Olá, caros leitores, bem vindos ao blog daqueles que guardam um sorriso solitário no canto dos lábios que versam sonhos coletivos. Bem vindos ao meu universo virtual poético, bem vindos ao mundo confuso e fictício ferido de imortal realidade. Bem vindos ao inóspito ambiente dos eus líricos em busca de identidade na multidão indiferente, bem vindos ao admirável verso novo.
Depois de muito insistir, finalmente conquistei o coração de Maria, a mulatinha que eu sempre quis. Que conquista infeliz: na primeira vez que beijei Maria, descobri que gastei minha vida de menino amando um idealismo, uma fantasia! A Maria que eu desejei foi uma garota que eu inventei, por isso jamais pude beijá-la. Ah, que triste jogada, toda minha inocência perdida naquela roubada: a Maria beijada perdia de goleada pra minha Maria inventada!
Alguns dizem
que educação vem de berço. Eu complemento: educação vem de berço se entendermos
como berço não o status social e sim aqueles que balançam o berço, ou seja, da
harmonia (ou ausência de harmonia, nos casos complexos) do ambiente familiar
que nos cerca. Uma das mãos que balançou meu berço faz aniversário hoje: é
minha madrinha, minha tia Celeste Cicchelli. Foi ela que me embalou com poesia,
foi ela que iniciou minha crença na área educacional, é ela em quem penso pra
não desistir deste blog, pra não desistir da poesia, pra fazer melhor depois de
uma aula mal sucedida, é ela que, mesmo distante de mim, mantém a vida próxima
de mim e, consequentemente, torna-se a madrinha desta postagem de hoje.
Hoje
compartilho com os amigos leitores uma crônica que eu escrevi há muito tempo
atrás, quando eu, já poeta, ainda era apenas um operário numa fábrica de papel e estudante de Letras na UGB, de
Barra do Piraí/RJ (quem também me fez lembrar daqueles saudosos momentos foi a
amiga Luciana Santos, que publicou ontem uma foto daquela época). A crônica foi
escrita em 2004 e ganhou o 1.º Lugar do IV Concurso Literário "Cleber
Onias Guimarães" do Conselho Comunitário de São Paulo/SP, na Categoria
Crônica Nacional Adulto (de 19 anos pra cima). Claro que, após tanto tempo, releio
o texto e me questiono sobre alguns pontos de vista (a forma como generalizei
alguns professores como autoritários, etc, fruto de inexperiência prática [e de
algumas experiências traumatizantes como aluno] e alta influência dos
conhecimentos apenas acadêmicos, sem senso muito prático), mas preferi manter a
crônica original, mais como documento histórico da minha trajetória, cujo
caminho se mantém o mesmo, com algumas curvas dadas pela experiência dentro e
fora da sala de aula.
A razão de eu,
na época, tão jovem, fazer uma crônica pensando nos rumos da educação tem como
madrinha a minha maior orientadora educacional e lírica, a professora mais que
fodástica Tia Celeste, que ainda embala meu berço; apesar de minha idade
adulta, perto dela ainda sou uma criança. Outro fator que influenciou o
desenvolvimento da crônica, como sempre, foi a música – ouvi muitas vezes a
canção “Felicidade”, de Lupicínio Rodrigues, na interpretação de Rita Lee.
Isso, somado a uma oficina poética que fiz, a convite da professora Selma Monteiro
Pereira (outra grande incentivadora da minha poesia e da busca pelo ideal na
Educação brasileira) com os 6.ºs anos do Pólo Agrícola de Chacrinha, bairro
rural de Valença/RJ (era uma das etapas do Concurso “Escrevendo o futuro”, do
banco Itaú, hoje reformulado e transformado na Olimpíada de Língua Portuguesa
do Governo Federal). O aluno que Selma e eu escolhemos, após minha oficina poética,
passou para a fase Estadual e isso me marcou muito na época.
Assim, aí vai a
minha crônica, premiada em 2004, “Pensamentos de um estudante de Letras”, em
homenagem à aniversariante, minha madrinha Celeste Cicchelli, a professora
Selma, aos meus colegas do saudoso Curso de Letras da UGB e a todos que, como o
eu lírico de Lupicínio Rodrigues, ainda
voam quando começam a pensar.
Pensamentos de um estudante de Letras
“O pensamento parece uma coisa à toa,
Mas como é que a gente voa quando começa a pensar”
Lupicínio Rodrigues
Pensei
na Educação brasileira. Pensei em como seria como professor (pensei assim
mesmo, repetindo os como, inicialmente, formando mal as frases – os primeiros
pensamentos são inconscientemente pensados, mal pesados; exercitando a gente se
acostuma e equilibra a razão). Pensei em muita coisa, pensei tanto que comecei
a voar.
E
pensei nas decorebas, na autoridade autoritariamente pedante dos professores:
quase caí. Como aluno nesses pensamentos, nessa sala de aula pensada, percebi
que ninguém pensa nada, nem mesmo o professor. Repetições, repetições,
repetições alienadas.
