quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Meu primeiro conto de Natal: Eu enfrentaria todos os ateus e acolheria todos os filhos de Deus por um sorriso teu

Então é Natal? Então é Natal! Então é Natal. Então é Natal...
Neste ano, na segunda-feira, dia 22 de dezembro, às 19h, na Biblioteca Municipal D. Pedro II, em Valença/RJ, estive presente no lançamento da “Coletânea de Natal - Presente do Céu”, da Interagir Editora, livro no qual tive a honra de dividir as páginas com fodásticos escritores-amigos e vencer um desafio: escrevi meu primeiro conto de Natal chamado "Eu enfrentaria todos os ateus e acolheria todos os filhos de Deus por um sorriso teu".
Como a coletânea teve uma edição limitada (e já esgotada!) e não posso presentear todos os amigos leitores com um exemplar do livro, trago hoje ao blog esse meu primeiro conto de Natal para a análise e crítica de todos (só peço que não esperem as mensagens convencionais, ho,ho, ho, ainda sou o mesmo contista do Diários de Solidões Coletivas)!

Eu enfrentaria todos os ateus e acolheria todos os filhos de Deus por um sorriso teu


- Então, Artur... você vai ou não vai na festa de Natal na casa da tia Esmerendinalva comigo, meu filho?
O tom intimatório da pergunta de mamãe me acorda do passageiro desligamento que sempre sofro quando chego a sua casa após uma longa viagem de oito horas de Dilmópolis para minha pequena e pacata Shangri-lá. 
Desde que me mudei daqui para encarar os desafios de ganhar a vida na cidade grande, é sempre assim: chego atordoado com a longa viagem de retorno à terra natal, mamãe me abre a porta, me recebe, me sorri, me abraça, me oferece um café e, depois, fala sem parar das velhas novidades de Shangri-lá – quem morreu, quem adoeceu, quem também deixou a cidade pra buscar um futuro financeiramente melhor, quem perguntou de mim, quem se esqueceu, quem não está mais nem aí nem aqui... E eu, ainda em estado vegetativo por causa da viagem, pesco uma história ou outra contada por ela, mas sempre perco algum fio do novelo de histórias que ela me conta. É aí, sempre nesse momento, que mamãe atira alguma pergunta, referente ao seu monólogo, que nunca sei responder.
- Hã? É... bem... – gaguejo uma resposta que nada responde. Enquanto balbucio, tento me localizar no tempo-espaço, após o breve período de alheamento: hum... vamos ver... estou em casa, sentado num dos sofás da sala, ao meu lado a pesada mochila que ainda não descarreguei, no outro sofá a minha frente mamãe me encara, entre nós a mesa de centro com cinzeiros, a xícara de café esvaziada por mim e a velha e resistente planta enfeitando o jarro no centro da mesa de centro, continuo gaguejando, preciso retornar ao planeta Terra, mamãe me encara, ah, não, tarde demais pra me recompor, mamãe já me manda aquele olhar condenador.
- Será que dá pra você dar um mínimo de atenção a sua mãe, Artur?
Mamãe traz aquele velho olhar punitivo, aquele que eu já reconheço desde pequenino, quando a desobedeci e fui jogar bola com meus amigos em frente de casa, estraçalhando o vidro da janela do nosso vizinho. Há muito tempo que o vidro estilhaçado foi recolhido, que a janela foi consertada, que o vizinho até vendeu a casa e se mudou, mas o olhar de repreensão de mamãe continua o mesmo e, nesse momento, chegando aos quarenta, continuo me sentindo o mesmo menino condenado ao inferno da quase orfandade por ter desobedecido a uma ordem materna. Reparo no rosto de mamãe: o tempo lhe trouxe algumas rugas e olheiras a mais, um ar mais cansado e impacientes cabelos brancos que se multiplicam em sua cabeça, apesar de ela insistir em pintar o cabelo. O tempo trouxe muitas mudanças físicas em mamãe, mas não conseguiu envelhecer o olhar fatal que ela me atira sempre que descumpro com minhas obrigações de filho atencioso e obediente às regras maternas. Ameaço voltar a balbuciar algo, mas lá vem a segunda facada na fala cortante de mamãe:
