quinta-feira, 21 de março de 2019

No Dia Mundial da Poesia, deixo meus olhos leitores penetrarem (e serem penetrados) pelo lirismo de Jardim


Hoje, dia 21 de março, como bem me lembrou o super mais que fodástico poetamigo Sergio Almeida, mais conhecido como Jardim, comemoramos o Dia Mundial da Poesia. Diante de data tão especial, nada mais apropriado que compartilhar minhas solidões poéticas na postagem de hoje com uma pequena (pequena, no sentido de quantidade, de leitura com desejo de ler mais; imensa, em seu esbanjamento lírico, grandiosa em sua plenitude e – principalmente nos dois últimos – sensualidade) seleção de 3 poemas do próprio  super mais que fodástico poetamigo Jardim.
O super mais que fodástico poetamigo Sergio Almeida, o Jardim, é um artistamigo multipremiado em diversos certames literários e tem vários livros publicados (“Filhas do Segundo Sexo”,  “Crônicas do amor impossível”, “Amores possíveis”, “Diário do desassossego”, “Dois” e “Faraway” – recomendo que acompanhem e obtenham mais informações sobre as obras primas do super poetamigo no blog pessoal dele; eis o link: https://sergioprof.wordpress.com  ).
Comemoremos esta marcante data deixando nossos olhos leitores penetrarem (e serem penetrados) pelos mais que fodáticos poemas de Jardim!

trago na alma o inventário das andanças,
palavras proferidas no deserto das planícies
que percorrem um tempo incontestável.
entre as árvores e as montanhas, a história,
o milho semeado e colhido.
a cana, o cacau, o tabaco, o trigo, o café.
entre serras e pampas o voo das mariposas
é uma prece debaixo dos olhos do deus católico.
ouço tuas sílabas de encanto.
américa.

desfilo meu enredo andarilho,
passo a passo rumo à alvorada.
quantas trilhas, quantos limites!
a travessia ao anoitecer no titicaca,
as cordilheiras dos andes aquecidas pelo sol
e a noite debaixo do céu de macchu picchu.
as águas de el nino vem inundar o passado
e tudo chega como um oceano de saudade
por todos los amigos e los hermanos.
américa.

doze de outubro,
mil quatrocentos e noventa e dois.
passos a ecoar pelos becos seculares
de quito e de la paz.
ainda não ouvi tudo quanto queria ouvir,
derramo o cântaro de minhas lástimas
sobre tuas feridas abertas.

lembro-me da fascinação do teu corpo
nascido da utopia, cenário manchado pelo suor
de negros homens no canavial
ou amarrados ao tronco, a chibata a ecoar
em suas costas, os campos semeados
e a esperança tatuada em tua pele.
o perfume da terra cultivada,
nos seus frutos germinava o encantamento
e nossas pálpebras se abriam para um novo dia.

américa que vivi,
entre risos e o pranto, o esplendor de tenochtitlan.
a américa primeira,
asteca, maia, inca e guarani,
a américa mãe,
sangrada por cortez e pizarro.
a pátria de todos nós,
a heroica pátria de bolívar
pilhada e consumida
pelas garras dos tiranos.
vi tuas casamatas abertas
e as densas trevas que caíram sobre ti.
vieram os anos de chumbo,
os labirintos de dor e as atrocidades.
na penumbra morreram todas as flores.

canto a liberdade asfixiada,
pronunciando nomes como médici, somoza, fidel, pinochet
e seus rastros homicidas naqueles dias amordaçados.
canto as valas comuns,
as ossadas do atacama,
os esqueletos do araguaia.
meu réquiem é para os desaparecidos,
meu canto é para os filhos da ditadura,
para os sobreviventes e suas cicatrizes,
para as viúvas e os órfãos.
para las madres de plaza de mayo
e suas lágrimas perenes.

séculos se passaram
e tuas chagas ainda emergem nos jornais.
malditos condores,
malditos generais.
canto por ti, américa, por tuas favelas,
por teus bairros miseráveis e por teus palácios,
por teu brilho ofuscado pela tortura.
américa de tantos massacres e cadafalsos,
ouço-te na voz melancólica das metralhadoras
derrubando o ultimo jagunço em canudos.
uma américa de martírios,
estrangulada em atahualpa,
esquartejada em cusco,
sacrificada em che guevara.
executada em cada prisão,
e nos rituais da morte do dói-codi.

