Olá, caros leitores, bem vindos ao blog daqueles que guardam um sorriso solitário no canto dos lábios que versam sonhos coletivos. Bem vindos ao meu universo virtual poético, bem vindos ao mundo confuso e fictício ferido de imortal realidade. Bem vindos ao inóspito ambiente dos eus líricos em busca de identidade na multidão indiferente, bem vindos ao admirável verso novo.
Hoje o Facebook me lembrou pela milésima vez que há tempos
não publico nada no blog; o aniversário do Sarau Solidões Coletivas passou
silencioso (dia 21 de abril), assim como tantas outras datas; a rotina
frenética; as pequenas violências diárias que sofremos a cada dia; 2019 nos
atropela com seu caminhão temporal acelerado e hitlérico. Poderia mais uma vez,
além das causas anteriormente expostas, lembrar que, em períodos de longos
feriados fico grande parte do tempo na casa de mamãe, onde dependo do wifi da
internet do meu irmão que nunca funciona em longos feriados ou lembrar que tô
cansado pra ka...ramba e mais um monte de blá blá blá e mimimi (pra quem lê de
fora) que já expus e re-expus em outros momentos, mas vamos ao que interessa:
arte, renovArte. [Penso que a introdução já cumpriu o seu objetivo principal,
que é avisar antecipadamente que essa postagem tá meio BASTANTE atrasada; por
isso vamos ao que interessa].
A postagem de hoje, que renova o marcador Poemas - HQs, foi planejado para a sexta ou sábado de Páscoa (sim,
tá atrasadaça, mas arte boa desconhece relógios e calendários), tanto que
fiquei na escola fora do meu horário encarando um dos escaners mais esforçados,
mas também um dos mais lentos do universo, para que todo o material fosse
postado em tempo real, mas a Páscoa passou, Jesus ressuscitou e a Oi Velox do
meu irmão não realizou o mesmo feito que nosso Redentor e o retorno às
atividades escolares foi tão intenso que o corpo não resistiu à tentação de
breves procrastinações.
A manhã de quarta-feira, dia 17 de abril de 2019, na Escola
Municipal Alcino Francisco da Silva, na região rural de Teresópolis/RJ, foi dia da Oficina de Língua Portuguesa
"Páscoa em Cena - HQ e Peça Teatral", organizada por mim e pela
formidável professoramiga Vanessa Costa, com participação lírica e iluminada
dos artistalunos dos sexto B, nono B e oitavo C. Realizamos, durante a oficina,
lemos quadrinhos da Turma da Mônica – aquele da série “Você sabia?” (o nome é
esse ou algo assim) – falando sobre a Páscoa, os ousados artistalunosuma realizaram
uma encenação ensaio do Ato da Ressurreição sob nossa direção e, depois (uau e
ufa! Como rendeu o dia e como foi exaustivamente lírico e brilhante!), os
talentosos artistalunos transformaram cenas do ato do trecho encenado da peça
teatral em maravilhosos quadrinhos que compartilho hoje com vocês, amigos
leitores!
Nada melhor que ressuscitar as postagens do blog com uma
exposição dos quadrinhos líricos, divinamente produzidos pelos artistalunos dos
sexto B, nono B e oitavo C da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva!
Bom entretenimento a todos e Arte Sempre!
Arte de Brenda, do 9.º B, com Giovana e Amélia Vitória, do 6.º B
As chuvas lentas e tímidas de outono sempre me provocam poemas estranhos. Este é mais um, inédito, acróstico com diagnóstico de loucura
sã. Não sei o que dizer sobre ele – a chuva outonal o fez assim e assim ele
abraça os seus olhos de outono encharcado de lágrimas preguiçosamente caída
como folhas desabadas das árvores, levemente em vão.
