segunda-feira, 28 de julho de 2014

Crônica Machadiana Premiada: Sobre (e sob) os feitiços de um velho bruxo

No meio de um dia nublado e ainda meio chateado com um evento cultural com público um tanto frustrante (depois de alguns sucessos na tour por outras cidades, voltar à sua cidade lírica de origem e receber uma certa indiferença é meio estranho, ou pior, muito estranho), finalmente uma notícia que trouxe um bocado de luz e calor para um dia aparentemente melancólico. Recebi um e-mail com a seguinte mensagem:
"Prezado Carlos Brunno S. Barbosa (Pseudônimo: Joaquim Brás de Assis)
É com imensa satisfação que comunicamos que sua Prosa: “Sobre (e sob) os Feitiços de um Velho Bruxo”, categoria: de 19 a 39 anos, foi classificada em 1º lugar no Concurso de Poesia e Prosa da Academia de Letras de São João da Boa Vista – SP, Edição 2014.
Solicitamos que nos envie novamente todos os seus dados para conferência.
A premiação será dia 27 de setembro deste ano, às 20 horas em local a ser definido.
Precisamos de sua confirmação na participação da solenidade de entrega dos prêmios.
Parabéns!
Silvia Ferrante – Coordenadora do Concurso 2014
Lucelena Maia – Presidente da Academia de Letras de São João da Boa Vista – SP"
Yeah, amigos leitores, mais uma filha-crônica-prosa-poética classificada! E, como é de praxe, compartilho com vocês o texto premiado, inspirado na contemporaneidade das obras de Machado de Assis. Essa crônica-prosa-poética me surgiu em 2008, no centenário do escritor, depois de ouvir muitos acusarem que a obra de Machado de Assis eram "ultrapassadas", "de outra realidade", "chatas", etc. Parti em defesa desse mais-que-fodástico escritor brasileiro, mestre de uma ironia e críticas únicas e atemporais. O escrito permaneceu inédito até o momento (6 anos!), pois sempre acreditei que ele merecia algum destaque em concursos literários. Concorri teimosamente com o texto, até que, por alguma benção do Velho Bruxo do Cosme Velho, ele foi premiado.
O sonho recheado de loucura lúcida permanece vivo e vitorioso, amigos leitores! Saudações Machadianas e Arte Sempre!

Sobre (e sob) os feitiços de um velho bruxo
           
Perto de minha casa, há um homem triste, fechado para o mundo como um Dom Casmurro. Dizem que desconfiava de sua mulher, dizem que o filho, fruto do conturbado matrimônio, é a cara do melhor amigo daquele triste homem. Talvez tudo se resolvesse com um exame de DNA, talvez fosse apenas paranóia dele, talvez tu, amigo leitor, leias um e-mail em que esse ser casmurro revele toda a vida dele, com uma visão muito íntima de todos os acontecimentos. Talvez ele te convença, talvez desconfies dele. Mas uma coisa te assustará, prezado leitor: o ciúme – tão defendido pelo homem triste – não te será desconhecido. Na verdade, tu, estupefato leitor, te surpreenderás observando com olhos desconfiados a tua senhora, deletarás o maldito e-mail, porém – ainda mais assustado – perceberás que os sentimentos humanos não se apagam.
            Sim, contemporâneo senhor, atravessas o mundo com pés formatados no século XXI, mas os teus dramas humanos, a essência de tua vida trai qualquer inovação tecnológica. Triste ironia machadiana! Por mais informatizado que se declare o universo, o ser humano ainda é primata em seu âmago.
            E nesse momento de absoluta perplexidade e autoconhecimento, lembrarás daquele defunto político, cuja trajetória humana não acrescentou nada para a História dos mundos, apesar da lápide que anuncia seu passamento indicar com todo pesar a falta que esse bom homem nos faz. Recordarás de alguns discursos ínfimos e grandiloqüentes daquele alto funcionário do Estado e perceberás que, há tempos, a nossa elite desfila com a máscara pedante da hipocrisia. Tonto com as lembranças, tu, atrasado leitor, te conscientizarás que existem mais Brás Cubas na terra do que a vã filosofia celeste poderia imaginar.
            Mesmo assim negarás esse espelho de tua sociedade, porque também te verás refletido nele. Eis os vermes da hipocrisia em ti, pudico leitor, eis um novo tema para um velho conto de Machado de Assis e, finalmente, eis a literatura comprovando a lei de Lavoisier: na natureza (se me permites, acrescentarei a palavra ‘humana’ no nobre pensamento do renomado físico) nada se cria, tudo se transforma. Vestimo-nos com novas roupas, novos nomes, porém nossos corpos ainda carregam as mesmas indumentárias, as mesmas sensações. Se algo mudou de alguns séculos para cá, foram as máscaras, pois as almas continuam as mesmas: humanas, perigosamente humanas.
            Ainda há amantes que procuram cartomantes para fugir de seus fatídicos destinos, enfermeiros que maltratam pacientes, professores que servem de agulhas para alunos-vestidos, pessoas que amam, pessoas que traem, ainda há pessoas. Sinto informar-te, impaciente leitor, mas ainda somos humanos. Os feitiços do velho Bruxo do Cosme Velho ainda funcionam. Em vão deixarás as traças roerem os ‘antiquados’ livros de Machado de Assis, pois os jornais, que lês enquanto tomas o magro café da manhã, ressuscitarão as páginas perdidas da machadiana e triste, porém nossa, realidade.
            Por isso, invoco-te, provoco-te, convoco-te, incauto leitor: se queres assumir a verdade secular em tua cama transitória, se desejas retirar o cisco da cegueira de teus olhos pós-modernos, olha para trás... Verás a estante empoeirada, os livros de Machado com suas páginas amarelecidas pelo círculo vicioso do abandono e abrirás o mundo moderno para eles. Então perceberás que os universos se comunicam, que certas denúncias da mazela humana se eternizam, e que, finalmente, acordas pra vida real, sonolento leitor! 

Joaquim Brás de Assis (Pseudônimo usado por mim em homenagem a Machado de Assis)


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