segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Solidões compartilhadas pra refletir: Os pensamentos líricos de Rayron Lennon

Às vezes os pensamentos podem enlouquecer um homem, mas não o poeta – ele a transformará em delírios líricos e lindos, na mais bela forma de indignação e desejo permanente da busca por outro caminho menos rarefeito, mais vivo. Um belíssimo exemplo disso é o poema do fodástico poetamigo maranhense Rayron Lennon, de São Bernardo/MA, com quem compartilho minhas solidões poética nesta segunda-feira tão cotidiana e corriqueira. Um poema social pra sublimar nossos dias banais, nossos olhos cegos que muitas vezes não observam a menina que saiu da escola, o pai que roubou o vestido azul, a mãe que nada tem e o eu lírico que viu tudo isso.
Um poema para pensar, amigos leitores, um poema para não esquecermos nunca de pensar...

Penso

Penso
E logo vejo o desejo
da chegada
da partida
da estrangulada

Penso
na menina que saiu de casa para a escola
que o vestido azul banhava a pele clara
do sorriso carente do pai
que numa noite a roubou

Penso
na certeza que um dia irá crescer
e ver que sua mãe nada tem
além da coragem e do sofrimento no rosto marcado pelo sol ardente dos dias
que borra o rosto quando pensa no futuro da filha

Penso
na certeza cruel que veste o mundo em dia de Natal
em que nem em Papai Noel acreditam mais
na essência que fora cortada, marcada, dilacerada e estrangulada
e nos raios do sol, ambas esperam esperança e comida

Penso
na beleza e nas grandezas do mundo
nas tantas pessoas boas que morrem em vão
que embalam-se sem quererem ir
mas na certeza do vão, vão

Penso
penso tanto, que deixo de existir
em pensar que um dia o futuro dela poderá nunca existir
pois acredito na beleza e nas sutilezas das boas ações
mas vejo na dura e árdua convivência que o homem é capaz de matar pra se salvar.

Penso
E peço que estas palavras passem apenas por literatura
da alma quieta, amena, brota as mais estranhas loucuras
do coração amante, as mais sinceras paixões
e da mente doentia, o fim de muitas vidas, o rasgar de muitos balões que guardam os melhores sonhos.


domingo, 29 de setembro de 2013

Poemas femininos: O pretérito perfeito daquele beijo

Tudo bem, eu me rendo: o entusiasmo de minha namorada, da minha mãe, do mundo inteiro com o beijo de Fabinho e Giane, par romântico da novela “Sangue Bom”, me contagiou. Confesso que não assisti ao espetacular beijo no momento em que ele foi exibido, mas minha namorada fez questão de me mostrar o vídeo. Acabei assistindo à cena duas vezes, sendo que a segunda vez foi por iniciativa minha.
Sei que alguns leitores me dirão que fiquei maluco, que me entreguei ao sistema por divulgar lances televisivos e novelas globais, sei que dirão que meu blog é brega e blá-blá-blá, blá-blá-blá, e minha resposta será a mesma que sempre utilizei: foda-se, os diários de solidões poéticas desse blog são coletivos e falar de coletividade envolve também a breguice nossa de cada dia, inclusive os sonhos que temos com a beleza das cenas das novelas, tão entretenimento, tão vazias de racionalização e tão nossas, e todo poema de amor consiste na sapiência de não temer as breguices de todo poema de amor.
Esse poema de amor (que, sei, muitos esculacharão) entra para o meu grupo de poemas com eu lírico feminino e parte do olhar da personagem Giane. Foi escrito na emoção das horas e assim deve permanecer e ser publicado.
Que todo pretérito nos venha perfeito como aquele beijo, amigos leitores!

O pretérito perfeito daquele beijo

E você estava num canto escuro, perdido consigo mesmo,
chorando com as trevas que o mundo lhe deixou,
e, mesmo escondido, encontrei você
e sua tristeza era tão infinita
que até a minha aridez a sua lágrima consumia
como se fosse uma tempestade,
como se toda sua amargura chorasse em minha vida,
e, mesmo com medo, eu me aproximei
e lhe disse: eu acredito em você
e lhe disse o que nunca havia dito pra ninguém
e você ergueu seus olhos
e eles estavam tão vermelhos, tão sangrentos, tão intensos,
que eu vi você,
como um cego que enxergasse o mundo pela primeira vez,
eu finalmente vi você
e a sua imagem me entonteceu
e naquele agora só havia você e eu,
nas cinzas das horas só você e eu,
e então, cheio de certezas hesitantes, você se ergueu
e seu corpo abraçou o meu
e você tremia, como animal que temesse a sua própria natureza,
e eu também tremia, como predador que aprendesse
que também pode ser presa,
e seu rosto tão perto do meu,
tão lindo, tão único, tão seu,  
e sua boca tão próxima da minha,
tão trêmula, tão perigosa,
e sua boca mais próxima,
e eu, sempre tão vigilante, baixava minhas guardas,
como ditadura que esperasse o guerrilheiro libertador,
e, num impulso violento, você me beijou
e eu aceitei, como carcereiro que entregasse as chaves
ao prisioneiro,
e o universo que desmoronava às nossas costas
se reconstituiu
e depois novamente ruiu
e então desapareceu
e assim desapareceram também toda solidão,
toda culpa e todo zelo,
e nós nos despimos dos nossos próprios medos,
como chamas que se aproximassem pra evitar o gelo,
e naquele beijo, você era eu
e eu não temia mais não ser mais eu,
pois eu também era você
e naquele agora minhas lembranças ficaram,
nos ponteiros das horas os relógios pararam
no pretérito perfeito daquele beijo
e depois dele nada mais conjuguei direito,
porque todas as pessoas agora são você e eu,
eu você,
você eu,
nós sem medo.