O que eu quis dizer? Nem meus eus mais secretos, nem eu mesmo sei, amigo leitor, e, mesmo se eu soubesse, não diria, pois muitas vezes a arte consiste em não dizer os segredos que ela tem, é 'subjetivativativista', depende dos olhos de quem lê, de quem lhe dá vida. Leia-me e diga-me você, amigo leitor inimigamigo, possuidor e possuído da minha estranha poesia.
Acróstico sereno
outonal
Cá estou eu em
trevas solares.
Hoje a noite pálida
amanheceu timidamente tempestuosa em mim
Unindo cansaços
bem sucedidos à melancólica preguiça existencial
Vicejando
begônias e ervas daninhas no solo ácido e misto de meu jardim outonal.
A chuva fina e
frígida abre calorosas cicatrizes obscuras em meu sol sereno.
Deveria o sorriso
torto e sem jeito fazer rima tosca com leves desesperos?
Espero respostas
que os pingos franzinos deste orvalho equivocado não têm.
Outra vez me
surpreendo dançando atabalhoado e quase parado entre poças mal formadas,
Urdidas por uma
garoa artista que pacientemente expõe suas telas sinfônicas de impaciência
Tracejadas nas ruínas
gritantes das públicas calçadas solitárias e abandonadas.
Outrora a tarde
sorria sem pudor; hoje também sorri, mas com indisfarçada monotonia:
Nobre natureza
rainha invade o reino urbano cinza com rurais lamentos de verdes vãos.
Outra vez a chuva
lenta e tardia irriga meu frágil deslumbramento com sins banhados de nãos...
É, eu sei, eu sei,
vou chover no molhado: tem acontecido tanta coisa, tantos eventos, tanto
trabalho, que apareço pouquíssimo nesse meu querido (e meio que mal atendido)
espaço lírico virtual; e toda vez arrumo uma desculpas – ora é trabalho demais,
acontecimentos demais, o tempo não para e segue frenético. E ontem, quinta-feira,
dia 11/04, foi um dia desses: de manhã, o Luz, Câmera...Alcino! fez sua segunda
apresentação (a peça "Monólogos de Dor e a Alegria do Circo Musical”,
sobre a violência nas escolas e um pedido de paz e esperança, com o histórico
encontro dos artistalunos dos nossos anos com o Pré II, da formidável professoramiga
Patricia Ignácio – em breve no Youtube e no blog) e sarau à noite, com
participação minha e das queridíssimas artistalunas Leticia Vieira e Maria
Gabriela Luz na Oficina de Poesia e Criação, no SESC/Teresópolis. Tantos
eventos já seriam mais uma óbvia desculpa pra declarar-me um caco e adiar meu
retorno ao blog, mas hoje, diante de tantos eventos realizados, porém deixados
pra trás no blog, ou seja, ainda não publicados aqui, resolvi fazer um
sacrifício, lutar contra o cansaço e, finalmente, atualizar as postagens.
A postagem de hoje,
como tantas outras que virão, já deveria ter sido publicada há tempos
(atrasado, o mundo segue tão veloz que vivo em estado de permanente atraso,
mesmo tentando me adiantar).
Mal o ano letivo tinha
começado e já estávamos de volta às atividades líricas e cênicas. Na manhã de
sexta-feira, dia 02/03/2019, o Grupo de Teatro da Escola Municipal Alcino
Francisco da Silva, o Luz,Câmera...Alcino!, apresentou um novo esquete, chamado
"Eurídice e Orfeu do Monte Alcino", versão carnavalesca alcinense do
mito grego "Orfeu e Eurídice", dirigido e roteirizado por mim (com
acréscimo do poema premiado "Uma causa", do jovem artistaluno Walace
Rezende, do 9.º C) e interpretado por Juslaine Bepler (Oráculo), Vitória
Fernandes (Orfeu), Isabelle (Eurídice), Julia (Hades), Cleyton Filgueiras
(Cérbero), Ryan (vento da Desconfiança) e o quarteto de mênades que viraram
musas por causa do carnaval Ana Julia Duarte, Maria Gabriela Ferreira, Maria
Vitória Souza e Érica Ribeiro.
