segunda-feira, 7 de abril de 2014

Por uma nova ordem (ou desordem?) musical: Yeah, eu fui no Lollapalooza 2014!

Mais uma vez me organizei para ir ao Lollapalooza. Escolhi ir ao festival o domingo, 6 de abril, não tão pleno quanto no ano passado (a nova produtora do Lolla 'inovou' neste ano, inventando batalhas entre grandes shows e deixando meu coração dividido entre o show super-energético da banda de indie rock Arcade Fire e o show não tão animado, mas clássico e plástico da toda poderosa New Order).

Sábado, 5 de abril, correria: tentei deixar tudo em ordem e, devido aos poucos horários de Três Córregos para a Rodoviária de Teresópolis, me arrumo às pressas, depois de organizar quase tudo atabalhoadamente. Na rodoviária, pego o ônibus direto pra São Paulo e aproveito a longa viagem pra praticar minha arte de dormir em ônibus, afinal domingo será um dia longo, vibrante e inesquecível, se os deuses da música me permitirem essa dádiva, e única forma de descansar é aproveitar os horários em trânsito pra descansar a vista e talvez o corpo.

Madrugada e manhã de domingo, 6 de abril, preguiça: desembarco na Rodoviária de São Paulo e dou um tempo por ali – é cedo demais pra iniciar o corre-corre pra chegar ao show. Recarrego o celular numa área reservada pra isso, enquanto descanso ao lado dele no chão; visito lojas, mas não compro nada; como alguma coisa (junk food e café, café, café!); um curitibano perdido me pede informações sobre a rodoviária e, como já sou mestre em passar por aqui, lhe respondo as dúvidas e, por um instante, me sinto um cidadão paulistano; entro na lan house e consulto meus espaços virtuais – nenhuma novidade na net, fora saber que meu time virtual Guesa Errante Futebol Clube perdeu na Liga Golaço após 10 jogos de invencibilidade. Pronto, já enrolei bastante, pego informações das rotas do trem e sigo em direção do Autódromo de Interlagos, novo local do Lollapalooza (até ano passado, o evento rolava no Jóquei Clube).