tanto luto, tanta memória
e nenhum perdão,
um áspero clarim ao entardecer
distante, tão distante,
ressoa nos planaltos e nas cordilheiras
e hoje, em busca de si mesma
ainda abrigas o mesmo fragmentado coração.

o que te aguarda, américa?
os anos se foram, inquietantes e atrozes
restando um mundo com seu clamor colonizado.
busco em teu íntimo silêncio,
por tudo aquilo que perdemos.
meu pensamento numa oração e num lampejo,
viaja ao eldorado,
lá, muito além do amazonas, um lugar deslumbrante.
muito além do aconcágua
muito além da sombra de montezuma
e dos acordos de tordesilhas.

falo em nome desta américa indígena agonizante,
falo em nome de uma américa proletária
em nome do ouro e da prata ensanguentados.
das roupas gastas dos camponeses sobre a terra árida
e a resignação de um povo com sua misteriosa mudez,
seu grito contido que em algum lugar se perdeu,
sua fome urgente e seu sangue.
suas praças onde se erguem as estátuas dos seus heróis
falo das barriadas,
da miséria, da varíola e do frio,
falo em nome dos meninos que vendem balas nos sinais.
falo por todo discurso subtraído,
reprimido pelos fuzis, detido, interrogado, ameaçado
falo da marca da tirania encravada nas paredes
falo de uma era de desterros e torturas,
do terror uniformizado.

tenho os punhos abertos e o peito vazio.
em meu gesto de amor desesperado.
meu olhar descalço e peregrino
assistiu a nostalgia do exílio e dos encarcerados.
dos párias, dos bêbados, dos vagabundos.

caminhando pela terrível solidão branca das ruas,
pelo destino oculto das metrópoles
abre-se o itinerário clandestino das minhas pegadas
por entre as trincheiras escavadas dos meus sonhos.




beijo as pétalas da rosa.
e na minha boca
o meu amor goza.




aos poucos fui te descobrindo.
na madrugada fria como um cadáver
o aroma dos desejos.
mãos e olhos fechados,
nossos pés se encontraram
sob os lençóis.

senti teu desejo,
provei o sabor de prazer e pecado
dos teus lábios, descobri tua pele,
teus seios, tuas coxas
ao encontro das minhas.

aos poucos fui te descobrindo.
minha boca desesperada
buscava tua boca.
tua entrada molhada,
apertada, faminta;
carne contra carne.

nossos corpos se cruzaram,
descruzaram, se enroscaram
se entrelaçaram, se possuíram.
lambi o suor que te banha
e escorre de cada poro teu.

aos poucos fui te descobrindo.
mordo teus lábios,
o lamber das línguas
na sinfonia dos gemidos.
delicadezas pintaram
de arrepios as paredes,
os lençóis e as cortinas.

teu sexo úmido procurando
por meu sexo duro de desejo.
e no abismo de tuas coxas
inundei teu âmago
com o doce do meu leite.



sexta-feira, 8 de março de 2019

Solidões Compartilhadas Feminilíricas: As Mulheres de (em) Laryssa Fernandes


Depois de tanto tempo meio sumido (como quase sempre) do blog, hoje trago outra postagem, além da anterior, na qual homenageio as mais que fodásticas escritoras e personagens femininas. O motivo de fazer duas postagens ao invés de manter a tradição e postar apenas uma por dia? Recebi uma contribuição lírica vigorosa da superpoetamiga teresopolitana Laryssa Fernandes, também homenageando as mulheres (enviado logo depois da estreia dela aqui no blog há 2 postagens atrás) e, como afirmei anteriormente, o Dia Internacional da Mulher é superespecial e é uma data que merece ser comemorada quebrando a tradição de uma única postagem por dia.
Por isso, hoje orgulhosamente compartilho minhas solidões poéticas mais uma vez com mais um maravilhoso poema de Laryssa Fernandes.
Bem vindos ao universo lírico feminino de Laryssa Fernandes, amigos leitores!
E, mais uma vez, desejo-lhes Boa Leitura e Arte e Feminilirismo Sempre!