- Tem vezes que eu acho que você saiu daqui de casa e foi pra longe só pra fugir de mim...
Ela sabe que não é verdade; na época, não tive escolha: ou aproveitava o emprego público e estável, com possibilidades de uma vida melhor pra mim e pra ela, que Dilmópolis me oferecia ou vivia na penúria dos subempregos que a minha pequena, pacata e decadente Shangri-lá me fornecia. Desvio rapidamente meus olhos pras paredes da sala – algumas partes estão descascadas, precisam de uma nova pintura e, devido ao orçamento apertado de fim de ano, ainda não consegui juntar uma grana extra. Grande m... ilusória essa de tentar me tornar rico com um empreguinho público em Dilmópolis; conseguimos sobreviver, mas a tal da vida melhor continua sendo um sonho distante. Retorno o olhar para mamãe; ela sabe que não é verdade que saí daqui para fugir dela – há alguns anos atrás, a insinuação dela geraria uma grande discussão entre nós, mas, com o passar dos anos, aprendi que não adianta disputar razão com quem me gerou e que, por mais insólito que pareça, sempre merece ter razão.
- Me desculpe, mãe, eu estava distraído. A viagem é cansativa, cê sabe como é, me desculpe, pode repetir a pergunta, por favor? – não é a melhor das minhas respostas, mas, pelo menos, garante uma efêmera bandeira de paz na ameaça de uma iminente guerra familiar.
Mamãe faz um ‘hum’ repreensivo, mas o semblante austero aos poucos se desfaz: estou temporariamente perdoado. Ela realinha seu novelo de histórias, retorna didaticamente ao início de sua palestra:
- Você sabe, né, meu filho, que, depois que a minha mãe, que a sua vó morreu, a família fica muito separada, muito distante, né. Mas a noite de véspera de Natal é sempre a chance de novamente nos reunirmos, né, retornarmos a ser uma família unida, com todos os parentes juntos.
Mentira... antes mesmo de vovó falecer, a família já estava se espalhando, alguns ficavam breves momentos na noite de véspera de Natal só pra representarem seu papel, mas percebia-se o ar pesado, um ou outro sorriso amarelo de ser ocupado demais pra se manter ali estático e o semblante de alguém que apenas automaticamente cumpria sua obrigação. Após uma rápida aparição, percebia-se também no semblante do parente que inventava uma desculpa e saía mais cedo da festa um certo ar de alívio enquanto se despedia. Penso em tudo isso, mas nada digo, mantenho o olhar atento para minha mãe, não posso deixar que ela me pegue novamente distraído, seria a declaração da pior das guerras, onde tanto eu quanto ela sairíamos feridos.
- Sei... – comento vagamente, apenas para que ela me veja consciente de suas palavras e prossiga com a narrativa, cujo final já conheço de cor.
- Então... Nesse ano, como nos outros, a família decidiu novamente se reunir na casa da sua tia Esmerendinalva, pois é a mais próxima, a melhor localizada pra todo mundo.
Mentira também... Qualquer casa seria um bom local. A ‘família’, a mesma que, nesses quase dez anos, jamais me visitou em Dilmópolis, decidiu pela casa da tia Esmerendinalva, porque ela foi a primeira a oferecer o espaço para as festividades da véspera de Natal, após a morte de vovó. A única coisa que a ‘família’ mantém realmente como tradição é o lance de delegar funções vitalícias a um dos parentes, como um patrão atira algumas de suas responsabilidades em cima de um encarregado: foi assim quando deixaram mamãe responsável para cuidar de vovó até seu falecimento, enquanto os demais filhos e netos nos visitavam esporadicamente, quase sempre ignorando as reclamações e alertas que mamãe fazia sobre o estado de saúde de vovó; é assim agora com a tia Esmerendinalva, promovida a anfitriã da familiar festa de véspera de Natal e será sempre assim que resolveremos os assuntos e necessidades pendentes das reuniões familiares: delegando a dor do parto a uma Eva, enquanto os demais usufruem do Éden. Penso nisso e, às vezes, me escapa um ar magoado, mas nada disso deve ser novamente falado em voz alta por mim, como já fiz em momentos anteriores, pois, nesse tiroteio de verdades, somente mamãe e eu sempre sairemos feridos.