Foi um esquete
histórico (desde 2011, não fazíamos um esquete de carnaval) e o primeiro de
muitos de 2019.
Hoje trago ao blog o
texto do esquete e o vídeo da nossa apresentação lírico teatral.
Boa leitura, bom
divertimento e Arte Sempre!
Euridíce e Orfeu do Monte Alcino no carnaval da
mitologia
Personagens:
ORÁCULO: Juslaine Bepler Soares
HADES:Julia de Caldas Marques
ORFEU: Vitória Fernandes da Silva
Carvalho
EURÍDICE: Isabelle Mello Provadelli
CÉRBERO: Cleyton Filgueiras Arruda
VENTO DA DESCONFIANÇA: Ryan Garcia
Portilho
MÊNADES: Ana Julia Duarte da Silva, Maria
Gabriela Ferreira Luz, Maria Vitória Souza do Carmo e Érica Ribeiro Souza da
Silva
ORÁCULO (ar solene, dirige-se ao público):
Sou
o Oráculo do Monte Alcino Folia
E
trago-lhes uma nova versão para uma história muito antiga.
É
o mito de Orfeu e Eurídice, dois personagens da grega mitologia
Que
hoje ganha novo enredo, nova melodia
Neste
carnaval de arte e magia.
Sai Oráculo. Atrás dele, estava Hades
congelado (como numa cena pausada), sentado no trono, com uma caveira nas mãos.
Ergue-se para falar.
HADES:
Assistam,
mortais amigos e inimigos, à minha folia do horror,
Sou
Hades, o rei do Camarote da Morte, o Príncipe da dor,
Sequestrei
Eurídice, a musa de Orfeu, o poeta cantador
E,
com esse ato vil, provoquei o fim de um grande amor.
ORFEU (aparece de repente, sempre tocando violão quando fala [e também quando
não diz nada, continua tocando]):
Pois
aqui estou, sou eu Orfeu, o poeta cantador,
Vim
ao Camarote Maldito do vil senhor
Pra
resgatar Eurídice, o meu único e grande amor.
HADES (irritado e surpreso):
Ora,
que grande presunção!
Entra
no meu seleto camarote um morto vivo, um pobretão!
Como
passaste por Cérbero, meu segurança e meu cão?
CÉRBERO (meio tonto, rosna como cão, sem graça. Usa 3 bonés, 1 pra frente,
outro pro lado e um pra trás):
Ah,
meu Mestre Hades, mas que vergonha!
Orfeu
me tocou uma moda muito risonha
E
eu fiquei todo bobo, um verdadeiro pamonha,
Passou
por mim, seu pesadelo, como quem bem sonha.
HADES:
Ah,
meu fiel cão Cérbero,
Também
sinto a música de Orfeu afetar meu cérebro.
(muda
o tom, como se sofresse uma transformação de humor, fica amoroso)
De
mim, já não sou senhor,
O
que queres de mim, Orfeu querido poeta cantador?
ORFEU:
Quero
que me devolva Eurídice, a minha amada,
Quero
de volta o amor da minha vida. E mais nada.
HADES (encantado):
Ah,
Orfeu, não consigo resistir à música do seu violão,
É
uma magia invencível, uma incrível tentação!
Leve
Eurídice contigo... (a partir do “mas”, faz tom maldoso) Mas, até
sair, a mantenha longe da sua visão,
Pois,
mesmo encantado, lanço-lhe a maldição:
Se
olhar pra ela antes do fim da caminhada
Perderá
para sempre a sua amada.
ORFEU
começa a sair lentamente e Eurídice segue atrás.
HADES (confabula com VENTO DA DESCONFIANÇA):
Segue
os dois, Vento da Desconfiança,
E
afeta os ouvidos de Orfeu, acaba com sua confiança.
