segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A PEC 241 e o meu ducentésimo quadragésimo primeiro pecado

Pra quem ainda apenas aguarda a chegada de um novo feriado – o Dia das Crianças e o Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil -, sinto informar-lhes que, enquanto aguardas sorridente mais um dia de descanso, nossos queridos políticos brasileiros não se cansam de planejar propostas para sair da crise econômica, a partir de cortes que afetarão o teu folgado e rasgado bolso, amigo cidadão. 
A Câmara dos Deputados começou a votar nesta segunda-feira, dia 10 de outubro, a proposta de emenda constitucional nº 241,  a PEC 241, que cria uma teto para os gastos públicos, congelando as despesas do Governo Federal, com cifras corrigidas pelas pela inflação, por até 20 anos. Com as contas no vermelho, o presidente Michel Temer vê na medida, considerada umas das maiores mudanças fiscais em décadas, uma saída para sinalizar a contenção do rombo nas contas públicas e tentar superar a crise econômica. O mecanismo enfrenta severas críticas da nova oposição, liderada pelo PT, pelo PSOL e pelo PCdoB, mas também de parte dos especialistas, que veem na fórmula um freio no investimento em saúde e educação previstos na Constituição.
O texto da emenda, que foi aprovado hoje, dia 10 de outubro, em primeiro turno por mais de dois terços da Câmara também modifica a regra de reajuste do salário mínimo oficial, que se limitará à variação da inflação. Ou seja, estão jogando a dívida dos ricos mais uma vez explorando os mais pobres, estão assaltando a gente de forma dissimuladamente violenta, enquanto aguardamos pacífica e passivamente o próximo feriado.
Em (des)homenagem triste à ménage dos Três Poderes que comemoram a aprovação inicial da PEC 241, trago meu novo poema “Meu ducentésimo quadragésimo primeiro pecado”.
Os donos dos paletós mais caros e alinhados estão pouco se fodendo com a gente e fodendo cada vez mais a gente, enquanto exibimos sorrisos alienados e bobos, amigos leitores!

Meu ducentésimo quadragésimo primeiro pecado
(Des) Homenagem triste à ménage dos Três Poderes que comemoram a aprovação inicial da PEC 241

 Meu ducentésimo quadragésimo primeiro pecado
foi ficar quieto enquanto ele enchia a cara com os amigos
num jantar pomposo, bancando o riquinho.
Na ressaca do dia seguinte, ele chegou todo afetivo,
enquanto meu ducentésimo quadragésimo primeiro pecado gritava
sóbrio, mas ainda silencioso.
Falava bonito o cretino
enquanto mais uma vez roubava nossa família aos poucos.
Pra bancar novos banquetes, cortou o plano de saúde da mamãe,
deixou a vovó morrer pra evitar despesas com asilo,
cortou gastos com a escola dos filhos
e colocou no bolso a contribuição para aquela instituição
que auxiliava crianças com câncer
e  rasgou o boleto de uma outra que reivindicava o fim da desnutrição.
Não havia nada a temer, todos os cortes eram necessários,
o desgraçado dizia com a voz embargada de uísque,
chega de esmolas, ele vociferava coçando suas bolas cancerosas,
enquanto vestia mais uma vez o terno alinhado
por cima do uniforme militar empoeirado
pra encontrar o seu colega estrangeiro e cheio do dinheiro
pra renegociar velhas dívidas por uma verba infinita
que reformaria sua rica adega de vinhos importados
no porão requintado da nossa casa miserável.
E, mesmo vendo minha família empobrecer e morrer,
enquanto o cretino exibia sua virilidade parasita
com aquele sorriso falso e famigerado,
permaneci calado.
Agora, deserdado, sou seu filho mais bastardo,
aguardo a vaga de condenado a plebeu
que o amigo dele me prometeu;
 ele e seus boêmios amigos me garantiram
preferência na vasta fila dos empregados
mais domesticados e mal remunerados.
E, mesmo cada vez mais fodido, permaneci calado.
Esse foi meu ducentésimo quadragésimo primeiro e último pecado.

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