quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Os geniais escritoralunos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva brilham com Noel Rosa: Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?

Chegamos ao segundo semestre na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, em Teresópolis/RJ, e nossos brilhantes escritoralunos já trazem nessa trajetória diversos textos de destaque! No início do ano letivo, em fevereiro, às vésperas do carnaval, trabalhei com os nonos anos diversas letras de música e a biografia de Noel Rosa (assistimos, inclusive, ao fodástico filme nacional “Noel, Poeta da Vila”, drama biográfico de 2006, dirigido por Ricardo van Steen).  Aproveitando o momento, desafiei os escritoralunos, inspirados pelo filme e pelas canções de Noel Rosa, para que fizessem uma carta pessoal (gênero textual que trabalhávamos na época) ao Poeta da Vila, agradecendo por um fictício convite para uma roda de samba imaginariamente  dado aos desafiados e talentosos artistalunos. Além disso, caso os escritoralunos topassem o convite inventado, teriam que, no corpo da carta, em algum momento, acrescentar uma referência à famosa marchinha “Com que roupa?”, de Noel Rosa.
Os escritoralunos dos nonos anos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva não só toparam o desafio como também produziram algumas das maiores obras-primas criativas no gênero textual carta. Para se corresponderem e homenagearem o boêmio, mulherengo, bem humorado e genial Noel Rosa e poderem usar e abusar das liberdades do gênero textual carta, os talentosos escritoralunos, cada grupo com seu estilo, produziram cartas super-criativas (alguns introduziram a linguagem coloquial atual nos textos, outros preferiram usar gírias e palavras da época de Noel Rosa, outros usaram como remetentes personagens famosos da biografia do Poeta da Vila, outros forjaram fantásticos novos personagens enriquecendo o universo do sambista da Vila e alguns até inventaram uma nova linguagem para se corresponder com o grande e inesquecível músico carioca – tudo com muito bom humor, referências biográficas e artísticas de Noel e simpatia, do jeito que o eterno Poeta da Vila gostaria).
Acompanhemos as cartas carnavalescas desses talentosos escritoralunos dos nonos anos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, e deixemos nossos olhos sambarem no lirismo destes geniais mestres-alunos da escrita criativa, amigos leitores!  Vida longa ao patrimônio cultural deixado pelo fodástico músico brasileiro Noel Rosa!

Prezado amigo Noel Rosa,

                Venho por meio desta carta lhe agradecer pelo convite que me fez, mas infelizmente eu não vou poder comparecer, pois tenho um show marcado nesta mesma data.
                Não tenho dúvidas de que será um dia muito agradável, espero que você se divirta bastante. Fiquei sabendo que você também convidou nosso amigo Felipinho, mandarei um abraço para você por ele.
                Vou ficando por aqui, meu amigo, que sua roda de samba seja um sucesso e, mais uma vez, obrigada pelo convite.
Abraços,
De sua amiga Rayssa Carvalho
(carta de Rayssa Carvalho, do 9.° B)

Caro amigo Noel Rosa,

                Venho lhe agradecer pelo maravilhoso convite que recebi em seu nome para a roda de samba no morro. Estou ansioso para ir à sua festa.
                Mas ainda estou em dúvida: com que roupa eu vou? Estou à procura de diversão e uma boa música para dançar. Sou admirador de sua arte de conquistar mulheres. Pretendo me divertir muito em sua roda de samba.
                Fico muito agradecido pelo seu convite. Neste mesmo instante, vou tirar minhas dúvidas sobre a roupa e comprar o melhor traje para sua festa.
Um abraço, com imenso carinho,
Carlos Felipe
(carta de Carlos Felipe, do 9.° Ano B)

Velho amigo Noel Rosa,
                Recebi seu pedido para ir ao seu encontro numa roda de samba.
                Você sabe, meu velho, que gosto muito de você, quero muito ir, mas não sei com que roupa vou! Como você é o “rei” do samba, queria a sua ajuda pra escolher a roupa.
                Meu amigo, meu BFF (Best Friend Forever), queria saber também como você está passando... Como vai a sua família, a sua mãe? Sinto muito pela morte do seu pai.
                Da sua BFF
                Stefanny
(carta de Stefanny Amaral, do 9.° A)

