segunda-feira, 30 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXVIII

LXVIII


Agora chamam de demência senil chorar pela barata assassinada pela vassoura vil de minha esposa realista e sem fantasias. Se o doutor é incapaz de sentir a dor pela perda de meu amigo colorido, rasgue esse diploma de médico, você é um impostor. Quem não reconhece meu amigo Gregor não merece crédito de doutor. Só pode diagnosticar doenças invisíveis quem é louco capaz de ver os males impossíveis.




domingo, 29 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXVII

LXVII

Sherazade me largou de novo... Desta vez, estressada, reclamou da superpopulação em nossa cama: como poderíamos dormir juntos num espaço tão pequeno, carregando conosco mundos tão imensos?


sábado, 28 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXVI

LXVI

Colômbia não é pátria de ninguém, doutor alguém. Colômbia nega paternidades, seus filhos vivem na orfandade. Sou pai de minha pátria. Minha pátria é Macondo.


Compaixão lírica pelas angústias caninas: Tristezas de artifício

Copa do Mundo, Seleção Brasileira de Futebol, Nação em festa, tristeza para os cães de nosso país. Os barulhentos fogos de artifício ferem os ouvidos apurados dos cães, os assustam e é impossível evitá-lo. O meu cachorro Ozzy treme ao meu lado a cada fogo de artifício que estoura no céu. Não sei se comemoro pelo sonho canarinho ou se choro pelo pesadelo do amigo canino...
Como é impossível evitar os fogos de artifício, a mim resta compartilhar as angústias de meu amigo canino...
P.s.: Dica para os amigos leitores: toquem música clássica (tem um instrumental com piano no youtube infalível) pra acalmar seu amigo cachorro nesses momentos de tormento.

Tristezas de artifício

Os fogos de artifício pipocam no céu,
queimam o azul
e assustam meu cachorro.
Enquanto alguns dão vivas à Copa do Mundo,
lamento ver meu cachorro trêmulo,
quase surdo.
A nação entra em festa,
enquanto meu universo serena...
Quem me dera um fogo de artifício mudo
que evitasse tanto susto
pro meu amigo cachorro
que teme pelo inglorioso barulho
das vitórias sem futuro...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXV

LXV

O sorriso machucado de meu povo é o único resultado possível pra tanto plano político mal planejado. Mas o que o poderoso esquece é que um homem sério é muito mais perigoso que um tolo com sorriso pomposo. Colômbia é um eterno motim porque os políticos daqui não sabem como fazer a embarcação naufragada em tristeza voltar a sorrir.




As Máximas do Barão de Macabéa

Nos séculos XVII e XVIII, era moda: barões atiravam nos papéis do mundo suas máximas e deboches. Hoje tenho o prazer de trazer o barão que nunca existiu, o barão dos séculos XX e XXI, o Barão de Macabéa! Esse personagem dispensa apresentações; nascido entre um livro de Clarice Lispector, uma ironia de Machado, um dia de mau humor de Dalton Trevisan e um porre de Bukowski, autor de um único livro (“Dona Clarice e seus 2 Machadinhos”), suas máximas demonstram sua personalidade liricamente debochada e petulante.
Amigos leitores, bem-vindo ao universo sarcástico e lírico do Barão de Macabéa!

Máximas do Barão de Macabéa

Todo analista do comportamento humano cai no labirinto sem saída de Clarice Lispector: depois de tanto analisar a estupidez de todos os seres, chega à epifania de que o maior estúpido dos humanos é um ser genial chamado ele mesmo.

Uma senhora rica que se reconhece num vagabundo não é um ser despertado para a desigualdade no mundo. Sua sensibilidade burguesa é apenas uma forma grotesca de fazer poesia com o MST pra mantê-los bem longe de seus latifúndios. É uma senhora egoísta e gananciosa, uma ninfomaníaca da literatura: quer foder com todos os personagens famintos, enquanto mantém sua dieta de leitinho com peras maduras.


Machadinho manda beijinho no ombro pra São Francisco de Assis toda vez que vê um leitor sensibilizado com um conto ‘humano’ de Clarice.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXIV

LXIV

O legal de me aposentarem por invalidez é que posso desfazer as injustiças da vida impunemente sem nada sofrer. Dei uns cascudos em um dos meus irmãos pra vingar todo o mal que, na infância, ele me fez sofrer; o coitado aceitou os meus golpes como frutos da minha insensatez. Nunca fui tão sensato como dessa vez: quem bate esquece; quem apanha, é incapaz de esquecer.


A zoeira não tem limites: A Copa do Mundo 2014 no Brasil é uma piada!