Mulheres

Nós sangramos
Nós queimamos
Nós choramos quando apanhamos

Somos humilhadas
Somos ofendidas
Somos violentadas
Muitas vezes somos agredidas

Somos consideradas como sexo frágil
Mas somos fortes
Somos muito fortes
Porque aguentamos o que passamos

Somos mulheres!
Laryssa Fernandes
(28/02/2019)



Contra o feminicídio e a favor do Feminilirismo: Canção Mulher


Hoje é Dia Internacional da Mulher e o poeta-blogueiro que vos escreve não poderia deixar essa data passar silenciada, apesar de minhas visitas cada vez mais esporádicas neste espaço lírico-virtual. Vivemos tempos sombrios de invocações do, outrora sorumbático, machismo, do aumento das violências domésticas e, consequentemente, dos mais altos índices de feminicídio, e, nós, escritores líricos, filhos de Safo, não podemos deixar de cantar as Musas que regem nossa trajetória poética: a Arte vive e sobrevive graças ao sopro divino dElas, a poesia essência são Elas.
Quadro "Mulheres Facetadas",
de Di Cavalcanti
Por isso, trago um poema inédito meu, homenagem feminilírica, uma espécie de esposa-amante-amiga-rainha de outro poema meu chamado “Biblioteca de Babel”, onde exponho algumas de minhas influências literárias e gostos e paixões por Mestres Deusas Escritoras e Eternas Personagens Femininas.
Boa Leitura! Arte e Feminilirismo Sempre!













Canção Mulher 
(ou A Canção, ou A, Canção, ou A: Canção)

Sou Safo entre o precipício de Eros e os desejos de Lesbos,
criando um novo estilo, gestando o gênio do gênero lírico
nos mares impulsivos dos amores lascivos
e os perigos serenos dos estóicos rochedos.
Sou Carta Portuguesa, corajosa denúncia patrícia feminina
do abandono e desespero
contra a covardia masculina, estrangeira e fardada.
Sou Orgulho e Preconceito, Jane Austen tecendo novos enredos
para além do seu tempo.
Sou Bronté uivando a favor dos ventos nos morros
que enterram em silêncio os corpos das vítimas dos amores violentos
(as unhas da fantasma violentada marcará os braços másculos e grosseiros
na feminina madrugada).
Sou Flor bela e espancada oferecendo espinhos macios
em canções sublimes e dilaceradas.
Sou Cecília anjo menina de asa ferida, mas infinita.
Sou cor de Coral, do Colar de Carol, Comadre de Cora Coralina.
Sou verdes mares, Iracema apaixonada, mãe da América colonizada,
amamentando os filhos da dor, encarando a morte com gestos de amor.
Sou Capitu sem culpa e ainda culpada,
onda ora sincera, ora dissimulada,
que te arrasta quando encaras meus olhos de sedutora ressaca.
Sou unha pintada, frágil, mas sempre afiada.
Sou musa atrevida e recatada.
Sou minha, sou tua, sou única, sou inconstância consolidada.
Sou os seios que teus lábios bebês procuram sedentos,
da vida a abstrata vontade, sou de todos o primeiro beijo concreto na carne.
Sou aquela que aquelas e aqueles procuram no entardecer do desejo,
sou essa que apontam o dedo com desprezo ou zelo,
sou esta que convive com teus anseios e receios,
sou ela contra elos de eles cheios de preconceitos,
sou a feminina ampulheta contra o machismo bravio do arenoso tempo.
Sou a poesia do poema, a lira do canto, a narrativa do conto,
sou a lida diária, a crônica crônica duramente afável,
sou a fantasia rara, da mais vigente à mais improvável,
sou A, contra o O predominante da língua masculinizada inabalável,
sou A, Mulher, definida, definitiva, mesmo que mutável.




quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Os magníficos fantasmas líricos de Laryssa Fernandes iluminam melancolicamente as trevas e vazios do blog