Fim de manhã e início da tarde de domingo, 6 de abril, excitação: depois de passar por três trens, andar um bocado, passar por vários guichês (de revista, autenticação do ingresso, etc), chego ao novo espaço do Lollapalooza. A primeira coisa que faço ao entrar é bater fotos e comprar tickets de comida e bebida (ano passado, passei um aperto em filas enormes, por ter deixado pra comprar depois). Depois corro pra assistir ao show da musa pop venezuelana Francisca Valenzuela, no Palco Skol. O show da cantora é animado, meio performático, o pop que ela representa não é dos estilos que mais curto, mas não me desagrada nem uim pouco: a artista tem estilo, uma voz potente, boas canções e conquista a simpatia do público, ainda pequeno por se tratar de um dos primeiros shows do dia. O sol escaldante avisa que será um dia quente (na minha mochila, a capa de chuva, companheira de outros festivais, dorme tranquila e inútil). Aproveito o intervalo de show pra descansar um pouco, me sento na grama (ano passado, saí mancando do Lolla 2013, por causa da ansiedade excessiva e, consequentemente, não me dar os tempos devidos de pausa – já não sou mais um garoto de 16 anos, com o corpo novinho em folha; meus quase 35 me lembram disso toda hora), o sol queima o meu rosto e todas as outras partes expostas de meu corpo, em breve ficarei da cor de um camarão, castigo viável para mim, que não . Aproveito a pausa pra conhecer outras pessoas: ao meu lado, acho uma companhia para os maus vícios, ou seja, fumante como eu (o poeta Mario Quintana afirmava que é nesses momentos de tragadas coletivas que fazemos novas amizades). Seu nome é Lilia ou Lilian (não entendi ao certo, mas não quis perguntar novamente), é de Santo André, o Lolla 2014 é o primeiro festival que ela vai e isso tem um motivo, ou melhor, uma cantora: Ellie Goulding (artista pop super-esperada por uma legião de fãs neste evento, mas, como eu já disse, não é bem o estilo que mais gosto, logo, em breve, Lilia ou Lilian e eu seguiremos caminhos diferentes, mas, como ela própria disse, “o legal desse lance de festival é que cada um tem seu estilo, sem confusão, sem briga, todos curtem”, e assim cada um seguirá a sua trilha musical). Conheço também o jovem, gente boa e louco Hortêncio Lima (ele me repetiu o nome umas 3 vezes durante os momentos em que estivemos juntos pra que eu pudesse gravar rs); também é o primeiro festival dele, mas, diferente de nós, ele já tinha vindo no sábado, estava meio virado, mas com a energia ainda a mil.
Esperamos ansiosamente o show do Raimundos e eles não desapontaram em nada nossa expectativa: fizeram um show vigoroso no Palco Skol, tocaram diversos hits, trouxeram as canções novas – muito boas, por sinal, do novo álbum “Cantigas de Roda” - agitaram muito a galera e, em nenhum momento, pararam de contagiar a galera (de todos os shows que  eu vi, foi o que mais interagiu e que agitou realmente todo o público), rodinhas hardcore se formaram (Hortêncio entrou em todas, eu me arrisquei apenas uma vez – não tenho mais 16 anos, meus quase 35 sempre me lembram disso). Resumindo: o show dos Raimundos foi um dos mais fodásticos do dia, do caralho, puta que pariu – eles tinham afirmado em entrevista ao G1 que esse show marcaria um novo recomeço, uma ressurreição na banda, mas não pensei que seria tão consagrador assim! O vocalista Digão aproveitou pra citar Ayrton Senna (afinal, estávamos no Autódromo de Interlagos, onde o piloto brasileiro tanto se destacou) e agradecer a galera: “É por isso que não paramos, véi, é por vocês, vocês que fazem a gente continuar!” A páscoa dos Raimundos veio uma semana antes da que marca o feriado oficial: a banda, lenda divina do hardcore nacional, está mais viva que nunca! Acho uma pena que sites como o G1, que cobriu o evento, não tenha dedicado nenhuma linha de comentário sobre o fodástico show dos Raimundos no resumo da 2.ª Noite do Lollapalooza. 
Depois disso, Hortêncio e eu nos separamos de Lilia ou Lilian, pois seguimos nossa jornada musical na direção do Palco Ônix, onde já se apresentava o lendário Johnny Marr, ex-guitarrista da fodástica banda The Smiths e atualmente em bom início de carreira solo. O rock tipicamente inglês de Johnny Marr é vibrante, anima o público (principalmente, os mais velhos) e, putz, ouvi-lo ressuscitar velhos e eternos hits do The Smiths é fodástico demais, contagiou todo o público, isso jamais sairá da minha memória musical. Hortêncio, animado, comenta: “Agora entendo de onde vem a musicalidade de ‘Alagados’ dos Paralamas do Sucesso.” Eu poderia ter dito a ele que não só o The Smiths, mas também o Talking Heads e o The Police influenciaram a sonoridade dos Paralamas, mas, em tributo ao fodástico show de Johnny Marr, deixo o guitarrista como principal influenciador dos Paralamas. Johnny Marr continuou agitando o público, porém, no meio do show, Hortêncio e eu nos vemos meio cansados (o show dos Raimundos nos cansou demais, apesar de ter sido uma canseira positiva) e decidimos dar um tempo. Saio da multidão e, quando olho pra trás, cadê o cara? Ambos nos perdemos um do outro – ameaço procurá-lo, mas é em vão, o evento está cada vez mais lotado, encontrar uma agulha no palheiro seria mais fácil. Me sento na grama e descanso um pouco, afinal ainda tem muito show pra curtir. Agora retorno à minha jornada musical solitária.