A Copa do Mundo 2014 no Brasil tem sido alvo [com mérito e não como vítima] de muita crítica, protestos e, principalmente, motivo de piada!
Tantas situações passíveis de piada me fizeram lembrar um dos livros que li há tempos atrás (e que reli recentemente com muito prazer) e que me divertiu muito: foi o “Histórias de Futebol”, do jornalista e cronista esportivo Sandro Moreyra (1918 — 29 de agosto de 1987). Com muito bom humor, o escritor citava acontecimentos reais engraçados do mundo da bola, misturados com piadas e situações inventadas.
Sandro Moreyra
 Imagino que Sandro Moreyra, se hoje estivesse vivo, se divertiria demais com a riqueza de situações engraçadas e/ou motivos de piada nessa Copa do Mundo no Brasil. Não chego nem aos pés do mestre Sandro Moreyra, mas resolvi fazer meus registros sobre alguns momentos ridículos ou passíveis de criaçõesde piadas (às vezes, nem tão engraçadas, mas que servem pra questionar o tanto de coisas maquiadas nesse evento esportivo – o humor, acima da gargalhada, deve também provocar o riso reflexivo e crítico) nessa primeira fase da Copa do Mundo no Brasil.
A maioria das minicrônicas e piadas foram postadas anteriormente em meu facebook e estão na ordem cronológica, ou seja, na data e ordem em que foram postadas no face. Outra inovação nesta postagem é o fato de que 60 por cento das fotos abaixo não tem nada a ver com os escritos; é a mais gratuita, irresponsável e arbitrária ação do blogueiro babaca que vos escreve.
Yeah, amigos leitores, a zoeira não tem limites! Dedicado a todos os cronistas esportivos que, como Sandro Moreyra, sempre nos trazem bom humor, sem perder o tom reflexivo.

A Copa do Mundo 2014 no Brasil é uma piada!
(1.ª Fase)


15 de junho

Fazer Zoeira na Copa, ir para o Maracanã e fingir ser bósnio só pra torcer contra a Argentina: custo - pagar um ingresso que custa os olhos da cara
Vaiar a Argentina, mantendo a imagem de que o futebol 'une nações': custo - pagar um ingresso que custa os olhos da cara
Vaiar a Presidente de seu País: custo - pagar um ingresso que custa os olhos da cara
Aumentar o salário de sua empregada que trabalha igual uma condenada enquanto você esbanja dinheiro nos campos brasileiros: não tem dinheiro (precisa guardar grana pra festa da grande final desta Copa do Mundo).

16 de junho

A Globo falou que havia 120.000 estadunidenses em Natal. Estou imaginando uns 20.000 estadunidenses perdidos em Buenos Aires, (lugar onde eles imaginam ser a capital do Brasil), perguntando pra que lado fica Natal.


17 de junho

Agora entendo por que o goleiro Howard, dos Estados Unidos, dormiu durante o jogo de estreia da Seleção Brasileira de Futebol. O time, que diz nos representar, está conseguindo fornecer as partidas mais entendiantes desta Copa (só perde pra Irã x Nigéria).

Meu amigo alcoólatra disse que conhece metade do time da Rússia: o Komaroff, o Orloff, o Smirnoff e o Kovak. O meu amigo só não entende por que o craque Absolut, grande companheiro de festas, não tenha sido convocado...

"Esses japoneses são melhores que os outros", minha amiga comentando sobre os jogadores da Seleção de Futebol da Coreia do Sul.


18 de junho

A mãe do atacante holandês Robben escolheu o nome do super-herói errado pra ele. Devia tê-lo batizado como Flashen.- eita, cara rápido, sô!

Não contem com mais piadas minhas sobre a Copa do Mundo, pelo menos por hoje. Depois de saber que Ronaldinho Gaúcho ganhou a Medalha Machado de Assis, maior honraria da Academia Brasileira de Letras, o tratamento de futebol e literatura no Brasil passou a ser piada sem graça...

19 de junho

Se o atacante uruguaio Suárez se tornar artilheiro da Copa do Mundo, teremos um momento histórico: a primeira consagração esportiva de um atleta emo. O cara joga pra caramba, tanto quanto chora (ou seja, joga muito mesmo)!


21 de junho

Toda vez que ouço o comentarista da Globo dizer que há um pequeno tumulto de algumas pessoas que fazem protesto durante os jogos da Copa (em torno de 400 em cada manifestação! - ou seja, a palavra pequeno deve estar se referindo à média de estatura dos manifestantes; quanto ao pronome indefinido "algumas", a razão do uso é tão indefinida quanto a classificação do pronome), mostra algumas cenas e, depois novamente no estúdio, afirma que a PM já está resolvendo o problema, sem mostrar nenhuma cena de COMO o "problema" está sendo resolvido, imagino coisas como "Jogos Vorazes" e "Jogos Mortais".

Um radialista da Globo AM, pra valorizar a importância da Copa e dos jogadores pra ele, disse que os heróis dele "ou morreram de overdose ou com problema no joelho". Por um momento, pensei que ele estava prevendo as possíveis mortes do ex-jogador argentino Diego Maradona.

No jornal da Band da noite de sexta-feira,, dia 21/06, o apresentador disse que "apesar dos problemas" (falta de estrutura nos estádios, más condições do gramado, falta de informações para os turistas brasileiros e estrangeiros, protestos, falta de comida nos restaurantes dos estádios, alguns operários mortos durante as construções dos estádios e outras dezenas de acidentados por condições apressadas e inseguras de trabalho, invasão de estádios, falta de segurança), "o balanço final da Copa foi bastante positivo". Imagino que ele aplaudiria de pé, extasiado, uma Copa do Mundo no meio da Faixa de Gaza.


