sexta-feira, 8 de março de 2019

Contra o feminicídio e a favor do Feminilirismo: Canção Mulher


Hoje é Dia Internacional da Mulher e o poeta-blogueiro que vos escreve não poderia deixar essa data passar silenciada, apesar de minhas visitas cada vez mais esporádicas neste espaço lírico-virtual. Vivemos tempos sombrios de invocações do, outrora sorumbático, machismo, do aumento das violências domésticas e, consequentemente, dos mais altos índices de feminicídio, e, nós, escritores líricos, filhos de Safo, não podemos deixar de cantar as Musas que regem nossa trajetória poética: a Arte vive e sobrevive graças ao sopro divino dElas, a poesia essência são Elas.
Quadro "Mulheres Facetadas",
de Di Cavalcanti
Por isso, trago um poema inédito meu, homenagem feminilírica, uma espécie de esposa-amante-amiga-rainha de outro poema meu chamado “Biblioteca de Babel”, onde exponho algumas de minhas influências literárias e gostos e paixões por Mestres Deusas Escritoras e Eternas Personagens Femininas.
Boa Leitura! Arte e Feminilirismo Sempre!













Canção Mulher 
(ou A Canção, ou A, Canção, ou A: Canção)

Sou Safo entre o precipício de Eros e os desejos de Lesbos,
criando um novo estilo, gestando o gênio do gênero lírico
nos mares impulsivos dos amores lascivos
e os perigos serenos dos estóicos rochedos.
Sou Carta Portuguesa, corajosa denúncia patrícia feminina
do abandono e desespero
contra a covardia masculina, estrangeira e fardada.
Sou Orgulho e Preconceito, Jane Austen tecendo novos enredos
para além do seu tempo.
Sou Bronté uivando a favor dos ventos nos morros
que enterram em silêncio os corpos das vítimas dos amores violentos
(as unhas da fantasma violentada marcará os braços másculos e grosseiros
na feminina madrugada).
Sou Flor bela e espancada oferecendo espinhos macios
em canções sublimes e dilaceradas.
Sou Cecília anjo menina de asa ferida, mas infinita.
Sou cor de Coral, do Colar de Carol, Comadre de Cora Coralina.
Sou verdes mares, Iracema apaixonada, mãe da América colonizada,
amamentando os filhos da dor, encarando a morte com gestos de amor.
Sou Capitu sem culpa e ainda culpada,
onda ora sincera, ora dissimulada,
que te arrasta quando encaras meus olhos de sedutora ressaca.
Sou unha pintada, frágil, mas sempre afiada.
Sou musa atrevida e recatada.
Sou minha, sou tua, sou única, sou inconstância consolidada.
Sou os seios que teus lábios bebês procuram sedentos,
da vida a abstrata vontade, sou de todos o primeiro beijo concreto na carne.
Sou aquela que aquelas e aqueles procuram no entardecer do desejo,
sou essa que apontam o dedo com desprezo ou zelo,
sou esta que convive com teus anseios e receios,
sou ela contra elos de eles cheios de preconceitos,
sou a feminina ampulheta contra o machismo bravio do arenoso tempo.
Sou a poesia do poema, a lira do canto, a narrativa do conto,
sou a lida diária, a crônica crônica duramente afável,
sou a fantasia rara, da mais vigente à mais improvável,
sou A, contra o O predominante da língua masculinizada inabalável,
sou A, Mulher, definida, definitiva, mesmo que mutável.




quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Os magníficos fantasmas líricos de Laryssa Fernandes iluminam melancolicamente as trevas e vazios do blog


