domingo, 23 de fevereiro de 2014

Solidões Compartilhadas: Domingo em família com Roberto Carlos Ferrari Júnior

Quadro do artista plástico e caricaturista mineiro Mônico Reis.
Caso queiram conhecer melhor o trabalho do fodástico artista,
visitem seu blog (segue o link: http://monicoreis.blogspot.com.br/)
Passeando por arquivos antigos de meu jurássico (porém, ainda extremamente útil) computador, reencontrei velhos poemas de jovens poetalunos que tive o privilégio de conhecer na época em que eu lecionava na Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira, em Três Córregos, Teresópolis/RJ.
Entre os arquivos encontrados, revi o poema “Domingo”, escrito por Roberto Carlos Ferrari Júnior. Na época (2007), o aplicado poetaluno estava no oitavo ano (antiga sétima série) e, após eu fazer uma oficina poética sobre poemas de família, Roberto Carlos Ferrari Júnior, com sua extrema dedicação e rigor (ele passou pelo oitavo ano com notas louváveis), produziu o poema “Domingo”, no qual o talentoso rapaz descreve liricamente um dia de domingo com a família. O poema ainda sagrou-se terceiro colocado no Concurso de Poesias realizado na escola. Há pouco tempo, revi a mãe do rapaz e, segundo ela, Roberto Carlos Ferrari Júnior segue firme seus estudos e, atualmente, está na faculdade (se não me falha a memória, ele está fazendo Direito).
Reparamos no poema de Roberto Carlos Ferrari Júnior um rigoroso trabalho rítmico (reparem que as rimas em ar, ainda que pobres – ou seja, rimas de palavras da mesma classe gramatical, no caso verbos -, buscam retratar o conforto e alegria de estar em família [rimas em ar são abertas, transmitem positividade, energia, etc]), um lirismo encantador que sublima acontecimentos simples do cotidiano familiar somado a um verso final que arremata de forma grandiosa e bela o fodástico poema (soa até melancólico para nós, pessoas mais velhas, que percebemos a desintegração gradativa da unidade familiar tradicional, à medida que perdemos familiares e/ou o tempo voraz vai consumindo e desgastando as relações familiares).
Um belo poema chamado “Domingo”, de Roberto Carlos Ferrari Júnior, para brindar o belo domingo de sol de hoje, cheios de boas lembranças e ao lado de minha mãe Vanda, de minha namorada Juliana e de um lirismo inconfessável que me faz sorrir (e, às vezes, chorar...). Boa leitura, amigos leitores!  

Domingo

No domingo
nós cinco em volta da mesa
a almoçar.
Depois, na piscina,
eu e minhas irmãs a brincar.
Depois de brincar
meu pai me chama
para ver o jogo do Fla.
Ao torcer, meu pai e eu
fanáticos a gritar.
No gol, a emoção
de ver o Mengão campeão.
Minha mãe a cozinhar
chama-nos para lanchar.
Após assistir à televisão,
minha família vai se deitar.


            Mais um domingo de paz...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Elegia 2014 (ou Foda-se Todo Teto de Vidro, Inclusive o Meu - no estilo de Drummond)

