quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Beijo Cibernético (1998) ReLoaD, com a voz do Google Tradutor e Estúdio Black Cult

Trago, mais uma vez, só que numa versão inusitada e em formato de clipoema (yeah, voltando às edições de vídeos poéticos experimentais), um poema que escrevi, em 1998, chamado “Beijo cibernético (1998)”, inspirado nos eventos que ocorreram naquele ano (a estabilidade econômica em detrimento da busca de uma igualdade social, a ascensão da globalização e da internet, a defesa do candidato a presidente Enéas pela fabricação da bomba atômica made in Brasil, as propagandas de Disque 0900, a estranha derrota da seleção brasileira para o time da França na Copa do Mundo, o desemprego em alta, as metas sufocantes do Fundo Monetário Internacional [FMI], a trágica queda do prédio Palace II da Construtora Sersan do deputado Sérgio Naya, a fissura por notícias sobre as bolsas de valores, início de recessão, etc - sim, incrédulos coxinhas, o Brasil governado pelo PSDB também tinha crise, recessão, apagão e deputado corrupto agindo impunemente).
O poema, todo em tom imperativo, é uma leitura irônica dos noticiários da época e foi premiado, em 1999, com o 4.º Lugar na Categoria Poesia Moderna do III Concurso Internacional de Prosa e Poesia da Sociedade de Cultura Latina do Brasil (SCLB) de Mogi das Cruzes/SP. Algum tempo depois, publiquei o poema em meu quarto livro "O último adeus (ou o primeiro pra sempre)", de 2004.
No clipoema que produzi, o poema fica ainda mais caótico, narrado pela voz mecanizada da voz do Google Tradutor (em duas línguas: em português, em tom mais alto, e em inglês, mais baixo, pra aumentar a ironia caótica e globalizadora), com acompanhamento musical da vibrante canção "Soul Blues", de Gabriel Carvalho, Paulo Roberto Gonçalves "Paulinho Graveto Old Style" e Davi Barros, gravada no Estúdio Black Cult (o vídeo, com a canção na íntegra, pode ser visto).
Abaixo publico mais uma vez o poema, já publicado, em maio do ano passado, no blog, compartilho o novo clipoema e o vídeo "Soul Blues", do Estúdio Black Cult.
Traduzamos em poema, música e vídeo o caos nosso de cada dia, amigos leitores! Arte Sempre!

Beijo cibernético (1998)

Aposte, invista na crise
pois ela cresce mais que a ação
pare a ação
ligue-se na internet
sinta o site
mande um e-mail
solidaoarrobapontocompontobr
conte bytes caso não consiga dormir
especule o movimento
beije seu software
tecle enter pra amar
invista no desemprego
desfile no enredo do FMI
jure sobre os juros
reze pro prédio não cair
vote eletronicamente
confirme a clonagem
encha o disco
desligue o aparelho de CD
disque 0900
faça um curso de inglês
passe a bola pro francês
que a taça agora é dele também
desista do português
porque esta língua está em baixa na bolsa de valores
conte-me como foi sua primeira vez
na cama com Bill Gates
globalize o coração
delete a consciência
privatize suas emoções
venda sua poltrona
compre à vista uma bomba atômica
escolha o filme que escolheram pra você
aperte play pra explodir o vídeo-cassete
observe se seus três filhos estão bem
a tevê, o celular e o computador
obedeça a ordem
deixe que o progresso faça o resto
provoque um curto-circuito
aproveite a queda de energia
pra anular o comando esquecer
acesse o banco de dados
e finalmente perceba:
a única máquina que respira em sua casa é você.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os versos banhados em vinho, ressurgidos como fênix no poleiro, do jovem velho rapaz Luiz Guilherme Monteiro