sábado, 28 de setembro de 2013

Solidões Compartilhadas: As coisas que o eu lírico de Lauany Rodrigues não falou

Hoje trago mais um fodástico poema da poetaluna Lauany Rodrigues, do 8.º Ano da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, de Teresópolis/RJ. Hoje ela nos traz um poema intimista e melancólico, cheio daquelas coisas que não falamos pro nosso próximo, pra ninguém, um poema à flor da pele, sentimento exposto em nossas solidões interiores.
Pra refletirmos sobre tudo o que o poema de Lauany Rodrigues diz, tudo que não falamos pra ninguém, às vezes nem mesmo pra nós mesmos, amigos leitores!

As coisas que não falei

Nunca te disse que o que sinto por ti não é amor...
Nunca te disse que sou alguém que tem que viver
longe do teu calor...
Afinal quem eu sou?

Nunca te disse que minha vida é solidão...
Nunca fiz nenhuma afirmativa pra ti,
talvez porque não me escutaste...
Ou fui eu que nunca te escutei?

As coisas que não te falei são as que ficarão
na camada de oceano do meu coração,
este meu coração que vive sufocado,
excluído do meu mundinho de solidão...


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Juliana Guida Maia e eu na cama com Garcia Lorca durante o blecaute

Blecaute em Três Córregos, distrito de Teresópolis/RJ... Sem energia elétrica, Juliana Guida Maia e eu decidimos buscar a luz no livro "Obras Completas" dos poemas do poeta espanhol Federico Garcia Lorca. Acendemos velas e lanternas e começamos a ler em voz alta os poemas do fodástico poeta andaluz.
Esse sarau intimista precedeu o poema “Elegia a Garcia Lorca”, que publiquei ontem no blog.




quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Elegia pra Garcia Lorca (No mirante da poesia, olhando a paisagem de toda manhã fria em Volta do Pião)

Uma das leituras que mais me encantaram nos últimos tempos foi ler grande parte das “Obras completas” de poemas do espanhol Federico García Lorca. Seus poemas, cheios de ternura e melancolia, atmosferas de sonhos, elementos de sua terra natal (a cidade espanhola Granada), ritmo encantador e traços populares, trazem quase sempre um diálogo do eu lírico com elementos da natureza, refletindo seus sentimentos. Difícil desassociar a personalidade de Lorca das vítimas fatais do preconceito: por ser homossexual, poeta popular e homem da esquerda, atributos detestados pelos fascistas do General Franco, o poeta espanhol foi fuzilado em 1936, tornando-se uma das mais famosas vítimas da guerra civil espanhola.
A leitura aprofundada de seus poemas modificou e acrescentou algum brilho novo em meu olhar. Um exercício poético que costumo fazer, desde que comecei a lecionar em escolas mais próximas do campo, é olhar fixamente a paisagem rural, antes de entrar na escola; fico sempre buscando algo novo na bucólica imagem à minha frente (quando não encontro, sei que nenhum poema virá naquele dia). E foi assim, numa manhã muito fria do final do inverno, no início de setembro, no período em que os poemas de Garcia Lorca estavam mais intensos em minha memória de leituras recentes (trabalhava alguns poemas dele com os alunos do nono ano da E. M. Alcino Francisco da Silva, em Volta do Pião, distrito rural de Teresópolis/RJ), que me veio uma elegia para Garcia Lorca. Sim. Foi nesse momento que minha escrita encontrou as palavras adormecidas de Lorca...
Uma elegia pra aquecer o frio dentro de nós e pra manter vivo um dos poetas espanhóis mais fodásticos de todos os tempos:

Elegia pra Garcia Lorca
(No mirante da poesia, olhando a paisagem de toda manhã fria em Volta do Pião)

Frio que te quero quente...
Desde a primeira vez
que descobri a manha dolente
na visão das manhãs
de tua terra sempre presente,
desde a primeira vez
que eu te vi
deitado no invisível
do horizonte observado,
desde a primeira vez
deste novo sempre
que eu paro diante de ti,
paisagem nova
na imagem inalterável
do firmamento que deita
em meus olhos bem aventurados.

Frio que te quero quente...
É o orvalho que despeja
tempestades suaves
em minha boca seca
todas as manhãs,
é o vento diário que me beija
a face ainda cansada
pela disputa com a noite insone
em outro sonho passado
e não realizado,
é a tua boca que adoça
os meus lábios amargos
com os cantos febris
da natureza que faleceu em ti,
é a beleza de uma canção antiga
que permanece inédita
no rosto dos velhos morros
tão vivos em movimentos mortos
e brilhantes apesar da atmosfera opaca,
é essa paisagem preguiçosa
que agita de poesia os meus olhos,
é essa vista ferida
de imortalidade intacta
que te mantém vivo
em minhas fúnebres palavras.

