sábado, 25 de janeiro de 2014

Solidões Compartilhadas: O grito colhido pelo eu lírico de Jardim

Jardim, alter ego de Sergio Almeida
Outro grande evento do qual participei em 2013 foi a I Feira Literária de Valença (FLIVA), iniciativa cultural, inédita e revolucionária para Valença/RJ, organizada por Leonardo Pançardes. Durante o evento, tive o prazer de conhecer diversos grandes escritores, entre eles, o Jardim, alter ego de Sergio Almeida, premiadíssimo artista de Niterói/RJ, autor do fodástico livro “Crônicas do amor impossível”.
O intercâmbio cultural foi tão bom que ele passou a fazer parte do Sarau Solidões Coletivas: Jardim participou da apresentação na FLIVA e, alguns meses depois, no sarau que fizemos no Almoço Beneficente da Associação Valenciana de Proteção aos Animais (AVPA).
Entre os dois eventos citados, revi o artistamigo Jardim, durante a festividade de premiação do Concurso de Poesias da ALAP, que aconteceu na FALARJ, na Lapa, centro do Rio de Janeiro/RJ. Eu estava lá com meus poetalunos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, pois eles receberam diversas premiações na Categoria Juvenil (os poemas deles já foram postados aqui no blog no fim do ano passado) e Sergio Almeida/Jardim foi lá para comemorar mais uma vitória lírica: ganhou Medalha de Ouro na Categoria Adulto. Ao ouvir o fodástico poema de Jardim, pedi a ele que me enviasse o texto, para que eu o postasse nas Solidões Compartilhadas do blog.
Com vocês, amigos leitores, o poema premiado de Jardim, em verso e vídeo!

colhi teu grito
e depois teu silêncio,
decifrei teus poros
e teus receios.
conheci tuas trevas,
em teus labirintos
me debrucei.
te habitei por inteiro.
provei fendas e frestas,
encontrei teus recôncavos,
mergulhei em teu mistério
a cada rodeio.
um invisível visgo
me aprisiona agora
na tessitura
de tua teia.

  

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Festa Lírica na Chuva Grunge: Sarau Solidões Coletivas Especial na Grade Cultural


É isso aí, amigos leitores, o Sarau Solidões Coletivas está oficialmente de volta (e o blog também, após um período de alta autoprocrastinação rs). Retorno às postagens com os vídeos do Sarau Solidões Coletivas Especial “Só... em tom grunge”, em tributo à banda valenciana de rock alternativo Sotton e ao gênio ícone do grunge Kurt Cobain, o eterno líder suicida da fodástica banda Nirvana.
Luana Cavalera
O sarau foi realizado durante o evento “Grade Cultural”, na Praça da Bandeira, no centro de Valença/RJ, na noite chuvosa da sexta-feira, 17/01. Tinha tudo pra dar errado: choveu muito naquela noite; as bandas, que se apresentariam após o sarau, cancelaram seus shows; a barraca de bebidas de um dos principais patrocinadores preferiu não abrir por causa do mau tempo e pouco público. Mas os artistamigos do Sarau Solidões Coletivas já estavam lá (inclusive alguns que vieram de outra cidade, como a poetamiga Raquel Leal), todos dispostos a se apresentarem; João Júnior, um dos organizadores do Projeto Grade Cultural, conversou com o técnico de som Rogerinho e eles toparam apoiar a loucura lírica e não viram problemas em viabilizar a realização do sarau, apesar de todos os pesares. Pra galera do Sarau Solidões Coletivas não existe tempo ruim: com chuva ou noite estrelada, sempre nos apresentamos, independentemente de mudanças climáticas (acho que nem terremoto nos abala rs), com ou sem público (claro que, com público, é muito mais fodástico, mas já temos experiência de fazermos saraus lotados num mês e outros desertos no mês seguinte) e até que o público estava em quantidade satisfatória (se lembrarmos que choveu pra caralho e que há a lenda de que grande parcela dos valencianos é feita de açúcar, o público – mesmo pequeno – foi guerreiro!) e bastante animado.
Wagner Monteiro
Enfim, o Sarau Solidões Coletivas Especial “Só... em tom grunge” foi fodástico demais, como vocês podem conferir nos dois vídeos abaixo.
Curiosidade: foi o primeiro sarau que realizamos sem violão (devido à chuva, a artistamiga Karina Silva não pôde pegar seu instrumento e o guitarrista da banda homenageada Sotton não se sensibilizou com nossos pedidos para que tocasse “Come as you are”, enquanto declamávamos – chateado com o cancelamento do show, possivelmente preferiu partir para casa e não estrear no sarau) e esse fato novo gerou releituras na interpretação de alguns poemas, acompanhados pelas bases eletrônicas trazidas pelo rappper Paulo Roberto Gonçalves e Davi Barros, ambos integrantes do projeto Coletivassom.
Karina Silva

