quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Introduzindo o Foda-se: O julgamento de Augusto

Às vésperas da véspera do lançamento de meu oitavo livro, “Foda-se! E outras palavras poéticas...”, que acontecerá no sábado, dia 11/10, às 15:30h, durante a II Feira Literária de Valença/RJ (II FLIVA), na Arena de Eventos (ao lado da rodoviária), no centro de Valença/RJ, trago aos amigos leitores uma prévia do livro: o esquete “O julgamento de Augusto”.
O desenho da capa de trás, feito por Denis Pereira,
é inspirado no esquete que compartilho hoje
“Opa!”, dirá o leitor distraído, “Mas isso é um esquete; não é um poema; o livro não era de poemas?” Sim, amigos leitores, o livro “Foda-se! E outras palavras poéticas...” é minha sétima obra de poemas. Mas, o leitor mais atento, que conhece um pouco minha louca lucidez, sabe que minhas últimas obras trazem um gênero híbrido (ou seja, misturado a outros gêneros) ou ‘multinãorotulável’ (ou seja, ampliado por diversos gêneros): em 2010, no meu primeiro livro de contos, “Diários de Solidão”, os contos eram entremeados por microcontos líricos que intertextualizavam com versos conhecidos das diversas fases da literatura brasileira e portuguesa, além de o livro ainda trazer o poema “Pinóquio Apaixonado” e ser encerrado com o fragmento de um poema fodástico de Roberto Esteves Siqueira Jr.; em 2013, no livro “Bebendo Beatles e Silêncios”, os rock poemas em tributo poético ao ex-beatle George Harrison eram entremeados por contos nos quais o eu lírico conversava com o ex-beatle num bar da minha semi-inventada Shangri-lá (o nome deste lugar lírico-inventado já aparecera em meu quinto livro “Eu e Outras Províncias”, de 2008)... Agora, em 2014, neste meu oitavo livro, os poemas são entremeados por esquetes que informam, vagamente, as mudanças de temas do livro, até os versos se alongarem como os poemas de Álvaro de Campos, que beiram a prosa poética, além de que todos os textos virão com uma epígrafe de letras de músicas, poemas, contos e romances diversos, quase que preparando para o que virá no poema correspondente ao diálogo de textos. Ou seja, o esquete que compartilho com vocês hoje é uma das ‘peças’ introdutórias do livro, como eu disse, um prévia do que virá em “Foda-se! E outras palavras poéticas...”
Espero que gostem (se bem que, se não gostarem também, espero que se fodam... rs). Bom Foda-se pra vocês e Arte Sempre, amigos leitores!

O julgamento de Augusto
(Peça introdutória)

“Anjo bom, anjo mau”
Lobão, Cartola e Cazuza , “Azul e amarelo”

            A peça se passa no Tribunal Celeste, cujo ambiente é o mesmo de um tribunal real. O JUIZ está em sua bancada - uma venda negra cobre seus olhos (parecendo com a imagem da Justiça).
            Entra o anjo AUGUSTO com suas asas brilhantes, acorrentado e escoltado por um Guarda Divino até  o centro do Tribunal. Inicia-se o Grande Julgamento.

