segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Solidões Crônicas Compartilhadas: O sublime amor de poucos ais de Paulo Ras

Enquanto alguns preferem delimitar seu poder de voto em eleições insossas, como escolher entre Dilma ou Aécio (ou seja, entre porco e toucinho), prefiro eleger, sem risco de segundo turno (ou seja, sem dúvidas), as manifestações artísticas fodásticas dos escritoramigos. Por isso, hoje tenho o prazer de compartilhar mais uma vez minhas solidões poéticas com o mais-que-fodástico escritoramigo paranaense Paulo Ras, residente em Paranaguá/PR.
Nesta postagem, trago uma das mais fodásticas crônicas de Paulo Ras, “Era um amor de poucos ais”, selecionada no rigoroso Prêmio Escriba de Crônicas de Piracicaba/SP 2014. Destaco que este prêmio é um dos concursos literários mais seletivos, ou seja, a crônica de Paulo Ras é comprovadamente, no mínimo, super-ultra-brilhante, uma obra-prima do gênero, com estilo sublimamente lírico, daquelas obras primas de dar inveja aos mestres desse estilo Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.
Jamais percamos nossos rumos lírico e nos lembremos sempre, amigos leitores: seja qual for a eleição ou não-eleição, eleja sem medo a Arte Sempre, pois só ela pode nos transformar e trazer alguma magia pra nossa maçante rotina. Após passarmos pelo primeiro turno dos maus tratos com as palavras, após sobrevivermos à primeira fase das eleições das mentiras sem poesia, fiquemos com mais uma apaixonante obra-prima lírica de Paulo Ras, amigos leitores!

Era um amor de poucos ais.

A caminhada pelas ruas. As conversas sem sentido. Os passos sem destino. Tudo era uníssono naqueles dias. Os desejos, as palavras, os murmúrios. Amor de eternidade, dizia ele. Amor de vidas, acreditava ela. E tudo neles se enchia de sons, de cores. Era a vida se multiplicando, um azulado aquarelado no horizonte, um sorriso de sol na boca do destino. Um amor poético, pensava ele. Um amor de sussurros, murmurava ela, com os lábios entreabertos, os olhos fechados, enquanto a brisa abusada lambia o cabelo solto, o pescoço ávido, o corpo morno. Parecia o beijo daquela boca que ela tão bem conhecia, parecia as mãos cujas digitais ela já decorara. E nisso tudo ainda há desejo, ela repetia milhares de vezes, talvez tentando se convencer de que tudo aquilo era tão verdadeiro quanto mágico.
Era um amor de muitos horizontes. Todos tão belos quanto infinitos. As mãos dadas. Os dedos entrelaçados. Os olhos sem desvios. As vidas em rota de colisão. O tato, o cheiro, o gosto, o calor. Tudo era complexo, qual um idioma morto, latim ou sânscrito talvez, e que apenas os dois pareciam compreender – e era o que acontecia. Então, como poderia um amor ininteligível sobreviver em um mundo globalizado? Vai ser eterno, era a fé dele. Será imenso, era a certeza dela. E nesse mundo em que se enclausuraram, nada mais que sonhos podia entrar, nada mais que desejos poderia crescer.
Era um amor com cheiro de café da manhã. Da visão etérea da fumaça se espalhando pela casa de amar. O aroma se perdendo entre as torradas preguiçosas, dentro das manhãs quentes, tudo impregnado de camadas generosas de geleia de amora e de requeijão. E nada light - lembrava ela, com aquela voz hipnotizante e lânguida que apenas as doces amadas que vão receber o desjejum na cama sabem ter - afinal, de saudável basta você meu amor! E a faca corria pela superfície áspera do pão quente. E o amor corria quente pelo coração antes áspero. O café servido. O corpo nu se desenrolando das cobertas, os cabelos soltos, o cheiro de prazer amanhecido. Tudo era tão simples, refletia ele. Tudo é tão maravilhoso, filosofava ela, e o café está delicioso. E antes que a dona dos mimos suspirasse, antes que ela chorasse, ele simplesmente a beijou, como desejava fazer por todas as manhãs pelo resto da vida. Um beijo de café forte, de amor puro, das coisas impublicáveis que a madrugada nervosa jamais esqueceu.
Era um amor desses, pensava ele.
Que a gente nunca encontra, refletia ela.
E os dois, de pensamentos em punho, se deitaram no leito, e ali, com os olhares fixos, nasceu a certeza que às vezes aquilo que não se encontra, existe. E que uma pitada de sorte e destino é essencial para quem quer se perder em amores.
Paulo Ras


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