Frio que te quero quente...
Um vento novo sacode
aquela velha árvore,
enquanto outra nuvem esconde
o sol que arde em volúpia
por trás da frígida paisagem.
É nesse universo de duelos serenos
que tua voz inaudível
acompanha o ar invisível
e me conta os segredos
dos cantos mais sublimes
compostos por violentos silêncios,
é nesse cemitério vivo
que descanso minha visão
todas as manhãs, vendo-te partir
tão pleno,
como brisa de lirismo que desliza
na superfície adormecida
de um furacão...
E meus olhos choram sorrisos
a cada despedida,
acordados pela tristeza rara
de te ver, mesmo distante,
tão belo e tão eterno
todas as manhãs.

Frio que te quero quente...
Todas as manhãs cinzas serão verdes de Garcia,
enquanto teceres em meus olhos os dias,
enquanto houver dia,
poesia,
a-
manhã!


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Velhos poemas juvenis: Quando as fogueiras se apagam

Fim de noite por aqui... Apagar das fogueiras... Momento de quase plena escuridão... Deixo para vocês hoje mais um de meus velhos poemas juvenis, feito pra ser o poema de introdução de meu segundo livro, “Promessas desfeitas”, lançado em 1997. Fala sobre o momento em que apagamos juramentos eternamente escritos em nossa memória, esquecimento de promessas, deslizes de identidades, trevas dentro de nós. Foi um poema que fiz após ouvir “Perto do fogo”, de Cazuza e Rita Lee, e “Sinais de fumaça” e “Jornais”, da banda Nenhum de Nós; fiquei imaginando: e o que acontece quando nos afastamos do ‘fogo’? e quando não há mais sinais de fumaça? e quando a face má nubla nossos pensamentos? e quando a chama se apaga? O poema traz um pouco das minhas inspirações da época: havia devorado o “Livro de Ouro da Mitologia”, de Bulfinch, lido poemas do livro “Chafariz de 80”, de André Luis Giusti, e os ultrarromânticos se mantinham firmes em minhas inspirações. A terceira estrofe tem um quê de “O médico e o monstro (O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hide)”, de Stevenson, livro que iria reler tempos depois e que me renderia novas inspirações.
Que estejamos bem protegidos de nós mesmos quando as fogueiras se apagarem, amigos leitores!...

Quando as fogueiras se apagam

Quando as fogueiras se apagam,
Juramentos ocultos em cofres
Viram pensamentos ocultos
Metidos e jogados ao vento.

Quando as fogueiras se apagam,
As almas tão bem guardadas
Viram pequenos objetos
Esquecidos e mantidos numa caixa
De Pandora.

Quando as fogueiras se apagam,
O bom menino escoteiro
Cumpridor de suas tarefas
Dorme pra deixar o homem mau acordar
Com suas mentiras tão bem cultivadas
Que chegam a cultivar raízes em si próprio.

Quando as fogueiras se apagam,
Ninguém vê o mal que cresce
Nem quanto o homem perde
Ao desfazer as promessas do menino
Que um dia ele foi
Ou que, pelo menos, um dia
Ele pensou ser...


domingo, 22 de setembro de 2013

Sangues Bons, Flagras, Carrões e Um Furo na Mão: Ingredientes para o conto de Apenas Um Beijo

Uma verdadeira febre tomou conta dos telespectadores brasileiros:  a novela “Sangue Bom”, da Rede Globo, e, principalmente, o personagem Fabinho, interpretado por Humberto Carrão. Minha mãe, minha namorada, meus vizinhos, todo o universo teen fanático por belos atores e boas novelas, ninguém escapou dessa febre. Há pouco tempo, nem minhas idas à internet escaparam da propagação dessa febre. Me deparei com a notícia “Humberto Carrão assume fim de namoro a amigos e investe em Sophie Charlotte durante o Rock in Rio”. Seria mais uma notícia de fofoca global que me passaria batido, se não fossem alguns muitos comentários de fãs fanáticas da novela: como Sophie Charlotte interpreta a vilã Amora, que faz toda espécie de maldade com o personagem Fabinho, de Humberto Carrão, algumas muitas fãs esculachavam a possibilidade de uma relação amorosa entre os atores, como se personagens e atores fossem a mesma pessoa. Tal reprovação imprópria da atitude de Humberto Carrão não diminuíram o prestígio do ator e de seu personagem na novela “Sangue Bom”. Porém, fiquei me perguntando: e se o acontecimento tivesse afetado o sucesso do personagem? O que aconteceria? Sabemos que muitas vezes os fãs mais fanáticos de novela já cometeram loucuras com atores por confundirem o personagem com a pessoa. Me lembrei do conto “O homem do furo na mão”, do contista brasileiro de realismo fantástico Ignácio Loyola Brandão, no qual um homem, ao apresentar um furo na mão, perde todo o prestígio social que possuía.
Inspirado nisso tudo, criei um conto sobre um ator que perde o prestígio ao beijar uma atriz, ironicamente usando a personalidade do personagem Fabinho, de Humberto Carrão – sim, amigos leitores, a febre está me atingindo rs É narrado em primeira pessoa (ou seja, o personagem que te conta a sua história) e tem o tom de uma entrevista, onde o interlocutor / entrevistador (para quem o personagem conta sua história) tem suas falas omitidas.
Pra pensarmos bem, antes de levarmos os personagens dos outros pra cama! 