Valeu a força, amigos leitores e seguidores do blog e do sarau! Arte Sempre!





quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Só... em tom grunge

Valença, anos iniciais da década de 1990. A MTV Brasil por um breve período pegou como canal aberto, clipes e mais clipes iluminavam a televisão desacostumada com tantos ritmos e imagens. O rock Brasil de 1980 – que eu tanto amava – começava a se perder no mais do mesmo: após o álbum noise “Tudo ao mesmo tempo agora”, Arnaldo Antunes saía dos Titãs deixando-a com a lacuna da poesia neoconcreta que o ex-integrante imprimia no som da banda paulista; a Legião Urbana tentava dar a volta por cima, descobrindo o Brasil, após a fase extremamente melancólica do quinto álbum; o Capital Inicial fazia a rota “Kamikaze” em busca de “Eletricidade”, mas o vocalista Dinho já indicava anseios de novos rumos (mais tarde, ele deixaria a banda e nem o Capital nem o Dinho se destacariam por um tempo); o Ultraje a Rigor e o Ira! tentavam manter o fôlego, o rock gaúcho persistia, mas quase nada de novo e/ou renovador surgia com destaque na mídia (só o manguebeat, liderado por Chico Science, com o tempo, tiraria do ócio criativo a nossa música brasileira). E o rock internacional rastejava entre velhos nomes, extremamente ofuscado pela axé music, o sertanejo e o pagode, nas rádios nacionais (no caso, a Rádio Alternativa Sul FM, que bloqueava o sinal de todas as outras FMs e censurava canções do rock 80, como “Bichinhos Escrotos”, etc). De repente, “Smells Like Teen Spirit”, Nirvana, revolta niilista, grunge, uau... que porra é essa? Uma nova expectativa com pouquíssimas expectativas, a desesperança com muita energia, ironia e lirismo; um som pra desabafar e desabar os (e com os) quadros estáticos de uma década que perdera, no final da década anterior, um muro visível em Berlim e ganhara outros mil muros invisíveis de desigualdade entre as pessoas do mundo. A agitação desesperançada de Nirvana parecia um remédio para cada concreto secreto que a nova era socava no sonho da juventude perdida ao buscar as alturas dos sonhos nas escadas sem degraus da década de 1990 (muita liberdade e nenhuma opinião, culto às múltiplas vontades sem nenhuma opção). E a revolta contra esse nada implantado como se fosse tudo vinha do lirismo ácido e da voz rouca do louco líder da banda Nirvana, Kurt Cobain. Mas Kurt nunca admirou ser admirado, atirou versos profundos e furiosos contra o mundo, mas seu potencial lírico e destruidor não só derrubou convenções; com a ajuda das drogas e de uma consciência implacável de que a chama do efêmero apagava tudo aos poucos, Kurt derrubou Kurt e seu suicídio, sua morte permaneceria viva na cabeça de todo jovem perdido da década de 1990. Não havia mais comprimidos para os tímpanos, não havia mais fuga pra todo vazio, Kurt Cobain estava morto e a falta de sonhos novos novamente nos acordou. Desde então, essa insônia dos fins da década de 1990 até essas trevas coloridas das décadas seguintes, cheias de sorrisos cretinos, preocupações histéricas, conselhos enfadonhos e filosofia barata – ninguém mais cuspiu nas câmeras da Globo com tanta espontaneidade, ninguém mais inventou mil infâncias falsas com o mesmo sorriso triste e entediado, ninguém mais soube expressar a desesperança com tanto brilho louco no olhar.
Esta postagem de hoje é para Kurt Cobain e faz parte do tributo que o Sarau Solidões Coletivas fará a ele e à banda grunge valenciana Sotton, no evento “Grade Cultural”, nesta sexta-feira, dia 17 de janeiro, às 19h, na Praça da Bandeira, no centro de Valença/RJ.

Só... em tom grunge

Era só um menino
no meio do nada
perdido
consigo mesmo.

