quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Pianista: O meu poema antinazifascismo premiado ou a segunda guerra mundial dentro de meu eu lírico cinefanático

Um dos filmes sobre Nazismo e Segunda Guerra Mundial que mais me marcaram nas últimas décadas foi o premiado (ganhador da Palma de Ouro em Cannes 2002) “O pianista”, de Roman Polanski, inspirado na biografia com título homônimo do artista Wladislaw Szpilman (quem quiser baixar e assistir ao filme, recomendo o link do fodástico blog cult “Sonata Prèmiere”: http://sonatapremieres.blogspot.com.br/2012/03/o-pianista_705.html ). Poucos filmes encheram tanto os meus olhos cinéfilos de desespero (diante da violência dos soldados nazistas com os judeus na Polônia invadida e da corrida alucinante do protagonista [fenomenalmente interpretado por Adrien Brody] por meios e refúgios para sua sobrevivência) e de desenfreado lirismo (a eterna melancolia, medo e cansaço do protagonista diante do ambiente alucinadamente violento com o qual convive e a sensação de inutilidade e impotência devido a sua abstinência forçada com a prática de sua arte, com sua música – é, o fato de o protagonista ser artista e ser impedido de manifestar seu dom artístico afetaram ainda mais minhas emoções diante do filme [por sinal, duas cenas antológicas, que jamais esquecerei, são a que ele se depara com um piano, mas, tendo que se silenciar pra sobreviver, toca o instrumento apenas com o pensamento e a que ele se vê inadvertidamente solitário em meio a Polônia destroçada e, finalmente, realiza o seu desejo: tocar um piano, chegando a sensibilizar até o oficial nazista que surpreende o pianista judeu refugiado]). Sei que minha opinião, no caso desse filme, é mais emotiva que racional, mais considero “O pianista” como uma das obras-quase-primas (considero que, nos momentos finais, o filme perdeu um pouco o ritmo em comparação aos momentos muito tensos de seu clímax) de Polanski.
Devido a essa experiência cinéfila visceral com o filme de Polanski, acabei lendo a obra que a originou – tanto que recomendo o livro “O pianista”, que traz outra visão (diferente, mas tão maravilhosa quanto a do filme), pois é uma autobiografia, ou seja, a narração dos acontecimentos são em primeira pessoa (deixando alguns momentos até mais tensos e mais pesados que os que o filme conseguiu expor). Além disso, esporadicamente, em parceria com os professores de História, outrora Andressa Prado e Kelly Sodré e atualmente Rafael Faraco, costumo exibir e trabalhar a análise do filme com os alunos. Quando o projeto foi originado por mim e por Andressa, o batizamos de “A segunda guerra mundial dentro de nós”, em homenagem ao romance infanto-juvenil do escritor curitibano Paulo Leminski. O projeto com várias outras etapas foi defendido por Andressa na 1.ª edição do Concurso “Fazer-se Professor” (2010) e conquistou, merecidamente, o segundo lugar. Em respeito a toda essa trajetória, uso até hoje esse nome original do projeto, quando trabalho o assunto “Segunda Guerra Mundial” nas aulas interdisciplinares de Português-História. A etapa, na qual os professores de História e eu exibimos o filme “O pianista”, é, talvez, o momento de clímax mais revelador e poético do projeto, pois revemos o filme com um ingrediente lírico a mais: vemos as reações dos nossos alunos, sua interação assustada com a adaptação cinematográfica de um momento histórico recente (os fatos de ter acontecido a menos de 100 anos atrás e de ainda haver defensores do nazifascismo tornam essa matéria de História assustadoramente próxima de todos nós).
As aulas expositivas sobre o assunto e a exibição crítica de filmes como “O pianista”, somado às exibições do didático (e mais próximo da linguagem adolescente) “Matemática do Diabo” e, atualmente, do comovente “O menino do pijama listrado”, já me proporcionaram aulas mágicas de Produção Textual com os artistalunos, tanto que vários poemas e contos deles ganharam destaque em concursos literários nacionais, como o Concurso de Poesia da ALAP. Como a minha prática escrita é vampiresca (ver os artistalunos se dedicarem na produção textual de um tema renova minha arte e me inspira a escrever também intensamente sobre o mesmo assunto), depois de anos realizando o projeto “A segunda guerra mundial dentro de nós” e assistindo ao filme “O pianista” tantas vezes sozinho e tantas vezes com os artistalunos, finalmente um poema amadureceu em mim, inspirado no filme e a tudo que vi a partir das diversas sessões da obra nas aulas. Batizei o poema com o mesmo nome do filme e do livro, ou seja, o nome do poema que escrevi é “O pianista”. Pra absorver a atmosfera de contenção forçada pela qual o protagonista do livro e do filme passa por não poder tocar o piano, metrifiquei os versos da primeira até a penúltima estrofe, libertando-me na última, quando, na minha versão lírica, o pianista se descontrola e deixa que sua arte grite pelos dedos que, finalmente, tocam o piano. Minha homenagem lírica ao filme “O pianista” parece ter sido bem sucedida, afinal tive a honra de ser premiado com a Menção Especial na Categoria Adulto do XXV Concurso de Poesia da Academia de Letras de Paranapuã (ALAP).
Abaixo posto a obra-lírica-cinefanática premiada e o vídeo da declamação do poema na Cerimônia de Premiação do XXV Concurso de Poesia da ALAP,  que aconteceu no dia 08 de dezembro de 2014, segunda-feira, às 16 horas, no auditório da FALB/FALARJ, na Lapa, centro do Rio de Janeiro/RJ.
Pelo fim do nazifascismo e demais violências discriminatórias, desejo mais uma vez a todos vocês Boa Leitura e Arte Sempre, amigos leitores!

O pianista

O piano da sala convida meus dedos,
Pede-me os toques que apenas eu sei lhe dar,
Mas, protegido neste apartamento triste,
Infelizmente o canto preciso evitar...

Pela fresta da janela, passeia o medo,
Tropas de ex-homens que querem me aniquilar
Por julgarem que meu sangue judeu transmite
Doenças que eles precisam erradicar.

Pior que todo esse preconceito e clausura
É conviver com essa alucinada tortura
De ter um piano que não posso tocar...

Ah, que venham todos os soldados nazistas,
Que, em mim, descarreguem toda a fúria fascista!
Troco a métrica e rompo com as regras absurdas,
Meus dedos, por um sublime momento, se esquecem da guerra surda:
Toco a minha última e mais bela música – agora podem me matar!

(Carlos Brunno S. Barbosa – Menção Especial na Categoria Adulto do XXV Concurso da ALAP)


Vídeo: Carlos Brunno declama "O pianista" no XXV Concurso de Poesia da ALAP


Trailer do filme "O pianista":


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