Foi apenas um beijo
(Roberto Mourão declara para as fãs: “Foi só um beijo”)

Foi apenas um beijo. O que você sente quando beija alguém? Um calor, um tesão, desejo de beijar mais, sei lá, mas nada demais. Foi só um beijo, pô. Nem doce, nem amargo. Só um beijo...
Sobre como comecei? O de sempre: playboy, bonitinho, pinta de modelo e tals, um certo talento pra decorar as coisas e interpretar cenas, maquiar mentiras como se fossem verdades, pressão dos pais pra trabalhar e uma imensa vontade de ralar sem suar demais. Não, não é vagabundagem não, que isso, não me entenda mal. É que eu tinha talento, eu sabia que eu era capaz. Então veio o teste pra novela, passei fácil, tinha todo o perfil – branco, bonito, corpo bem cuidado -, somado ao talento nato necessário para o papel, eu sabia que estava no caminho certo. Rá, rá! Sei, queria que eu falasse que ralei muito, passei fome; dificuldades e fome vendem bem, né? Mas então bota aí: com muita dificuldade, passei no meu primeiro teste. As fãs – pelo menos, as que me sobraram como fãs – vão gostar. O pessoal gosta de ver a vida como uma novela, né, todo mundo gosta de uma mentira sincera. Mas não é. Mesmo assim, bota que eu ralei muito aí! É... o pessoal gosta duma ficção; melhor deixarmos a verdade em off. As fãs que me sobraram vão gostar, quem sabe até outras voltem... É...
Então, depois de conseguir entrar no elenco, aí sim ralei, entrei no personagem, eu não era mais o Roberto Mourão, eu era o Toninho da novela Carne Pura, o Toninho da Carne Pura era eu, meu papel ganhou logo destaque, virei recordista em receber cartas de fãs, sucesso total, capa de todas as principais revistas do país, deu tudo certo, deu tudo certo demais...
O que esperavam de mim? Eu me empolguei com todas aquelas festas, luzes e holofotes em cima de mim. No começo, estranhava todos aqueles papparazzis, as câmeras sempre flagrando o momento em que saía de casa, em que chegava, em que ia à praia, em que ia passear com os colegas; em cada momento que eu respirava havia alguém me observando. No começo, eu estranhava, mas é como eu disse antes: sempre tive talento nato pra o que eu estava fazendo. De tanto me destacarem, todos aqueles flagras de câmeras, toda a perseguição de fãs viraram rotina, fui me acostumando e, confesso, acabei até gostando.
Não pensava que... sei lá, eu estava tranquilo, meu papel na novela ia de vento em polpa; comecei como vilão, mas a pressão das fãs fizeram com que o autor da novela me redimisse, me tornasse o herói maior, por mais anti-herói que isso fosse. Sabe aquela sensação do mundo em suas mãos, um universo de estrelas todo só pra si? E tudo tão leve, tão fácil, como se você pudesse realizar todos os seus sonhos num piscar de olhos, sem me machucar.
Então veio aquela festa, todo mundo sorrindo e se divertindo, o mundo todo em minhas mãos num piscar de olhos. E ela deu condição: Suzi Bronté era minha colega de trabalho, fazia a cruel Pitanga, a vilã da novela Carne Pura, todo mundo sabia disso, toda fã fanática pela novela odiava a personagem dela, mas a Suzi, a Suzi pessoa, era linda, simpática, encantadora... e estava me dando condição. Sorriso pra lá, sorriso pra cá, um bom bate-papo, nossos rostos próximos, não resisti: beijei-a. E, por um momento, só havia eu e ela, saca, eu, ela e o mundo em minhas mãos. Nem percebi os milhares de flashs de câmeras à nossa volta, nem percebi que o mundo me caía das mãos...
O resto da história todo mundo sabe: a foto em que “Toninho beija Pitanga” apareceu em todos os principais jornais e revistas de fofocas, revolta das fãs; por mais que eu ralasse na interpretação do personagem, ele voltava a ser vilão e o autor da novela, pressionado, diminuía a minha participação a cada capítulo; de protagonista, retornei ao papel de coadjuvante até quase desaparecer. A mídia foi me esquecendo; Suzi Bronté sempre que esbarrava comigo no trabalho ou fora dele me olhava constrangida, aquele meio sentimento de culpa, muito estranho sentirmos culpa pelos pecados que não cometemos. Ela continuava linda, mas agora me era inacessível. Não, nenhuma paixão por ela, apenas uma sensação de estar perdendo alguma coisa que não conseguimos entender por quê. Foi apenas um beijo... Eu não sabia que... As revistas foram me esquecendo, as câmeras que me cercavam e eu não percebia; agora não havia mais o que não perceber. Meus pais me ligam todos os dias, têm medo que eu faça uma bobagem, sei lá, mas não vou fazer, só não quero voltar pra casa deles. Não logo agora que tinha me acostumado a morar sozinho... Mas tudo anda meio estranho demais. Foi apenas um beijo pô, entende meu desespero? Sei que não pareço desesperado, mas não estou interpretando; o desespero é suave, entende, meio que aquela canção do Capital Inicial: “só um leve desespero que me leva, que me leva daqui” Engraçado... Acho que estava tocando essa música quando beijei a Suzi. Nada romântico, né? A nossa cabeça tem umas coisas estranhas que não consigo entender. Não me lembrava da música quando beijei a Suzi, na hora não estava ouvindo nada, mas agora a música não sai da minha cabeça, quando lembro daquela cena. Cena? Engraçado chamarmos de cena o que acontece em nossa vida, parece que estamos na novela. É... Mas não estamos... Foi mal, tô viajando.