Caro amigo Noel Rosa,
                Minha amiga Kamila e eu escrevemos esta carta para agradecer o seu convite para a roda de samba.
                Gostaríamos muito de ir, mas não sabemos com que roupa vamos. Noel, com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?
                Mudando de assunto, e aí: como vai sua saúde? Tudo em cima? Fazendo muito samba? Eu fiquei sabendo que você estava dando umas tossidas esquisitas. O que houve? Você está bem? Espero que sim.
                Amigo, vou ficando por aqui. Te vejo na roda de samba. Até lá! E, mais uma vez, obrigada pelo convite; fico muito grata!
                Um beijo e um abraço,
                Lorraine e Kamila.
(carta de Lorraine Lopes e Kamila Melo, do 9.º B)

Caro amigo Noel, 
                E aí, véi, cê tá beim? Recebi seu convite para ir aí no morro, na roda de samba. Só quero ir sem minha mulher, vou ver se enrolo ela e a deixo em casa, afinal quero aprontar muito nessa roda de samba. Falando nisso, como andam as suas mulheres? Espero que tenha bastante mulher lá!
                Ouvi no rádio que cê tava mal, e aí, mano, o que cê tem, cara? Espero que já tenha melhorado até a festa para nos divertirmos. Ah, falando no samba, não sei com que roupa eu vou, por isso eu te pergunto: com que roupa que eu vou?
                Valeu, brother, até mais.
                Do seu amigo Bill
(carta de Rafaela Sampaio e Maria Aparecida, do 9.º A)

Caro amigo Noel,
                Recebi seu convite e fiquei muito grato pela sua generosidade.
                Estou achando que não poderei comparecer a sua roda de samba, porque acabo de chegar de uma cavalgada e estou cansado, mas em breve irei visitar outra de suas rodas de samba.
                Mudando de assunto, como vai sua saúde? Você não vai melhorar da tuberculose se não parar de fumar. Descanse que você vai melhorar.
                Do seu amigo
                Alexsandro B. Jorge
(carta de Alexsandro B. Jorge, do 9.º A)

Fala aí, Noel Rosa, beleza?
                Recebi teu convite pro samba. Na moral, não perco não, véy. Pô, com que traje eu vou?
                Tenho que estar apresentável pois vai que o novinho tá por lá?
                Mas, mano, vai ficar da hora. Me aguarde aí!
                Um abraço,
                Lauany Rodrigues Ribeiro da Silva
(carta de Lauany Rodrigues, do 9.º B, com participação especial de Thayslane Freitas, ex-escritoraluna, artistamiga visitante)

Meu caro amigo Noel Rosa,
                Recebi seu convite para a roda de samba e tô animada pra ir! Mas, aí, com que roupa que eu vou pro samba que você me chamou?
                Ó, só me respeita na resposta, heim, conheço seu jeito safadinho, seus pensamentos, já dá até pra imaginar que você tá querendo abusar de mim. Mas aí que eu te digo: pode tirar o cavalinho da chuva.
                Agradeço seu convite, mas cuidado com o que vai me responder!
                Laiane Cruz Jorge
(carta de Laiane, Jenniffer e Danielle, do 9.º B)

Meu caro amigo Noel Rosa,
                Venho lhe agradecer pelo convite. Irei com muito prazer, para poder estar ao seu lado em mais um de seus sucessos, do lado dessa pessoa incrível que você é.
                E já vou lhe avisando: você quem paga a conta, uma cervejinha gelada, posso até imaginar.
                E pra festa, com que roupa devo ir? Aguardo sua resposta.
                Abraços,
                De seu amigo Cartola.
(carta de Eduarda Malheiros, do 9.º A)

Caro amigo Noel Rosa,
                Aceitamos seu convite, mas não temos roupa pra ir no samba que você nos convidou. Com que roupa devemos ir? Esperamos que tenha convidado outras pessoas elegantes como nós.
                Ah! Quase esquecemos de te falar: tem uma amiga minha apaixonada por você e ela queria conversar pessoalmente com você. Ela disse que seu queixo é fofinho, que suas marchinhas são interessantes e também que você é elegante, que anda sempre bem arrumado. O nome dela é Vanessa, é uma mulher legal, simpática e muito divertida.
                Bom, enfim, agradecemos pelo convite.
                A nossa amizade e admiração,
                Um forte abraço de suas amigas,
                Vanessa, Leticia e Maiara.
(carta de José Vitor, Leticia e Maiara, do 9.º B)