21 de junho

Ontem, o volante da Seleção Brasileira de Futebol David Luiz, mais conhecido por ter o mesmo estilo de cabelo do jogador de basquete Anderson Varejão do que por suas atuações em campo, ao ser questionado sobre os métodos de treinamento de Scolari, retrucou aos repórteres:
- Quem disse que, para treinar futebol, é preciso treinar sempre com bola? Existem outras formas de treinar.
Nesse momento, várias crianças treinam exaustivamente futebol em seu X-box, sonhando com um contrato milionário com o Chelsea, Barcelona e, é claro, já se imaginam titulares absolutos das próximas seleções brasileiras de futebol em Copas do Mundo.

Um amigo iraquiano, com sorriso de Sadam Husseim, provoca a Seleção de Futebol do Irã:
- Nossa seleção que deveria estar na Copa do Mundo. Nós, iraquianos, atacamos muito mais!

22 de junho

Assistindo aos jogos de Bósnia e na Croácia nessas 2 semanas e ouvindo os nomes dos jogadores, imagino que a certidão de nascimento deve vir semi-preenchida: O nome de seu filho é ._______________ic.

Um amigo malicioso me comentou sobre o jogo dos Estados Unidos contra Portugal:
- Mas é claro que, apesar do empate, os EUA jogaram melhor! Eles estavam em casa, cara, afinal a Amazônia e, consequentemente, o Amazonas já são deles!


23 de junho

Depois dos 3 a zero contra a Austrália, a Espanha deixa a Copa do Mundo 2014 com uma nova moda: criou o verbo intransitivo 'espanhar', ou seja, apanhar com pompa monárquica; sair com estilo de uma competição sem levar nada. Exemplos do uso do novo verbo: No jogo de porrinha, Fulano espanhou. (ganhou todo garboso 1 partida, mas perdeu na melhor de 3, logo saiu pagando a conta e não levou nada).
Em breve, os novos verbos "inglaterrar" e "cristianoronaldear", bastante similares ao "espanhar".

Acionado pelos espanhóis, advogado do Fluminense diz que gol de letra do jogador espanhol David Villa sobre a Austrália vale 9 pontos extras por alfabetizar um país sede da Copa de índices tão baixos na educação, configurando 12 pontos e confirmando a liderança espanhola do Grupo B da Copa do Mundo de 2014:
- Não adianta os chilenos reclamarem, nem os holandeses chorarem: é um avanço da alfabetização em nosso país, é uma vitória do nosso Brasil! - afirma o advogado tricolor.

Da série “Promoções da Copa”:
Seu time é ineficiente no ataque, incapaz de passar por uma defesa e não consegue fazer um gol sequer? Compre agora o produto Defesa da Seleção de Futebol da Austrália e estimule os seus jogadores a se sentirem verdadeiros craques do esquema ofensivo. Promoção: os primeiros 10 times que comprarem o produto Defesa da Seleção de Futebol da Austrália levam de brinde o lateral brasileiro Daniel Alves completando a defesa furada e uma coleção de zagueiros camaroneses! Está esperando o quê? Não perca essa promoção e transforme aquele seu atacante horrível num artilheiro campeão!


24 de junho

Beijinho no ombro é para os fracos. A moda agora é Mordidinha no Ombro! Ass.: Luiz Suárez, também conhecido como artilheiro uruguaio emo e mordedor (já mordeu diversos marcadores adversários no campeonato inglês e, agora, realizou o feito contra a Itália numa partida de Copa). Pra quem não sabe, o atacante uruguaio já foi também premiado como o melhor jogador de vôlei na Copa do Mundo de 2010 (impediu um gol de Gana com a mão nas quartas de final da Copa passada).

Antes do jogo contra Costa Rica (quando uma vitória - que não aconteceu - da Seleção Italiana contra a Seleção Costa- riquenha impediria a desclassificação prematura da Inglaterra), o atacante italiano Balotelli, todo marrento, expressou seu desejo de receber um beijo da rainha da Inglaterra. Com a eliminação de sua seleção e ada Inglaterra, Balotelli, se tiver sorte, pode esbarrar com ela no aeroporto, quando estiverem esperando o voo de volta pra casa. E o futuro de Balotelli está recheado de possibilidades: ele ainda pode esbarrar com a rainha da Espanha e beijar todos os reinos europeus numa só partida (pra casa - porque de bola tá difícil para esse cara).

Uma coisa ninguém pode negar sobre a seleção de futebol uruguaia: eles são os campeões das metas esdrúxulas e toscas.
Meta do Loco Abreu na Copa do Mundo de 2010 - cobrar um pênalti de forma louca e tosca no meio do gol como fazia no Botafogo.e converter em gol. Yeah, You win! Gol de pênalti tosco feito e Uruguai classificado pra semifinal, despachando a Seleção de Gana..
Meta do Luiz Suárez na Copa do Mundo de 2014 - morder um marcador de uma seleção adversária como faz constantemente no Liverpool duranteo campeonato inglês. Yeah, you win! Mordeu o coitado do zagueiro italiano e ainda comemorou a classificação da Seleção Uruguaia para a próxima fase.
Moral dos uruguaios: Quanto mais tosco e ridículo pareces, mais facilmente o impossível consegues!