Hoje tenho o prazer de compartilhar mais uma vez minhas solidões poéticas com o “jovem velho rapaz”, o fodástico poetamigo Luiz Guilherme Monteiro, um dos maiores poetas da “nova velha” geração de artistas de Valença/RJ.
Fã de System of Down e, além de fodástico poeta, grande baixista, Luiz Guilherme, como todo poeta de talento, é um artista de fases – lembrando um pouco Álvaro de Campos, o heterônimo de Fernando Pessoa, na questão das divisões de fases poéticas, o “jovem velho rapaz” valenciano iniciou sua carreira poética com poemas furiosos, tempestuosos e extremos em sua primeira fase; com o tempo e amadurecimento, concentrou essa fúria apaixonada numa tempestade mais calma, com versos mais curtos e mais intimistas, cultivando uma leve ironia ácida de estilo único (segunda fase – intermediária – da qual publico o poema “Banhado em vinho”, de setembro do ano passado) até chegar ao terceiro momento – menos tempestuoso, mais intimista, com um tom mais niilista, porém sem perder a leve ironia ácida e a vibração poética da eterna ressurreição ao voltar a escrever (a transferência da segunda para a terceira fase foi gradativa e custou um tempo de purgatório ao artistamigo – ou seja, de ócio criativo, sem escrever. Deste nova safra poética, trago “Fênix no poleiro”). Para conhecerem melhor os poemas de Luiz Guilherme Monteiro, indico aqui o link do blog do “velho jovem rapaz”: http://madrugadapoetica.blogspot.com.br/)
Deixemos os versos banhados em vinho, ressurgidos como “fênix no poleiro”, cada vez mais maduros, consistentes e provocativos (outra característica intensa em todas as fases da poética do “jovem velho rapaz” Luiz Guilherme Monteiro) se derramarem na taça de nossos olhos, às vezes sensíveis, quase enlouquecidos com nosso dia a dia, amigos leitores!

Banhado em Vinho

Eis o jovem rapaz
Que em sua cama rola pra conseguir dormir
Incerteza ou aflição?
Não se decidiu ainda

Talvez ele só tenha medo
Medo de dormir e sonhar
Medo de dormir
E não acordar mais

Eis o jovem rapaz
Fingindo que está tudo bem
Fingindo pra si mesmo
Mesmo sem saber mentir

E quando tira os pés do chão
Deixa apenas as lágrimas caírem
No chão em que teme cair
Por temer não desejar levantar

Eis o jovem rapaz
Com cabeça de ancião
Que alimenta os pombos na praça
Enquanto se esquece do que não se importa

Eis então o velho rapaz
Que mesmo com toda a carapaça que criou
Só queria tira-la às vezes
Para dormir tranqüilo

Mas a carapaça foi a única saída
Saída de emergência
Não pra sobreviver
Mas pra querer sobreviver ao menos

Então jovem rapaz ou não
Essa noite lhe amaldiçoa
Pois não será de descanso
Será apenas oportunidade de ver as lágrimas caírem

Já disseram que encher um copo de água com açúcar resolveria
Mas ele não vai enchê-lo d'água
Enganem a si mesmos vocês
Porque eu beberei do vinho

Não mais farei uso da carapaça
Menos ainda do pseudônimo
Já que sou apenas eu
O velho rapaz
Luiz Guilherme Monteiro



Fênix no poleiro

O horizonte não me comove mais
Não sei o que aconteceu
Não sei se é falta de paz
Ou se algo em mim morreu

Não é que eu não mais saiba
Eu só não sinto
Nem mesmo que fosse raiva
Ou vontade de um destilado tinto

Quem sou
Não mais sei
Nem pra onde vou
Mas sei por onde passei

Não escrevo mais por lamentação
Ou revolta que maior seja
Não escrevo pois meu coração
Foi parar numa bela bandeja

Ou talvez só tenha endurecido
Talvez tenha me tornado rabugento
Mas e se nada tivesse acontecido
Será que ainda haveria esse lamento?

Não sei se aceito ou abstenho
Atualmente não vejo diferença
De qualquer forma me contenho
Para cada dor uma sentença

E eu que queria me fazer de poucas palavras
Mesmo falhando fiz bons camaradas
Que me acompanham nessa tal jornada
Mesmo que não dê em nada

Talvez tenha enlouquecido
Mas espero que não
Com certeza não enfraquecido
Doutra forma não passaria do portão

Mas sem eufemismos agora
Senti muita falta de escrever
Minha chamada veia poética acorda

Porque poeta eu voltei a ser
Não sei se foi a necessidade
Que em meu peito arde
Ou ardeu
Como algo em mim que a algum tempo morreu

Mas receio ter renascido
Como fênix ou não
Ou talvez só andei adormecido
Talvez só sentisse falta do meu coração
Luiz Guilherme Monteiro


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Yeah, o Sarau Feira Moderna agitou São Gonçalo/RJ pela terceira vez!