Fala aí, meu parça Noelzi, tudo benzi com vocêzi?
                Fiqueizi sabendozi que vocêzi não estazi muito benzi de saúdezi mazi esperozi que melhorezi, poizi quero verzi o meu brodizi tchunelzi. Sei que Deus é Paizi e não padrastozi e Ele vaizi te curarzi.
                Pô, meu chegadozi, recebizi seu convitezi viradozi no paranauêzi e já tôzi no 24 par novezi pah i pah i.
                Veyzi, te ouvizi no radiozi do Barraco da minha véiazi e me inspireizi maizi foi uma provazi, porque estava sem sinalzi, tá ligadozi? Mazi, pô, conseguizi fazerzi um sambinha pah tuzi. Espero que gostezi, é esse aquizi:
                “A tchutchunelzi a tchutchunelzi a tchutchutchutchutchunelzi
                Paranauê paranauê papapaparanauê
                A tchutchutchutchutchutchunelzi…”
                Bom, veyzi, o restozi noizi cantazi aí no Morro do Borelzi. Falouzi, manozi?
                Pô, vou me despedindozi.
                Até lá no Borelzi.
                Um abraço do seu Brodizi,
                Crivaldozi.
(carta de Marianne, Gioliana e Maria Eduarda, do 9.º A)

Caro amado Noel Rosa,
                Quero lhe agradecer pelo convite feito especialmente pra mim, estou muito ansiosa, pois nem sei com que roupa eu vou para o samba que você me convidou. Quero muito vê-lo para conversarmos, mas espero que Lindaura não esteja por perto, nada pode estragar nossa noite. Preciso de sua opinião para me ajudar a escolher uma roupa bem linda, não quero que me veja em farrapos, como antes.
                Sei que vamos nos divertir muito, irei prestigiá-lo e vou levar até um presentinho, tenho certeza que você vai gostar, não vejo a hora de vê-lo e conversar com você. Não tiro você do meu pensamento, você é um sambista excelente e uma pessoa incrível.
                Pode contar com minha presença no samba, estarei prestigiando você firme e forte.
                Um grande abraço de alguém que o ama muito,
                :) Teodora Machado :)
(carta de Tainá e Ingrid, do 9.º B, com participação especial de Geisa, ex-escritoraluna, artistamiga visitante)

Querido Noel Rosa,
                Ontem ouvi você no rádio e parecia estar muito bem. Como está sua saúde? Estou preocupada!
                Recebi seu convite para a roda de samba, hoje à noite. E queria saber: com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou? Sua mulher não vai estar lá não, né?
                Aguardo sua resposta.
                Abraços carinhosos,
                Da sua Dama do Cabaré.
(carta de Daiara Lima, Jhekson William, Rayssa Ribeiro, do 9.º A)

Querido Noel Rosa,
                Recebi sua carta me chamando para uma roda de samba no morro, mas não poderei ir.
                Ontem sambalei bastante com meus amigos. Nós bebedamos, dançalamos, comelamos e o principal: agarralamos muitas mulatas. Saímos da roda de samba à noite e cinemei com amigos e amigas. Cansamos e, por isso, não sambalarei contigo dessa vez.
                Mudando de assunto, amigo, como vai sua saúde? Cuida dessa tuberculose. Sei que não tem cura, amigo, mas não fume, para que nós possamos aproveitar bem os dias.
                Obrigado pelo convite,
                Raimuldo.
(carta de Larissa, Marcia e Rodrigo, do 9.º A)

Caro amigo Noel Rosa,
                Recebi seu convite, meu amigo, fiquei surpresa e muito feliz. Pelos anos que não nos vemos, pensei que não iria me convidar, mas agora sei que nossa amizade é muito importante.
                Só tem um problema: não sei com que roupa eu vou... Tenho muitos corpetes, mas estão velhos. Pretendo fazer algumas comprinhas, mas estou sem meus cruzeiros, então não sei; pretendo aparecer para nos reencontrarmos e renovarmos nossa querida amiga.
                Abraços e carinhosos beijos,
                Rãna Rosa
(carta de Tamires, Cassiano e Isadora, do 9.º B)

Querido mano Noel Rosa,
                Hoje recebi seu convite para o samba aí no morro, mas, mano, não sei com que roupa eu vou. Acho que vou com um terno simples, mas charmoso, tô afim de umas novinhas daí que já tô de olho há um tempo.
                Véy, me espera que eu vou aparecer, pode ter certeza que vou.
                Grande abraço e nós se vê aí no morro, fui!
                Abraços,
                Chico Cachibira do Alim
(carta de Tassiana e Vania, do 9.º A)

                Querido Noel Rosa,
                Quero te agradecer pelo convite, estou muito animada para a roda de samba. Já nos conhecemos há muito tempo e fico feliz por ter me convidado para ver você tocar na roda de samba.
                Eu queria saber como você está. Escutei no rádio que você está se tratando de uma tuberculose. Quero que você saiba que estou torcendo para que dê tudo certo no tratamento.
                Meu velho amigo, tem muito tempo que eu não te vejo, estou sentindo saudades de você. Gostava quando você e eu ficávamos no parque, você ficava tocando e eu sambando, era muito bom.
                Eu queria muito te visitar, mas não tem como eu sair agora. Mas, depois, na roda de samba, pode contar comigo.
                Espero que a gente se divirta muito na roda de samba. Estou contando as horas para chegar rápido o momento de nosso reencontro.
                Meu amigo, vou me despedindo.
                Com beijos e abraços,
                Michaela de Jesus.