Rompemos as algemas,
mas nos mantiveram as correntes
Vivemos momentos introspectivos, fenômenos dos amigos que partem apressadamente para os outros universos, fenômenos do marketing de desfazer protestos e incentivar o umbigo que de nada reclama – apenas quer se dar bem e ganhar os louros de batalhas que jamais promoveram -, fenômenos das faltas de fenômenos, fenômenos do não fenomenal, dos bondes sem maravilhas, dos trem balas da polícia refém dos patrões das injustiças e da mídia que elege caras de acordo com as bundas ou com o tamanho do crédito do cartão que os donos das caras prendem em suas bundas flácidas (ou com o sobrenome distinto de porco barão, caso a mídia seja de um Local mais interiorano) e nós, amigo leitor, nós vivemos, ou melhor, sobrevivemos, aturando tudo isso, reagindo no vazio, pois o sonho de um mundo melhor está num limbo, num espaço oculto por fazendas improdutivas e edifícios luxuosos sem arte alguma, em algum canto de nossas históricas monoculturas, cujas mentiras são a única plantação; vivemos no nada, lutando por um tudo que nunca chega, pois tudo foi declarado morto desde que o lucro virou palavra favorita para os donos da Copa do Mundo, para os promotores das Grades de Educação, Saúde, Cultura e Bem-Estar - se quisessem mesmo isso tudo que propõe, evitariam favorecimentos e destacariam a todos por igual -, para os donos do todo imundo, para os inventores da alegria consumista, para todos que reduzem as nossas vidas ao simples viver – nascer, trabalhar, comer, às vezes pular uma folia e, depois, morrer pra novamente nascer, trabalhar, comer, às vezes pular uma folia e assim sucessivamente, e só nos resta viver e escrever (mesmo que ninguém nos leia; ninguém às vezes é a melhor companhia); meu corpo está cansado da monotonia da rotina, da brincadeira quixotesca de tentar mudar o imutável, mas ainda existem em mim as palavras, elas persistem e, mesmo que eu desista, elas continuam. Por isso que o Sarau Solidões Coletivas entra em recesso e não realiza mais eventos, sinceramente desapontado com a putaria de quem poderia fazer algo e só azara o que não é evento dele e com todo descrédito da mídia e de muitos (mal) ditos ‘fodões’ de nossa hipócrita Valença/RJ que cansaram esse blogueiro que vos fala, cheio de dar murro em ponta de faca. Mas, também, por isso que o blog “Diários de Solidões Coletivas” continua cuspindo na corja toda. Por isso, essa elegia pessimista, muito escrota para o sorriso banal, um tributo ao Drummond mais sombrio, uma declaração: eu já desisti dessa vida, mas as palavras em mim não desistiram – por isso, permaneço aqui: mesmo eu descrente da resistência, meus eus líricos me escravizam e me penalizam com a manutenção do sonho da vida melhor que não mais acredito encontrar vivo, por isso sobrevivo, minha poesia é maior que eu e por isso me escravizo a ela, por mais que eu negue, por mais pessimista, Dom Quixote vive e amém.

Elegia 2014

Nenhum teto de vidro resiste
a uma pedrada bem dada
em sua matéria frágil,
mas, se há grades visíveis e invisíveis
que o protegem,
talvez a pedra não alcance o alvo
e, se o teto se mexe,
talvez atiremos pedras no vazio,
mas o mais difícil é entender
é que talvez o teto de vidro reaja,
talvez o teto de vidro esteja em mim
e em você.
Já fomos cães famintos
latindo pro mundo sem saber por quê;
hoje nos fazemos homens famintos
latimos conscientes, recebemos ossos de glórias,
mas o alimento de sobras não alimenta a alma
e, mesmo que a alma não exista, ela nos pergunta
por que a ceia não é rica pra todos os discípulos,
por que os traidores continuam na mesa,
por que continuamos famintos,
por quê?
Não adianta, amigo, atirarmos granadas sozinhos
em falidas manhattans,
se outras manhattans sombrias crescem no infinito
dos umbigos de outros amigos,
nos nossos próprios umbigos,
nos umbigos de quem finge estar com você.
O amor, a honra e a arte já morreram há tempos
e nos esperam em outro universo clandestino
e, sozinhos, só nos resta contar os corpos caídos
e, mesmo resistindo, esperar a nossa vez...
Toda essa luta perdida
só vale pelo sabor do esquisito,
pelo prazer de perder e manter-se invencível,
por ver os tetos de vidro romperem-se em sonhos
e, mesmo intactos, vê-los destruídos
nos olhos de quem lê você,
nos olhos de quem também perde sem perder.
- Toda essa luta perdida, amigo,
só vale se continuarmos a escrever!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Solidões compartilhadas: O Puro Encantamento de Natália Oliveira

