segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto XCIII

XCIII

O melhor peixe do rio não é o pescado. O melhor peixe do rio é o sábio, que não cai em armadilha fácil. O melhor peixe do rio é o que escapa da isca realista, nada nas águas da fantasia, esse é o peixe mais desejado. Pra pescar esse bicho tão difícil desse rio, brinco de atirar um anzol invisível. Minha isca? Deixar o peixe como impossível conquista pra manter a pescaria infinita.

Tela "Pescando no lago", de Leila Proença.
Mais quadros da artista em:
http://www.artmajeur.com/pt/artist/leilaproenca/collection/cenas-do-cotidiano/1165373



domingo, 3 de agosto de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto XCII

XCII

Ok, eu confesso: matei Gabriel García Márquez. Ninguém melhor que eu mesmo pra matar um personagem que cansei de inventar.


Quando o passado fere o nosso presente: Entre nós

Durante esse período de recesso de julho, tive a oportunidade de assistir a vários filmes fodásticos, baixados no blog “Sonata Première”. Um dos filmes que mais me marcou nesse período é o fodástico drama “Entre nós”, dos diretores brasileiros Paulo Morelli e Pedro Morelli.
No filme (que pode ser baixado no link: http://sonatapremieres.blogspot.com.br/2014/07/entre-nos.html), um grupo de amigos, isolado numa casa de campo, decide escrever e enterrar cartas destinadas a eles mesmos, para serem abertas dez anos depois. Porém uma tragédia ocorre naquele mesmo dia, na qual um dos amigos – um promissor escritor - morre. Passados dez anos do acontecido, há o reencontro dos amigos após o acidente e as feridas do tempo são escancaradas e nada será como antes. Os anseios da juventude não foram o ponto de chegada de seus caminhos pessoais.
A atmosfera de “Entre nós” é angustiante e tensa (o drama beira o suspense de tão tenso que é o reencontro dos amigos). Apesar de girar em torno de um reencontro festivo, as expectativas de uma reunião alegre são desmoronadas à medida que antigas paixões, novas frustrações e um segredo mal enterrado vêm à tona. A câmera acompanha os personagens como se filmasse um reality show, invade seus momentos mais íntimos e as cenas nos revelam os sonhos perdidos  e o leve e melancólico desespero dos personagens diante de um presente desalentador em comparação aos anseios do passado. Dá aquela impressão de solidão coletiva, de geração perdida e eternamente enlutada (e, para alguns, culpada) pela morte do amigo mais talentoso e, também (e, para alguns, consequentemente), do fim das ilusões de outrora.
Tentei reproduzir essa atmosfera de melancolia tensa no poema e usei, como eu lírico, o personagem Felipe, primorosamente interpretado por Caio Blat. O período no qual assisti ao filme coincidiu também com essa época de luto da literatura brasileira, na qual perdemos 3 fodásticos escritores (João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna) e passamos a compartilhar fragmentos de seus escritos de forma muitas vezes desordenada e sem conhecimento/compreensão devida das obras dos escritores. ‘Roubartilhamos’ as obras alheias como se fossem nossas e, às vezes, o efeito é apenas o mesmo do personagem Felipe: o ato de compartilharmos o que não é nosso como se fosse nosso só nos mostra a frustração criminosa de interpretarmos uma persona que não podemos ser e a melancolia permanente de termos algo perdido em nós que poderia ter sido e que não foi.
Assistir ao filme “Entre nós” é como ser cúmplice de um crime amigo que negamos, acompanhados de nossos ex-companheiros, mas que nos torna eternamente condenados por nossos sonhos jovens que faleceram na poeira do tempo.       

Entre nós

Cá entre nós
O escritor não está mais entre nós
Por isso o roubamos tão descaradamente
Cá entre nós
O escritor está morto
Por isso o compartilhamos tão vivamente
E todos os escritos dele
São meus e não mais dele
E todos os escritos dele
São meus mesmo que me atormentem

O escritor está morto
Mas eu salvei os escritos dele
Estão na minha mente
Estão na nossa linha do tempo
O escritor morreu
E mortos não fazem testamento
Eu o salvei roubando o que ele não me deu
Mas eu compartilhei e assinei como se fosse meu
Você compartilhou e concordou
Que o fogo não era dos deuses e sim de Prometeu
Cá entre nós
Não sou o único culpado
Por mais que me sinta atormentado
Todos nós fomos complacentes
Cá entre nós
Somos todos criminosos inocentes
Quando lemos e compartilhamos
O que não é da gente

