terça-feira, 6 de maio de 2014

Às vésperas dos 35 anos, o blogueiro relembra: Não cantamos mais rock'n roll

Valença e eu
Toda vez que o blog ou o blogueiro que vos fala fazem aniversário, busco trazer uma reminiscência, uma lembrança vaga de meu passado, dos primórdios de minha escrita. Hoje é um exemplo do segundo caso citado, ou seja, estou ás vésperas de fazer 35 anos (fico pensando que Deus realmente existe, pois só um ser divino pra aturar minha existência petulante durante tanto tempo). O fato é que, em todo período da proximidade de mais um aniversário meu, diferentemente de outras pessoas, corro de comemorações, festejos, etc; ao contrário do clima festivo, sinto sempre a minha eternidade esvaindo efêmera pelo ralo do tempo implacável, fico extremamente reflexivo, vejo minha vida toda passando em segundos na tela da memória, yeah, crise de meia-idade sem a tal da meia-idade. Por isso, tantas lembranças de outros tempos – o passado me persegue e me condena para o bem ou para o mal; só sei que me torno um receptáculo desesperado de crises existenciais e, talvez, por isso, esse pavor de festas de aniversário (às vezes, raras vezes, consigo controlar).
Hoje retorno a 1994, ano em que despertei para a poesia por livre e espontânea pressão. Eu tinha meus quatorze para quinze anos, estava no primeiro ano do ensino médio (na época, chamado de segundo grau) no Colégio Theodorico Fonseca, em Valença/RJ, não era nenhum aluno genial, meio melancólico e muitas vezes apático (sinceramente, queria encerrar logo meu encarceramento na jaula da escola – hoje estou professor, com previsão de nunca mais largar a área da educação; como o destino e nossos íntimos são sacanas com nossos eus, né, amigo leitor), mas tirava ótimas notas, principalmente em Português e Literatura, razão pela qual, é claro, fui chamado de CDF (o mesmo que nerd, nos tempos atuais) e, por mais que eu tentasse ficar na minha misantropia, sempre tinha um estranho da sala me pentelhando, a fim de pedir cola, dar apelidos, etc ( é, eu não era dos mais sociáveis, principalmente por dentro, sonhava que estava sempre longe dali).
Seja como for, as aulas da professora de Português e Literatura, a Dona Ieda, me despertaram pra poesia. Eu já fã-nático por canções do pop rock nacional (nas últimas folhas de meu caderno, eu sempre anotava letras de músicas desconhecidas do Capital Inicial, entre outras bandas, sempre colocando os devidos créditos dos compositores – por favor, Dinho Ouro Preto, Alvin L. e cia, não processem aquele adolescente que sempre destacou as composições de vocês com todos os créditos, por favor), sim, eu era apaixonado pelas letras de música do rock nacional e das traduções de baladas de Bon Jovi, Guns e canções grunges do Nirvana e cia (como, na época, não havia Google Tradutor, ou se comprava uma revista de cifras e letras traduzidas ou se traduzia na marra, com um parco dicionário de português-inglês e muita criatividade pra sacar gírias, etc). Mas nada se comparava à paixão com que Dona Ieda declamava Camões e cia., putz, eu pensava, o que aquela senhora tava vendo naqueles sonetos que eu não conseguia ver? Além das letras de música, passei a pesquisar e me envolver com poemas. Era uma paquera apenas; até então não havia escrito um só versinho que alimentasse uma estrofe satisfatória para um poema decente.
Então veio a notícia de mais uma edição do Concurso Intercolegial de Artes e, é claro, havia a categoria Poesia. O Colégio Estadual Theodorico Fonseca era um rival ferrenho do vizinho Instituto de Educação Deputado Luiz Pinto e, seja qual for o tipo de competição, eles disputavam em número de competidores, separavam grupos pra vaiarem os adversários, o surgimento de qualquer tipo de concurso era uma verdadeira declaração de guerra entre as duas escolas e todo alistamento para a frente de batalha era quase que obrigatório. Foi aí que alguém dedou erroneamente que eu escrevia poemas em meu caderno (as pessoas viam um punhado de versos e, na cegueira da competição, nem viam, nem me deixavam justificar que eram letras de música de outros autores – vinha sempre aquela regra maluca que “se você é bom em Português tem que ser bom em poema”. Com o apoio da professora Ieda e a pressão dos demais colegas de classe, fiz a inscrição sem ter escrito um poema sequer até o momento. Então tudo pesou: como eu admirava a Dona Ieda, não queria fazer feio frente á professora, mais a pressão dos colegas, cercos dos rapazes, solicitações das garotas, ok, eu resolvi começar a minha carreira de poeta, menos por gosto e mais por necessidade de que todos parassem de me encher o saco. A mesma pressão fez com que meus colegas, também considerados CDFs, o Carlos Rodrigo e o fodástico André Diniz (esse tinha muito mais veia poética que eu, mas um amor contrariado e algumas decisões íntimas dele fizeram o cara que poderia ser o maior poeta vivo valenciano abandonar a carreira precocemente) também se alistassem na categoria Poesia.