É, amigos, mais uma vez deixei meu blog aos fantasmas (me desculpem; a realidade anda tão perigosamente e alucinadamente psicótica que a boa loucura lírica tem se escondido na desesperada interrogação não escrita e na procrastinação que flerta com a crise existencial).
E falando em fantasmas, crises existenciais, ares poéticos melodiosos e sublimemente melancólico sorriem para o blog neste retorno, pois retomo as postagens compartilhando solidões líricas com a jovem e hipertalentosa poetamiga teresopolitana Laryssa Fernandes.
Laryssa já foi uma das artistalunas mais enigmáticas durante seu período escolar na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva – participava ativamente do grupo teatral escolar Luz, Câmera...Alcino! (principalmente nos meses finais de seu último ano letivo na escola, ou seja, quando estava no 9.º ano), frequentava às vezes o Clube do Livro Alcino Voraz, mas ainda não apresentava tantos poemas e prosas poéticas tão profundos quanto após sua saída da escola. Na sala, era mais silenciosa, falava pouco e, algumas vezes, aparentava uma sonolência lírica (só aparente, pois demonstrava conhecimento de tudo que se passava à sua volta). Foi após sua saída que Laryssa Fernandes revelou sua faceta poética mais cristalina, quando tomou coragem e me mandou belíssimos textos seus pelo whatsapp (fiquei num misto de alegria pela beleza lírica dos escrito e um leve desespero – como não reparei melhor nesta jovem escritora durante o ano letivo? Entendam: já havia talento nas redações escolares, eram excelentes textos, mas o que ela me enviou depois estava além do excelente, eram cristais raros em múltiplas formas e fórmulas poéticas).
Depois, quis o destino atrasar estas solidões compartilhadas – meu celular, antes mesmo de dar perda total, por duas vezes, deu tilt e perdi as primeiras remessas poéticas de Laryssa Fernandes. Ontem e anteontem, foram mais dois adiamentos: um dia falhou a internet, no outro faltou luz. É, amigos, deixei o blog nas trevas e os fantasmas fizeram a festa. Mas hoje é noite dos bons fantasmas, dos espectros magnificamente líricos que acompanham os fabulosos poemas de Laryssa Fernandes.
Hoje vocês têm diante de seus ávidos olhos, amigos leitores, dois espetaculares poemas (o emocionante e melancólico “Fantasma” e a loucura lúcida lírica chamada “Mais um poema sem nexo”) da mais que fodástica poetamiga teresopolitana Laryssa Fernandes.
Apreciem sem moderação. Boa leitura e Arte Sempre!

Fantasma

Toda noite quando vou dormir
Ela está ali a me observar
Vem de mansinho
Acorda meu demônios interiores
Suga toda a minha vontade de viver
Desvanece o meu sorriso
E me afogo em minhas lágrimas

Até quando isso vai durar?
Até quando essa depressão vai me destruir?
Estou em um labirinto
E a saída não existe
A cada dia meu brilho se obscurece
Parece que isso nunca vai acabar

Estou me tornando um fantasma sem alma_
E meu ser implora socorro.
Laryssa Fernandes
(04/12/2018)



Mais um poema sem nexo

Mais uma madrugada daquelas
Trazendo sua insônia
Abrindo um buraco no meu peito
Me matando por dentro

Quebrada de novo
Vazia de novo
Insegurança
Lágrimas pesadas
De uma garota machucada

Mais um poema sem nexo
De uma pessoa solitária
Usando a caneta como remédio

Minha alma está desgastada
Meu coração ainda bate
Pois sinto ele se partir todos os dias

Me afundei de novo
E a culpa é desse passado manchado.
Laryssa Fernandes
(28/12/2018)



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Meu pseudoépico psicodélico grunge quadrinístico incompleto: As aventuras do espetacular Chris Cornell Lee

Apresentando "As aventuras do espetacular
Chris Cornell Lee", acompanhado do violão lírico
musical de Gabriel Carvalho

Na edição do Sarau Solidões Coletivas de 12/01/2019, que aconteceu na Comuna da Quinta das Bicas, quintal da casa de Gilson Gabriel, no bairro Biquinha, em Valença/RJ, declamei, acompanhado do violão lírico musical do mais que fodástico artistamigo Gabriel Carvalho, meu poema inédito meio épico psicodélico grungre quadrinístico “As aventuras de Chris Cornell Lee”, em homenagem a Chris Cornell, Stan Lee, Belchior, Bowie e Luiz Melodia.
Material Quadrinístico Inspirador
Escrito às pressas, numa tentativa de cobrir toda a temática louca sugerida no mais recente Sarau Solidões Coletivas, meu objetivo era fazer um poema extenso, no molde épico punk popular pop HQ, mistura de história roteirizada por Stan Lee, com referências ao grunge de Chris Cornell, como um “Faroeste Caboclo” versão super-heroica Marvel, com um conjunto de 5 ‘Cantos’, mas, devido ao tempo escasso e persistente preguiça/cansaço existencial, o meu tosco poema pseudoépico grunge quadrinístico ficou incompleto, com apenas os 2 primeiros Cantos. Seja como for, fica aí a louca ideia e o início de uma fantasia/alucinação lírica HQmaníaca.