Meio da tarde até o anoitecer de domingo, 6 de abril: sou um exército de um homem só – Saio do espaço próximo ao Palco Ônix e sigo para o Palco Interlagos, onde tocará a banda ultra-feminista e de rock vigoroso Savages. Não tinha nenhuma informação dessa banda até uma semana atrás, quando esbarrei com um comentário desesperado de uma fã da banda no site do Lollapalloza. Na mensagem, a fã reclamava a falta de comentários da galera na página reservada à banda Savages: “Vamos lá, galera! Como é possível que uma das melhores bandas do Lolla de domingo tenha tão poucos comentários?” Esse fato me deixou meio curioso e decidi baixar o som da banda. Seu ritmo, misto de Joy Division com Siouxsie bastante pesado, me encantou de cara e a Savages passou para a minha lista de shows a serem assistidos no Lolla 2014. Enquanto eu seguia para o Palco Interlagos, a musa pop Ellie Goulding iniciava seu show no Palco Skol; uma platéia imensa já lotava o lugar e mais fãs enlouquecidos se dirigiam para perto do palco. Caminhando na direção oposta à da maioria, me senti um rebelde nadando contra a corrente. Chego cedo ao show da Savages e consigo ficar bem próximo do palco (não tão próximo, pois uma legião ‘savágica’ já a esperava). Quando o show inicia, tenho a impressão de certa timidez da vocalista com o público e percebo que o sol possivelmente castigue as integrantes da banda, vindas de outros ambientes com temperaturas mais amenas, mas tudo isso fica só à primeira vista. Após três músicas e movimentação contagiante da banda, seu rock vibrante já nos hipnotiza, a vocalista já se comunica com o público em português, para delírio dos fã-náticos, sua performance meio Ian Curtis (Joy Division), meio Johnny Rotten (Sex Pistols) relembra bons ídolos de décadas passadas, o som é potente, impossível não se deixar contagiar, tanto a platéia quanto a banda saem satisfeitos com o show, o público aplaude efusivamente e a vocalista sai de palco sorrindo, depois de dar “obrigado” diversas vezes pra galera que animou o espetáculo. 
Saciado de Savages, é momento de Pixies – corro na direção do Palco Skol, entro no meio do público cada vez maior à medida que os shows principais se sucedem. Com muito esforço e jogo de cintura, consigo chegar próximo ao palco, bem no miolo da massa roqueira. O Pixies, bastante criticado por certa apatia nos últimos shows no Brasil e no mundo, veio pra desfazer qualquer má impressão anterior. Fizeram um show antológico, eficiente, recheado de hits que empolgaram a galera; fãs das mais diversas idades cantavam junto com a banda, um momento mágico, um coro acompanhava as dúvidas do vocalista: “Where is my mind”, fora certa timidez da nova baixista, o show foi um dos melhores do domingo, o mais vibrante, rasgado e autêntico rock’n roll, baby, "la la love you"!
Saí do show empolgado pra curtir o rock grunge do Soundgarden no Palco Ônix, porém paguei um preço alto por ter ficado tão próximo dos Pixies no Palco Skol: quando cheguei no palco, onde a banda de Chris Cornell agitava a galera com “Black Hole Sun”, entre outros sucessos, o espaço estava tomado pela multidão e só conseguiria assistir ao show a uma distância imensa do palco. Mesmo com o coração apertado pela perda, virei as costas e decidi tentar uma estratégia nova para que tal fato não ocorresse no próximo show da minha lista pré-concebida: correr para o Palco Interlagos bem antes do show do New Order para que eu pudesse ter uma visão mais privilegiada do espetáculo.