Pensei
diferente (sei que o correto é diferentemente, mas diferente é diferente, por
que todo mundo igual?). Pensei em escolas diferentes: todos pensando, todos
voando – alunos e professores. O aluno aprendendo com o aluno, o professor
aprendendo com o professor, o professor aprendendo com o aluno, o aluno voando,
brincando de professor. E todos debatendo, todos pensando.
Há
um mês atrás, participei de uma oficina de poesia num colégio da zona rural de
minha cidade. Há dez anos escrevo poesias, há pouco tempo aprendi a pensá-las,
pesá-las, ou melhor, torná-las leves, mais leves que o ar. Um aluno me
perguntou o que era poesia. Não respondi. Perguntei à turma o que eles pensavam
que era poesia. E respostas vinham, os alunos mexiam com a cuca, abriam as
asas. Eu via asas, eu via poesia em cada resposta: um Drummond precoce ali, um
João Cabral de Melo Neto acolá.
Depois
me falaram da dificuldade de encontrar a poesia (em termos técnicos, entre nós,
futuros professores, eles sentiam dificuldades em abstrair). Levei-os para o
pátio, para o lado de fora da sala de aula. Havia uma paisagem bonita, árcade,
asperamente árcade (devido ao ambiente bucólico de miséria e pobreza que cerca
aquela região). Perguntei a eles o que viam. Um dizia: “ Os morros” , o outro:
“ As pedras”, e foram enumerando os elementos da natureza concretamente, tão
secos quanto o sol que nos aquecia. Pedi para que observassem mais atentamente,
vissem os detalhes, sentissem, respirassem, pensassem tudo que viam. Um
descobria uma árvore solitária, o outro comparava os matos com o cabelo do colega
Diego e cada um encontrava sua paisagem íntima. Novamente eu via asas, aprendi
com eles a (re) pensar poesia. Poesia era cada vôo que eles davam, cada passeio
de pensamento que eles me mostravam.
E
como a gente voa quando começa a pensar. Estava na sala de aula pensando em
pensar e quase que não volto de tanto voar...
Não aceito esse medicamento, senhor doutor! Se ele esteriliza a minha noção de realidade autoritária, como posso me divertir, criando uma fantasia contrária? Não me venha com ciladas: como posso criar uma loucura sensata, se a lucidez me escapa?
Os fanáticos por futebol podem achar absurdo, mas encontrei
mais uma vez algo muito mais valioso que um gol de Messi e muito mais vibrante
que o gol de empate do atacante alemão Klose sobre Gana: descobri que mais um
ex-poetaluno, desta vez da Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira (onde
lecionei de 2006 até 2010, quando a tragédia das chuvas serranas derrubaram a
escola e um grande ambiente educacional desmoronou junto com ela), de
Teresópolis/RJ, me revelou que não abandonou a poesia. Seu nome é Leonardo
André Dilly, um dos primeiros poetalunos que conheci na minha carreira de
professor, e olha que o rapaz está escrevendo cada vez melhor!
Lamento, Messi e Klose, mas o verdadeiro craque está aqui: é
Leonardo André Dilly, que, apesar de o universo inteiro preferir o caminho do
gramado e do mito famigerado da “Pátria de chuteiras”, prefere brilhar com a
luta ferrenha e ao mesmo tempo sensível na busca da melhor palavra, em busca da
manutenção de um lirismo fodástico que muitos jamais valorizaram ou perceberam.
Hoje tenho a honra de compartilhar minhas solidões poéticas
com mais um fodástico poetamigo, dono de um talento único e de um lirismo sagaz
e crítico, colocado em versos longos e fabulosos (como os de Álvaro de Campos,
um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa).
Com vocês, amigos leitores, o poema de Leonardo André Dilly,
retornando das estrelas, resgatando sua fodástica poesia!
O gosto amargo
Quem nunca sentiu o gosto amargo da derrota também nunca
saberá como degustar a doce vitória!
Mel na chupeta, ursinhos de pelúcia, vontade saciada, realidade
mal apresentada.
Para uns serem felizes outros terão de sofrer, sempre foi
assim e nunca vai deixar de ser.
O amado se tornou desejado, sentimento virou pecado, quanto
mais vivo o presente mais ainda olho pro passado.
Bons tempos que se foram e que nunca voltarão, cadê aquela
verdade quando me chamavam de "irmão"?
A pior dor que a doença contém para um escritor é o dom que ela tem de humilhar nossa capacidade de imaginar. Outrora rei do fantástico, sonhador orgulhoso, cá estou eu, maltratado plebeu, em meu trono deposto, ferido por um mágico mal estar que jamais fui capaz de inventar.
A dor que gemo é um prazer de invento, senhor moço.
Quando o câncer come o meu corpo, minha mente febril cria com mais gosto e,
assim, eu fodo com as damas mais doces de meus mais maravilhosos contos.