Era só
e mal acompanhado
pelos próprios pensamentos.

Dentro do cano
da arma carregada
um gênio seu
lhe prometeu três desejos:
o alívio sem alívio,
o virar de página
de um livro
que ele não escreveu
e a manutenção da vela
que não se apaga
nem depois do sopro
de adeus...

Então a bala solitária
encontrou o menino
que não se sentiu sozinho,
apesar das pólvoras de tristeza
no infinito,
apesar do fim de todo sorriso
aflito,
apesar de continuar só... 



domingo, 5 de janeiro de 2014

Retrospectiva 2013: Quando o tempo se dividiu entre antes e depois do CD da banda Motocircus

Janeiro é mês de férias e também de retrospectiva do ano anterior. Hoje lembro-me da primeira vez que ouvi o mais-que-fodástico CD “Réquiem for the rockets”, da banda de blues rock Motocircus, de São José do Rio Preto/SP (deixo aqui alguns links pra que também conheçam essa fodástica banda – a página deles no facebook: https://www.facebook.com/pages/MOTOCIRCUS/280892265261552?fref=ts e no site “Toque no Brasil”: http://tnb.art.br/rede/motocircus ): já passava do meio do mês de agosto de 2013, quando comprei essa preciosidade musical das mãos do baixista da banda (e também fodástico cartunista e desenhista) Alex Sander, durante a abertura da 40.ª Edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba/SP – eu tinha sido classificado no concurso nacional de microcontos da cidade e aproveitei pra conhecer o mais famoso e tradicional evento de lá; adquiri o CD citado, algumas revistas em quadrinhos fodásticas de Alex Sander (que me inspiraram a criar novos poemas, já publicados aqui no blog, em postagens do ano passado) e de outros desenhistas e cartunistas e colecionei diversas caricaturas minhas feitas por expositores do Salão e voltei para Teresópolis/RJ, com a alma radiante e lotado de trabalho, pois precisava compensar na escola os dias que viajei.
Consequentemente, devido a alta carga de trabalho, fiquei com o CD da banda Motocircus por alguns dias em estado de inércia, sem ao menos tirá-lo da mochila. Numa tarde nublada (uma das poucas tardes na qual não trabalhei e dei folga pra mim mesmo nas correções de atividades em casa), após uma manhã cansativa (daquelas que parecem que nada deu certo), resolvi finalmente retirar o CD “Réquiem for the rockets” da mochila e ouvi-lo: putz! um blues rock potente invadiu o quarto, a tarde nublada parecia aos poucos permitir a aparição do raro sol e todas as dores de um dia ruim pareciam passar num piscar de sons. Yeah, vontade de pular, agitar, apagar os momentos ruins e me renovar. Ouvi o CD três vezes seguidas bem alto, para delírio ou horror (para os admiradores de outros estilos, boa música pode ser um pesadelo rs) dos vizinhos.
Com o tempo, além de Alex Sander, que conheci pessoalmente, fiz amizade virtual, através do facebook, com outro fodástico músico da banda, Kaio Páttero (voz, guitarra e violão), e lhe prometi, antes do fim de 2013, uma resenha sobre o mais-que-fodástico CD “Réquiem for the rockets” (quem acompanha esse blog, sabe que o que tudo que admiro e que me contagia vira conteúdo essencial de releitura ou homenagem lírica produzida pelo blogueiro-professor-poeta-pateta que vos escreve). Devido à intensidade de eventos artísticos e trabalhos como professor, o texto que prometi a Kaio Páttero ficou tocando em minha cabeça, mas só no finzinho de dezembro consegui parar para escrevê-lo e assim cumprir minha promessa em parte, pois, depois de muito tempo com o texto dançando em minha cabeça, a tal resenha virou um gênero textual híbrido, misto de resenha, prosa poética, conto e crônica (quem acompanha esse blog, também sabe que este artista louco que vos escreve, fã-nático por Kafka, rockpoema e Dom Quixote, adora misturar gêneros textuais).
O resultado está aí embaixo, junto com alguns vídeos da banda Motocircus, pra ler, ouvir, pular, sonhar e liricamente enlouquecer, amigos leitores!



