domingo, 27 de dezembro de 2015

Ao meu avô Fernando: Uma nova elegia, antigos contos e eternas saudades de ti...

2015 definitivamente é um dos piores anos nos quais já (sobre)vivi. Apesar de ter tido alguns bons e maravilhosos momentos,  o saldo final deste ano - que parece arrastar-se em seu encerramento - tem sido desastroso.  Na madrugada deste fatídico domingo, dia 27 de dezembro, recebi a notícia de que meu avô Fernando Barbosa, depois de uma aguerrida luta pela vida durante a internação no Hospital da Santa Casa, de Barra do Piraí/RJ, veio a falecer durante a madrugada: seu coração não resistiu a mais uma torturante batalha... E cá estou eu, há mais de 24 horas desperto, completamente insone, com uma ficha que parece não cair, os olhos inchados de tanto chorar, com flashes do velório, do sepultamento, da partida do meu maior super-herói - aquele que me abrigou e cuidou de mim durante os anos de faculdade, que sempre contou as melhores histórias, que sempre me ensinou milhões de coisas da vida, que salvou milhares de vezes minha vida da mediocridade, sempre me mostrando os caminhos singulares, suas particulares ironias, os melhores rumos para a estrada mais honesta e lírica.
No meu último encontro com ele, na tarde de natal, dia 25 de dezembro, durante o horário de visitas  à UTI onde se encontrava, vovô Fernando parou o médico de plantão e indicou a este sorrindo: "este é o meu neto escritor!", foi meu maior presente, ele me exibindo com orgulho para, segundo vovô, o "melhor médico daquele hospital", foram algumas das últimas palavras de vovô Fernando naquele nosso último encontro, quando ele ainda estava com vida, o corpo frágil, mas a mente lúcida e altiva. Ao vê-lo, na manhã do dia 27, inerte no caixão, alguma ilusão louca em mim ainda pedia por um milagre, que ele se levantasse, rindo de toda aquela desgraça, mas não aconteceu: vovô Fernando estava morto, era um ponto final de adeus a esta vida para a reticência de outra mais acima, um firmamento paradisíaco mais justo e bonito para seu belo coração, cansado de tanta dor. Diante de meu falecido avô e seguindo o pedido de minha tia e madrinha lírica Celeste, escrevi uma elegia a ele - era o mínimo que eu poderia fazer diante da lembrança que ele deixou e diante das tantas e tantas histórias que ele já me inspirou.
Hoje, nesta noite insone, trago a elegia que escrevi e declamei durante a cerimônia de sepultamento de meu avô Fernando. Além desta, também deixo os dois contos do livro "Diários de Solidão" (2010), ambos inspirados em momentos passados com meu avô (o primeiro, intitulado "O quarto vazio (ou O quarto e o vazio)" foi escrito em 2004, quando vovô passara [e sobrevivera] a uma difícil internação devido também ao frágil e generoso coração; o segundo "Troféu de lata", escrito aproximadamente na mesma época, se não me engano um a dois anos antes, brinca com as diferenças e semelhanças que tínhamos, nossa amorosa harmonia em solidão coletiva), um pouco do imenso tudo que ele me deixou e que permanecerá pra sempre comigo.
Boa eternidade, pai-vovô Fernando, com todo amor e saudade deste seu filho-neto que tenta por toda eternidade chegar ao menos no dedo mindinho de seu mais-que-fodástico esplendor.

Os ventos sopram o nome de meu avô (Elegia ao meu vô Fernando)

O calor abafado, tão frequente,
foi domado por estranhos ventos indolentes...
Eles levam teus últimos sopros de vida,
eles levam teu nome para distantes avenidas,
bem longe da gente, mas sempre presente,
acima da dor que tão corajosamente
o teu coração suportou.
Agora és o anjo mais poderoso
do nosso Criador.

O sol fere as montanhas com feroz ardor,
enquanto teu corpo frio, mas ainda firme,
descansa nas sombras iluminadas.
Vai em paz, meu pai, meu guerreiro avô,
defender-nos na difícil caminhada,
mesmo longe, te vemos na estrada,
pois agora és o anjo mais poderoso
do nosso Criador.