            JUIZ: Augusto Rimbaud Azevedo Sousa dos Anjos, você está sendo acusado de perturbação da Sagrada Paz Celestial. O réu tem alguma coisa a declarar?
            AUGUSTO: Tenho: Foda-se!
            Guarda Divino aperta AUGUSTO, repreendendo-o.
            JUIZ: Gostaria de lembrar ao réu que qualquer coisa que o senhor disser neste Tribunal poderá agravar sua situação no julgamento.
            AUGUSTO: Mas eu disse apenas “foda-se”.
            AUGUSTO recebe nova repreensão do Guarda Divino.
            JUIZ  (irritado): Eu não admitirei que o réu desrespeite a autoridade deste Tribunal Celeste.
            AUGUSTO: Ora, senhor Juiz, há pessoas ganhando dez vezes na loteria em uma semana, deputados ganhando mensalidades para votarem leis, governantes explorando contribuintes, empresas explorando trabalhadores, existem tantos desrespeitando a vossa autoridade e eu serei condenado por um simples foda-se?
            JUIZ (levanta-se e aponta para vários lados. Como seus olhos são vendados, ele nunca localiza o réu): Retire esta palavra de baixo calão desse Recinto Celestial ou serei obrigado a condená-lo sumariamente por desvio de Conduta Celestial!!!
            AUGUSTO: Não posso negar o que herdei, Senhor Juiz. Foda-se é minha vida. Há tanta impunidade nesse mundo, Senhor, tanto desrespeito, tanto egoísmo, tanto mal, e eu tento ser bom, tento respirar nesse mundo de poeiras escondidas nos tapetes que pisamos. Então digo: “Foda-se!” e encaro o mundo. Foda-se é uma forma poética de sobreviver sem enlouquecer, Senhor.
            JUIZ (bate o martelo): Silêncio, senhor Augusto! As acusações que recebi sobre sua conduta neste mundo são gravíssimas. Primeiro: o réu é acusado de estar em companhia de uma mulher em lugar proibido.
            AUGUSTO: Mas era apenas uma boate, Senhor.
            JUIZ (com ar ofendido): Uma boate, ainda ousa admitir sem nenhum remorso que era somente uma boate? Que anjo o réu pensa estar sendo freqüentando antros de luxúrias?
            AUGUSTO (com ar deslumbrado): A música estava boa. Tentei me manter afastado, mas a música me chamava, Senhor. Já ouviu alguma vez o seu coração bater forte, tão forte que se perde o controle do resto do corpo, Senhor?
            JUIZ (constrangido): Quem faz perguntas aqui sou eu, senhor Augusto. Não sabia que tais antros de luxúrias lhe são proibidos?
            AUGUSTO: Já foi lá, Senhor Juiz?
            JUIZ (misto de ofendido e constrangido): Nã-Não. Ora! Claro que não! Que absurdo!
            AUGUSTO: Então como pode julgar assim o lugar, Senhor? O pré-conceito é um crime previsto no Estatuto Celestial...
            JUIZ (muito embaraçado): Ora! Quem pergunta e acusa aqui sou eu. Ponha-se no seu lugar.
            AUGUSTO: Tire as algemas e ponho-me no meu lugar: na minha casa.
            JUIZ (irritado): Continua me desafiando, seu rebelde?
            AUGUSTO (revoltado - Guarda Celestial não consegue controlá-lo): Rebelde! Rebelde por quê? Por que não digo “sim, Senhor, sim Senhor”? Por que não conservo a Hipocrisia e Alienação Celestial? Por que o Senhor não admite que, como a moeda possui dois lados, nossas ações não admitem duas interpretações? Por que tudo que o Senhor diz tem que estar certo? Se está certo, por que tantos presos, tanto medo, tanta dor oculta no peito? Por quê? E, afinal, por que tenho que chamá-lo de Senhor e não de você, se somos iguais perante a Divina Lei?
            JUIZ: Ora, jovem insano! Como ousa?... (pausa embaraçado) O réu ainda beijou uma humana!
            AUGUSTO (sorriso e olhar brilhante, sonhador): Mas ela era tão linda, senhor. Tinha lábios de sonho e perfume de ninfa. Eu a desejei... ela me desejou... foi recíproco, senhor!
            JUIZ: Anjos não beijam mulheres - ainda mais anjos novos como o réu!
            AUGUSTO: Mas e o desejo, senhor? Essa chama, esse inferno de amar em meu peito, senhor? Ficar a vida inteira me queimando por dentro, viver pensando em tudo que poderia ter sido e não foi?
            JUIZ: Cortaremos suas asinhas, Augusto.
            AUGUSTO: Podem cortar! De que adiantam asas se não posso voar?
            JUIZ: O réu também foi visto fumando o cigarro proibido...
            AUGUSTO (sutilmente debochado): O cigarro proibido já é legal há muito tempo, senhor. Está em todas as esquinas celestes. Pequei, confesso que pequei, fui fraco, senti-me um fraco. Mas que regras são essas que me condenam? Eu não criei estas regras, não ajudei a criar estas regras, já nasci condenado; um anjo torto a tropeçar nos alienados terrestres.
            JUIZ (irritadíssimo, bate o martelo): Basta! (como usa vendas e não vê o réu, aponta para todos os lados, com um semblante de raiva) O réu é culpado, culpado, culpado! Culpado e condenado à perda das asas, a 100 anos de trabalho assalariado e fica, a partir desta data, desempregado do cargo especial de anjo da guarda. Declaro encerrado o julgamento.
            AUGUSTO: Só mais uma palavra, senhor.
            JUIZ (entediado): Fale, condenado Augusto...
            AUGUSTO: Foda-se!

            Augusto é levado do Tribunal  Celeste pelo Guarda Divino


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