VENTO DA DESCONFIANÇA:
Deixe
comigo, Mestre Hades, sou o maior fofoqueiro e corruptor,
Provoco
brigas entre amigos e acabo com qualquer amor.
(vai
na direção de Orfeu e fica falando ao seu lado)
Qual
é, Orfeu, vai deixar a praga do Hades te assustar?
É
mais forte que ele, grande Orfeu, não vai encarar?
E
se Eurídice ficou feia, e se ela não te acompanhar,
Vamos,
Orfeu, antes de acabar a caminhada,
Pra
trás, dê uma olhada...
ORFEU
acaba olhando pra trás.
HADES (sequestrando novamente Eurídice, sai do palco)
Eu
te avisei pra não olhar pra trás, Orfeu,
Agora
sua amada pra sempre você perdeu.
ORFEU
larga o violão e ajoelha-se em desespero, com as mãos esticadas. VENTO DA
DESCONFIANÇA assiste a tudo debochado.
VENTO DA DESCONFIANÇA:
Ah,
Orfeu, és um músico grandioso,
Mas
não passas de um tolo.
Como
podes dar ouvido pro meu comentário maldoso?
ORFEU (sozinho, ajoelhado e triste)
Ah,
Zeus do Monte Alcino,
Desconfiei
do amor e fiquei sozinho!
Entram
as seis mênades e cercam Orfeu. Não se sabe se são boas ou ruins.
Mênade 1:
Que
isso, meu neguinho lindo,
Em
pleno carnaval, estás chorando sozinho?
ORFEU (pego de surpresa, desesperado e triste):
As
mênades, as mulheres que rejeitei!
Vieram
me matar porque não as amei!
MÊNADE 2:
Ih,
o Orfeu endoidou!
Um
fora em nós você já deu e já passou.
Não
viemos lhe tirar a vida;
Aqui
é Brasil, e não a Grécia Antiga.
Mênade 3:
Você
chamou Zeus do Monte do Alcino Folia
Então
Ele nos convocou pra sermos suas amigas.
Já
denunciamos pro tribunal da mitologia
E
foi-se feita a justiça divina:
Condenou-se
a maldade de Hades
E
a maldição dele perdeu a validade. (traz Eurídice)
Amigo
Orfeu, é o fim do luto e da agonia
Eis
aqui de volta a sua Eurídice querida.
ORFEU (apaixonado, levanta-se, segurando o violão e abrindo os braços):
Eurídice
querida,
Retornaste
à minha vida!
EURÍDICE (emburrada, com os braços cruzados):
Muita
calma aí, Orfeu do Monte Alcino, filho dos sóis,
Até
agora nada falei, porque o terror roubou minha voz.
Mas
agora digo que contigo não mais fico
Desconfiou
de mim, ouviu o inimigo.
Sou
mulher de respeito
E
você me vem com despeito!
Sai
pra lá, seu bobão,
Comigo
não, violão!
ORFEU (volta a tocar):
Ah,
perdoa esse sambista bobo, Eurídice querida!
Toco
agora meu violão com todo amor e harmonia,
Perdoa
esse violeiro tolo, que te quer bem por toda vida!
EURÍDICE (mudando de postura, abrindo um sorriso):
Ah,
Orfeu querido, não toca essa modinha,
Senão
eu não resisto, fico toda molinha...
ORFEU:
Vencemos
a morte, a desconfiança e o tormento
E,
com essa melodia, te peço em casamento.
Ah,
Eurídice, amada e muito querida,
Contigo
quero formar a mais bela e apaixonada família.
ORFEU E EURÍDICE SE ABRAÇAM.
Mênade 4:
Mortais
carnavalescos de Terê,
Através
desse mito façamos crer
Que
o amor tudo pode vencer.
ORÁCULO (entra para declamar o poema premiado de Walace Resende de Moraes):
Uma
causa
O
amor é uma causa
que
Deus abençoa sem pausa.