Metallica Pub, 24 de janeiro de 2015 - Tive a oportunidade de me apresentar na 3.º Edição do Sarau Feira Moderna (yeah, participei das 3 edições!), realizado pelo Feira Moderna Zine, no Metallica Pub, em Porto Novo, em São Gonçalo/RJ,  representar o Sarau Solidões Coletivas, de Valença/RJ! A entrada foi franca, com um excelente público, microfone aberto para poesia e palco livre. Tive o privilégio de ler poemas meus, de Carina Leal Queiroz (ex-poetaluna minha da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva) e da poetamiga Luana Cavalera (parceira do Sarau Solidões Coletivas, em Valença/RJ). 
Defolks agitando a galera
O vídeo registra alguns desses momentos especiais comigo, acompanhado do músico Rafael Almeida, com o poeta e músico Luca Quitete, Kel Lestat, o compositor Helius Winter, de Itaboraí/RJ, a banda Embrião, as cantoras Evangelina Corrêa e Van Tempestade, a banda Defolks (que fez parte dos 3 saraus Feira Moderna) e outros.
Guilherme Gak fez um show fodástico,
com público empolgado
Peço desculpas aos músicos Xarles Xavier e ao Guilherme Gak por ambos terem ficado sem registros no meu vídeo (no caso do primeiro, cheguei ao sarau após a sua apresentação, já o segundo foi porque, após bater algumas fotos dele, percebi que precisava de um tempo pra recarregar a máquina - até aí a apresentação estava encerrada).

A cada edição, o Sarau Feira Moderna vem se consolidando como evento principal para a revelação de poetas e músicos da região, mantendo sempre seu caráter libertário, underground e misticamente múltiplo (como todo evento artístico deveria ser).


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Foda-se Imprescindível: Bem-vindos aos Delírios Líricos de Luana Cavalera!

Hoje tenho o prazer de compartilhar mais uma vez minhas solidões poéticas com a poetamiga Luana Cavalera, que, junto da poetamiga Karina Silva, assume o título de artista-musa da poesia underground valenciana.
Não é a primeira vez que compartilho minhas solidões poéticas com Luana Cavalera, mas este compartilhamento traz um diferencial especial: além da poética cada vez mais madura, Luana abraça nos poemas abaixo a filosofia poética do foda-se com um estilo único, vibrante e paradoxalmente iluminado em suas trevas, sem tirar os pés flutuantes e oníricos do choque com o chão opressor e realista. Seus eus líricos pisam nas terras da realidade, mas não aceitam sua gravidade opressiva; eles deliram, mas não se refugiam na loucura, usam-na como artifício pra proteger a alma livre e sobreviver e resistir ao constante vazio.
Em tempo: amanhã, sábado, dia 24/01, a partir das 15h, terei o privilégio de representar o Sarau Solidões Coletivas, de Valença/RJ, na 3.º Edição do Sarau Feira Moderna, realizado pelo Feira Moderna Zine, no Metallica Pub, em Porto Novo, em São Gonçalo/RJ, e esses poemas de Luana Cavalera estarão no meu repertório lírico.
Yeah, amigos leitores, bem-vindos aos delírios líricos fodásticos de Luana Cavalera!

I
O que te faz feliz não é da conta de ninguém
Porque a felicidade é o caminho certo que sua alma achou.
Se, às vezes, esse caminho não agrada pessoas ao redor e o mundo,
Foda-se!!!!!
É imprescindível que continues.
Porque, se negas tua felicidade, morrerá tua alma.
Sua alma é tua essência
E não há essência no vazio.
II
Bem-vindo ao meu delírio
No subterrâneo retroativo
Alheio ao sistema
Que distorce as verdades pra que não haja caos.
Tudo que eles fazem é lavagem cerebral,
Mas os olhos gradeados não vêem...