Após uma semana de aulas, nós, professores, vamos recuperando o ritmo frenético das aulas e do ano letivo (que já aparenta ser agitado, por ser um ano de Copa do Mundo, Olimpíada de Língua Portuguesa, etc). Impossível, após um tempo de carreira, não pararmos por alguns instantes e vermos quantos talentosos poetalunos passaram por salas onde lecionei. Nem um quádruplo desses fodásticos artistalunos já foi contemplado aqui no blog, o que me dá uma sensação de estar sempre devendo destacá-lo; o tempo passou, mas suas artes de encantamento com as palavras ficam.
Natália Oliveira (ao lado
da orientadora pedagógica,
à direita) na Escola Municipal
Nadir Veiga Castanheira, em 2010
Por isso, hoje tenho o prazer de compartilhar com mais uma fodástica poetaluna para quem tive o prazer de lecionar em minha antiga escola, a Nadir Veiga Castanheira, em Teresópolis/RJ, entre 2009 e 2010, a talentosa Natália Bento de Oliveira, escritora nata, que produzia poemas febrilmente, desde obras poéticas mais tradicionais a poemas neoconcretistas, passando por poemas contemporâneos sobre filmes aos quais ela assistiu (em outra postagem, em breve, revelarei esses grandiosos poemas, cujas cópias estão guardadas comigo há 4 ou 5 anos).
É momento de nos encantarmos com a arte da fodástica poeta Natália Bento de Oliveira, amigos leitores!

Puro encantamento

Quando me lembro de ti
Não te vejo só na mente.
Ficas então bem pertinho,
bem vivo na minha frente.

No meu coração, a alegria invade
e traz o amor mais ardente,
minha cabeça levanta
para te olhar meigamente.

No mais puro encantamento
olho-te então fixamente
querendo que este momento
fique vivo eternamente.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Luto Cá-Bis-Baixo Revoltado (Elegia pro amigo baixista Coquinho)

Coquinho
Havia chegado hoje do retorno ao trabalho na escola infelizmente feliz. Planejava, com o retorno das aulas, trazer pra vocês mais um poetaluno de sucesso, mais um sorridente talento a despontar nas Solidões Compartilhadas deste blog... Mas os dias de verão, tão calorosos, também trazem chuvas silenciosas, o céu que se abre pro sol também leva aqueles que brilham na terra e hoje recebi a triste notícia que o eterno artistamigo Coquinho, talentoso baixista, que brilhou tocando em bilhões de bandas de metal alternativo, o Coquinho, que defendeu durante toda vida a permanência da cena underground mais intensa em sua cidade natal, Valença/RJ, a partir de hoje, não toca mais baixo, apenas silêncios, e cá estou eu cabisbaixo (cá-bis-baixo – pra baixo mais uma vez aqui) com mais essa perda inestimável em meu círculo social – mais esburacado que queijo suíço depois de tantos amigos inexoravelmente perdidos. E sei que todos falarão “pense nos vivos”, “ele descansa em paz”, etc, mas ta foda, amigos leitores, os tempos andam sinistros, ta foda... Lamento mudar meus planos iniciais; hoje não compartilho poemas de artistamigos, pois um deles foi perdido pra sempre, e só me resta uma elegia deprê, um poema revoltado com os anjos da morte que levaram meu amigo com tamanha pressa e desatino; imagino Coquinho chegando no tal paraíso ‘todo bolado’ (expressão que ele usava demais), ironizando com os arautos de sua morte a partida precoce e, bem no fundo, xingando aqueles seres andróginos cheios de asas, arrogância e nenhuma sensatez (tanto político ‘genoíno’ e me levam logo o Coquinho (e ainda permitiram o assassinato do fodástico diretor de documentários Eduardo Coutinho; classificar de insensatez os atos de tais arautos divinos da morte soa até como elogio).
Sinto muito, amigos leitores, mas hoje a arte chora revoltada com os deuses do destino e regentes dos céus e paraísos; impossível sorrir ou se acalmar diante de tanta falta de alívio, diante de tantas alegrias roubadas.  

Luto Cá-Bis-Baixo Revoltado
(Elegia pro amigo baixista Coquinho)