(carta de Michaela de Jesus Pacheco Rodrigues, do 9.º A)




segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto XCIII

XCIII

O melhor peixe do rio não é o pescado. O melhor peixe do rio é o sábio, que não cai em armadilha fácil. O melhor peixe do rio é o que escapa da isca realista, nada nas águas da fantasia, esse é o peixe mais desejado. Pra pescar esse bicho tão difícil desse rio, brinco de atirar um anzol invisível. Minha isca? Deixar o peixe como impossível conquista pra manter a pescaria infinita.

Tela "Pescando no lago", de Leila Proença.
Mais quadros da artista em:
http://www.artmajeur.com/pt/artist/leilaproenca/collection/cenas-do-cotidiano/1165373



domingo, 3 de agosto de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto XCII

XCII

Ok, eu confesso: matei Gabriel García Márquez. Ninguém melhor que eu mesmo pra matar um personagem que cansei de inventar.


Quando o passado fere o nosso presente: Entre nós

Durante esse período de recesso de julho, tive a oportunidade de assistir a vários filmes fodásticos, baixados no blog “Sonata Première”. Um dos filmes que mais me marcou nesse período é o fodástico drama “Entre nós”, dos diretores brasileiros Paulo Morelli e Pedro Morelli.
No filme (que pode ser baixado no link: http://sonatapremieres.blogspot.com.br/2014/07/entre-nos.html), um grupo de amigos, isolado numa casa de campo, decide escrever e enterrar cartas destinadas a eles mesmos, para serem abertas dez anos depois. Porém uma tragédia ocorre naquele mesmo dia, na qual um dos amigos – um promissor escritor - morre. Passados dez anos do acontecido, há o reencontro dos amigos após o acidente e as feridas do tempo são escancaradas e nada será como antes. Os anseios da juventude não foram o ponto de chegada de seus caminhos pessoais.
A atmosfera de “Entre nós” é angustiante e tensa (o drama beira o suspense de tão tenso que é o reencontro dos amigos). Apesar de girar em torno de um reencontro festivo, as expectativas de uma reunião alegre são desmoronadas à medida que antigas paixões, novas frustrações e um segredo mal enterrado vêm à tona. A câmera acompanha os personagens como se filmasse um reality show, invade seus momentos mais íntimos e as cenas nos revelam os sonhos perdidos  e o leve e melancólico desespero dos personagens diante de um presente desalentador em comparação aos anseios do passado. Dá aquela impressão de solidão coletiva, de geração perdida e eternamente enlutada (e, para alguns, culpada) pela morte do amigo mais talentoso e, também (e, para alguns, consequentemente), do fim das ilusões de outrora.
Tentei reproduzir essa atmosfera de melancolia tensa no poema e usei, como eu lírico, o personagem Felipe, primorosamente interpretado por Caio Blat. O período no qual assisti ao filme coincidiu também com essa época de luto da literatura brasileira, na qual perdemos 3 fodásticos escritores (João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna) e passamos a compartilhar fragmentos de seus escritos de forma muitas vezes desordenada e sem conhecimento/compreensão devida das obras dos escritores. ‘Roubartilhamos’ as obras alheias como se fossem nossas e, às vezes, o efeito é apenas o mesmo do personagem Felipe: o ato de compartilharmos o que não é nosso como se fosse nosso só nos mostra a frustração criminosa de interpretarmos uma persona que não podemos ser e a melancolia permanente de termos algo perdido em nós que poderia ter sido e que não foi.
Assistir ao filme “Entre nós” é como ser cúmplice de um crime amigo que negamos, acompanhados de nossos ex-companheiros, mas que nos torna eternamente condenados por nossos sonhos jovens que faleceram na poeira do tempo.       