Tudo o que eu desejei é o que não tive
E o que não tive é a única coisa que em mim sobrevive
E você e eu estamos no mesmo time
Eu roubei e você compartilhou o crime
Por isso essa raiva triste que persiste feroz
Entre nós

- O escritor morto agora caminha conosco
E acompanha nossos roubos
De seu livro ele é cão sem dono
Do moço sonhador só restou um sonho sem rosto
E a nós só resta seguir em frente
Todos juntos com a mesma dor sem fim
Em rumos diferentes
Todos juntos no mesmo adeus sem fim
Em busca de um final feliz
Inexistente...



sábado, 2 de agosto de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto XCI

XCI

Não existe maior terror que viver o sonho frustrado de encontrar todos os canais de tevê fora do ar. Dá a falsa impressão de que a realidade triste e consumista não vai voltar pra sua família. Mas lá vem o competente suporte técnico: se deixa a tevê ligada, de novo o pesadelo na sala de estar – telejornais, novelas, reality shows, comerciais, as verdades mais falsificadas e banais sintonizam todo ambiente familiar. A minha fantasia mais otimista revela-se a mais apocalíptica diante de tanta falta de ar.



Numa Paris brasileira: Foi na Creperia Crepe No Ar

Ontem tive a honra de estar presente na inauguração da Creperia Crepe No Ar (Noir), um espaço gastronômico inovador em Valença/RJ.  Fiquei tão empolgado com o lugar, belo e incomum para a  cidadezinha natal de minha poesia, tão carente de novidades.
Para criar o meu poema, inspirei-me no poema mais-que-fodástico-e-conhecido “A uma passante”, do fodástico poeta francês Charles Baudelaire, e criei uma passante imaginária que o eu lírico supostamente teria visto na Creperia Crepe No Ar. Um poema que busca as delícias da vida num novo jardim de delícias. Adianto também que este poema, além de fictício (não, caros antiquados críticos estadunidenses, nem sempre se precisa usar de experiências reais, quando se pratica a imaginação), não é um texto patrocinado; é resultado do desejo do poeta em retribuir os deliciosos crepes e o conforto e carinho que as sonhadoras donas da Creperia Crepe no Ar proporcionaram a uma Valença que necessita desesperadamente destes líricos empreendimentos.
Passeemos pela Creperia Crepe no Ar , amigos leitores, liricamente e concretamente, na busca incansável das delícias eternas da vida efêmera! Au Revoir, amigos leitores, e Arte Sempre!

Foi na Creperia Crepe No Ar

Não foi no Café de Flore, nem no Café de La Paix
A primeira vez que te vi.
Foi numa Creperia em Valença, numa brasileira Paris
A primeira vez que encontrei
Teu olhar Deneuve dançando numa tela perdida de Monet
Prometendo-me delícias sem fim.
Musa ensolarada de algum filme noir
No ir e vir do enredo de meus olhos no ar...

Não foi no Deux Magots, nem no Brasserie Lipp;
Foi numa Creperia em Valença, num pedaço íntimo de outra Paris
A primeira vez que eu me perdi em ti
Nova passante de Baudelaire,
Batalha gloriosa de Napoleão Bonaparte,
Te vi chegar e partir
Com aquele adeus que diz olá,
Platonismo de Godard,
Despedida em vários takes non sense,
Adeus que nunca se despede do olhar,
Como eterno déjà vu.
Musa iluminada de algum filme noir,
Partiste no lento ir e vir da pequena cidade,
Mas me deixaste no ar,
Longe de mim, perdido em ti...


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto XC

XC

Ah, enfermeira linda, se lhe causa pena a minha senilidade inventada, por que não contribui com minha fantasia fantástica e me cura com sua juventude assanhada? Ai, a salvação de minha vida: eu tão velhinho voltar a ter trinta e, safada fantasia, voltar a fazer amor com uma menina.




quinta-feira, 31 de julho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXXXIX

LXXXIX

Às vezes arrumo a casa. Ai de mim que o hospício visite minha residência e descubra que minha senilidade inventada é uma máscara pra minha loucura em evidência. Às vezes arrumo a casa só pra manter minha desordem intacta.