domingo, 22 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LX

LX

Depois de muito insistir, finalmente conquistei o coração de Maria, a mulatinha que eu sempre quis. Que conquista infeliz: na primeira vez que beijei Maria, descobri que gastei minha vida de menino amando um idealismo, uma fantasia! A Maria que eu desejei foi uma garota que eu inventei, por isso jamais pude beijá-la. Ah, que triste jogada, toda minha inocência perdida naquela roubada: a Maria beijada perdia de goleada pra minha Maria inventada!


Nasceu há 10 anos atrás: Pensamentos de um estudante de Letras

Alguns dizem que educação vem de berço. Eu complemento: educação vem de berço se entendermos como berço não o status social e sim aqueles que balançam o berço, ou seja, da harmonia (ou ausência de harmonia, nos casos complexos) do ambiente familiar que nos cerca. Uma das mãos que balançou meu berço faz aniversário hoje: é minha madrinha, minha tia Celeste Cicchelli. Foi ela que me embalou com poesia, foi ela que iniciou minha crença na área educacional, é ela em quem penso pra não desistir deste blog, pra não desistir da poesia, pra fazer melhor depois de uma aula mal sucedida, é ela que, mesmo distante de mim, mantém a vida próxima de mim e, consequentemente, torna-se a madrinha desta postagem de hoje.
Hoje compartilho com os amigos leitores uma crônica que eu escrevi há muito tempo atrás, quando eu, já poeta, ainda era apenas um operário numa fábrica de papel e estudante de Letras na UGB, de Barra do Piraí/RJ (quem também me fez lembrar daqueles saudosos momentos foi a amiga Luciana Santos, que publicou ontem uma foto daquela época). A crônica foi escrita em 2004 e ganhou o 1.º Lugar do IV Concurso Literário "Cleber Onias Guimarães" do Conselho Comunitário de São Paulo/SP, na Categoria Crônica Nacional Adulto (de 19 anos pra cima). Claro que, após tanto tempo, releio o texto e me questiono sobre alguns pontos de vista (a forma como generalizei alguns professores como autoritários, etc, fruto de inexperiência prática [e de algumas experiências traumatizantes como aluno] e alta influência dos conhecimentos apenas acadêmicos, sem senso muito prático), mas preferi manter a crônica original, mais como documento histórico da minha trajetória, cujo caminho se mantém o mesmo, com algumas curvas dadas pela experiência dentro e fora da sala de aula.
A razão de eu, na época, tão jovem, fazer uma crônica pensando nos rumos da educação tem como madrinha a minha maior orientadora educacional e lírica, a professora mais que fodástica Tia Celeste, que ainda embala meu berço; apesar de minha idade adulta, perto dela ainda sou uma criança. Outro fator que influenciou o desenvolvimento da crônica, como sempre, foi a música – ouvi muitas vezes a canção “Felicidade”, de Lupicínio Rodrigues, na interpretação de Rita Lee. Isso, somado a uma oficina poética que fiz, a convite da professora Selma Monteiro Pereira (outra grande incentivadora da minha poesia e da busca pelo ideal na Educação brasileira) com os 6.ºs anos do Pólo Agrícola de Chacrinha, bairro rural de Valença/RJ (era uma das etapas do Concurso “Escrevendo o futuro”, do banco Itaú, hoje reformulado e transformado na Olimpíada de Língua Portuguesa do Governo Federal). O aluno que Selma e eu escolhemos, após minha oficina poética, passou para a fase Estadual e isso me marcou muito na época.
Assim, aí vai a minha crônica, premiada em 2004, “Pensamentos de um estudante de Letras”, em homenagem à aniversariante, minha madrinha Celeste Cicchelli, a professora Selma, aos meus colegas do saudoso Curso de Letras da UGB e a todos que, como o eu lírico de Lupicínio Rodrigues,  ainda voam quando começam a pensar.

Pensamentos de um estudante de Letras

“O pensamento parece uma coisa à toa,
Mas como é que a gente voa quando começa a pensar”
Lupicínio Rodrigues