O prestígio do saber em mim é liberdade.
O covil da sociedade a mim não cabe.

Minha vitrine agora é lixo...
Não muda nada!
O teto continua de vidro, nisso eu acredito;

Mas se pensamos,
Protestamos,
Questionamos
Aí somos os poetas loucos, né!

Verdade é o que a alma diz,
Conceitos pré-formados não dizem nada sobre mim.
Enquanto você se importa,
Os sábios dizem foda–se por aí.

E se somos os poetas loucos,
Se temos nossa fuga,
Se a nave nos leva a dimensões literárias inimagináveis,
Se derrubamos os muros da moralidade,
Se enfrentamos o opressor,
Se temos na voz a tempestade,
Foda-se quem não compreende nossas verdades,
O nosso grito é por liberdade!!!!!!

Somos os mesmos antes e depois do rush
Não nos pare,
Não nos cale,
Não nos mate,
Faça parte!
Dos seus delírios procedentes de loucuras sensatas
Ouvindo a alma gritar calada
Do querer que quer e renega...
Conduza, reflita, busque as chances quase perdidas
Fique... sonhe
E não se cale por medo de ser diferente,
Tomado pela estupidez de ouvir o eco do mundo e não a sua verdade,
Sempre dando a outra face!
Não se renegue!
Loucos, sábios
Dizem foda-se!!!!!!!
E são quem são
Porque querem SER!
São quem são, e não
Quem fingem ser!

Luana Cavalera


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

FODSTOCK: A (re) Volta Festiva Eletrilírica do Sarau Solidões Coletivas

2015 chegou e o Sarau Solidões Coletivas (re)voltou!
Na noite de 17 de janeiro no Bar Na Moita, na Estrada do Contorno, n.º 3658, em Cambota, Valença/RJ [um pouco depois do Pesqueiro do Vitinho e antes do Point Bahia e da Pousada São Manoel], rolou a primeira edição do Sarau Solidões Coletivas 2015 em versão elétrica: a FODSTOCK - FESTA ELETRILÍRICA DO SARAU SOLIDÕES COLETIVAS.
A (re)Volta do Sarau Solidões Coletivas na noite do dia 17 de janeiro de 2015 ocorreu exatamente 1 ano depois da participação do grupo no Projeto Grade Cultural.
Abaixo estão algumas fotos e os vídeos do evento, amigos leitores. Boa curtição e Arte Sempre!

Neste primeiro vídeo, Juliana Guida Maia, Letícia Corrêa, Patricia Correa, Luana Cavalera, Gilson Gabriel, Wagner Monteiro e eu declamamos poemas próprios, de Karina Silva e de poetalunos do CEDOT, do SENAI/Valença e da Escola Municipal Alcino, de Teresópolis/RJ. E a música rolou com The Broken Hearts, banda de Gabriel Carvalho, apoiada pelos músicos Davi Barros Azevedo, Uli Barros e Paulo Roberto Gonçalves.

Neste segundo vídeo, Juliana Guida Maia, Letícia Corrêa, Patricia Correa, Luana Cavalera, Gilson Gabriel, Wagner Monteiro, Karina Silva (yeah! de volta!) e eu declamamos poemas próprios, de Luiz Guilherme Monteiro, de Lawrence Ferlinghetti e de poetalunos do CEDOT, do SENAI/Valença e da Escola Municipal Alcino, de Teresópolis/RJ. E a música rolou com Fiat Lux, com Leandro Sabino e cia, acompanhado por Gabriel Carvalho, Davi Barros Azevedo, e Paulo Roberto Gonçalves.

Neste terceiro vídeo, Juliana Guida Maia, Letícia Corrêa, Patricia Correa, Luana Cavalera, Gilson Gabriel, Wagner Monteiro, Karina Silva (yeah! de volta!) e eu declamamos poemas próprios, de Cristina Jordano e de poetalunos do CEDOT, do SENAI/Valença e da Escola Municipal Alcino, de Teresópolis/RJ. E a música rolou com uma jam do Araras da Serra e Diversatividade ( Gabriel Carvalho, Davi Barros Azevedo, Paulo Roberto Gonçalves. Marcio Adriano Paulino Paulino, Wagner Monteiro, Uli Barros) homenageando Djavan, Legião Urbana e Ventania em versões super-alternativas!