Foi linda demais a homenagem do técnico José Péckerman ao lendário goleiro colombiano Mondragon (colocá-lo em campo para homenageá-lo e torná-lo jogador mais velho a participar de um jogo de Copa do Mundo demonstra um respeito aos atletas veteranos, aos ídolos mais velhos, que nós, brasileiros, ainda precisamos aprender a ter), mas a zoeira não tem limites:
Segundo um colega meu, que presenciou o acontecimento histórico-esportivo, um pouco antes de Mondragon entrar, um torcedor colombiano zoava, desdenhando da qualidade do goleiro colombiano Ospina:
- Contra esses atacantes japoneses, até meu avò catava!
José Pékerman, atento aos comentários do tal torcedor, intimou:
- Mondragon, se prepara pra entrar em campo! É momento de homenageá-lo!

Gosto de assistir aos jogos da Copa do Mundo na Band, porque é mais divertido. O locutor Nivaldo Prieto fazia contas loucas para calcular quantos gols os japoneses deveriam fazer nos colombianos pra se classificarem, enquanto o comentarista Edmundo exaltava a "qualidade técnica" da seleção japonesa. O detalhe peculiar é que a Colômbia já estava ganhando de 2 a 1 e, alguns minutos depois, fez mais dois gols com extrema facilidade!

Um mérito os atacantes da Seleção de Futebol do Japão têm: eles sabem desviar a bola de qualquer possibilidade de defesa do goleiro adversário - só falta agora aprenderem a fazer isso levando a bola para dentro das redes rivais e não para fora do estádio.


25 de junho

Acionado pelos italianos, o advogado do Fluminense alega que os dentes do jogador Luiz Suárez não foram colocados na lista de convocados, logo configuram como jogadores irregulares. O advogado tricolor exige o título da Copa do Mundo para Seleção de Futebol da Itália como compensação dos altos custos para o tratamento psicológico do zagueiro italiano Chiellini, profundamente traumatizado com a mordida..Como anteriormente o mesmo advogado foi contratado pela Espanha, exige que ambos sejam considerados vencedores da Copa do Mundo do Brasil, para evitar traumas de eliminações precoces:
- Nada mais justo! Seria um avanço na filosofia do fair play no futebol mundial, um acontecimento histórico em nosso país! - defende o advogado tricolor.

Dois bêbados debatem sobre o caso "Luiz Suárez":
- Eu suspendia o Messi por oito jogos!
- Mas quem mordeu o zagueiro italiano foi o atacante uruguaio Luiz Suárez!
- Não importa! Argentino sempre tem culpa no cartório!


26 de junho

Pamela Parker, personagem estadunidense da novela "Geração Brasil", assiste ao jogo Estados Unidos e Alemanha e protesta:
- O juiz derrubou o meia Jones perto da grande área! Cadê o cartão amarelo pra ele?

Nos treinos, o time reserva do Brasil ganhou de 1 a zero dos titulares. Dirigentes da Seleção Portuguesa de Futebol garantem: "Felipe Scolari tem o perfil do técnico ideal pra nossa seleção em 2015."

Anteontem, quarta-feira, dia 24, em Teresópolis, na "Casa da Seleção", o menino triste pede para o repórter da Globo:
- Seu moço, tem um trocado? Perdi minha casa, familiares, perdi tudo na tragédia das enchentes...
- Olha, garoto, vou te levar na concentração da Seleção Brasileira de Futebol... - respondeu o repórter pão-duro.
- Mas...
- Agora fica quietinho, tá? 1, 2, 3... Gravando! Nesse momento, na Granja Comary, durante o treino da seleção brasileira, uma cena muito bonita de se ver. A seleção recebe a visita de vítimas daquela tragédia da chuva, na Região Serrana do Rio, em janeiro de 2011.


Um amigo meu me disse que reencontrou o tédio, assistindo aos jogos da Seleção de Futebol da Rússia...

Trollaram a Wikipedia do atacante uruguaio Luiz Suárez
(colocaram que ele é um "pitbull uruguaio")