Ah, você tem que ir? Tudo bem; bom demais te ver aqui. Há quanto tempo não dava entrevista pra você? Uns dois meses, né? Sim, com certeza a sua revista vai crescer, deve estar sendo a maior ralação; imagino que deve ser difícil pra você, sair assim de uma revista grande e montar a sua própria. Tem que ter coragem; não sei se seria capaz de fazer o que você fez. Mas é isso aí, precisando sempre de qualquer força estou aí. Abraços, cara, e fique bem...


sábado, 21 de setembro de 2013

Solidões roqueiras compartilhadas: Seattle, a garota incomum nos versos de Raquel Leal

Assistir, em vídeos postados pelos amigos do facebook, a partes do primoroso show da banda Alice In Chains no Rock In Rio me fez lembrar o intenso movimento underground que os (rotulados como) grunges de Seattle imprimiram na década de 1990, tirando o rock do marasmo quase completo da época. Assim como os grunges retiraram o gênero musical rock de seu estado pálido e moribundo da década de 1990; o Alice In Chains resgatou a energia rock do cada vez mais pop Rock In Rio (festival que, de atitude rock mesmo, só tem o nome da marca).
Refletir sobre isso tudo me fez lembrar de que os mais recentes grandes festivais de música que aconteceram no Brasil se sustentaram a partir de nomes das veteranas bandas grunges (o Lollapalooza deste ano, por exemplo, tinha como uma das atrações maiores a eficiente banda Pearl Jam, outra filha daquela Seattle roqueira de onde surgiu o Alice In Chains e – impossível não citá-los – Kurt Cobain e sua banda Nirvana). Lembrar disso me fez retornar às lembranças de saraus recentes, me fez lembrar do Sarau Solidões Coletivas In Seattle (cujos vídeos já postei aqui no blog há meses atrás), e, consequentemente, me lembrei de poemas de fodásticos artistamigos, cujos textos primorosos foram declamados com uma energia contagiante naquela noite festiva e lírica.
Se Seattle, em vez de cidade, fosse uma mulher, humana, sedutora, singular? Não, eu não saberia imaginar como ela seria... Mas pra isso servem os poetamigos fodásticos que conhecemos nessa longa trilha poética que traçamos: para nos iluminar o caminho, imaginando o que nos é inimaginável. O que nem eu, nem vocês, leitores amigos, imaginaram, a fodástica poetamiga valenciana Raquel Leal fez com maestria, em singelos versos. Hoje compartilho o poema “Seattle”, de Raquel Leal, cuja musa é a cidade Seattle, na forma mais criativa e sedutora: como se fosse uma mulher, super-sensual e alegremente melancólica, em resumo, mais-que-fodástica!
Se Seattle fosse a mulher fantástica que Raquel Leal desenhara com sua arte escrita fodástica, Kurt Cobain talvez tivesse hesitado em dar o tiro decisivo em sua existência.
  
Seattle


Pronuncie meu nome bem devagar
sinta cada letra dançar em tua boca,
saboreie a sensualidade
de minha singularidade.
Seattle
Ouça-me falar:
- Seattle, Seattle, Seattle
perceba como meu nome pode te tocar
percorrendo cada canto de teu corpo
te fazendo salivar.

Alguns tiveram o privilégio de me possuírem
entre suas mãos,
poucos souberam me tocar,
outros aprenderam a passear
por minhas curvas escuras,
linhas únicas, projetadas pra libertar.

Sou tatuada, malcriada,
às vezes embriagada,
no entanto posso ser a mais quente
se conseguir me conquistar,
pois não me dou a qualquer um,
não faço tipo e sei te enganar.

Sou Seattle, a garota incomum...

Meus mares possuem vários cais
seu caos cabe em mim.


Kurt sabia disso...