As aventuras do espetacular 
Chris Cornell Lee

Canto Primeiro
Das vidas, mortes, ressurreições e insurreições do Capitão Chris Cornell Lee

O espetacular Chris Cornell Lee
fora Capitão da brigada sem Pátria,
soldado heroico  da Antiguidade Clássica,
defendeu povos massacrados
por governantes e desgovernantes enfurecidos
que davam graças a deuses distantes do Olimpo
enquanto pisavam nos plebes mortais.
Cornell Lee amou Homeros e Safos,
Helenos e Helenas,
sem preconceitos, como seus iguais.
Resgatou e abraçou nativos e estrangeiros,
sobreviventes e refugiados
e hasteou, mesmo quando destroçado,
as bandeiras da esperança e da paz.
Por proteger pacificamente a Terra,
Capitão Cornell Lee pelos da guerra
foi condenado, trancado e enterrado
nas  geleiras da Censura e da Solidão.

Seu corpo sobreviveu às eras de tortura,
às guerras atômicas, às greves de fome
e à crescente incompreensão.
Na década de 1990, foi despertado
pela Ordem dos Humanos Cães Templários
que uivavam embriagados
em busca de um salvador pagão
que diminuísse o vazio em cada coração.
Chris Cornell Lee, agora Capitão do Som,
resgatou com arte a heroica essência,
roubando o pão das bocas da Decadência
para alimentar os famintos e fracos irmãos.
Residiu em jardins sonoros,
escolheu ser escravo da música,
mas foi assassinado, mais uma vez,
pelos surdos senhores da guerra.

Quando o mundo parecia completamente perdido,
o caixão de Capitão Chris Cornell foi atingido
por um cometa de poesia.
Novamente, nosso herói voltava à vida,
desta vez na pele de apenas um rapaz latino americano
humano demais para poderes meta humanos.
Deparou-se, assustado,
com um universo cada vez mais devastado
pelas hordas de Velhos Capitães Fascistas,
associados à Galeria da Vilania
da Recatada Hipocrisia
e da Endiabrada Sagrada Família
da Máfia Moral Armada.
Diante do triste cenário,
o Excelsior Cornell Lee, mesmo desarmado,
ofereceu resistência contra a velha inimiga Decadência.
Recebeu o apoio de um novo astro,
o herói iluminado, apesar de violentado,
chamado Halley Ceará,
e seguiu a dupla espetacular
pelas paralelas de Belchior,
cercanias de cordéis e rondós,
para alcançarem os aventureiros reinos
de Cony, Bowie e Melodia
em busca de artefatos de magia e poesia
afim de enfrentar e derrotar
os novos senhores da Velha Tirania.

Sigamos, leitores, destemidos e aflitos,
os passos heroicos e pacíficos
de Chris Cornell Lee, o verdadeiro e único capitão amigo,
e de seu novo parceiro, o gentil Halley Ceará.
Viajemos, velhos e novos leitores líricos,
pelo solidário infinito
que só o imaginário solitário coletivo
pode nos levar e nos salvar.

Canto Dois
Das memórias de Halley Ceará

Capitão Cornell Lee
é o novo velho herói que conheci
nas ruínas dos jardins sonoros
quando eu, sozinho e oprimido,
enfrentava os cães das trevas de Oroboros.
Recém ressuscitado e ainda enfraquecido,
Capitão Chris Cornell Lee permanecia destemido:
com a força de vontade de deuses legítimos e poetas,
chutou as cobras da Preconceituosa Reza
e expulsou com drummondianas pedras
os cães asseclas dos senhores da guerra.
Mesmo sem seus três populares poderes,
mostrou-se resistente guerreiro,
e atirou os inimigos no sol do buraco negro.
Agora sigo com novo velho amigo
pelas trilhas do Infinito,
nas paralelas de Belchior,
em busca das Joias do Amor Maior.
Venha com Capitão Chris Cornell Lee
e comigo, o gentil Halley Ceará,
pelas terras da Paixão e do Sonhar.


domingo, 3 de fevereiro de 2019

Não vai “dar pt’, nem PT; hoje vai “Da...mares”: O Mistério gozoso (ou Viagem Ministerial) do Mestre Artistamigo Gilson Gabriel