Um Tributo aos Nossos Monstros: O plesiossauro em Mim

 
Dois filmes que baixei no fodástico blog cult “Sonata Première” e que chamaram minha atenção nos últimos tempos foram os premiados “Real”, da diretor japonês Kiyoshi Kurosawa (aqui vai o link pra poderem baixá-lo e assisti-lo: http://sonatapremieres.blogspot.com.br/2014/02/real.html) e “Mel”, da diretora italiana Valeria Golino (aqui vai o link: http://sonatapremieres.blogspot.com.br/2014/04/mel.html). Aparentemente, os dois filmes não têm nada a ver um com outro, mas somei os dois em minha cabeça devido a um fato e a um peculiar fator comum: assisti aos dois filmes no mesmo dia e, assim, ambas as histórias ficaram misturadas em minha cabeça; além disso, em ambos os filmes, seus personagens vivem (ou melhor, sobrevivem) se equilibrando (ou se desequilibrando) na linha tênue que separa a vida da morte.
Dos dois, o que me marcou mais intensamente foi “Real”, filme com uma leve ligação com a ficção científica e com uma forma peculiar e alucinante de análise do inconsciente humano (altamente recomendado para análise da escritoramiga e psicóloga Raquel Freire do Amaral) – o classificaria como um drama psicológico com pitadas de ficção científica e suspense. Reparem na sinopse: “Os médicos japoneses contactam dois cérebros em um misto de realidade virtual e telepatia. Koichi passa a conversar com sua garota, Atsumi, que desde uma tentativa de suicídio, há um ano, está em coma profundo. Ele consegue entrar no subconsciente dela e ali Atsumi, desenhista de mangás, faz um pedido a ele: procurar um esboço de plesiossauro para que ela possa sair do torpor. Koichi encontra o monstro e eles passam a entender o porquê dele e a ver que a verdade não é o que parece ser.” Com uma fotografia estonteante, o filme é uma viagem incrível pelo universo do inconsciente e o quanto nossas culpas podem se transformar num vigoroso plesiossauro e dominar todo nosso interior. Tenho meus poréns com a solução final do filme (que não vou contar, amigos leitores, “Real” é uma experiência que vocês devem assistir e tomarem suas próprias conclusões), por conta do tamanho e força do plesiossauro que criamos dentro de nós, quando nosso inconsciente se prende a ele, mas isso não afeta a viagem magnífica que meus olhos tiveram diante do filme.
Já o filme “Mel”, completamente despido de qualquer aproximação com a ficção científica de “Real”, nos leva àquele velho questionamento: temos ou não temos direito de escolhermos a nossa dissolução (quanto essas decisões influenciam as pessoas a nossa volta e qual é o sentido – ou falta de sentido – nisso)? A personagem Irene se propõe a fazer um trabalho difícil e ilegal: ajudar pacientes terminais a morrer. Ela busca o medicamento proibido no México. Obviamente, ninguém sabe o que ela faz. Não pode haver envolvimento emocional com o paciente. Certa vez, um engenheiro solicitou seus préstimos. Depois que ela soube que ele não possuía doença alguma, Irene começa a tentar salvar a vida do homem. Foi este personagem – e não a protagonista Irene – que me chamou mais a atenção. Seu passado misterioso, suas razões, nada é explicado no filme, apenas sua ânsia em partir desta vida é declarada por ele, apesar de não aparentar traços suicidas em sua vida – exceto por uma opção de manter-se só, apesar de mostrar-se comunicativo e sociável... será que ele possuía um plesiossauro dentro dele? Não sei... só sei que ambos os filmes se misturam em mim...
Com a mistura desses dois filmes e seus questionamentos, surgiu esse poema louco que posto hoje: o eu lírico inspirado no engenheiro suicida do filme “Mel” passeando pelo universo lírico, dominado por um violento plesiossauro de culpas, do filme “Real”. Não sei dizer se a mistura foi boa (talvez eu tenha escrito o poema para resolver o final que não apoiei do filme “Real”, não sei, só meu inconsciente – esse sujeito mudo em mim – poderia me responder), mas fica o resultado poético final para os amigos leitores poderem curtir e/ou descurtir. É um tributo poético às sensações que os filmes me passaram, são novos eus líricos que vieram pra mim; ao leitor, cabe o julgamento se o poema é bom ou ruim, desde que se dispa dos julgamentos de certo ou errado, são eus líricos que tomam suas próprias decisões, muito acima de minhas disposições.
Boa leitura e Arte Sempre!     

O plesiossauro em mim

Sai daqui, navegadora do amor...
A minha ilha de águas inocentes
foi invadida por um plesiossauro
e a praia outrora serena
machuca meus castelos de areia
com ondas de angústia.
Sai daqui, banhista incauta,
pois minhas águas agitadas
podem afogar o que restou do nosso amor...

Todas as cidades que destruí
com minhas pegadas,
toda a infância que perdi
nessa caminhada,
toda criança que não socorri
e que morreu afogada
é o plesiossauro
que cresceu
em mim,
é o plesiossauro
que hoje invade
a nossa casa.

Deixa o amor dormir em coma, enfermeira apaixonada,
pois o plesiossauro hoje repousa em minhas retinas fatigadas.
Deixa-me adormecer minhas vidas passadas, musa cansada,
que só a morte pode redimir essa alma culpada...




quarta-feira, 25 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXIII

LXIII

Minha carreira de tradutor foi escandalosa: transformei as lendas mais escabrosas de outras línguas em fantasias angelicais minhas. As Velhas Escrituras? Tudo invenção de minha escrita!


terça-feira, 24 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXII

LXII

Não joguei minha escrita nas trevas por cansaço. Foi a sabedoria de velho escritor que me inspirou essa nova ousadia: descobri que o conto fantástico mais bem sucedido se fabrica na mente insaciável do leitor que espera por uma nova fantasia minha. Meu projeto mais ambicioso: a proliferação de ilusionistas através da declaração de mágico ocioso. Conclusão amadurecida: a melhor fantasia está no leitor que tenta prever a minha fantasia.