O
amor é de verdade
Quando
há respeito e lealdade.
O
amor é uma constante,
deve
ser cuidado a todo instante.
O
amor cultiva na alma
o
melhor de nós.
Sentimentos
ruins ele acalma,
faz-nos
encontrar esperança
pra
que nunca fiquemos sós.
Um
desejo ele desperta,
puro
como criança,
o
amor liberta.
(Poema
de Walace Resende de Moraes [na época, 8.º C], 2.º Lugar na Categoria III [8.º
Ano] do “1.º Jovem Talento Teresopolitano – Concurso de Poesia Olavo Bilac 2018”,
organizado pela Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura Municipal de
Teresópolis/RJ)
Mênade 5:
Deixemos
no reino do submundo
A
desesperança, o ódio, as tragédias e outros absurdos
E
levemos só presentes bons aos nossos carnavais futuros.
Mênade 6:
Que
nesta nova folia celebremos uma nova vida,
Sem
violência; só amor, paz e harmonia
Entre
mim e você, você e o outro, somos todos uma só família.
Toquemos
com Eurídice e Orfeu as notas da vitória da mais sublime alegria!
Hoje, após um segundo turno quase impecável (sou
vascaíno, mas não devemos omitir a realidade), o Flamengo conquistou a Taça
Rio, parte do Campeonato Carioca de Futebol de 2019. Isso me fez lembrar-me de
uma querida escritoramiga – ex-escritoraluna da Escola Municipal Alcino
Francisco da Silva, onde leciono – fanática pelo Flamengo e também – quando se
mostrava disposta – supertalentosa na escrita, a mais que fodástica artistamiga
teresopolitana Leticia de Lima Gonçalves.
Voltando ao jogo de hoje, o Vasco ficou devendo um
melhor desempenho nessa segunda fase do campeonato – e, voltando a mim e
Leticia – da mesma forma como devo esta postagem há anos para a querida
escritoramiga flamenguista. Trago hoje um dos grandes textos de memórias
escrito por Leticia de Lima Gonçalves. Na época, sua dedicação às atividades
escolares oscilavam bastante e, por isso, a importância maior do texto com o
qual compartilho minhas solidões poéticas com Leticia: esse texto de memórias,
derivado de uma entrevista dela com seu pai, foi um desafio – ela dificilmente
antes tomava coragem para fazer as redações – e um ponto de virada para a
talentosa escritoramiga – ela se dedicou, venceu a hesitação inicial, fez uma
primorosa entrevista, escreveu, reescreveu, suou liricamente, esmerou seu texto
ao máximo para que me entregasse orgulhosamente sua cristalizada versão final,
que trago hoje ao blog.
Confesso vergonhosamente devo essa solidão
compartilhada à escritoramiga e aos amigos leitores há tempos (arrumar a
papelada de casa ontem auxiliou no meu reencontro com o texto em meio à babel
de arquivos). Bem, na falta de desculpas melhores, só posso dizer o cretino “sinto
muito, mas antes tarde do que nunca” rs. Outra confissão: me amarro nestes
textos em que nos passamos por outra pessoa que nós conhecemos (já escrevi um
texto desse tipo em homenagem à minha mãe, texto este já publicado em jornal e
aqui no blog), traz aquela sensação fraterna, de se dispor a passar pelo outro,
sentir como o outro sente, como os amigos leitores fazem quando se passam pelos
personagens cujas peripécias são lidas vorazmente.
Viajemos, amigos leitores, através do formidável narrador
em primeira pessoa da escritoramiga Leticia de Lima Gonçalves dos tempos do feijão
com farinha e jiló até os dias atuais, refletindo o antes, o hoje e sonhando com
o promissor depois.