É, amigos, mais uma vez deixei meu blog aos fantasmas (me desculpem; a realidade anda tão perigosamente e alucinadamente psicótica que a boa loucura lírica tem se escondido na desesperada interrogação não escrita e na procrastinação que flerta com a crise existencial).
E falando em fantasmas, crises existenciais, ares poéticos melodiosos e sublimemente melancólico sorriem para o blog neste retorno, pois retomo as postagens compartilhando solidões líricas com a jovem e hipertalentosa poetamiga teresopolitana Laryssa Fernandes.
Laryssa já foi uma das artistalunas mais enigmáticas durante seu período escolar na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva – participava ativamente do grupo teatral escolar Luz, Câmera...Alcino! (principalmente nos meses finais de seu último ano letivo na escola, ou seja, quando estava no 9.º ano), frequentava às vezes o Clube do Livro Alcino Voraz, mas ainda não apresentava tantos poemas e prosas poéticas tão profundos quanto após sua saída da escola. Na sala, era mais silenciosa, falava pouco e, algumas vezes, aparentava uma sonolência lírica (só aparente, pois demonstrava conhecimento de tudo que se passava à sua volta). Foi após sua saída que Laryssa Fernandes revelou sua faceta poética mais cristalina, quando tomou coragem e me mandou belíssimos textos seus pelo whatsapp (fiquei num misto de alegria pela beleza lírica dos escrito e um leve desespero – como não reparei melhor nesta jovem escritora durante o ano letivo? Entendam: já havia talento nas redações escolares, eram excelentes textos, mas o que ela me enviou depois estava além do excelente, eram cristais raros em múltiplas formas e fórmulas poéticas).
Depois, quis o destino atrasar estas solidões compartilhadas – meu celular, antes mesmo de dar perda total, por duas vezes, deu tilt e perdi as primeiras remessas poéticas de Laryssa Fernandes. Ontem e anteontem, foram mais dois adiamentos: um dia falhou a internet, no outro faltou luz. É, amigos, deixei o blog nas trevas e os fantasmas fizeram a festa. Mas hoje é noite dos bons fantasmas, dos espectros magnificamente líricos que acompanham os fabulosos poemas de Laryssa Fernandes.
Hoje vocês têm diante de seus ávidos olhos, amigos leitores, dois espetaculares poemas (o emocionante e melancólico “Fantasma” e a loucura lúcida lírica chamada “Mais um poema sem nexo”) da mais que fodástica poetamiga teresopolitana Laryssa Fernandes.
Apreciem sem moderação. Boa leitura e Arte Sempre!

Fantasma

Toda noite quando vou dormir
Ela está ali a me observar
Vem de mansinho
Acorda meu demônios interiores
Suga toda a minha vontade de viver
Desvanece o meu sorriso
E me afogo em minhas lágrimas

Até quando isso vai durar?
Até quando essa depressão vai me destruir?
Estou em um labirinto
E a saída não existe
A cada dia meu brilho se obscurece
Parece que isso nunca vai acabar

Estou me tornando um fantasma sem alma_
E meu ser implora socorro.
Laryssa Fernandes
(04/12/2018)



Mais um poema sem nexo

Mais uma madrugada daquelas
Trazendo sua insônia
Abrindo um buraco no meu peito
Me matando por dentro

Quebrada de novo
Vazia de novo
Insegurança
Lágrimas pesadas
De uma garota machucada

Mais um poema sem nexo
De uma pessoa solitária
Usando a caneta como remédio

Minha alma está desgastada
Meu coração ainda bate
Pois sinto ele se partir todos os dias

Me afundei de novo
E a culpa é desse passado manchado.
Laryssa Fernandes
(28/12/2018)



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Meu pseudoépico psicodélico grunge quadrinístico incompleto: As aventuras do espetacular Chris Cornell Lee

Apresentando "As aventuras do espetacular
Chris Cornell Lee", acompanhado do violão lírico
musical de Gabriel Carvalho

