sexta-feira, 13 de junho de 2014

Sobre Perdas, Danos e o Porquê de Tamanha Tristeza

A postagem de hoje deveria ter sido postada no dia 11/06, mas devido aos problemas citados na postagem anterior, publico hoje, afinal os sentimentos continuam os mesmos (só mudou o fato de que a série "Cem Poemetos de Solidão", ao invés de um dia, ficará suspensa por 3):


Sobre Perdas, Danos e o Porquê de Tamanha Tristeza



“Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira”
Renato Russo



Há alguns dias, tenho tentado evitar tocar em alguns assuntos e, consequentemente, tenho burlado a característica principal desse blog, que é ser um diário lírico de impressões poéticas da nossa solidão coletiva de cada dia. E, por mais que a gente evite, a vida e a morte estão aí, os ganhos e perdas do cotidiano continuam nos alegrando num segundo e nos ferindo durante horas, dias, quase séculos.

Esta semana começou confusa e com ares soturnos: no domingo, próximo do momento de embarcar no ônibus de Valença para o Rio de Janeiro e do Rio de Janeiro para Teresópolis, recebi uma mensagem do pessoal da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, onde leciono. A mensagem informava que Diego Amorim, ex-aluno, formado na escola, filho da professora Sheila, havia falecido aos 19 anos, tão novo, devido a um infarto. Não conheci o jovem; eu não lecionava na escola na época em que ele estudara por aqui, mas é impossível fugir de uma sensação de tristeza e impotência diante de um fato tão trágico. Investigando no facebook, encontrei alguns vídeos do rapaz cantando com amigos – ele tinha uma voz poderosa e harmônica, impossível não se emocionar. “É tão estranho, os bons morrem jovens... Assim parece ser quando me lembro de você”, já dizia Renato Russo.

A viagem de volta a Teresópolis foi dramática – antes ainda, já havia reparado que o artistamigo Zé Pinheiro, pela primeira vez, não se encontrava nas imediações da Rodoviária de Valença; mais tarde, saberia que ele foi mais um que partiu sem dizer adeus...

As aulas na segunda-feira de manhã tinham uma aura enlutada; minha principal característica poética é sugar os sentimentos ao meu redor e, consequentemente, absorvi os ares mais tristes naquele momento. Como profissionais, nos seguramos, afinal era o momento da primeira fase da CEIA (Copa Estudantil Interdisciplinar do Alcino), maravilhoso projeto idealizado pelos gênios da educação, os professores Júnior, de Matemática, e Daniel Coelho, de Inglês, e, por mais que nos faltasse clima, era preciso seguir o calendário letivo, “o tempo não para”, já dizia Cazuza. Aulas diversificadas geram alguma confusão no início, mas talvez sejam as únicas que realmente compensem o ato de avaliar e reavaliar o processo de ensino. Difícil é fazer isso sabendo que, enquanto pomos o projeto em prática, alguém tão novo, tão jovem, está sendo enterrado em outro lugar, vítima de um misterioso ataque no coração. Antes de aplicarmos a prova interdisciplinar, planejada como primeira fase das eliminatórias da CEIA, cada professor conversou com os alunos sobre o trágico momento e oramos. Tentando manter-me firme, conversei com os alunos do 9.º Ano B e fui testemunha de uma cena que eternamente vai me comover: uma das alunas, Isadora, de repente começou a chorar, um pranto incontido, repentino, suas lágrimas marcarão pra sempre minha lembrança desse triste momento. Mais tarde, escrevi o microconto abaixo, inspirado no episódio, em homenagem a Isadora e a todos aqueles que são capazes de se emocionar com as dores dos outros, transformando em coletivo todo drama humano e alheio – sim, há muita poesia na reação repentina de Isadora, muito mais poesia que em qualquer poema que já escrevi. Eis o microconto:



Umidade no cactus



Pensei que viveria deserto. Bastou vê-la chorar pra descobrir-me eterna tempestade.

Carlos Brunno S. Barbosa



Esse início de semana realmente não seria nada bom: as notas da prova interdisciplinar dos nonos anos, para os quais leciono Português, em sua maioria, foram bastante negativas na minha matéria. Impossível, como profissional, não sentir alguma culpa no resultado; por mais que tente me abster, levantando causas, etc., uma nota negativa deles é uma nota de reprovação minha também. A partida da escola para casa foi tão dramática quanto a viagem na noite do dia anterior. Gerou a postagem e relembrança do poema “O (quase) suicídio”, escrito por mim há mais de 15 anos atrás.