Uma expressão popular muito usada na desastrosa contemporaneidade é a famosa “dar pt", ou seja, “dar perda total”. Inicialmente, tal termo era proferido quando alguém batia o carro e não dava mais pra recuperar nada ou quando alguém fica muito bêbado de chegar a vomitar . Porém, nesses desastrosos tempos de crises e desgovernos, quando se tem a impressão de que nossas vidas passam em contínua perda total,  a popular expressão se expande para todas as situações em que a gente sabe que vai dar m..., ou seja, vai “dar pt".
Na época das grandes manifestações contra os governos petistas, em evidente crise, principalmente no acidentado segundo mandato da ‘presidenta’ Dilma (PT), muitos descontentes aproveitaram-se para adaptarem o  termo “dar pt" para “dar PT”, aproveitando as iniciais do Partido dos Trabalhadores (PT), fazendo um jogo de palavras e associação da sigla do partido com as iniciais da expressão ‘perda total” (ou seja, se “dar pt" seria dar perda total, “dar PT” numa eleição/administração pública seria um desgoverno que provocaria perda total no setor administrado pelo Partido dos Trabalhadores).  É, nós, brasileiros, passamos pelas crises e desastres mais cruéis, mas mantemos a língua e, principalmente, nossas gírias em contínua transformação, sempre mantendo nosso tom ‘zueiro’.
Mas, agora que a maioria das administrações públicas não estão mais nas mãos dos petistas e os holofotes estão todos voltados para o recém eleito presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seus subordinados, a gíria ‘zueira’ “dar pt" pede nova adaptação. Nessa nova fase política do Brasil, um nome tem se destacado pelas polêmicas de suas desastrosas declarações e sendo alvo da ‘zueira’ de muitos internautas: Damares Alves, a atual Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no ‘renovado’ ‘governo’ federal.
Rainha de ‘pérolas’ como "Menino veste azul e menina veste rosa”, "Como eu gostaria estar em casa, toda tarde numa rede, me balançando e o meu marido ralando muito, muito, muito para me sustentar e me encher de joias e presentes. Esse seria o padrão ideal da sociedade"(em 08/03/18, em entrevista para um site do Rio Grande do Norte, o Expresso Nacional), “"16 anos atrás, dizíamos que íamos ter uma ditadura gay no Brasil. O que nós estamos vivendo hoje? Uma ditadura gay. Há uma imposição, há uma imposição ideológica no Brasil e quem diz que não aceita, é perseguido" (2014, em seu DVD de palestras  "Em defesa da vida e da família"), “o Estado é laico, mas essa ministra é terrivelmente cristã” (em seu discurso de posse), “Sabem por que elas (feministas) não gostam de homem? Porque são feias e nós somos lindas.” (em vídeo antigo, relembrado por intenautas), “A igreja evangélica perdeu espaço na história. Nós perdemos o espaço na ciência quando nós deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas, quando nós não questionamos. Quando nós não fomos ocupar a ciência. A igreja evangélica deixou a ciência para lá e ‘vamos deixar a ciência sozinha, caminhando sozinha’. E aí cientistas tomaram conta dessa área” (em vídeo antigo, de 2013, também relembrado por internautas),  a atual Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, se tornou alvo principal de protestos nas redes sociais da internet devido à coleção de declarações polêmicas. Assim, diante dos fatos, eis a proposta de renovação da gíria – se alguém faz algum comentário que você sabe que vai “dar pt”, vai gerar perda total na popularidade da pessoa, vai “dar m...”, então podemos declarar, por exemplo, “Xiii, isso que você falou vai “Da..mares””.


Charge “Nas cores, estou mais perdido que daltônico montando cubo mágico”, de Kacio Pacheco, disponível no link  https://www.metropoles.com/sai-do-serio/charge/nas-cores-estou-mais-perdido-que-daltonico-montando-cubo-magico