Lembro-me de todos os teus sábios conselhos,
teu imenso afeto,
teu ar zombeteiro,
teu jeito agitado e, ao mesmo tempo, sereno.
Eras o boa praça, aquele que com todos conversava,
eras o senhor garboso, o mais cheio de graça,
flamenguista dos áureos tempos vitoriosos,
sempre meio gozador,
trabalhador honesto, sempre o mais correto,
aquele que acerta mesmo quando comete erros;
eras o órfão que adotou e criou filhos e netos,
homem de poucos estudos que a tantos melhor educou,
lutador do dia a dia, aquele que sublimou as mais vorazes agonias,
acrobata do cotidiano, aquele que sempre pisou firme
nas cordas bambas da vida,
eras, és e sempre serás
meu pai, meu guerreiro avô,
mesmo quando perdeste, foste o maior vencedor,
partiste da lida sofrida para o paraíso promissor,
agora és o anjo mais poderoso
do nosso Criador.
(27/12/2015)

O quarto vazio (ou O quarto e o vazio)

Entro em teu quarto. Não estás, sei que não estás. Mesmo assim, te procuro. Tudo arrumado, cada coisa em seu lugar: a cama intacta, o rádio de pilha em silêncio, os discos velhos que não tocam, o aparelho de som que não funciona, a tevê desligada... Estranho – agora percebo – o rádio de pilha está em silêncio porque não se encontra aqui. Talvez levaste, talvez alguém o levou pra ti no hospital. Estou vendo demais: meu coração desarrumado cria ilusões em meus olhos.
É... nem tudo está em seu lugar. Há um vazio. Em todo espaço físico que passo, há um vazio por dentro. Talvez, por isso, Álvaro de Campos escrevia poemas com versos tão longos: para preencher os vazios. Estranha reflexão que trago nessas horas mortas – estranho, eu me sinto estranho.
Hoje, na faculdade, uma professora rejeitou um artigo meu. Pediu-me uma dissertação; trouxe-lhe um argumento ardoroso, um manifesto agressivo, quase rebelde. Deu-me um sorriso, elogiou minhas colocações, mas explicou-me que a política do jornal acadêmico é atacar os problemas sem ferir os donos (ou políticos?, me perguntei enquanto ela falava) do problema. Me senti um estranho (estranho como esta palavra me persegue), dei um sorriso e parti. Senti saudades dos parentes da roça: eles sabiam dar nomes aos bois.
Mas isso, nada disso eu te contaria (ainda mais agora). Te falaria do meu sucesso, do meu futuro acadêmico. Repetiria tudo que quisesses ouvir, tudo que gostarias que eu fosse... se estivesses aqui. Se estivesses aqui, quereria saber como estás, com vai teu coração. Nada: o quarto vazio. Meu sentimento distante busca uma cama de hospital. Estou enfermo: uma doença estranha entranha em mim, uma dor de vazio. Mas isso, nada disso eu te contaria. Te falaria que estou bem só pra não te preocupar.
(extraído do livro de contos "Diários de Solidão" [2010], pp. 53 a 54)