Na edição do Sarau Solidões Coletivas de 12/01/2019, que aconteceu na Comuna da Quinta das Bicas, quintal da casa de Gilson Gabriel, no bairro Biquinha, em Valença/RJ, declamei, acompanhado do violão lírico musical do mais que fodástico artistamigo Gabriel Carvalho, meu poema inédito meio épico psicodélico grungre quadrinístico “As aventuras de Chris Cornell Lee”, em homenagem a Chris Cornell, Stan Lee, Belchior, Bowie e Luiz Melodia.
Material Quadrinístico Inspirador
Escrito às pressas, numa tentativa de cobrir toda a temática louca sugerida no mais recente Sarau Solidões Coletivas, meu objetivo era fazer um poema extenso, no molde épico punk popular pop HQ, mistura de história roteirizada por Stan Lee, com referências ao grunge de Chris Cornell, como um “Faroeste Caboclo” versão super-heroica Marvel, com um conjunto de 5 ‘Cantos’, mas, devido ao tempo escasso e persistente preguiça/cansaço existencial, o meu tosco poema pseudoépico grunge quadrinístico ficou incompleto, com apenas os 2 primeiros Cantos. Seja como for, fica aí a louca ideia e o início de uma fantasia/alucinação lírica HQmaníaca.

As aventuras do espetacular 
Chris Cornell Lee

Canto Primeiro
Das vidas, mortes, ressurreições e insurreições do Capitão Chris Cornell Lee

O espetacular Chris Cornell Lee
fora Capitão da brigada sem Pátria,
soldado heroico  da Antiguidade Clássica,
defendeu povos massacrados
por governantes e desgovernantes enfurecidos
que davam graças a deuses distantes do Olimpo
enquanto pisavam nos plebes mortais.
Cornell Lee amou Homeros e Safos,
Helenos e Helenas,
sem preconceitos, como seus iguais.
Resgatou e abraçou nativos e estrangeiros,
sobreviventes e refugiados
e hasteou, mesmo quando destroçado,
as bandeiras da esperança e da paz.
Por proteger pacificamente a Terra,
Capitão Cornell Lee pelos da guerra
foi condenado, trancado e enterrado
nas  geleiras da Censura e da Solidão.

Seu corpo sobreviveu às eras de tortura,
às guerras atômicas, às greves de fome
e à crescente incompreensão.
Na década de 1990, foi despertado
pela Ordem dos Humanos Cães Templários
que uivavam embriagados
em busca de um salvador pagão
que diminuísse o vazio em cada coração.
Chris Cornell Lee, agora Capitão do Som,
resgatou com arte a heroica essência,
roubando o pão das bocas da Decadência
para alimentar os famintos e fracos irmãos.
Residiu em jardins sonoros,
escolheu ser escravo da música,
mas foi assassinado, mais uma vez,
pelos surdos senhores da guerra.

Quando o mundo parecia completamente perdido,
o caixão de Capitão Chris Cornell foi atingido
por um cometa de poesia.
Novamente, nosso herói voltava à vida,
desta vez na pele de apenas um rapaz latino americano
humano demais para poderes meta humanos.
Deparou-se, assustado,
com um universo cada vez mais devastado
pelas hordas de Velhos Capitães Fascistas,
associados à Galeria da Vilania
da Recatada Hipocrisia
e da Endiabrada Sagrada Família
da Máfia Moral Armada.
Diante do triste cenário,
o Excelsior Cornell Lee, mesmo desarmado,
ofereceu resistência contra a velha inimiga Decadência.
Recebeu o apoio de um novo astro,
o herói iluminado, apesar de violentado,
chamado Halley Ceará,
e seguiu a dupla espetacular
pelas paralelas de Belchior,
cercanias de cordéis e rondós,
para alcançarem os aventureiros reinos
de Cony, Bowie e Melodia
em busca de artefatos de magia e poesia
afim de enfrentar e derrotar
os novos senhores da Velha Tirania.

Sigamos, leitores, destemidos e aflitos,
os passos heroicos e pacíficos
de Chris Cornell Lee, o verdadeiro e único capitão amigo,
e de seu novo parceiro, o gentil Halley Ceará.
Viajemos, velhos e novos leitores líricos,
pelo solidário infinito
que só o imaginário solitário coletivo
pode nos levar e nos salvar.