"Mas o que tudo isso tem a ver com a postagem de hoje?”, o impaciente amigo leitor deve estar se perguntando. Respondo: assim como nossa língua está em constante transformação, a poesia, neste caso usando e abusando do tradicional e ao mesmo tempo ousado e refinado lirismo satírico e crítico, acompanha os temas (e personagens) polêmicos da nossa vida. Sim, amigos, na arte poética, tudo pode ser transformado em matéria prima da lira: no poema, pode “dar PT”, “dar PT” e até “Da...mares”! Hoje compartilho minhas solidões poéticas com o Mestre Artistamigo Valenciano Mais Que Fodástico Gilson Gabriel, personalidade lírica sempre brilhantemente presente aqui no blog, que nos traz seu sublimamente ‘zueiro’ poema satírico, de crítica voraz e evidente flerte com a poética do cordel,  “Mistério gozoso (ou Viagem Ministerial)”, escrito recentemente por ele (e declamado por ele e seu irmão, Gerson Gabriel, na mais recente edição do Sarau Solidões Coletivas, realizado na noite de sábado, dia 12 de janeiro de 2019, como vocês podem conferir no vídeo posto logo abaixo do poema) em ‘homenagem’ ao conjunto de sandices polêmicas de Damares Alves.
O Estado é laico, a Ministra é terrivelmente cristã e o blog Diários de Solidões Coletivas é fielmente anárquico e mutante, abraçamos todas as vozes líricas críticas, e hoje quem rege a lira solitária coletiva é o Mestre Artistamigo Valenciano Mais Que Fodástico Gilson Gabriel e seu Mistério gozoso (ou Viagem Ministerial)”.
Boa leitura, amigos leitores, fiquem com os deuses da poesia, abração e Arte Sempre!

Mistério gozoso (ou Viagem Ministerial)
De Gilson Gabriel  - Valença/RJ

Ouça menino,
Eu vou falar da nova era:
Veio montada num jumento
Prá nos livrar da besta-fera,
Reluzindo verde oliva,
Travestida de quimera.

Ouça menino,
Perceba o novo advento:
É tempo de azul e rosa
Conforme seja o rebento
Qualquer outra fala ou prosa
Já dá início ao tormento.

Ouça menino,
Repare na ordem austera:
Família acima de tudo
Mesmo a que se tolera
Quando um dos dois é chifrudo
E com o outro se aglomera.

Ouça menino,
E para isso tome tento:
Goiaba é fruta santa
Vale mais que seus talentos
JC trepou na planta
Sem Deus dar consentimento.

Ouça menino,
Ou o país não prospera:
Vamos passar tudo nos cobres
E nisso a gente se esmera
Vamos dar jeito nos pobres
Como quem menor encarcera.

Ouça menino,
Esse novo tempo é bento:
É Deus quem está no comando
Livrando-nos do avarento
Do que é vermelho e tinhoso
Que ao PT deu sustento.

Ouça menino,
Pois o que eu falo é verdade:
O reino do cão-tinhoso
Vai sumir inda que brade
A escumalha petista
Que já se encontra na grade.

Ouça menino,
Da desonra Deus nos livre:
Se nosso plano dá certo,
Embora o ranço se cultive,
Nós vamos inchar as burras
E as do templo inclusive.

Ouça menino,
E que a oposição não ouça:
Nosso interesse, de fato,
É largar o povo à joça
E não largar mais o “osso”
Mesmo que a vaca tussa.

Ouça menino,
Que nem tudo vai ser mole:
A oposição não é besta
E não vai deixar que a enrole
Pode acabar com a festa
E mesmo vivos, nos esfole.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Solidões Compartilhadas: O retorno de Maria Eduarda Ventura, a poetamiga dona absoluta de sua própria história


ÚLTIMO dia do mês de janeiro, fim de férias de professores e alunos, verão continuamente radiante, sol intenso, proximidade do retorno às aulas: tais elementos me lembram e destacam a artistamiga teresopolitana, outrora artistaluna [premiadíssima] da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, Maria Eduarda Ventura (para os mais próximos Duda Ventura), com quem compartilho minhas solidões poéticas nesta postagem de 31 de janeiro de 2019.
Dona de um lirismo intenso e radiante, Duda Ventura não passa pelo mundo como inofensiva e passageira nuvem – extremamente crítica, sua poética prefere provocar marcantes tempestades ou sóis ferozes. No fim do ano passado, fez participação superespecial no último sarau de 2018 na escola onde ela iniciara sua trajetória poética, trouxe um novo poema, de temática feminista, e demonstrou que seu lirismo continua brilhante, contagiante e cada vez mais maduro – sim, senhoras e senhores leitores, a poetamiga Duda Ventura continua vívida, cada vez melhor e mais sublimamente certeira em seus posicionamentos líricos críticos.
Hoje trago aos amigos leitores o novo poema de Duda Ventura e o vídeo no qual ela apresenta o mais que fodástico texto lírico durante o último sarau de 2018 na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva. Leiam, apreciem e curtam sem moderação!