            Pensei na Educação brasileira. Pensei em como seria como professor (pensei assim mesmo, repetindo os como, inicialmente, formando mal as frases – os primeiros pensamentos são inconscientemente pensados, mal pesados; exercitando a gente se acostuma e equilibra a razão). Pensei em muita coisa, pensei tanto que comecei a voar.
      E pensei nas decorebas, na autoridade autoritariamente pedante dos professores: quase caí. Como aluno nesses pensamentos, nessa sala de aula pensada, percebi que ninguém pensa nada, nem mesmo o professor. Repetições, repetições, repetições alienadas.
          Pensei diferente (sei que o correto é diferentemente, mas diferente é diferente, por que todo mundo igual?). Pensei em escolas diferentes: todos pensando, todos voando – alunos e professores. O aluno aprendendo com o aluno, o professor aprendendo com o professor, o professor aprendendo com o aluno, o aluno voando, brincando de professor. E todos debatendo, todos pensando.
          Há um mês atrás, participei de uma oficina de poesia num colégio da zona rural de minha cidade. Há dez anos escrevo poesias, há pouco tempo aprendi a pensá-las, pesá-las, ou melhor, torná-las leves, mais leves que o ar. Um aluno me perguntou o que era poesia. Não respondi. Perguntei à turma o que eles pensavam que era poesia. E respostas vinham, os alunos mexiam com a cuca, abriam as asas. Eu via asas, eu via poesia em cada resposta: um Drummond precoce ali, um João Cabral de Melo Neto acolá.
       Depois me falaram da dificuldade de encontrar a poesia (em termos técnicos, entre nós, futuros professores, eles sentiam dificuldades em abstrair). Levei-os para o pátio, para o lado de fora da sala de aula. Havia uma paisagem bonita, árcade, asperamente árcade (devido ao ambiente bucólico de miséria e pobreza que cerca aquela região). Perguntei a eles o que viam. Um dizia: “ Os morros” , o outro: “ As pedras”, e foram enumerando os elementos da natureza concretamente, tão secos quanto o sol que nos aquecia. Pedi para que observassem mais atentamente, vissem os detalhes, sentissem, respirassem, pensassem tudo que viam. Um descobria uma árvore solitária, o outro comparava os matos com o cabelo do colega Diego e cada um encontrava sua paisagem íntima. Novamente eu via asas, aprendi com eles a (re) pensar poesia. Poesia era cada vôo que eles davam, cada passeio de pensamento que eles me mostravam.
           E como a gente voa quando começa a pensar. Estava na sala de aula pensando em pensar e quase que não volto de tanto voar...



sábado, 21 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LIX

LIX

Não aceito esse medicamento, senhor doutor! Se ele esteriliza a minha noção de realidade autoritária, como posso me divertir, criando uma fantasia contrária? Não me venha com ciladas: como posso criar uma loucura sensata, se a lucidez me escapa?


Solidões Compartilhadas: O doce lirismo no "Gosto amargo" de Leonardo André Dilly

Os fanáticos por futebol podem achar absurdo, mas encontrei mais uma vez algo muito mais valioso que um gol de Messi e muito mais vibrante que o gol de empate do atacante alemão Klose sobre Gana: descobri que mais um ex-poetaluno, desta vez da Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira (onde lecionei de 2006 até 2010, quando a tragédia das chuvas serranas derrubaram a escola e um grande ambiente educacional desmoronou junto com ela), de Teresópolis/RJ, me revelou que não abandonou a poesia. Seu nome é Leonardo André Dilly, um dos primeiros poetalunos que conheci na minha carreira de professor, e olha que o rapaz está escrevendo cada vez melhor!
Lamento, Messi e Klose, mas o verdadeiro craque está aqui: é Leonardo André Dilly, que, apesar de o universo inteiro preferir o caminho do gramado e do mito famigerado da “Pátria de chuteiras”, prefere brilhar com a luta ferrenha e ao mesmo tempo sensível na busca da melhor palavra, em busca da manutenção de um lirismo fodástico que muitos jamais valorizaram ou perceberam.
Hoje tenho a honra de compartilhar minhas solidões poéticas com mais um fodástico poetamigo, dono de um talento único e de um lirismo sagaz e crítico, colocado em versos longos e fabulosos (como os de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa).
Com vocês, amigos leitores, o poema de Leonardo André Dilly, retornando das estrelas, resgatando sua fodástica poesia!

O gosto amargo

Quem nunca sentiu o gosto amargo da derrota também nunca saberá como degustar a doce vitória!
Mel na chupeta, ursinhos de pelúcia, vontade saciada, realidade mal apresentada.
Para uns serem felizes outros terão de sofrer, sempre foi assim e nunca vai deixar de ser.
O amado se tornou desejado, sentimento virou pecado, quanto mais vivo o presente mais ainda olho pro passado.
Bons tempos que se foram e que nunca voltarão, cadê aquela verdade quando me chamavam de "irmão"?
Caminhando em passos lentos ao progresso...
Ou melhor dizendo, em passos longos ao regresso.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LVII

LVII

A pior dor que a doença contém para um escritor é o dom que ela tem de humilhar nossa capacidade de imaginar. Outrora rei do fantástico, sonhador orgulhoso, cá estou eu, maltratado plebeu, em meu trono deposto, ferido por um mágico mal estar que jamais fui capaz de inventar.


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LVI

LVI


A dor que gemo é um prazer de invento, senhor moço. Quando o câncer come o meu corpo, minha mente febril cria com mais gosto e, assim, eu fodo com as damas mais doces de meus mais maravilhosos contos.