Solidões Compartilhadas: Caroline de Almeida e Juarez Júnior Balançando as Folhas e a Imaginação

O sol hoje se manteve firme durante grande parte da tarde. Será que ele veio brindar mais um dia de Copa do Mundo no Brasil? Não, imagino que não, afinal, os jogadores sofreram para jogar diante desse sol intenso. Então por que será que o sol se manteve tão firme numa tarde que pedia desesperadamente o inverno? Não sei, mas tenho uma hipótese lírica: o sol veio brindar um dia muito especial, a data em que a ex-poetaluna Caroline de Almeida Rocha comemora mais um ano de luz, mais uma primavera brilhante contrapondo-se ao rigoroso inverno!
Caroline Almeida foi uma das minhas artistalunas mais aplicadas que tive na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva. Não havia desafio lírico que ela não topasse; às vezes, quebrava a cabeça, negava o talento poético natural, mas a febre criadora lhe cutucava e lá estava ela escrevendo, escrevendo e vencendo com lirismo todos os desafios e limitações; não havia fronteiras para ela: mesmo que sentisse a alma derrotada, seu lirismo sublimava e ela sempre vencia sua luta lírica com os desafios da busca da palavra certa, que mantém o mundo da imaginação a girar pelo infinito. Não é à toa que, em quase todos os projetos que lancei no ano passado, ela estava à frente, rainha da arte a dar xeque-mate nos reis da realidade sem arte.
Em sua homenagem, compartilho mais uma de suas obras-primas (já há várias delas aqui pelo blog, como nas postagens do “Arcadismo Teen 2012”, nas “Histórias de meninos e meninas más”, nos vídeos dos saraus e no “Movimento da Semana de Arte dos 22 – Poetas mais que modernistas”), feita em parceria com o também ex-poetaluno Juarez Júnior Charles Maia, após uma oficina textual de descrição poética (parecida com aquela que fiz e descrevi na crônica “Pensamentos de um estudante de Letras”, com o acréscimo do filme “De Encontro com o amor”, onde o personagem, um escritor inventado chamado Weldon Parish, dá lições de descrição poética – em breve, mais textos desta oficina estarão disponibilizados no blog).
Desde que ensinei a Caroline de Almeida as características do Arcadismo, somados um ano depois ao Modernismo, ela passou a se identificar com as propostas do “Carpe Diem” (“Aproveite o dia”, em latim, que significa que os eus líricos devem sempre aproveitar o máximo seus dias, pois têm consciência de que a vida é breve e tudo é passageiro demais para não ser aproveitado) e, em quase todos os poemas e prosas poéticas que ela produzia sozinha ou em conjunto, essa filosofia árcade, de vez em quando, reaparecia. A prosa poética de hoje é um belo exemplo disto e, como as poetalunas aniversariantes anteriores com quem compartilhei solidões poéticas, Caroline de Almeida, acompanhada de Juarez Júnior, mantém a tradição: ela faz aniversário, mas quem é presenteado com uma oferenda lírica de fodástica beleza é você, amigo leitor!
Parabéns a Caroline de Almeida por mais uma primavera lírica (espero que nunca abandones esse lirismo suave e natural que trazes em ti) e boa leitura, amigo leitor, é hora de balançarmos as folhas e a imaginação!
  
Balançando as folhas e a imaginação
(Caroline de Almeida Rocha e Juarez Júnior Charles Maia)

            Hoje o sol não apareceu, mas os pássaros continuam a cantar alegremente com seus cantos que acalmam a alma.
            Quando olho para o céu nublado, me sinto triste, pois vejo as nuvens com uma vontade enorme de chorar e o sol escondido entre elas parece não estar a fim de aparecer.
            O vento vai e vem, balançando as folhas, fazendo um som encantador, parece até que estou em um filme.
            Fecho os meus olhos e tento me imaginar daqui a alguns anos, quando essa paisagem linda e maravilhosa não puder mais existir, quando o canto dos pássaros acabar e as nuvens chorarem pra valer...

Como seria? Não sei... Mas, enquanto isso não acontece, vou aproveitar o máximo que posso...


Solidões Musicais Compartilhadas: The Black Bullets contra Aqueles Que Querem O Ouro, A Prata e O Poder