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Sarau Solidões Coletivas Comédia Jim Provision: Eu vou cum meu amigo Ronaldinho

Ops, foi mal, galera! Foto do Ronaldinho errado!
Agora sim: esse é o Ronaldinho
homenageado nessa postagem!
Um dos momentos mais precisos para conhecer boas piadas, boa zoação, em resumo, se divertir pelo menos uma vez no ano é poder estar presente no tradicional churrasco de aniversário do amigo ‘comediante stand-upeiro’ Ronaldo Brechane. Desde os seus 24 anos (as línguas mais sacanas dizem que o fascínio dele por essa idade se mantém até nos aniversários seguintes, como se ele nunca envelhecesse, permanecendo sempre com 24 rs), Ronaldo Brechane, o ‘Ronaldinho The Wall’, mestre da comédia stand-up do Sarau Solidões Coletivas, nos permite que zoemos com a cara dele em todo início de setembro, no seu churrasco de aniversário. Houve anos que não pude visitá-lo na data tão querida e foi como se eu tivesse perdido algum sorriso, como se alguma alegria me escapasse. Mas, nesse ano, acompanhado de Juliana Guida Maia, José Ricardo Maia, Rafael Campos, Stefann Ávila (que quase tomou o posto de Ronaldinho como a pessoa mais zoada na noite) e cia, consegui visitar o Ronaldo na data em que ele comemora seus eternos 24 anos (kkk #brinquei).
Aproveitamos o momento pra improvisarmos um Sarau Comédia, no qual Ronaldo Brechane nos contou mais uma de suas velhas piadas novas. Antes disso, aproveitei o momento para declamar ao ilustre amigo aniversariante uma das versões mais toscas que eu poderia fazer do meu poema sacana “A pureza da Indecência”, acompanhado pelo violão do músico Rafael Campos, que aproveitou o momento para interpretar canções da banda Pedra Letícia, Paralamas do Sucesso e uma composição de José Ricardo Maia, que nos lembrou os bons tempos que o saudoso Adriano Gonçalves nos brindava com suas músicas, ora cômicas, ora críticas, mas sempre divertidas. Tal lembrança nos trouxe aquele sorriso meio melancólico pelo divertido artistamigo que se perdeu, mas vida que segue. O vídeo postado abaixo traz alguns destes momentos e ainda contém a participação da escandalosa cadela Pipoca e reflexões cômicas de Stefann sobre a tatuagem “Fuck”, que Rafael Campos traz gravada no braço.
Além do vídeo, posto um poema em que parafraseei (ou seja, tomei por base, com leves alterações, uma obra mais conhecida) a letra de canção “Sou Ronaldo”, de Marcelo D2. Reconstruí a letra de música seguindo meus intentos de homenagear o fodástico comediante amigo Ronaldo Brechane (no original, D2 homenageia o [na época, ainda não redondo] colega jogador artilheiro Ronaldo Fenômeno).
Logo, a postagem de hoje tem a única pretensão de não ter porra de pretensão nenhuma; apenas registrar um sorriso bobo, uma alegria informal da rapaziada do Sarau Solidões Coletivas.
Arte Sempre e Sorrisos Bobos Quando Possíveis, amigos leitores!  

Sou Ronaldo
(Parafraseando Marcelo D2 em homenagem a Ronaldo Brechane)

Sou Ronaldo
Muito prazer em conhecer
Eu sou comediante
O meu nome é Ronaldo Brechane

E quero muito agradecer a Ary Toledo
Por ter me escolhido no meio de tanto homem feio
Sou igual a todo brasileiro, eu sou guerreiro
Às vezes ensaio, às vezes nem tanto, mas sempre encanto

Sou Ronaldo
O riso sempre esteve
E estará em minha vida
E eu já nem me espanto

E se o mundo é uma piada
A gente tem que entrar dando risada
Pra evitar o pranto

Eu não me intimido e provoco riso
E só me contento ao ouvir
A galera entoando esse canto
“Eu vou cum’meu amigo”
“Eu vou cum’meu amigo”

Sou Ronaldo
Muito prazer em conhecer
Eu sou comediante
O meu nome é Ronaldo Brechane


domingo, 15 de setembro de 2013

Minha desomenagem a Gil e Caetano: As flores espancadas de meu jardim sem glórias

Realizamos ontem o 17.º Sarau Solidões Coletivas In Bar e um dos temas, conforme o sugerido, foi a Tropicália, a pedido de poetamigos (busco sempre deixar que as escolhas de temas sejam feitas o mais democraticamente possível, de acordo com as sugestões dos artistas que se envolvem com o evento). Confesso que a dupla principal, Caetano Veloso – esse principalmente - e Gilberto Gil, desse movimento contracultural da década de 1960 nunca me agradou muito; reconheço seus feitos artísticos, até trabalho suas letras de canção em minhas aulas, mas nunca concordei muito com suas posturas e as músicas deles na minha adolescência me marcaram como algo muito elitista, distanciado da revolta que carregava comigo, além de eu não concordar com alguns que os colocam como ícones maiores dos artistas que sofreram com as perseguições da Ditadura Militar – reparem que eu não disse que discordo que eles foram perseguidos, e sim que não concordo em colocá-los como ícones artísticos maiores da revolta ao sistema autoritário no qual nosso país era governado. As aparições dos nomes dos artistas em todo papo de pimba (pseudo-intelectual metido a besta e associado) me geraram mais ojeriza ainda – seus fãs mais fanáticos são quase sempre - reparem, eu disse "quase sempre", e não sempre - os mesmos que colocam esses artistas em pedestais, acima de todos os outros, negando qualquer genialidade a outros movimentos contraculturais – sendo que atualmente Caetano e Gil estão mais pra culturais de classe média e alta que para contraculturais -, calculando a arte como se ela pudesse ser medida com uma régua de calcular triângulos, quadrados e retângulos.
Por isso, meu poema é uma desomenagem á dupla Caetano – principalmente – e Gil. Os mais fanáticos podem me xingar e vaiar à vontade; só não venham me bater com aquela régua estúpida de calcular arte, por favor; esse tipo de trigonometria nunca foi meu forte. Lembro também que o blog é aberto para poemas em defesa dos dois; ao contrário das opiniões trigonométricas de alguns fãs fanáticos preciosistas de Caetano e Gil.
É tudo muito lindo nos jardins tropicalientes, mas prefiro a feiúra de meu jardim sem glórias.
 
