação de um povo com sua misteriosa mudez,
seu grito contido que em algum lugar se perdeu,
sua fome urgente e seu sangue.
suas praças onde se erguem as estátuas dos seus heróis
falo das barriadas,
da miséria, da varíola e do frio,
falo em nome dos meninos que vendem balas nos sinais.
falo por todo discurso subtraído,
reprimido pelos fuzis, detido, interrogado, ameaçado
falo da marca da tirania encravada nas paredes
falo de uma era de desterros e torturas,
do terror uniformizado.

tenho os punhos abertos e o peito vazio.
em meu gesto de amor desesperado.
meu olhar descalço e peregrino
assistiu a nostalgia do exílio e dos encarcerados.
dos párias, dos bêbados, dos vagabundos.

caminhando pela terrível solidão branca das ruas,
pelo destino oculto das metrópoles
abre-se o itinerário clandestino das minhas pegadas
por entre as trincheiras escavadas dos meus sonhos.




beijo as pétalas da rosa.
e na minha boca
o meu amor goza.




aos poucos fui te descobrindo.
na madrugada fria como um cadáver
o aroma dos desejos.
mãos e olhos fechados,
nossos pés se encontraram
sob os lençóis.

senti teu desejo,
provei o sabor de prazer e pecado
dos teus lábios, descobri tua pele,
teus seios, tuas coxas
ao encontro das minhas.

aos poucos fui te descobrindo.
minha boca desesperada
buscava tua boca.
tua entrada molhada,
apertada, faminta;
carne contra carne.

nossos corpos se cruzaram,
descruzaram, se enroscaram
se entrelaçaram, se possuíram.
lambi o suor que te banha
e escorre de cada poro teu.

aos poucos fui te descobrindo.
mordo teus lábios,
o lamber das línguas
na sinfonia dos gemidos.
delicadezas pintaram
de arrepios as paredes,
os lençóis e as cortinas.

teu sexo úmido procurando
por meu sexo duro de desejo.
e no abismo de tuas coxas
inundei teu âmago
com o doce do meu leite.



sexta-feira, 8 de março de 2019

Solidões Compartilhadas Feminilíricas: As Mulheres de (em) Laryssa Fernandes


Depois de tanto tempo meio sumido (como quase sempre) do blog, hoje trago outra postagem, além da anterior, na qual homenageio as mais que fodásticas escritoras e personagens femininas. O motivo de fazer duas postagens ao invés de manter a tradição e postar apenas uma por dia? Recebi uma contribuição lírica vigorosa da superpoetamiga teresopolitana Laryssa Fernandes, também homenageando as mulheres (enviado logo depois da estreia dela aqui no blog há 2 postagens atrás) e, como afirmei anteriormente, o Dia Internacional da Mulher é superespecial e é uma data que merece ser comemorada quebrando a tradição de uma única postagem por dia.
Por isso, hoje orgulhosamente compartilho minhas solidões poéticas mais uma vez com mais um maravilhoso poema de Laryssa Fernandes.
Bem vindos ao universo lírico feminino de Laryssa Fernandes, amigos leitores!
E, mais uma vez, desejo-lhes Boa Leitura e Arte e Feminilirismo Sempre!

Mulheres

Nós sangramos
Nós queimamos
Nós choramos quando apanhamos

Somos humilhadas
Somos ofendidas
Somos violentadas
Muitas vezes somos agredidas

Somos consideradas como sexo frágil
Mas somos fortes
Somos muito fortes
Porque aguentamos o que passamos

Somos mulheres!
Laryssa Fernandes
(28/02/2019)



Contra o feminicídio e a favor do Feminilirismo: Canção Mulher


Hoje é Dia Internacional da Mulher e o poeta-blogueiro que vos escreve não poderia deixar essa data passar silenciada, apesar de minhas visitas cada vez mais esporádicas neste espaço lírico-virtual. Vivemos tempos sombrios de invocações do, outrora sorumbático, machismo, do aumento das violências domésticas e, consequentemente, dos mais altos índices de feminicídio, e, nós, escritores líricos, filhos de Safo, não podemos deixar de cantar as Musas que regem nossa trajetória poética: a Arte vive e sobrevive graças ao sopro divino dElas, a poesia essência são Elas.
Quadro "Mulheres Facetadas",
de Di Cavalcanti
Por isso, trago um poema inédito meu, homenagem feminilírica, uma espécie de esposa-amante-amiga-rainha de outro poema meu chamado “Biblioteca de Babel”, onde exponho algumas de minhas influências literárias e gostos e paixões por Mestres Deusas Escritoras e Eternas Personagens Femininas.
Boa Leitura! Arte e Feminilirismo Sempre!













Canção Mulher 
(ou A Canção, ou A, Canção, ou A: Canção)

Sou Safo entre o precipício de Eros e os desejos de Lesbos,
criando um novo estilo, gestando o gênio do gênero lírico
nos mares impulsivos dos amores lascivos
e os perigos serenos dos estóicos rochedos.
Sou Carta Portuguesa, corajosa denúncia patrícia feminina
do abandono e desespero
contra a covardia masculina, estrangeira e fardada.
Sou Orgulho e Preconceito, Jane Austen tecendo novos enredos
para além do seu tempo.
Sou Bronté uivando a favor dos ventos nos morros
que enterram em silêncio os corpos das vítimas dos amores violentos
(as unhas da fantasma violentada marcará os braços másculos e grosseiros
na feminina madrugada).
Sou Flor bela e espancada oferecendo espinhos macios
em canções sublimes e dilaceradas.
Sou Cecília anjo menina de asa ferida, mas infinita.
Sou cor de Coral, do Colar de Carol, Comadre de Cora Coralina.
Sou verdes mares, Iracema apaixonada, mãe da América colonizada,
amamentando os filhos da dor, encarando a morte com gestos de amor.
Sou Capitu sem culpa e ainda culpada,
onda ora sincera, ora dissimulada,
que te arrasta quando encaras meus olhos de sedutora ressaca.
Sou unha pintada, frágil, mas sempre afiada.
Sou musa atrevida e recatada.
Sou minha, sou tua, sou única, sou inconstância consolidada.
Sou os seios que teus lábios bebês procuram sedentos,
da vida a abstrata vontade, sou de todos o primeiro beijo concreto na carne.
Sou aquela que aquelas e aqueles procuram no entardecer do desejo,
sou essa que apontam o dedo com desprezo ou zelo,
sou esta que convive com teus anseios e receios,
sou ela contra elos de eles cheios de preconceitos,
sou a feminina ampulheta contra o machismo bravio do arenoso tempo.
Sou a poesia do poema, a lira do canto, a narrativa do conto,
sou a lida diária, a crônica crônica duramente afável,
sou a fantasia rara, da mais vigente à mais improvável,
sou A, contra o O predominante da língua masculinizada inabalável,
sou A, Mulher, definida, definitiva, mesmo que mutável.