Pare de olhar para minha barriga e meu peito
Pare de olhar pro meu corpo desse jeito
Não sou uma donzela em perigo em um vilarejo
Muito menos um objeto de desejo
Sou uma obra de arte
Perambulando pelas ruas todas as tardes
Agora sou  dona da minha história
Ansiosa para construir novas memórias
Sem dor e cicatrizes
Quero me expor em marquises
Para que todos saibam que agora sou livre
Livre dos padrões das amarras que me prenderam durante anos
Acabando com meus sonhos e planos
Porém agora eu digo não
NÃO AO PADRÃO, NÃO AO PATRIARCADO
Não ao desdém ao meu sexo amado
Não a desvalorização do mulherão da porra
Que não se deixa mais ser tratada como zorra!
Maria Eduarda Ventura



terça-feira, 15 de janeiro de 2019

No primeiro mês do ano, as primeiras páginas de diário do ano passado de Ramon Espíndola, Ana Julia Duarte e Maria Gabriela Ferreira


Estamos no primeiro mês de 2019, que também é conhecido como mês de férias para artistalunos e professores (para estes últimos, em Teresópolis, além disso, como virou tradição – ou melhor, maldição – é o mês que os governantes e desgovernantes decidem deixar os funcionários públicos sem o devido pagamento) e também serve como um período de pausa, reflexão e retrospectiva do ano anterior.
Lembrando destes fatos referentes ao primeiro mês do ano resolvi compartilhar hoje minhas solidões poéticas com a ‘primeira página de diário’ (que foi a primeira proposta de redação individual do ano passado, realizada com os oitavos - futuros nonos - anos após a leitura de diversos fragmentos de diários como o de Anne Frank, de Chaves, etc) de três grandes e hipertalentosos escritores alunos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, de Teresópolis/RJ; os inspiradíssimos escritos de hoje foram escritos pelos artistalunos Ramon Espindola Bernardo, Ana Julia Duarte e Maria Gabriela Ferreira Luz.
Nestas primeiras páginas de diários, vemos revelações de expectativas e sonhos (principalmente na redação de Ramon), inspirações musicais e literárias (na página fictícia de Ana Julia Duarte, há citações da canção de Kell Smith e influências do “Diário de Anne Frank) e confissões de peito aberto, com múltiplos jogos de palavras, uma desenvoltura literária imensa com citações divertidas e domínio maduro da arte escrita (principalmente na página de Maria Gabriela Luz – atentem para o jogo intencional de chamar o diário de “Potter”, remetendo ao protagonista da saga “Harry Potter”, o uso bem planejado de aspas e parênteses, etc).
Não curte o programa Big Brother, mas deseja ver o dia a dia de outros com lirismo? Eis uma ótima alternativa: leia as fantásticas e líricas primeiras páginas de diários de Ramon, Ana Julia e Maria Gabriela. Curte o Big Brother, mas, além disso, quer preencher mais sua curiosidade sobre o lirismo incrível do banal dia a dia. Dá uma espiada nas fantásticas e líricas primeiras páginas de diários de Ramon, Ana Julia e Maria Gabriela. Seja admirador, inimigo ou indiferente dos reality shows, leia e sonhe com o incrível show da vida na arte escrita por Ramon, Ana Julia e Maria Gabriela, amigos leitores.

Diário de um sonhador

Querido diário,
Esse ano fiz tanta coisa que não sei como começar... Penso em iniciar falando dos meus sonhos: quero ter uma casa própria, ter minha namorada e ser feliz.
Tem muitos momentos em que fico na minha cama pensando como vou realizar meus sonhos. Minha mãe me dá vários conselhos para ficar na linha: não me envolver com drogas, nem beber para conseguir realizar meus sonhos.
Estou caminhando para realizar meu sonho. Só faltam alguns meses e eu realizo meu desejo, por isso estou muito feliz.
Obrigado por me apoiar, querido diário.
Ramon Espindola Bernardo