Canto Dois
Das memórias de Halley Ceará

Capitão Cornell Lee
é o novo velho herói que conheci
nas ruínas dos jardins sonoros
quando eu, sozinho e oprimido,
enfrentava os cães das trevas de Oroboros.
Recém ressuscitado e ainda enfraquecido,
Capitão Chris Cornell Lee permanecia destemido:
com a força de vontade de deuses legítimos e poetas,
chutou as cobras da Preconceituosa Reza
e expulsou com drummondianas pedras
os cães asseclas dos senhores da guerra.
Mesmo sem seus três populares poderes,
mostrou-se resistente guerreiro,
e atirou os inimigos no sol do buraco negro.
Agora sigo com novo velho amigo
pelas trilhas do Infinito,
nas paralelas de Belchior,
em busca das Joias do Amor Maior.
Venha com Capitão Chris Cornell Lee
e comigo, o gentil Halley Ceará,
pelas terras da Paixão e do Sonhar.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

Não vai “dar pt’, nem PT; hoje vai “Da...mares”: O Mistério gozoso (ou Viagem Ministerial) do Mestre Artistamigo Gilson Gabriel


Uma expressão popular muito usada na desastrosa contemporaneidade é a famosa “dar pt", ou seja, “dar perda total”. Inicialmente, tal termo era proferido quando alguém batia o carro e não dava mais pra recuperar nada ou quando alguém fica muito bêbado de chegar a vomitar . Porém, nesses desastrosos tempos de crises e desgovernos, quando se tem a impressão de que nossas vidas passam em contínua perda total,  a popular expressão se expande para todas as situações em que a gente sabe que vai dar m..., ou seja, vai “dar pt".
Na época das grandes manifestações contra os governos petistas, em evidente crise, principalmente no acidentado segundo mandato da ‘presidenta’ Dilma (PT), muitos descontentes aproveitaram-se para adaptarem o  termo “dar pt" para “dar PT”, aproveitando as iniciais do Partido dos Trabalhadores (PT), fazendo um jogo de palavras e associação da sigla do partido com as iniciais da expressão ‘perda total” (ou seja, se “dar pt" seria dar perda total, “dar PT” numa eleição/administração pública seria um desgoverno que provocaria perda total no setor administrado pelo Partido dos Trabalhadores).  É, nós, brasileiros, passamos pelas crises e desastres mais cruéis, mas mantemos a língua e, principalmente, nossas gírias em contínua transformação, sempre mantendo nosso tom ‘zueiro’.
Mas, agora que a maioria das administrações públicas não estão mais nas mãos dos petistas e os holofotes estão todos voltados para o recém eleito presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seus subordinados, a gíria ‘zueira’ “dar pt" pede nova adaptação. Nessa nova fase política do Brasil, um nome tem se destacado pelas polêmicas de suas desastrosas declarações e sendo alvo da ‘zueira’ de muitos internautas: Damares Alves, a atual Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no ‘renovado’ ‘governo’ federal.
Rainha de ‘pérolas’ como "Menino veste azul e menina veste rosa”, "Como eu gostaria estar em casa, toda tarde numa rede, me balançando e o meu marido ralando muito, muito, muito para me sustentar e me encher de joias e presentes. Esse seria o padrão ideal da sociedade"(em 08/03/18, em entrevista para um site do Rio Grande do Norte, o Expresso Nacional), “"16 anos atrás, dizíamos que íamos ter uma ditadura gay no Brasil. O que nós estamos vivendo hoje? Uma ditadura gay. Há uma imposição, há uma imposição ideológica no Brasil e quem diz que não aceita, é perseguido" (2014, em seu DVD de palestras  "Em defesa da vida e da família"), “o Estado é laico, mas essa ministra é terrivelmente cristã” (em seu discurso de posse), “Sabem por que elas (feministas) não gostam de homem? Porque são feias e nós somos lindas.” (em vídeo antigo, relembrado por intenautas), “A igreja evangélica perdeu espaço na história. Nós perdemos o espaço na ciência quando nós deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas, quando nós não questionamos. Quando nós não fomos ocupar a ciência. A igreja evangélica deixou a ciência para lá e ‘vamos deixar a ciência sozinha, caminhando sozinha’. E aí cientistas tomaram conta dessa área” (em vídeo antigo, de 2013, também relembrado por internautas),  a atual Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, se tornou alvo principal de protestos nas redes sociais da internet devido à coleção de declarações polêmicas. Assim, diante dos fatos, eis a proposta de renovação da gíria – se alguém faz algum comentário que você sabe que vai “dar pt”, vai gerar perda total na popularidade da pessoa, vai “dar m...”, então podemos declarar, por exemplo, “Xiii, isso que você falou vai “Da..mares””.