Trabalho, música, leitura, limpar e organizar a casa (que vive bagunçada), fui buscando caminhos para ir me recuperando. Ontem à noite, recebi uma ligação do poetamigo Wagner Monteiro, de Valença: “Nosso amigo, Zé Pinheiro, faleceu, Brunno”. Confesso que, a princípio, não acreditei, mas as fichas foram caindo em minha cabeça: pela primeira vez, não o encontrei nas imediações da Rodoviária no domingo; nos últimos tempos, ele falava muito pouco quando nos víamos na Rodoviária; sentimos sua ausência na apresentação do Sarau Solidões Coletivas no evento “Coletivassom 4”, afinal ele sempre apoiou o nosso movimento artístico (aquela voz dizendo “Putaquiariuuuuu”, animando os declamadores que se destacavam era a dele, e pode ser conferida na maioria dos vídeos do Sarau; além disso, ele dava dicas e, de vez em quando, tocava pandeiro, quando os músicos se apresentavam) – o poetamigo Gilson Gabriel chegou a fazer referência à ausência do Zé Pinheiro no último sarau (quando algum aplauso saía meio chocho, ele lembrou: “Tá faltando aquele ‘Putaquipariuuu’ do Zé Pinheiro pra nos animar”). Rodando pelos status dos amigos no facebook, a notícia se confirmou: Zé Pinheiro faleceu. É, o Sarau Solidões Coletivas hoje amanheceu menos coletivo, com uma dor íntima. Minha cabeça parecia pesar. “Como é que a gente pode carregar um cemitério na cabeça?”, já perguntava a letra de canção “impossível”, da banda Biquíni Cavadão. Mais uma vez, tristeza e impotência diante das tragédias cotidianas que parecem não mais cessar...

E, diante da impotência perante o horrível e irreversível sentimento de perda, só posso escrever – as palavras desmancham o branco da página e nos trazem uma ausência menos trágica, mais bela, e, talvez por isso, menos crua e mais eterna.

A crônica-elegia abaixo é pra você, Zé Pinheiro, seja lá onde você estiver:



Putaquipariu triste 
(Sobre as horas perdidas negando a sua partida)



            Hoje cheguei atrasado ao trabalho. Perdi as horas, não programei o despertador, não calculei o tempo, não imaginei que você iria partir sem dizer adeus.

            Há tempos atrás, você me prometera entregar-me um poema seu, escrito em épocas remotas. Em outro momento, me declamou os versos finais, a durabilidade dos troncos das árvores que partem, não lembro ao certo os versos, nem mesmo consigo gravar os meus poemas, quanto mais os de outros autores... agora fico só com a sensação de um poema que se perdeu...

            Me lembro de quando você sorria. Seus momentos com ares sérios e preocupados aparecem nublados, pois tento achar algum sol em tamanha treva. Seus palavrões felizes; dizia um sonoro “Putaquipariuuuuu” com êxtase, o dono máximo e único do bordão mais simples e mais sincero pra aplaudir os poemas e canções que você gostava, o melhor e mais interativo espectador do espetáculo da vida. E, por mais que eu tente o sol, ele não queima, pois sua partida foi noite e só inspirou ao ontem uma chuva fina e fria, fria demais...

            Perdi horas diante da notícia de sua partida tentando reconstruir um poema que você jamais me entregou. E talvez a ausência seja isso: a perda de um poema lindo e impossível de ser restaurado. Perdi horas e me perdi. E aquele palavrão feliz se tornou uma exclamação triste: “Putaquipariu, amigo, por que você se foi tão cedo?”

            Sigo em frente, mas minhas costas sentem o peso de um poema que ficou pra trás, um poema que eu não li, porque você não me entregou. Perdi as horas e me confesso ainda perdido, refém da ausência de algum lirismo que você levou consigo. Queria dizer pra você mais uma vez “até logo”, mas a ausência de calor nos dias insiste no adeus...

Perdi as horas hoje, amigo, pra tentar reencontrá-lo vivo, mas os relógios rejeitam traquinagens com o tempo. Putaquipariu triste, amigo... o seu poema perdido, o trágico de repente, é hora de dizer adeus e não consigo encerrar essa crônica-elegia porque não quero confessar a sua partida. Putaquipariu triste, amigo perdido, não sei mais o que dizer...

Carlos Brunno Silva Barbosa



Lamento, amigos leitores, mas o blogueiro que vos fala está de luto e, por esse motivo, não haverá outra postagem hoje – nem poemeto de solidão, nem solidão compartilhada, nem velho poema juvenil, nem mesmo nada, apenas a sensação de um poema próximo que não veio, a tristeza pelos amigos, conhecidos e desconhecidos, que partiram sem dizer nem ao menos adeus...

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