Domingo, 6 de abril, noite brilhante, uma nova ordem: Sei que o Arcade Fire preparava-se para fazer um show antológico no Palco Skol, mas não perderia o New Order por nada no Palco Interlagos, afinal, mesmo menos empolgada que o Arcade, a banda formada após o fim do Joy Division é parte essencial de minha trilha lírico-sonora da juventude (sei que alguns chamam o som deles de ‘música para enrustidos’, lamento, mas é meu ‘mau gosto’ musical, caros críticos machões fãs de bandas metaleiras de cabeludos sarados) . 
Cheguei ao palco Interlagos no final da apresentação do Jake Bugg. Ouvi de forma desinteressada o folk rock do garoto (ele não estava na minha lista de favoritos) e confesso que até houve um pouco de má vontade minha com o som dele, pois eu ainda estava chateado por ter tido que sacrificar o show do Soundgarden. Jake Bugg fez um bom show, apesar de não ter empolgado muito a galera (somente pequenos grupos aqui e ali davam uma atenção devida e vibrante ao show do rapaz), o que resultou numa despedida seca do artista. Na minha cabeça, ficou um verso de uma das últimas canções que ele cantou: “Rock’n roll can never die” (na verdade, a canção nem é de Jake Bugg, e sim uma versão que ele fez da consagrada “Hey Hey My My”, de Neil Young. Lamento por Jake Bugg ter sido ‘incompreendido’, mas minha maior preocupação era chegar o mais próximo possível do palco. E a estratégia deu certo: após o show de Jake Bugg, a platéia dispersou e cheguei bem próximo do limite para o palco – mais uns quatro passos e eu estaria completamente de cara para o espetáculo! 
Após alguma espera e muita expectativa, o New Order chegou, bastante técnico, plasticamente poderoso (o telão exibia diversos vídeos e as luzes eram um espetáculo psicodélico à parte), meio discreto, mas acompanhado por uma platéia empolgada. O vocalista Summer interagia com o público, nem sempre da melhor forma (a galera não gostou muito quando ele agradeceu a recepção com um ‘muchas gracias’, nem quando ele disse que curtia o ‘mojito’ brasileiro [?!?], mas, logo ele se corrigiu, dando o devido “obrigado” e dizendo curtir a caipirinha e churrasco brasileiros, e, depois, pediu desculpar por não falar quase nada em português). Burocracias diplomáticas à parte, o New Order tem um rock melódico contagiante e fez um show eficiente, que emocionou os fãs mais nostálgicos como eu (ou seja, mais velhos rs), principalmente, do meio pro final do show, quando finalmente eles tocaram os fodásticos hits “Blue Monday”, “Bizarre Love Triangle”, entre outros. 
O bis que eles deram, tocando duas canções do Joy Division, em memória do genial Ian Curtis, é de emocionar qualquer ser humano que curta o mínimo essencial do rock de 80, a homenagem traz aquela energia feliz que nos dá uma baita vontade de chorar. E chorei feliz, cara, nessas horas, não sei esconder minhas lágrimas, viu, senhores críticos, não sou tão enrustido assim – meus sentidos talvez sejam muito mais expostos que os de vocês, cambada . Seja qual for o conceito (ou pré-conceito) dado ao som do New Order, eu os acompanho, perdoo qualquer falha, amei demais o show deles e parto com o coração pleno de satisfação – minha trilha sonora ficou mais rica depois desse domingo. Agora é voltar pra casa, descansar e me preparar pra novas canções e poemas. E que a rotina não seja pesada, nem as ambições pequenas, pra que o amor nunca nos despedace. Amém, “Love Will Tear Us Apart”, Até Logo, New Order, Arte Sempre, Ian Curtis never die.

  

Um comentário:

  1. Assim, como resumir minha passagem de 2 dias de show no Lolla + Plebe Rude, complicado! Tipo pq me encantei pela Elle Goulding, me apaixonei pelo som do Capital Cities, curti pouco(mas, muito bom) do Vespas Mandarinas, brinquei nos palco eletrônico onde eu achei que não estava preparado pra ver o show do Pixies(e não estava mesmo!), chorei com Johnny Marr, zuei no Raimundos, vi uma menina bonita e que encanta que é a Francisca Valenzuela, fiquei com dor no coração em abdicar de Soundgarden pela grade do New Order, e não ver o espetaculares shows de Muse(principalmente porque estava na grade de Declosure, e o som que eu não conhecia é legal) e Arcade Fire( pqp que show foi aquele!), me decepcionei com Jake Bugg(menino frio, sem sal e meio imitador do mestre Bob Dylan) e Julian Casablancas(esperava mais do cara que arrebenta no Strokes)
    Mais três coisas não podiam faltar na conversa
    Minha surpresa: Que isso! Essa menina chamada Lorde além de muito bonita, chamou minha atenção e conseguiu me prender quando eu esperava Nação Zumbi, adorei o show de verdade
    Segunda: a admiração: Puts, falar de Nação Zumbi é complicado, pq existe duas fases e tal, mas o show que eles fizeram é de deixar qualquer um de boca aberta(tinha gente que nunca tinha ouvido e que se impressionou) e eu achando que não iria funcionar, foi fantástico!
    Antes de falar do show mais esperado, um adendo que eu queria ver Imagine Dragons e por causa de Nação não pude ver, mas deixa meus sinceros agradecimentos, a quem me falou do show!
    Agora comentar sobre New Order(que surgiu das cinzas de Joy Division, uma das minhas bandas favoritas), show técnico, vigoroso, os mais velhos curtiram, os mais novos admiraram e gostaram, tocaram tudo que eu estava esperando e ... na homenagem para Ian Curtis me emocionei de verdade...

    Ao fim do show da New Order e consequentente fim do Lolla, o que restou foi agradecer Deus pelos 2 dias fantásticos que vivi de verdade
    Formando novas amizades, ficando com meninas, conhendo e admirando bandas e assim meus 46 horas direto de Lollapallooza 2014 acabou! Que venham outros!

    I Love You So Much!
    New Order and Joy Division

    IAN CURTIS Never Die!
    Joy Division forever!

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