As flores espancadas
de meu jardim sem glórias

Enquanto você cantava
sobre domingos no parque
e beijos de lindas mulatas,
os meninos do Rio vestiam fardas
e me batiam,
me batiam,
enquanto você cantava...

Enquanto você gritava
sobre o brilho roubado do sol
com as pessoas na sala de jantar,
homens sem poesia me cuspiam balas
me feriam
e me calavam,
enquanto você só gritava...

Enquanto você brincava
com trios elétricos
e jogos de palavras,
minhas flores eram mutiladas
pelos choques elétricos
e pelos paus de araras.
Enquanto você brincava,
algo sério me silenciava...

E agora você tem seu verão de Salvador,
seu caldo tropical de pacífico lutador,
enquanto eu trago a primavera machucada,
cheia de sementes espancadas,
espalhadas num frígido jardim sem flor.

Enquanto você a todos encanta,
eu não sou mais nada...
As flores outrora erguidas nas mãos
agora me falecem na alma despedaçada...

sábado, 14 de setembro de 2013

Solidões compartilhadas: Cíbila Farani, tropic'alma, com flores de revolta nas mãos

Hoje tenho o prazer de compartilhar dois poemas da fodástica poetamiga valenciana Cíbila Farani. Desta vez, ele homenageia, de forma brilhante, dois movimentos culturais da década de 60, período em que o Brasil (sobre)vivia sob o jugo da Ditadura Militar: a tropicália e a canção de protesto.
Em tempo: os dois poemas aqui postados serão declamados hoje, às 19h, no SARAU SOLIDÕES COLETIVAS IN BAR 17 – PAZ, AMOR, PROTESTO E TROPICÁLIA – DAS FLORES ESPANCADAS DE VANDRÉ À POESIA CONCRETA ENTRE DUAS ESQUINAS DE SOLIDÕES COLETIVAS, que acontecerá no Mineiru’s Bar e Restaurante, no Jardim de Cima, no centro de Valença/RJ.   

Tropic'alma

Tropecei por acaso num coração caliente
Trópico olhar profundo e quente
Trôpega e tonta levantei febril
Troquei olhares e suspiros loucos
Troquei suores e delírios roucos
Tropical noite de lua cheia
Tropico drink cubano incendeia
Trópica música vibra em mim
Trópico beijo quente e sem fim
Trópico amasso suspiro e abraço
Na tropic’alma de um amor sem fim


Voltando a caminhar

Não caminhamos mais
Nem cantamos também
Corremos e gritamos nas avenidas movimentadas
Porque movimentada é a vida
Acelerada é a nossa capacidade de não enxergar o bem
Flores, já não levamos mais nas mãos erguidas.
A voz que outrora cantou e seguiu canções enaltecidas, hoje emudeceu
Um vento raro de desesperança, frio e cortante, varreu
E meu país varonil sob o jugo de homens cruéis se viu
Civil armado
Civil enganado
Civil pobre
Civil com fome
Civil sem saúde
Civil sem educação
Voltemos a caminhar
Caminhar é preciso
Navegar não é preciso
Caminhar e cantar
E seguir a canção
Ela vibra dentro de ti
Fecha os olhos!
Ouça-a!
Ela pulsa como o pulsar de teu coração.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Solidões compartilhadas: Bem (mesmo estando) no fundo do poço com Jessica Kaczmarkiewicz

Às vezes a tristeza profunda nos faz mergulhar no mar da poesia e, quando estamos totalmente afundados, encontramos as pérolas mais valiosas da escrita. Um bom exemplo disso é a fodástica poeta e musicista valenciana Jessica Kaczmarkiewicz, cujos poemas tenho o prazer de estrear e compartilhar hoje no blog.
Fruto de momentos extremamente depressivos, segundo a própria poeta me confessou, os poemas de Jessica Kaczmarkiewicz trazem uma tristeza profunda, ao mesmo tempo que seu lirismo de escuridão nos ilumina os olhos com momentos do mais intenso lirismo. Jamais havia encontrado tamanha magnitude na dor como encontrei nos poema de Jessica. Ambos os poemas trazem um aspecto formal peculiar, próprio e único: seus poemas começam como se fossem prova e, acompanhando o conteúdo (a queda do eu lírico na tristeza profunda retratada), os versos vão ganhando formatos menores até o mergulho final. De temática pesada, mais sufocante que Kafka e carregada da mais violenta depressão, sua elaboração e beleza transforma toda essa carga negativa em algo revigorante, iluminador. Tem o talento raro de super-impressionar o poeta-blogueiro que vos fala; ler os poemas de Jessica Kaczmarkiewicz me levaram a outro universo lírico, histericamente lírico, iluminado de escuridão, muito mais intenso que qualquer poema que já consegui elaborar. Como diz o eu lírico da fodástica poeta, “prefiro a solidão, o frio e o escuro do que um calor imaginário”.
Que imensa carga de profunda tristeza da poética de Jessica Kaczmarkiewicz mergulhe suavemente em nossos olhos encantados por tamanha imortal beleza, amigos leitores!

