sábado, 17 de setembro de 2016

Solidões compartilhadas in memoriam: A Teresópolis esbranquiçada pelo orvalho de Maria Neuza Menezes de Paula

Desde quarta-feira desta semana, por mais que tenha disfarçado para lidar com os compromissos cotidianos, venho me sentindo um tanto introspectivo, guardando dentro de mim pequenas revoltas contra os deuses que regem nossos destinos e escolhem qual é nosso momento de viver e de morrer. Na última quarta-feira, abri, durante a tarde, um recado deixado pela escritoramiga Mirian Santos, artistamiga que conheci quando eu lecionava nas turmas da EJA, à noite, no CEROM.  Abri a caixa de mensagem na expectativa vã de ler um boa tarde ou bom dia ou encontrar um novo escrito da talentosa escritoramiga, que há tempos não me apresentava uma nova arte sua. Mas a mensagem não  trazia alegria, poesia ou alívio, e sim pesar: Mirian me dava a triste notícia que a escritoramiga Maria Neuza Menezes de Paula havia falecido há mais de uma semana. Lembrei-me de Maria Neusa na hora; dei aula para ela nas turmas noturnas da EJA, no CEROM: era uma senhora super-alegre, sempre sorridente e excelentíssima escritora, tanto que ganhara, de forma unânime, o Concurso de Textos de Memórias da EJA, em 2012, com o seu mais-que-fodástico texto “Teresópolis esbranquiçada pelo orvalho” (o texto é tão bom que até já  usei-o em provas e exercícios de turmas de oitavos anos no ensino relugar).  A partir de 2013, não tive muitas notícias de Maria Neusa, pois me afastei das aulas da EJA, no CEROM, mas seu texto e sua aura cheia de vida (sempre conversávamos durante os intervalos da aula) permaneciam eternos no recanto de minhas melhores lembranças dos tempos da EJA. E hoje o dia me acorda meio nublado, com uma melancólica neblina em Valença/RJ... me relembro, triste, da Teresópolis cheia de esperança e molhada de orvalho de Maria Neusa – será que o orvalho, outrora símbolo de beleza, tornou-se também uma lágrima da natureza, constatando sua partida, Maria Neusa?  Acho que você me diria que não – sempre tão mais otimista que eu! -, mesmo falecida, acho que você me diria que o orvalho continuava a ser beleza e, talvez, também um sorriso sereno que você nos deixara após a sua partida.
Hoje deixo para os amigos leitores aquele premiado e belíssimo texto seu, Maria Neusa. Que os vivos mantenham a esperança em seus escritos eternamente viva na cidade partida, querida e saudosa escritoramiga.

Teresópolis esbranquiçada pelo orvalho

Teresópolis era cidade mansa, calma, com seus pastos verdes. No inverno, mudava a sua cor, ficava esbranquiçada pelo orvalho, parecia neve. Seus rios pareciam chorar, cheios de água, conseguiam até peixe criar. Eram rios vivos em cujas margens nasciam flores e todo o seu redor era colorido.
A praça da Igreja São Pedro era de muita poeira e muitas árvores, sem decoração, mas era o melhor lugar para brincar e, depois, na sombra das árvores, descansar. Hoje está decorada e reservada. Suas festas não tem mais fogueira, as tardes não têm mais sombra.
A Reta, chegada principal da cidade, era arborizada, anunciava ao turista algo especial, um contato direto com a natureza. Que pena! O homem tirou as árvores, mas a natureza é mãe e uma mãe não mata seu filho.
Na casa da minha irmã, passava um rio. Eu adorava dormir lá, pois escutava barulhos de cachoeira. O Morro do Tiro era um lugar carente e de muita gente, mas também de muita vegetação. Hoje, onde não tem algo construído, está descampado, como se tivessem passado uma lâmina. É lamentável! Essa é a evolução dos tempos? Será que precisa acontecer alguma coisa para o homem entender que a conscientização é o milagre que o mundo precisa alcançar?
Mas ainda temos o que ninguém tem e nunca terá: um Dedo de Deus a nos abençoar!

Maria Neuza Menezes de Paula


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