Dos tempos do feijão com farinha e jiló
Eu me lembro como se fosse hoje: estava numa mesa
comendo feijão com farinha e jiló. Na minha época, não tinha variedade de
comida como tenho hoje em dia; eu só comia feijão com farinha e jiló. Era ruim,
mas tinha que comer, senão apanhava. Minha mãe ficava perto de mim e de meus
irmãos nos vigiando com uma vara de marmelo. Uma vez, meu irmão mais novo
apanhou muito, nunca mais deixou de comer as refeições que meus pais ofereciam.
Eu me lembro de que trabalhava desde os 6 anos de
idade na roça. Ia pra escola e, quando voltava, tinha de trabalhar, colher
feijão, catar jiló, etc.
Hoje tenho uma família que eu amo, apesar de todos
os problemas. Minha filha de 15 anos é meio desobediente, não cumpre com parte
das tarefas de casa. Minha esposa vive brigando com ela e eu não posso fazer
nada, porque é coisa de mãe e filha.
Apesar de seu comportamento complicado, minha filha
me ajuda no trabalho, tanto que até dei uma parte da lavoura para ela cuidar.
Assim, ela faz seu dinheiro e está juntando para comprar o que desejar.
Hoje moro em um lugar calmo, tranquilo. As pessoas
são amigas, e é um lugar onde todo mundo é parente. Tenho um terreno que é só
meu, da minha filha e da minha esposa, sempre foi assim. Tenho um sogro enviado
por Deus e uma sogra abençoada que me ajudaram muito quando eu mais precisava.
Atualmente me considero um bom cidadão, tenho minha
lavoura de tomate, couve e alface para fazer dinheiro e pagar as contas de luz,
pagar o que eu devo e por aí vai minha vida, bem à frente dos tempos do feijão
com farinha e jiló.
(Texto de memórias escrito por Leticia de Lima
Gonçalves,
Hoje, dia 21 de março, como bem me lembrou o super mais que
fodástico poetamigo Sergio Almeida, mais conhecido como Jardim, comemoramos o
Dia Mundial da Poesia. Diante de data tão especial, nada mais apropriado que
compartilhar minhas solidões poéticas na postagem de hoje com uma pequena (pequena,
no sentido de quantidade, de leitura com desejo de ler mais; imensa, em seu
esbanjamento lírico, grandiosa em sua plenitude e – principalmente nos dois
últimos – sensualidade) seleção de 3 poemas do própriosuper mais que fodástico poetamigo Jardim.
O super mais que fodástico poetamigo Sergio Almeida, o
Jardim, é um artistamigo multipremiado em diversos certames literários e tem
vários livros publicados (“Filhas do Segundo Sexo”, “Crônicas do amor impossível”, “Amores
possíveis”, “Diário do desassossego”, “Dois” e “Faraway” – recomendo que
acompanhem e obtenham mais informações sobre as obras primas do super poetamigo
no blog pessoal dele; eis o link: https://sergioprof.wordpress.com).
Comemoremos esta marcante data deixando nossos olhos
leitores penetrarem (e serem penetrados) pelos mais que fodáticos poemas de
Jardim!
trago na alma o inventário das andanças,
palavras proferidas no deserto das planícies
que percorrem um tempo incontestável.
entre as árvores e as montanhas, a história,
o milho semeado e colhido.
a cana, o cacau, o tabaco, o trigo, o café.
entre serras e pampas o voo das mariposas
é uma prece debaixo dos olhos do deus católico.
ouço tuas sílabas de encanto.
américa.
desfilo meu enredo andarilho,
passo a passo rumo à alvorada.
quantas trilhas, quantos limites!
a travessia ao anoitecer no titicaca,
as cordilheiras dos andes aquecidas pelo sol
e a noite debaixo do céu de macchu picchu.
as águas de el nino vem inundar o passado
e tudo chega como um oceano de saudade
por todos los amigos e los hermanos.
américa.
doze de outubro,
mil quatrocentos e noventa e dois.
passos a ecoar pelos becos seculares
de quito e de la paz.