Neste quarto vídeo, a música rolou com o retorno da banda BLACK CULT (com Davi Barros Azevedo, Gabriel Carvalho, Uli Barros) e o Diversatividade + Coletivasom (Paulo Roberto Gonçalves Graveto Old Style e Marcio Adriano Paulino Paulino "FullPrint")!

Neste quinto vídeo, Letícia Corrêa interpreta o premiado poema "Permissão", de Genaldo Lial DA Silva, acompanhada da guitarra de Gabriel Carvalho, Wagner Monteiro declama mais um poema de sua autoria, eu declamo "Alcoólicas" de meu oitavo livro "Foda-se! E outras palavras poéticas...", e o bis musical de Diversatividade + Coletivasom + Araras da Serra (Paulo Roberto Gonçalves Graveto Old Style e Marcio Adriano Paulino Paulino "FullPrint")!
















terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Solidões Compartilhadas: O Drama de Patricia Porto

Janeiro é um mês de viagens externas, internas, poéticas, eternas. È momento de pesar (ou não pesar) seu eu (ou seus eus líricos), é momento de sentir o peso dramática de um poema fodástico. Por isso, hoje compartilho um dos poemas que mais iluminaram meus olhos nas leituras retrospectivas de 2014: o mais-que-fodástico “Drama”, do “Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos”, da magnífica poetamiga Patricia Porto, nascida em São Luís/MA e residente em Niterói.
Há tempos acompanho as viagens líricas de Patricia Porto através da rede virtual – algo como “nunca te vi, mas sempre amei tua poética” (quem quiser conhecer mais poemas dessa fodástica escritora, aqui segue o link do blog atualizado pela autora: http://pporto.blogspot.com.br/ ). O poema “Drama”, que posto hoje e que marca a estréia de Patricia Porto nas Solidões Compartilhadas deste blog, é um dos meus favoritos entre os diversos e fodásticos poemas da autora. “Drama” é um daqueles poemas de raro, rico e refinado lirismo, para ser colocado no rol das obras-primas que desconhecem a poeira do tempo e brilham na eternidade.
Boa Viagem ao “Drama” de Patricia Porto, amigos leitores, e Arte Sempre!

Drama (Patricia Porto)

Apenas me viaje
nessa dura palavra de hoje,
me dissolva desse gosto de ser mais metal 
- mais que pensei, uma piada estúpida de corte. 

Viajar é ser a estrada. Venha...
Ando morando em meu silêncio horas demais.
Converso com meu estrangeiro em outras línguas. 
Não me reconheço em nenhuma, nenhum rosto 
tem o meu rosto. Nenhum nome leva o meu peso.

O poema pesa e minha poesia é esse grama que minha indolência não apara.

(de Patrícia Porto In: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos) 

Quadro "conversa de estrangeiro", de Ana de Medeiros




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Vale a Pena Ler Narrativas Fictícias! Reis do Caco: A saga dos Petralha e dos Coxinha

Berdinazi x Mezenga
Relendo velhas discussões entre internautas partidários, sempre retomadas em inícios de anos, (des)governos e campanhas, e observando que a Novela “Rei do Gado”, da (odiada e assistida por ambos os lados) TV Globo, será re-exibida, lembrei-me da amorosa-peleja-guerra-morna das famílias-farinhas-do-mesmo-saco-furado Berdinazi e Mezenga e acabei misturando todas essas informações díspares na minha cabeça até chegar numa livre associação de idéias loucas e criar uma nova narrativa fictícia, a qual apresento hoje no blog.
Petralha x Coxinha
Antes que fundamentalistas atirem contra a minha redação, relembro que esta é afilhada dileta e direta da positivamente promíscua (e quase sempre incompreendida) liberdade artística e faz parte do mundo fictício das ideias loucas. Qualquer semelhança com fatos reais ou com novelas antigas é mera incompetência criativa do escritoramigo que vos escreve:
  
