quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Precisamos falar sobre as flores fúnebres da Primavera: Reflexões tragipoéticas sobre a violência às vésperas da estação florida e mais uma solidão poética compartilhada com um poema de Rafael Clodomiro

Arte de Rodrigo Yokota, disponível em:
http://desacato.info/agatha-como-se-fosse-o-alvo-em-um-jogo-no-video/

3 dias antes da Primavera, a noite ficou mais escura: na noite de 20 de setembro, a menina Ágatha, de 8 anos, foi mais uma vítima da prática irracional do que se convencionou chamar de combate à violência no Estado do Rio de Janeiro. Baleada nas costas, dentro de uma Kombi, quando voltava para casa, na comunidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, mais uma vítima de bala perdida, que sempre encontra um corpo inocente pra fatalmente se instalar, mais uma vítima de uma guerra da qual ela jamais foi informada de que iria participar. Muitos policiais morrem, alguns bandidos morrem, e muitos inocentes também, inocentes demais, Ágathas demais, pobres e negros demais, num confronto armado por um governo estadual que prima pelo belicoso e sanguinário, mas esquece do estratégico, do racional, do humanitário.
"Triste Primavera", foto de Maria José.
Disponível em:
https://olhares.sapo.pt/triste-primavera-foto9277015.html
3 dias depois chegou a Primavera e os jardins produzem belas flores para tétricos funerais, recompõem o estoque gasto no luto apressado, nas famílias despedaçadas, nos cemitérios cheios de escombros de tragédias que poderiam ser evitadas, flores fúnebres carregadas por corações feridos, enlutados e revoltados com as vidas abreviadas por excessiva violência injustificável.
E há tempos não se via um início de Primavera tão mórbido, tão frio, tão desesperador, com tanto desalento, tanta chuva invernal, tanto temor. Precisamos falar sobre esse inverno em plena primavera, neste frio em nossa alma, nesta violência desordenada, nesta Primavera que, ainda enlutada, floresce-nos flores congeladas, um aviso de que precisamos falar sobre Ágatha, não podemos esquecer Ágatha, antes que as flores fiquem escassas diante de tanto enterro fora de hora.
Mais uma noite de Primavera e, durante todo o período, só floresceram lágrimas...
Segundo muitos, diante da insensibilidade arrogante e psicopata do Estado, ainda mais lágrimas florescerão... Até quando?
Hoje compartilho com os amigos leitores um poema lamentação do grande poetamigo Rafael Clodomiro, hoje compartilho a consternação lírica dele, a nossa consternação...

Ágatha, uma criança.
Assassinada pelo Estado.
Pela política de (in)segurança.
Pelo Rio e pelo país desgovernado.
Até quando? Até a esperança
morrer dentro do caos mais agravado?
A desordem vestiu a farda.
E o povo carrega o fardo.
- Rafael Clodomiro

Um comentário:

  1. POETAS,

    PALAVRAS NÃO MATAM A DOR DE QUEM SENTE A TRAGÉDIA, MAS TALVEZ SEJAM AS QUE FAÇAM A REALIDADE SER MUDADA, VOZEADAMENTE OUVIDA. Obrigada por nunca se calarem.

    "E O POVO CARREGA O FARDO". E A DOR INVERTIDA DO PARTO, PARTE OS NOSSOS CORAÇÕES. E NENHUMA PARTE DO ESTADO ESTÁ SEGURA. NÃO HÁ PAZ ONDE AS BALAS DA INFÂNCIA SÃO CRUELMENTE TROCAS POR BALAS ASSASSINAS.

    COM LÁGRIMAS,

    RAQUEL LEAL

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