A primeira página do diário inventado de Ana Julia

         Querido diário,
         Hoje, dia 26 de fevereiro, ganhei você. Vou começar a escrever em suas páginas, mas não sei como começar, pois não muito a falar. Já sei: vou começar contando como eu te encontrei!
         Um belo dia, eu estava andando na rua e encontrei várias páginas indo na direção da cemitério. Fiquei com medo, mas fui atrás.
Como gosto muito de escrever, fui catando as folhas e guardando-as comigo. Chegando no fim do caminho, encontrei um livro de capa dura, que era você! Achei interessante e acabei guardando você pra mim. Na última página sua, está escrita uma frase, ela é assim: “É que a gente quer crescer, e, quando cresce, quer voltar no início, porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido”. Levo essa frase pra vida toda.
         Gostei muito de escrever aqui, vou levar você também pra vida toda. Você é aquele amigo que não tenho, só você me entende, só você que me escuta realmente!
         Beijos de Luz,
         Ana Julia



A primeira página do diário de Maria Gabriela

Teresópolis, 02 de março de 2018

Querido diário (lhe chamarei de Potter),
         Nesse começo de ano, aconteceu tanta coisa que não sei por onde começo.
         Então, Potter, meus dias andam um pouco tumultuados, eu ando meio nervosa, mas creio que seja apenas cansaço.
         Ando meio confusa nos meus propósitos.
         Por alguns segundos, eu queria sumir, ir para outro planeta. Eu nunca fui muito boa para fazer amizades novas, mas até que nessa semana consegui novos amigos, consegui ter um diálogo com alguém que durou mais de 1 minuto (juro, isso é santo milagre!).
         Nesse mês até criei coragem e saí de casa. Fui pra Santa Teresa; gosto de ficar lá na igreja. Mesmo o silêncio sendo enlouquecedor, fico lá e, bom, dá pra ler sem ninguém me atrapalhar.
         Enfim, Potter, foi bom ter “conversado” com você; consegui desabafar, coisa que não conseguiria com ninguém.
         Tchaul, Potter, até mais.
         Maria Gabriela.







sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Começando o ano novo, querendo muito mais que ser feliz como o eu lírico da poetamiga Maria Emilia de Oliveira


Todo começo de ano é um começo de recomeço.  Começo por representar o início de um novo período, recomeço por sugerir continuidade ao iniciado nos anos findos. Por esse motivo, por esse começo de recomeço, retomo as postagens no blog neste ano que se inicia dividindo minhas solidões poéticas com uma jovem e ao mesmo tempo antiga artistamiga. Jovem pela idade, antiga por trazer a tradicional asa eterna da poesia, pela força milenar de seus versos e divido mais uma vez este espaço lírico virtual solitário coletivo com a artistamiga teresopolitana  Maria Emilia de Oliveira, autora do poema “Recomeçar” (postado aqui em 2017 e disponível no link: https://diariosdesolidao.blogspot.com/2017/07/aprendendo-recomecar-com-maria-emilia.html ), e, desta vez, ela nos mostra que seu eu lírico deseja “Muito mais que ser feliz” (reparem que, logo no segundo verso, o verbo ‘recomeçar’ ressurge em nova obra lírica da escritoramiga).
Ex-artistaluna da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva (meio vacilona nos estudos, apesar de superinteligente e criativa – meu lado blogueiro elogia e aplaude de pé a sua arte, mas minha parte professor sempre que pode lhe ‘puxa as orelhas'), Maria Emilia, com mais este poema, confirma seu talento e demonstra uma maturidade fora do comum; tem asas eternas suas aves poemas que voam muito além da sua idade, buscando sempre o recomeço, a retomada do desejo de ser muito mais que ser feliz. Vale destacar também como, nesse poema romântico e de sentimentos universais, a talentosa poetamiga consegue genialmente inserir a ‘cor local’, marcas da sua região, símbolos de sua região (como a Capela da Matriz).
Recomecemos nossas leituras solitárias coletivas com o fodástico poema de Maria Emilia de Oliveira, amigos leitores!

Muito mais que ser feliz

Ah, que lua boa pra gente se amar,
Que tempo bom pra recomeçar!
Vamos sentar sobre uma pedra no meio da nada,
Vamos fingir que todos os problemas acabaram
E que a gente não é mais piada.
Vou esquecer tudo que passei, tudo que sofri,
Prometo que, daqui pra frente, só vou te fazer sorrir.
Por quê?... Porque eu quero muito mais que ser feliz:
Quero seu sobrenome numa aliança,
Véu e grinalda na Capela da Matriz,
Quero filhos com o seu sorriso,
Quero acordar com seu bom dia,
Quero abraço novo, vida boa,
Quero dizer que você foi a minha melhor escolha.
Maria Emilia de Oliveira