Entre nós

Cá entre nós
O escritor não está mais entre nós
Por isso o roubamos tão descaradamente
Cá entre nós
O escritor está morto
Por isso o compartilhamos tão vivamente
E todos os escritos dele
São meus e não mais dele
E todos os escritos dele
São meus mesmo que me atormentem

O escritor está morto
Mas eu salvei os escritos dele
Estão na minha mente
Estão na nossa linha do tempo
O escritor morreu
E mortos não fazem testamento
Eu o salvei roubando o que ele não me deu
Mas eu compartilhei e assinei como se fosse meu
Você compartilhou e concordou
Que o fogo não era dos deuses e sim de Prometeu
Cá entre nós
Não sou o único culpado
Por mais que me sinta atormentado
Todos nós fomos complacentes
Cá entre nós
Somos todos criminosos inocentes
Quando lemos e compartilhamos
O que não é da gente

Tudo o que eu desejei é o que não tive
E o que não tive é a única coisa que em mim sobrevive
E você e eu estamos no mesmo time
Eu roubei e você compartilhou o crime
Por isso essa raiva triste que persiste feroz
Entre nós

- O escritor morto agora caminha conosco
E acompanha nossos roubos
De seu livro ele é cão sem dono
Do moço sonhador só restou um sonho sem rosto
E a nós só resta seguir em frente
Todos juntos com a mesma dor sem fim
Em rumos diferentes
Todos juntos no mesmo adeus sem fim
Em busca de um final feliz
Inexistente...



sábado, 2 de agosto de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto XCI

XCI

Não existe maior terror que viver o sonho frustrado de encontrar todos os canais de tevê fora do ar. Dá a falsa impressão de que a realidade triste e consumista não vai voltar pra sua família. Mas lá vem o competente suporte técnico: se deixa a tevê ligada, de novo o pesadelo na sala de estar – telejornais, novelas, reality shows, comerciais, as verdades mais falsificadas e banais sintonizam todo ambiente familiar. A minha fantasia mais otimista revela-se a mais apocalíptica diante de tanta falta de ar.



Numa Paris brasileira: Foi na Creperia Crepe No Ar

Ontem tive a honra de estar presente na inauguração da Creperia Crepe No Ar (Noir), um espaço gastronômico inovador em Valença/RJ.  Fiquei tão empolgado com o lugar, belo e incomum para a  cidadezinha natal de minha poesia, tão carente de novidades.
Para criar o meu poema, inspirei-me no poema mais-que-fodástico-e-conhecido “A uma passante”, do fodástico poeta francês Charles Baudelaire, e criei uma passante imaginária que o eu lírico supostamente teria visto na Creperia Crepe No Ar. Um poema que busca as delícias da vida num novo jardim de delícias. Adianto também que este poema, além de fictício (não, caros antiquados críticos estadunidenses, nem sempre se precisa usar de experiências reais, quando se pratica a imaginação), não é um texto patrocinado; é resultado do desejo do poeta em retribuir os deliciosos crepes e o conforto e carinho que as sonhadoras donas da Creperia Crepe no Ar proporcionaram a uma Valença que necessita desesperadamente destes líricos empreendimentos.
Passeemos pela Creperia Crepe no Ar , amigos leitores, liricamente e concretamente, na busca incansável das delícias eternas da vida efêmera! Au Revoir, amigos leitores, e Arte Sempre!

Foi na Creperia Crepe No Ar

Não foi no Café de Flore, nem no Café de La Paix
A primeira vez que te vi.
Foi numa Creperia em Valença, numa brasileira Paris
A primeira vez que encontrei
Teu olhar Deneuve dançando numa tela perdida de Monet
Prometendo-me delícias sem fim.
Musa ensolarada de algum filme noir
No ir e vir do enredo de meus olhos no ar...

Não foi no Deux Magots, nem no Brasserie Lipp;
Foi numa Creperia em Valença, num pedaço íntimo de outra Paris
A primeira vez que eu me perdi em ti
Nova passante de Baudelaire,
Batalha gloriosa de Napoleão Bonaparte,
Te vi chegar e partir
Com aquele adeus que diz olá,
Platonismo de Godard,
Despedida em vários takes non sense,
Adeus que nunca se despede do olhar,
Como eterno déjà vu.
Musa iluminada de algum filme noir,
Partiste no lento ir e vir da pequena cidade,
Mas me deixaste no ar,
Longe de mim, perdido em ti...


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto XC

XC

Ah, enfermeira linda, se lhe causa pena a minha senilidade inventada, por que não contribui com minha fantasia fantástica e me cura com sua juventude assanhada? Ai, a salvação de minha vida: eu tão velhinho voltar a ter trinta e, safada fantasia, voltar a fazer amor com uma menina.