Nesses momentos de intensos protestos contra os gananciosos que levam nosso ouro, nossa prata e que, direta ou indiretamente, estão no poder, vale a pena percebermos que as bandas de rock brasileiras se mantêm atentas aos questionamentos que nosso povo leva para as ruas. Por isso, hoje destaco e compartilho minhas solidões poéticas com a fodástica letra de música “O Ouro e a Prata”, da banda de rock valenciana The Black Bullets, formada pelos competentes músicos João Júnior (vocais), Felipe Martins (guitarra e backing vocal), Rominho Alvernaz (guitarra e backing vocal), Daniel Iunes (baixo) e Baldo Barreto (bateria).
“O Ouro e a Prata” é um rock vigoroso, com claras influências do Pink Floyd, quando Roger Waters liderava a banda (a temática crítica contra os donos do poder era uma constante no Pink Floyd desse período), um hit envolvente para aqueles que só saciam suas vontades quando ouvem uma boa canção de rock’n roll. Vale observar a trajetória harmônica da letra da canção, desde o desenho na primeira estrofe dos gananciosos que  “querem tudo, querem o ouro, a prata e o poder”, alvos da crítica e revolta do eu lírico, prosseguindo por estrofes que apontam o vazio e o desespero que a ganância pode gerar até o refrão que encerra a gradação e finaliza com a autoridade doentia dos gananciosos: eles querem tudo, mas não levam nada desta vida. Destaco a riqueza de figuras de linguagens (ou seja, recursos estilísticos que embelezam o texto) na letra da canção: breves aliterações [colocação de palavras com sons parecidos no mesmo verso] (“a prata e o poder”), antíteses para opor os anseios e delírios às reais conquistas do ganancioso (“querem tudo” versus “E nada / Nada se pode levar”, entre outras oposições similares) e ironia ácida pra terminar de desfazer os gananciosos doentios, por sinal, bem no estilo do floydiano Roger Waters (“Como prefere pagar seus pecados? / Em dinheiro, cheque ou cartão?”)
A letra de música foi premiada, com louvor, como Melhor Arranjo e Melhor canção (e ainda consagrou o vocalista e poetamigo João Júnior como Melhor Intérprete) do IV Festival Intermunicipal de Música de Rio das Flores/RJ, em junho de 2012. E a canção pode alcançar muito mais: atualmente a banda disputa o Concurso da Revista Rolling Stone Brasil com essa canção e conta com o voto popular dos amigos leitores e dos fãs (para votar na banda e na canção, é simples – basta acessar o link  http://rucaa.com/home/Index/Bandas_Doq9ZxCB3P8 e votar na banda [ atenção: quando for votar, desative o bloqueador de pop up pois se ele estiver ativado o voto não será computado!).
Cantemos juntos com a banda The Black Bullets, amigos leitores, nossa revolta contra aqueles que querem levar o nosso ouro, a nossa prata e que vivem, direta ou indiretamente, querendo assumir o poder. Arte e Atitude Sempre e, como sempre diz uma escritoraluna que já esteve nesse blog, Boa Canção!

O Ouro e a Prata (The Black Bullets)

E daqui pode se ver
Vejo escorrer a saliva
Da boca aberta em frente a mesa e o banquete
Tão farto para lhes atender
Com a barriga cheia mas querem tudo
Querem dominar este mundo
Querem o ouro, a prata e o poder
Se esquecem do que vão deixar
E só pensam no que levam

Me diz que o que você vai levar daqui?
E o que você vai deixar...

Deixar
Vai deixar
Sua história escrita nas pegadas que outros irão ler
E nada
Nada se pode levar

Ficar
Vão ficar
Os erros e virtudes que irão lembrar de você
E nada
Nada daqui vai levar

De que adianta querer saber
Se tudo tem preço
- Se não pode compreender
Nem tudo se compra não
Valores não têm preço

Mas daqui pode se ver
Vejo escorrer suas lágrimas
E agora molham sua solidão
Como prefere pagar seus pecados?
Em dinheiro, cheque ou cartão?

Me diz que o que você vai levar daqui?
E o que você vai deixar...

Deixar
Vai deixar
Sua história escrita nas pegadas que outros irão ler
E nada
Nada se pode levar

Ficar
Vão ficar
Os erros e virtudes que irão lembrar de você
E nada
Nada daqui vai levar


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Cem Poemetos de Solidão: Poemeto LXI

LXI

A pausa dramática entre uma história e outra foi a fórmula fantástica que minha avó encontrou de me cultivar as melhores histórias que ela jamais me contou.




4 Poemas Mortos de Pessoa escritos por outra pessoa

Hoje o blog comemora 3 anos de existência e resistência! Entre dias nublados e noites claras, o blog Diários de Solidões Coletivas prossegue sua trajetória de sobrevivência lírica, solitária e ao mesmo tempo coletiva. E, como é de costume, pedi, ontem, no facebook, sugestões sobre qual artista eu homenagearia nesta postagem de aniversário.O artistamigo Nilo Canedo sugeriu Gabriel García Márquez, mas, como já há a série “Cem Poemetos de Solidão”, em homenagem ao fodástico escritor colombiano, cubro essa sugestão, publicando, após esta postagem, o 61.º poemeto da série. As outras sugestões vieram dos artistamigos Diogo Aguiar e Sérgio Almeida (mais conhecido como Jardim): o primeiro me pediu, em tom de brincadeira, uma homenagem a ele mesmo, afinal hoje ele faz aniversário junto com o blog, já o segundo me sugeriu um tributo poético ao mais que fodástico poeta português Fernando Pessoa, que recentemente fez aniversário (faria 126 anos em 13 de Junho).
Diogo Aguiar
Fernando Pessoa
De posse destas últimas 2 sugestões citadas, resolvi topar o duplo desafio: homenagear, ao mesmo tempo, o poetamigo brasileiro Diogo Aguiar, de Nova Iguaçu/RJ, e o poeta português Fernando Pessoa, do qual sou discípulo apaixonado. Pra quem não conhece Diogo Aguiar, ele é autor de um fodástico livro chamado “Poemas Mortos”, entre outras obras (participações em antologias, etc). O “Poemas Mortos” é marcante pelo seu lirismo múltiplo, dividido em 3 capítulos: O Dia, A Noite e As Trevas. “O termo “mortos” foi utilizado porque na maioria das vezes quando algo ou alguém morre, acaba sendo esquecido e somente é lembrado vez ou outra quando esbarramos com uma foto, um local marcante, etc. E tudo que morreu deixa, de certa forma, de fazer parte da nossa vida cotidiana.”, afirma o escritoramigo. Já Fernando Pessoa, poeta morto, mas jamais esquecido, é conhecido escrever sob múltiplas personalidades – heterónimos, como Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro (esses três citados não são os únicos, mas os mais conhecidos) –,  cada personalidade inventada com um estilo poético bastante diferente da outra.
Para associar Fernando Pessoa a Diogo Aguiar no mesmo tributo poético, usei o formato do livro “Poemas mortos” de Diogo Aguiar, dividindo meu poema em 4 (o nome do livro e os 3 capítulos que a obra contém), cada poema contendo um estilo de cada heterônimo e do homônimo de Fernando Pessoa. Ou seja, usei a ideia do livro “Poemas Mortos”, de Diogo Aguiar, associada aos diversos estilos poéticos de Pessoa. Não sei que consegui ser eficaz  nessa ousadia lírica, mas eis o resultado final, para aprovação ou repulsa dos amigos leitores, aos quais agradeço de coração por tornarem esse blog poético tão popular, por manterem esse espaço virtual e literário tão vivo e por transformarem tão magnificamente a solidão lírica de cada um em uma solidão coletiva e tão nossa.
Arte Sempre  e, mais uma vez, obrigado por mais essa vitória artística!