Charge “Nas cores, estou mais perdido que daltônico montando cubo mágico”, de Kacio Pacheco, disponível no link  https://www.metropoles.com/sai-do-serio/charge/nas-cores-estou-mais-perdido-que-daltonico-montando-cubo-magico


"Mas o que tudo isso tem a ver com a postagem de hoje?”, o impaciente amigo leitor deve estar se perguntando. Respondo: assim como nossa língua está em constante transformação, a poesia, neste caso usando e abusando do tradicional e ao mesmo tempo ousado e refinado lirismo satírico e crítico, acompanha os temas (e personagens) polêmicos da nossa vida. Sim, amigos, na arte poética, tudo pode ser transformado em matéria prima da lira: no poema, pode “dar PT”, “dar PT” e até “Da...mares”! Hoje compartilho minhas solidões poéticas com o Mestre Artistamigo Valenciano Mais Que Fodástico Gilson Gabriel, personalidade lírica sempre brilhantemente presente aqui no blog, que nos traz seu sublimamente ‘zueiro’ poema satírico, de crítica voraz e evidente flerte com a poética do cordel,  “Mistério gozoso (ou Viagem Ministerial)”, escrito recentemente por ele (e declamado por ele e seu irmão, Gerson Gabriel, na mais recente edição do Sarau Solidões Coletivas, realizado na noite de sábado, dia 12 de janeiro de 2019, como vocês podem conferir no vídeo posto logo abaixo do poema) em ‘homenagem’ ao conjunto de sandices polêmicas de Damares Alves.
O Estado é laico, a Ministra é terrivelmente cristã e o blog Diários de Solidões Coletivas é fielmente anárquico e mutante, abraçamos todas as vozes líricas críticas, e hoje quem rege a lira solitária coletiva é o Mestre Artistamigo Valenciano Mais Que Fodástico Gilson Gabriel e seu Mistério gozoso (ou Viagem Ministerial)”.
Boa leitura, amigos leitores, fiquem com os deuses da poesia, abração e Arte Sempre!

Mistério gozoso (ou Viagem Ministerial)
De Gilson Gabriel  - Valença/RJ

Ouça menino,
Eu vou falar da nova era:
Veio montada num jumento
Prá nos livrar da besta-fera,
Reluzindo verde oliva,
Travestida de quimera.

Ouça menino,
Perceba o novo advento:
É tempo de azul e rosa
Conforme seja o rebento
Qualquer outra fala ou prosa
Já dá início ao tormento.

Ouça menino,
Repare na ordem austera:
Família acima de tudo
Mesmo a que se tolera
Quando um dos dois é chifrudo
E com o outro se aglomera.

Ouça menino,
E para isso tome tento:
Goiaba é fruta santa
Vale mais que seus talentos
JC trepou na planta
Sem Deus dar consentimento.

Ouça menino,
Ou o país não prospera:
Vamos passar tudo nos cobres
E nisso a gente se esmera
Vamos dar jeito nos pobres
Como quem menor encarcera.

Ouça menino,
Esse novo tempo é bento:
É Deus quem está no comando
Livrando-nos do avarento
Do que é vermelho e tinhoso
Que ao PT deu sustento.

Ouça menino,
Pois o que eu falo é verdade:
O reino do cão-tinhoso
Vai sumir inda que brade
A escumalha petista
Que já se encontra na grade.

Ouça menino,
Da desonra Deus nos livre:
Se nosso plano dá certo,
Embora o ranço se cultive,
Nós vamos inchar as burras
E as do templo inclusive.

Ouça menino,
E que a oposição não ouça:
Nosso interesse, de fato,
É largar o povo à joça
E não largar mais o “osso”
Mesmo que a vaca tussa.

Ouça menino,
Que nem tudo vai ser mole:
A oposição não é besta
E não vai deixar que a enrole
Pode acabar com a festa
E mesmo vivos, nos esfole.