Como amante do rock n’roll e por estar ouvindo direto a canção “21” do Capital Inicial, somado à perda de vários ídolos do rock como Kurt Cobain, fiz o poema “Não cantamos mais rock’n roll”, meio rimadinho como letra de canção; nem melhor, nem pior, apenas era o meu primeiro poema (e, como já disse, diferente de mim, André Diniz fez um poema mais-que-fodástico, bom demais, cara; sem ironia, não me lembro de um verso além do corpo faminto caindo sobre as medidas de extensão do Brasil – mas não lembrar não significa não admirar aquele poema, afinal não me lembro nem dos meus até hoje; sei que era foda e eu pensei: ta ganho o concurso; o André Diniz vai ganhar, pra alegria de todo estudante do Colégio Estadual Theodorico Fonseca, o colégio leva a taça!).
Eu com o
macacão
surrado
e o velho
tênis
rasgado
Com a sensação de que eu seria apenas um figurante do evento e com o primeiro poema nas mãos, veio-me a primeira atitude de subversão: se eu iria declamar um poema sobre rock’n roll e fora dos limites da escola (o concurso aconteceu no então ainda inteiro, Teatro Municipal Rosinha de Valença, muito antes das administrações porcas de Fábio Vieira, Vicente Guedes e sua corja), se ninguém poderia me censurar, então decidi rasgar meu macacão jeans, usar meu tênis mais furado e surrado e me apresentar com estilo. Meu poema, que já não era grandes coisas e ainda falava de sexo, drogas, alcoolismo juvenil, etc, é claro, não classificou pra final. Até aí tudo previsível – o que eu não esperava era que o poema do André Diniz não classificasse e perdesse a vaga pra uns poemas sem nenhuma rima rica e/ou figura de linguagem ou qualquer recurso estilístico bem elaborado como no dele. Resumo: classificou para a final e ganhou o segundo lugar um poema em homenagem a Ayrton Senna e ao jogador Dener, recentemente falecidos em acidentes automobilísticos; o júri se compadeceu da dor popular e, na minha visão, não analisou a precária qualidade do poema; eles não entenderam o André Diniz e esse foi o primeiro passo pra ele desistir da poesia.
Ao contrário do André, peguei as dores dele pelo resultado escroto (quase cem por cento dos classificados tinham sobrenome pomposo; isso já me avisava dos quesitos valorizados nos padrões de qualidade artística do júri e, com tempo eu descobriria, o olhar valenciano de valorização de uma obra) e entrei na briga por uma manifestação artística mais madura e consciente (entrei na briga; ainda não quer dizer que ganhei a luta, até porque a rinha lírica com as palavras é um desafio eterno) . Passei a devorar livros didáticos inteiros de Literatura, analisar as escolas e estilos, namorar mesmo a poesia, conhecê-la até a contemporaneidade, ver todos os poetas que a conquistaram e, separando o bom e ruim de cada estilo, juntei com minha personalidade, e então o tempo passou, no ano seguinte ganhei Menção Honrosa no Concurso Estadual da Biblioteca Euclides da Cunha (hashtag chupa poeta ruim do Intercolegial!), alguns livros lançados, concursos ganhos, outros perdidos, e cá estou, como eu disse, sem saber bem se fiz bem ou mal em me apaixonar e me dedicar pela arte poética. Sei que vou seguindo, insistindo; isso me mantém vivo, evita que eu pense em suicídio (sempre tive essas tendências na minha tosca cabeça), permite que eu ‘comemore’ mais 1 ano de vida e vícios. Vida que segue – agora é resistir mais 1 ano pra poder contar novos segredos aqui no blog rs Um dia ainda encontro aquele lirismo fodástico que o André Diniz aparentemente abandonou.
Abraços, amigos leitores, e Arte Sempre!

Eis o meu primeiro poema, publicado dez anos depois de escrito, no meu quarto livro “O último adeus (ou o primeiro pra sempre)” (2004):

Não cantamos mais rock’n roll

Há muito tempo que não cantamos mais rock’n roll
Há muito tempo que o último grito de revolta se calou
Mastigado pelo silêncio dos vícios

Juventude perdida
Na dose excessiva
Da mesma bebida

Há muito tempo que pensamos nos anos
Em tudo que passou
A vida
O sexo
As drogas
O rock’n roll
Há muito tempo que apenas pensamos

Juventude perdida
Lá se vai
A última gota
Daquela bebida...

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