ainda não ouvi tudo quanto queria ouvir,
derramo o cântaro de minhas lástimas
sobre tuas feridas abertas.
lembro-me da fascinação do teu corpo
nascido da utopia, cenário manchado pelo suor
de negros homens no canavial
ou amarrados ao tronco, a chibata a ecoar
em suas costas, os campos semeados
e a esperança tatuada em tua pele.
o perfume da terra cultivada,
nos seus frutos germinava o encantamento
e nossas pálpebras se abriam para um novo dia.
américa que vivi,
entre risos e o pranto, o esplendor de tenochtitlan.
a américa primeira,
asteca, maia, inca e guarani,
a américa mãe,
sangrada por cortez e pizarro.
a pátria de todos nós,
a heroica pátria de bolívar
pilhada e consumida
pelas garras dos tiranos.
vi tuas casamatas abertas
e as densas trevas que caíram sobre ti.
vieram os anos de chumbo,
os labirintos de dor e as atrocidades.
na penumbra morreram todas as flores.
canto a liberdade asfixiada,
pronunciando nomes como médici, somoza, fidel, pinochet
e seus rastros homicidas naqueles dias amordaçados.
canto as valas comuns,
as ossadas do atacama,
os esqueletos do araguaia.
meu réquiem é para os desaparecidos,
meu canto é para os filhos da ditadura,
para os sobreviventes e suas cicatrizes,
para as viúvas e os órfãos.
para las madres de plaza de mayo
e suas lágrimas perenes.
séculos se passaram
e tuas chagas ainda emergem nos jornais.
malditos condores,
malditos generais.
canto por ti, américa, por tuas favelas,
por teus bairros miseráveis e por teus palácios,
por teu brilho ofuscado pela tortura.
américa de tantos massacres e cadafalsos,
ouço-te na voz melancólica das metralhadoras
derrubando o ultimo jagunço em canudos.
uma américa de martírios,
estrangulada em atahualpa,
esquartejada em cusco,
sacrificada em che guevara.
executada em cada prisão,
e nos rituais da morte do dói-codi.
tanto luto, tanta memória
e nenhum perdão,
um áspero clarim ao entardecer
distante, tão distante,
ressoa nos planaltos e nas cordilheiras
e hoje, em busca de si mesma
ainda abrigas o mesmo fragmentado coração.
o que te aguarda, américa?
os anos se foram, inquietantes e atrozes
restando um mundo com seu clamor colonizado.
busco em teu íntimo silêncio,
por tudo aquilo que perdemos.
meu pensamento numa oração e num lampejo,
viaja ao eldorado,
lá, muito além do amazonas, um lugar deslumbrante.
muito além do aconcágua
muito além da sombra de montezuma
e dos acordos de tordesilhas.
falo em nome desta américa indígena agonizante,
falo em nome de uma américa proletária
em nome do ouro e da prata ensanguentados.
das roupas gastas dos camponeses sobre a terra árida
e a resignação de um povo com sua misteriosa mudez,
seu grito contido que em algum lugar se perdeu,
sua fome urgente e seu sangue.
suas praças onde se erguem as estátuas dos seus heróis
falo das barriadas,
da miséria, da varíola e do frio,
falo em nome dos meninos que vendem balas nos sinais.
falo por todo discurso subtraído,
reprimido pelos fuzis, detido, interrogado, ameaçado
falo da marca da tirania encravada nas paredes
falo de uma era de desterros e torturas,
do terror uniformizado.
tenho os punhos abertos e o peito vazio.
em meu gesto de amor desesperado.
meu olhar descalço e peregrino
assistiu a nostalgia do exílio e dos encarcerados.
dos párias, dos bêbados, dos vagabundos.
caminhando pela terrível solidão branca das ruas,
pelo destino oculto das metrópoles
abre-se o itinerário clandestino das minhas pegadas
por entre as trincheiras escavadas dos meus sonhos.