sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Em tempos de cancelamentos e adiamentos, eis meu poema adiado

Quadro da magnífica HQ francesa
"Destino adiado", de Gibrat
Festa de Dia de Reis, tradicionalíssima em Valença/RJ, cancelada, carnavais cancelados, fim de pandemia continuamente adiado diante de novas variantes e ameaças, cancelamentos (impeachments) de desgovernabilidades cancelados, verão, continuamente maltratado pelo invernal nublado, adiado, vivemos perenes tempos de cancelamentos e adiamentos. A minha primeira postagem de 2022 é reflexo disto: trago meu poema quase-pós-pandêmico-não-pós-porque-a-doença-mazela-humana-é-pré-e-histórica-perpétua-e-continuamente-pandêmica “O poema adiado”, selecionado na Antologia do Concurso Contemporânea de Literatura de 2021.
Feliz Ano Velho, amigos leitores – me perdoem o humor nublado – o lirismo calorosamente aberto e otimista está temporariamente (espera-se que não perpetuamente) adiado.

O poema adiado

Bom dia
e a saudação encontra a padaria
sem a cortesia daquela cliente antiga.
O café outrora recém passado na casa vizinha
agora ferve em passado falho
sem ser passado por ninguém.
Entre sonhos mofados e pães dormidos,
versos de ausência se espalham pelo cesto,
como trigos desperdiçados numa fornada de lamentos.
Amanhece e nem o poema, nem a senhorinha vêm.

Boa tarde
e um aceno procura o banco vazio da praça arruinada,
enquanto a estátua carcomida observa o pombo doente
que cisca os arredores, insistentemente,
em busca de grãos ausentes.
Versos de abandono correm como lágrimas,
inúteis como o chafariz sem água.
É tarde para o poema decadente
e muito mais tarde para aquele senhor
que alimentava os pássaros indigentes.

Boa noite
e a escuridão parece acomodada
ao céu incomodado pelas crescentes constelações enlutadas.
Versos de uma nova elegia procuram velhas estrelas, em vão:
são luzes de astros mortos; desilusão na ilusão.
Mais um dia se contamina e, outra vez, o poema é adiado
por falta de uma luz verdadeira, ainda que fugidia,
por ausência de uma vacina de esperança, ainda que temporária.






Um comentário:

  1. Poema extraordinário! Tive a honra de lê-lo no sarau "A moda da Casa" representando o sarau "Solidões Coletivas" em 08/02 quando a chuva não se adiava. Seu poema, e tu, querido poeta, não foram adiados, pois tua poesia se faz mais necessária que nunca. Bisou.

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