4 Poemas Mortos de Pessoa escritos por outra pessoa

O Dia de Alberto Caeiro

O poema deve ser claro como o dia,
sem as sombras da metafísica,
pois a manhã mais bela é simples
e despida das nuvens de magia.
Quanto mais claro é o sol
e mais comum é o céu no qual ele irradia,
mais facilmente enxergamos
a beleza que nos ilumina.
Deveria ser sempre assim,
mas sempre existe um homem só,
nublado por sua melancolia...

A Noite de Ricardo Reis

Equilibra as tuas dores
e evita encheres mais ainda
a lua que já está cheia
porque o poema é noite pensada,
com a escuridão bem descrita,
apesar da alma dolorida.
Suspira para o céu em harmonia,
observa as estrelas em sintonia,
e, se por acaso não resistires,
podes até ver na noite
alguma lágrima perdida,
mas não a açoites
com a tua histeria,
pois a lua já está cheia
da tua queixa vazia.

As trevas de Álvaro de Campos

Há muitos que pensam muito, mesmo que pensar seja nada
diante das trevas nefastas das dores ignoradas,
mas não consigo, oh Deus que não creio, eu não consigo,
pois, pra mim, todo pensamento é refém de um louco balbucio,
quanto mais penso, tanto mais sinto e sentir é mais que o pensar
e sempre assim me desequilibro
e assim são os versos que trago comigo
e quanto mais penso-me liberto, escrevendo-os em delírio,
mais oprimido fico, pois os sentimentos que me escapam no pensar
são mais sentimentos que pensamentos,
logo trazem mais sofrimento que alívio
e todos que me lêem choram comigo por sentimentos cheios de pensamentos vazios
e eu sou todos que me choram mais eu chorando comigo
e mais os sentimentos cheios e mais os pensamentos vazios,
além do infinito em que me vejo tão morto-vivo.
Dei adeus à vida por toda minha vida, mas ela continua aqui viva e aflita
e assim fica a minha poesia sentida e ressentida de tanto pensar em agonia
e, de tanta agonia pensada, fica a razão perdida ao lado da emoção incontida
e eu perdido nesse tudo, pensando muito sobre o muito que penso
e que me escapa como sentimento
e assim sou os muitos que pensam e também os que não pensam em nada
e mais eu transbordando nesses todos como filho único de ninguém.
Por pensar demais, sinto muito e me perco em todos, mas sou eu mesmo...
Abraço os filósofos ateus e a sua melancólica lucidez
e beijo os alegres filhos Teus que ainda convivem dentro da caverna.
Mesmo que ambos os grupos eu não compreenda,
convive o fato de convivermos na mesma cela.
Caminhando pelas ruas de Lisboa, a cidade beija minha boca, mas meus lábios estão intactos...
Cumprimento o professor que me aponta a ausência de estrelas no céu
e parabenizo o padre tranquilo, o noivo nervoso e a noiva, cujo rosto é coberto por um véu,
quanto mais reconheço os outros, mais desconheço a mim mesmo,
mais uma vez, eu sou todos e, ao mesmo tempo, ninguém.
Embriagado por tanta louca lucidez, sobra-me apenas o poema e a sua absurda beleza:
caminhar desesperado pelo calmo e pelo obscuro, de mãos dadas com o mundo.
e me acostumar com o brilho escuro da falta de clareza.
Ah, Deus que não creio, quem me dera não pensar e não sentir e me deixar apenas ir,
mas as trevas já estão aqui e, por mais que as negue, sua falta de luz brilha em todos e em mim,
fazendo-se necessário apenas seguir, apesar de todos e apesar de mim.

Os poemas mortos de Fernando Pessoa

Finjo-me de morto pra que me sintas tão vivo,
pois sei que os vivos preferem os mortos fingidos.
Os sentimentos por um morto são mais compreensivos
que os imaginados para aquele que tem sobrevivido.
Meus poemas se fingem de mortos
pra comemorarem na tristeza do velório
a alegria de um infinito mais vivo.