Não me venha com tua harpa de notas suaves, anjo do conforto,
Que hoje teus companheiros diabolicamente celestiais
Levaram outro amigo meu
E estou cansado de harmonizar as notas de silêncio fúnebre
E estou cansado de esperar por alguém que não volta mais
Não há harmonia no conjunto da vida se os anjos sempre nos levam o baixista
Não há sintonia se o baixo é apenas um estado de tristeza infinita
Estou farto desse grito sem ouvidos
Estou cansado de colecionar caixões precoces
No cemitério agitado de minha cabeça serena...
Não me pisque teus céus paradisíacos, anjo clandestino,
Pois hoje só o demônio da incerteza acaricia meus pensamentos
Pois hoje mais um amigo meu adormece jovem
Em fotos estéreis que não envelhecem
Como estrela que ainda brilha apesar de morta
Num céu de trevas que não mais a suporta
E não há asas nem luz que consolem a revelação absurda do efêmero
E nenhum voo é tão rasante e tão rasteiro...
Voa pra longe, anjo da consolação,
Pois o abismo hoje mais uma vez consome
O que restou de meu coração... 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Canção de Amor ao Beijo Gay

Ontem, no último capítulo da nem tão popular novela “Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, um tabu foi quebrado na Rede Globo: após o beijo lésbico numa novela do SBT, finalmente a Globo pôs no ar um beijo gay entre o ex-vilão da novela, Félix, interpretado por Mateus Solano, e o popular personagem Niko, interpretado por  Thiago Fragoso. Ah, mas como são os tempos modernos das trevas coloridas! Esse acontecimento do último episódio da novela, cuja audiência foi bastante irregular,  gerou defensores histéricos e inquisidores escandalizados... e olha que foi só um beijo leve, um ‘semi-selinho’, e olha que estamos nos anos 2014, e olha que todo mundo diz não ter preconceito e ficou boquiaberto com esse final natural quando se trata de uma relação homo-afetiva que há séculos tanto aflige os heterossexuais convictos, como se o amor dos outros, dos considerados diferentes, devesse ser monitorado por eles; e olha que você deve estar lendo isso e pensando: que blogueiro viadão. Ah, como somos modernos, cabeças abertas, né, amigos leitores!
Este blog nunca foi muito dado (olha só que palavra gay kkkk) a assuntos de novela (o que não quer dizer que eu também não me inspire nelas; se faz parte do cotidiano, mesmo vindo de veículos de massa, faz parte da minha poesia – “sou a soma de tudo que vejo e minha casa é um espelho”, como diria a canção “Meu reino”, da banda de rock brasileira Biquíni Cavadão), mas o beijo gay ganhou tanta repercussão e tanta crítica deformada (e, muitas vezes, mal informada) que resolvi fazer mais um poema gay (e só posso rir ironicamente para aqueles que ainda pensam que beijo gay deve ser dado por ator gay e que poema gay deve ser escrito apenas por escritor gay – “o artista é um fingidor”,  parafraseando Fernando Pessoa, e quem não entende isso deve ter tentado apedrejar Mateus Solano quando este jogou um bebê no lixo por causa de seu personagem). O poema é metrificado, possui versos decassílabos, intencionalmente tradicional, pra quebrar de vez essa porra de tabu que parece um chato em pênis e vaginas de heterossexuais chatos e, por mais que se declarem puros, não passam de um bando de gente suja de preconceito até na alma (rezo para que Deus perdoe os pecados de vocês, hipócritas do inferno!). Sou grosseiro com os equilibristas dos comentários homofóbicos, mas tentei ser doce no poema (resumindo, pedra pra quem atira pedra e carinho pra quem distribui carinho).
Arte sempre e sempre sem homofobia, amigos leitores!

Canção para Niko

Que tal quebrarmos um tabu, querido?
Deixemos os preconceitos de lado,
A câmera bem próxima dos lábios,
Vamos sair juntos de trás do armário,
Então me beije na boca, baby,
Após um abraço aflito e apertado,
Antes gays felizes que seres frustrados,
Que tal desafiarmos o bolor
Contido nos velhos cantos escuros
Das quatro paredes da nossa casa?

Eu já fui o vilão dessa novela,
Já me redimi dos crimes mais vis,
Mas jamais teria final feliz
Se não tocasse ao menos de leve
Teus lábios ardentes de querubim;
Agora sim eu queimo meus pecados
Nas asas redentoras de teu beijo:
És anjo salvador,  sonhado amor,
Contra os pesadelos do velho mundo
Que suja de trevas o que é puro.

Mesmo se falássemos a língua
Da boa conduta e do facebook,
Se não nos revelássemos num beijo,
Todo nosso amor de que valeria?
Deixa que eles gritem lá fora, Niko,
Pois só quero teu silêncio mais lindo...