Medo da altura

Estou no chão, não há perigo, está tudo bem.
Já estou no mais baixo dos níveis.
Posso até me sentir inferior, abaixo de tudo, de todos.

Não há como descer mais.
É como se... Se eu estivesse no fundo do meu poço.
E estou.

Quero subir, aqui no fundo é frio, escuro, úmido.
Não há ninguém.
Apenas eu e mim mesma.

Olho para cima, desejando aquela luz, aquele calor.
Invejando.
Ah, luz... Que saudade de você.

Cá embaixo estou, sozinha.
Nesse frio, pétrea, estática aqui no chão.
Perdida em minha própria desilusão.

Uma vozinha ao fundo de minha mente insiste:
- Sobe!
- É o que mais quero! – Respondo a mim mesma.

- Então vá! – Disse a maldita novamente.
Eis que tentei.
Mas antes de iniciar minha escalada, parei por um instante.

Refletindo, pensei comigo.
Do chão nada temo, não pode piorar.
Mas se subir...

Toda escalada tem risco.
Tem sua glória também.
Mas para quê subir?

Posso sobreviver com o pouco que tenho.
Se tentar subir e cair, não terei nada.
Se conseguir terei tudo. Se... Apenas “se”...

Não quero arriscar o meu pouco.
É pouco, mas é meu.
É tudo que me restou.

Se subir, posso não suportar a dor do tombo.
Para quê me submeter a isso então?
Contento-me com minha infelicidade só para ter o pequeno prazer de sentir alguma coisa.

Já senti solidão.
Sinto.
Mas prefiro a solidão, o frio e o escuro do que um calor imaginário.

O meu poço eu sei que é real.
O sorriso de quem vive na luz, no calor, não expressa felicidade.
Mas sim, ilusão.

Tenho medo de altura, para que subir?
Estou infeliz, porém viva. Posso conviver com minha dor.
Quanto maior a altura, maior a queda. Estou bem, aqui no fundo do meu poço...



Queda

Sempre perdida em devaneios, nunca sei por onde minha mente irá vagar.
Cada segundo sozinha, em silêncio, uma tortura, um desespero, aflição inexplicável.
Vontade de fugir.
Não sei para onde...

Essa estrada que trilho tem muitas pedras, já caí inúmeras vezes.
Sempre me levantei.
Sempre levantei me apoiando nas mesmas pedras que me derrubaram.
Automutilação?

Sou fraca, não aguento tamanha dor.
Queria encerrar logo esta minha jornada inútil, mas me falta coragem.
Só me resta continuar andando...
Só me resta isso.

Caminhando em direção ao abismo.
É pra lá que eu vou.
Esse abismo é frio, escuro, sombrio.
Longe, perto. Distante, próximo...

Você me pergunta curioso, quem sabe até preocupado, por que vou pra lá.
Respondo-te humildemente, olhando fixa e intensamente nos seus olhos através dos meus úmidos:
- Já que me falta coragem para encerrar minha trilha, só me resta seguir em frente.
Pergunta-me de novo por que pra lá, justo lá, para o abismo.
Respondo-te agora com um olhar cabisbaixo que emana conformação:
- Caminharei em direção à única trilha que consigo ver...

Já consigo até sentir o vento frio vindo de lá.
A trilha ficando cada vez mais íngreme, dificultosa.
Quanto mais perto desse abismo, mais escuro fica.
Não há luz alguma por aqui.

Está próximo, está próximo.
Já consigo até imaginar aquele pisar em falso, quando achamos que ainda temos chão, mas na verdade não temos.
Aquele gelo na barriga, a sensação da queda.
A queda é sempre a pior parte.

Tortura, tortura.
O vento gélido passando rapidamente por meu corpo.
Espernear em meio ao nada.
Nada para me segurar.

Mas por enquanto é apenas a imaginação.
A ansiedade por saber que está perto.
Aterrorizante.
Inquietante.

Mas ela está ali.
Está chegando.
A queda.
A queda...

É simplesmente inevitável.
Quem sabe não há um lado positivo?
Talvez...
Não, não há.

Em queda...
Tortura.
Minha tortura individual, egoísta...
Apenas minha...

Minha trilha.
Meus tombos.
Minhas singelas ascensões.
E agora, minha queda.

Sempre foi.
É.
E, até a minha queda, sempre será
Apenas eu.