No tempo de um “Requiem for the rockets”


Você chegou cansada em casa, baby, a casa está tão bagunçada quanto você. Há algo nublado demais no tempo, talvez aquela nuvem negra no céu seja algum sonho seu que se perdeu na juventude. Seu corpo cai preguiçosamente sobre a cama, há pouca vida em seus movimentos. Suas mãos rastejam sobre a pilha de CDs, próximas a sua cama; você procura algo que não encontra há tempos. Um dos CDs se destaca em sua procura, você o retira da pilha: “Requiem for the rockets”, da banda Motocircus. Na capa, diversas caveiras sob uma névoa de notas musicais – uma daquelas caveiras podia ser você, baby, talvez elas também estejam fugindo da falência da vida como você. Num esforço descomunal contra o corpo encharcado de preguiça e rotina, você se levanta, coloca o CD no aparelho, liga o som no volume máximo e, antes que retorne pra cama, um fodástico blues rock atira-se contra sua inércia, baby: “Listen to the sound now baby / Scream and drive me crazy / And stand up stand up” E você grita e você fica louca e o céu lá fora perde aquela nuvem negra e o sol retorna com brilhos de guitarra e, a cada faixa, você voa cada vez mais alto pelo rock’n roll, baby! Shakalaka Boom e Lord Jim abre as portas de sua percepção, beija sua face e lhe diz: você está viva, você nunca esteve tão viva, baby!  Sua querida mãe, outrora tão distante, seu coração exposto, as noites passadas em shows de rock, todas as sensações que você pensava estarem esquecidas dançam do seu lado, baby, você nasceu pra se mover, pra pular, pra viver, no ritmo do “Requiem for the rockets”, que você agora ouve sem parar, pela continuidade da liberdade e de algo mais que jamais se acabará. Não, baby, o sonho jamais acabou; basta manter-se de pé e colocar o CD da banda Motorcircus pra tocar mais uma vez.







quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Solidões Compartilhadas: Inexplicavelmente Adriano Gonçalves (in memoriam)

Adriano Gonçalves
e a amiga Luiziana
(foto escolhida e
gentilmente cedida
por Ana Maria Gonçalves,
mãe do artistamigo)
Hoje faz 1 ano desde que Ju e eu recebemos a notícia da morte do artistamigo Adriano Gonçalves, músico, artesão e compositor de Nova Iguaçu/RJ, que influenciou tantos artistas valencianos (como os músicos José Ricardo Maia, Fael Campos, entre outros) com sua arte vibrante. Como sua partida foi um tanto inexplicável (para a surpresa de todos os seus amigos e familiares, ele escolheu o momento de sua morte), hoje posto a sua letra de música “Inexplicavelmente”, já gravada em vídeo por Fael Campos & Zé Ricardo e diversas vezes tocada por esses fodásticos músicos amigos. Também deixo a versão dub da música, postada por Charada Andrade, da banda Dezabutinados, da qual Adriano fez parte.
Fael Campos, músico e amigo
de Adriano Gonçalves
Em tempo: Em sua participação na Grade Cultural, na noite do dia 10 de janeiro de 2014, Fael Campos promete tocar, além de canções de sua autoria, diversas composições de Adriano Gonçalves, em tributo ao artistamigo falecido, mas nunca esquecido.
Faço também um agradecimento especial à mãe de Adriano Gonçalves, Ana Maria Gonçalves, que gentilmente me cedeu a foto acima, onde o fodástico artistamigo, acompanhado da amiga Luiziana Maia, traz um daqueles sorrisos que conquistaram vários artistamigos – que nos lembremos dele assim, sorrindo, para a tristeza de sua ausência seja menos dolorida, apesar de impossível de ser esquecida.
Arte Sempre, amigos leitores. Mesmo nos minutos de silêncio e de pesar, a poesia continua nos sorrindo sempre, mesmo que não saibamos explicar pra nós mesmos o porquê, mesmo sem sabermos o porquê...

Inexplicavelmente

Inexplicavelmente eu tento explicar pra mim mesmo
Mas explicar o quê
Se a cada nóia que passa a gente cresce?
Mesmo sem saber por quê
Me deixe viver em paz
O teu silêncio  é bem-vindo
Tuas palavras indiscriminadas
Que envenenam ao serem ensinadas
Essas palavras indiscriminadas
Que envenenam ao serem ensinadas
Mentes subordinadas
Que discriminam e falham
Incineram a esperança como se fossem palha
Até ela virar pó

Mesmo sem saber por que
Se sabe o que dizer
Não diga o que não vê
Aprenda um pouco mais
Para crescer
Se sabe o que dizer
Não diga o que não vê
Deixar de ser covarde
Pra vencer.