Pérolas Para Porcos e Toucinhos:
Uma Saga Familiar

De quatro em quatro anos, as tradicionais famílias Petralha e Coxinha roubam os direitos civis, publicitários e administrativos de outras famílias e disputam, autoritariamente sozinhas, a tutela do velho menino Bras il Fuleco.
Nascidas em berços monárquicos vizinhos, as republicanas famílias brigam eternamente pelo mesmo órfão, de herança trilionária, mas de saúde debilitada e com educação subdesenvolvida.
A família Petralha, atual tutora, vive extorquindo a herança do pobre órfão rico, mas sempre distrai o menino com pequenos mimos: uma bolsinha de fundo raso pra mantê-lo entretido e vivo, uma casinha simples, mas confortável pra não deixá-lo desvalido. Quando alguém acha que o garoto está ficando maltrapilho, os Petralha primeiro negam e recomendam que o questionador faça um exame de vista em hospícios distantes. Quando os rasgos na roupa do menino se tornam escandalosos demais, os Petralha culpam um ou outro parente fanfarrão, cretino e mais desconhecido (que é logo deserdado do sobrenome Petralha) e lembram que, com os Coxinha, o Bras il Fuleco vivia bem vestido, mas sem comida, sem dignidade, nem moradia.
A família Coxinha, antiga tutora, jura que jamais extorquira o pobre órfão rico, mas nunca explicou como uma criança tão bem cuidada pôde contrair tantas dívidas. Em sua época, o garoto vivia com vestimentas refinadas, mas ninguém da família se pronunciava quando os vizinhos lembravam os tantos períodos de fome e arrocho que o menino misteriosamente passara em sua tutela. Quando alguém reclama das ausências dos Coxinha em reuniões entre as famílias tutoras, de estranhos favorecimentos entre familiares, de apagões ou de falta de água em suas casas, os Coxinha rispidamente mandam o reclamante tomar em Cuba ou acusam o infeliz de ser filho bastardo dos Petralha.
A briga constante entre as tradicionais famílias esconde antigas paixões mal resolvidas entre membros dos Petralha e dos Coxinha, ambos aliançados com os compadres senis do cínico cênico Sarr Na Ney e convivendo com os soldados de chumbo do estéril histérico Bow So Ig Naro. Enquanto isso, o pobre órfão rico Bras il Fuleco, deseducado e fragilizado pela incompetência de seus antigos e atuais tutores, volta a engatinhar na Maternidade Patriarca Nossa Senhora da Ignorância e é amamentado pelas tetas vazias da Fantasia, a fada vampira de estirpe Real que sustenta o paradoxo e a hegemonia das tradicionais famílias Petralha e Coxinha.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Je suis Charlie, manchado de sangue, banhado em liberdade e eternidade.

Hipotético Século XXI, 2015, minha primeira postagem do ano e, apesar de todos os séculos passados, artistas ainda são mortos e dizimados por fanáticos facínoras que afugentam o princípio básico do livre arbítrio e sua sublimação: a liberdade artística, a liberdade de expressão. Me deparo com a notícia do atentado ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. 3 terroristas mancharam de sangue a sede do anárquico jornal Charlie Hebdo, matando 12 pessoas nesta manhã, entre eles diversos dos mais renomados cartunistas franceses de todos os tempos,  para oprimirem os jornalistas que criticavam, através do humor, todo extremismo bárbaro (inclusive o extremismo islâmico – motivo do ato violento). Como disse o cartunista Ico, este atentado foi “o 11 de setembro dos cartunistas”, um capítulo triste da violência contra a liberdade artística dos cartunistas do mundo todo.
Depois de mais uma mudança de ano, ainda me pergunto, amigos leitores: quando realmente entraremos no século XXI? Não sei, só sei que hoje sou Charlie Hebdo, manchado de sangue e eternamente banhado em liberdade e eternidade.

Je suis Charlie.
Je suis todos de pé com a pauta da liberdade.
Je suis atirado contra os ajoelhados da atrocidade.
Je suis o direito de je suis ou de je ne suis pas.
Je suis tudo que o tiro não tira jamais.
Je suis arte, sangue, osso, eternidade, sorriso e paz.