O troféu de lata

Um dia cheguei em casa festivo. Eu era um poeta, pelo menos, acreditava que era. Um poeta vencedor, um campeão! Carregava em minhas mãos um troféu: PRIMEIRO LUGAR NO CONCURSO DE POESIAS DA CIDADE DE SHANGRI-LÁ. Um troféu lindo, pelo menos, eu acreditava no seu brilhante valor.
Vovô estava na sala. Assistia à TV Câmara ou TV Senado – eu sempre me confundia, tamanhas as falácias (bonita palavra, não achas? Crítica, feroz, sutil, poética!) de ambas as emissoras. Entre um discurso contraditório da oposição e uma defesa evasiva da situação, exibi o meu troféu: Olha, vovô, eu ganhei!
Primeiro ele se assustou. Afinal, tanta efusão, tanta energia só podia ser gasta num grande clássico de nosso nem sempre glamoroso (palavra bela, esquecida, mas também poética!) futebol. Depois observou com atenção o artefato que eu trazia nas mãos. Esboçou um sorriso-paradoxo. Meio admirado, meio amargurado: seu neto era um poeta e, como todo poeta, trazia um lado tolo, pateta.
Refletiu, baixou os olhos, então resmungou um elogio: “É, é bonito...”. Depois atacou: “... mas eles podiam ter dado um prêmio em dinheiro, não acha?”
Agora quem baixa os olhos sou eu. O coração vazio de glórias tanto quanto os bolsos de dinheiro. Revejo a cena, tento retornar a história aos sorrisos iniciais, aos primeiros parágrafos... Tarde demais: só encontro o vazio do canto da página. Do início só resta o (TAB) parágrafo.
Durante o Globo Esporte, vovô me mostrou que um surfista ganha, numa vitória do Circuito Mundial, 10 mil dólares, bem diferente do meu troféu de lata de poeta.
Vovô é um poeta da Matéria, criou um engenho magnífico de conforto e lazer, dourado de finanças e bem-estar. Não tem culpa por não compreender o sensível e mendigo universo das letras - a poética de vovô vem de outra natureza; eu sei e amo o poeta que ele é assim mesmo.
Mesmo assim, afastei-me, ocultei o troféu das palavras de vovô. Senti que elas feriam meu objeto poético, talvez patético, mas ainda meu.
Ficamos trancados no quarto o troféu e eu. Percebi que ele chorava e adquiria tons cinzas nos olhos. No escuro do quarto... sozinhos... quem carregava mais tristeza: o troféu ou eu? Não sei... talvez seja esse lance de poesia que me faz ver coisas, talvez vovô tenha razão. Ele sempre dizia que eu precisava crescer. Estou com vinte e seis anos e continuo a duvidar do mundo adulto que vovô me expõe a cada notícia, a cada debate político – tudo me parece tão absurdo... quando vou entender?
Adormeci e sonhei que um surfista campeão do Circuito Mundial gastou 10 mil dólares num só dia de comemoração do título, acordou duro, melancólico e, refletindo sobre a efemeridade das coisas e da vida, escreveu um poema.
Acordei com meu troféu de lata no chão. Passei a mão sobre seu corpo de lata: estava intacto, perfeito, sublime (outra palavra bela, ricamente sonora na doce língua de Camões. Lírica, mágica, transcendental!). Quebrou-se apenas a fantasia.
De manhã, vovô lamenta a falta de aumento, as intrigas políticas que atingem sua economia. Sim: o mundo que dá 10 mil dólares a um surfista campeão do Circuito Mundial nega um tostão ao aposentado. Que arte ingrata vovô escolheu com seu lirismo de Matéria! Fico triste com ele, fico triste por ele. Amo sua poesia de vida... só não compreendo por que ele a gasta com tanto ouro de tolo.
Vovô e eu somos poetas opostos com a mesma dor – solitários e incompreendidos.
Parto para a fábrica, então trabalho: máquina robô maquina vai volta faz desfaz refaz máquina maquina bruuummmmmmmmmm produção produto hora hora ora ora orai trabalha cansa recansa. No fim do mês, terei o ouro de tolo que vovô poetiza.
Quando chego em casa, conto para ele que terei aumento (só não aviso que é aumento de trabalho e não de finanças).
Vovô sorri, ensaia versos sobre a nobreza do trabalho e sonha um futuro monetário para mim.
Respondo o sorriso, confesso meu cansaço e me distancio, trancando-me no quarto.
Sozinho e angustiado, pego meu melancólico troféu de lata e o abraço. Patético, tragipatético, deves pensar, mas confortante (isso tu não vês).
Adormeço e sonho que sou um poeta surfista campeão do Circuito Mundial me equilibrando em ondas de palavras.
(extraído do livro de contos "Diários de Solidão" [2010], pp. 50 a 52)

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