- É verdade... – comento mais uma vez vagamente, me esforçando pra que não soe irônico. “Mentiras sinceras me interessam”, já diria Cazuza. Que mamãe continue com a narrativa.
- Então, meu filho... você vai comigo na festa de Natal na casa da tia Esmerendinalva, né, Artur? – o segundo vocativo sem a palavra filho já é um aviso de que ela mais uma vez me deserdaria se eu ousasse dizer não como fiz há uns 7 ou 8 anos atrás. Até hoje me arrependo daquela negativa – ao invés de ficar com a ‘família’, fui beber com os amigos; acordei no dia 25 de dezembro com uma baita ressaca, abraçado a um dos reis magos capturado no presépio montado pela Prefeitura no centro da cidade. Encarar mamãe naquela tarde de 25 de dezembro foi como esfaquear minha própria alma: me senti tão culpado que até achei que cresceram novos cabelos brancos na cabeça de mamãe por causa de minha heresia com as reuniões sagradas familiares. Ela não falou quase nada comigo, o silêncio repreensivo dela trazia todas as condenações dos anjos do apocalipse. Não dito, mas maldito e feito: passei por um dos piores anos da minha vida e o destino só aliviou minha via crúcis quando, no ano seguinte, voltei a frequentar as festividades de véspera de Natal na casa da tia Esmerendinalva.
Enquanto relembro isso, mamãe me encara. Percebo sua agitação nas mãos que espantam algum mosquito invisível – mamãe sempre foi uma péssima atriz quando o papel lhe exige uma calma impossível, que o tempo lhe transformou em serena impaciência. Pra ganhar tempo na peça teatral que ensaio, acendo um cigarro. Queria confessar a mamãe que, nestas festividades familiares, me sinto como a velha do conto “Feliz aniversário”, de Clarice Lispector, considerando todo o mundo ao redor como algo desfigurado, enfraquecido e desmoralizado. Enquanto coloco o isqueiro sobre a mesa de centro após acender o cigarro, revisito o olhar de mamãe: nos olhos dela, repousa a estrela guia que leva todos ao Menino Jesus; queria ter um terço do brilho eterno que os olhos dela mantém, apesar de todos os percalços que a vida lhe impôs; sim, queria, como ela, continuar a acreditar na bondade absoluta e no infinito que fazem os olhos dela brilharem tanto a ponto de, às vezes, me cegar.
Finalmente, consigo atirar-lhe um sorriso perfeito de eterno menino, filhinho da mamãe, e lhe respondo:
- É claro que eu vou contigo, né, mãe!
Mamãe sorri. E este sorriso é o poema mais belo que nenhum poeta do mundo seria capaz de reproduzir. Nem sempre fui um bom menino, mas, agora, com quase quarenta anos, prometo ao Papai Noel da minha consciência que vou me comportar. E meu único pedido de presente é poder preservar este sorriso de mamãe por toda eternidade em todas as vésperas de festividades de véspera de Natal na casa da tia Esmerendinalva.

Um comentário:

  1. É, como eu, Artur também já deve ter chegado até a beira do abismo e olhando para ele foi enxergado pelo mesmo, para dizer que como nas festividades familiares, se sentia como a velha do conto “Feliz aniversário”, de Clarice Lispector, considerando todo o mundo ao redor como algo desfigurado, enfraquecido e desmoralizado, pois é como me sinto. Algumas coisas perdem o sentido de seu sentido quando somos olhados pelo abismo.
    Belo conto, poetamigo, Carlos!
    Que no ano vindouro você possa continuar nos abrilhantando com seu talento.
    Bjim

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