domingo, 28 de abril de 2013

Solidões compartilhadas: O mergulho poético de Andréia Sineiro


Depois de uma fase de muito trabalho (final de bimestre é f... pra poetas blogueiros que sobrevivem como professores) e eventos, retomo as postagens no blog. Hoje tenho o prazer de lhes apresentar mais uma poeta valenciana fodástica: Andréia Sineiro. Seus poemas, ricos em referências a Valença/RJ, trazem uma suavidade natural e um estilo romântico, voltado, principalmente, à natureza e ao amor.
Nesta estréia de Andréia Sineiro nas Solidões Compartilhadas do blog, trago para vocês, amigos leitores, o super-envolvente poema “Ronco D’água”, uma homenagem singela a uma das riquezas naturais de Conservatória, o mais belo distrito de Valença.
Em tempo: Os poemas de Andréia Sineiro têm ganhado muito destaque nos últimos eventos dos quais participei: seu poema sobre o Teatro Rosinha de Valença (que será também futuramente postado aqui) foi declamado pelo Grupo Teatral Amor e Arte no Sarau Solidões Coletivas de aniversário de 1 ano, realizado no dia 20 de abril, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ, e o hoje compartilhado “Ronco D’Água” foi declamado por mim no Identidade Cultural & Movimento Culturista, evento organizado por Janaína da Cunha, realizado no dia 27 de abril, no Restaurante Amarelinho da Cinelândia, no Rio de Janeiro/RJ (os dois eventos terão seus vídeos em breve postados aqui no blog também).
Mergulhemos nas raízes aquáticas das cachoeiras líricas de Andréia Sineiro, amigos leitores!!!
     
Ronco D'Água

Você acha que devo criar raiz?
As águas correm ao seu lado
Como nossa vida.
Elas seguem e não voltam...
E você ali diante desta cachoeira de natureza e beleza...
Não sei dizer qual é a que mais me encanta.
Esse afluente se vai...
Quem eu sou?
Diante de ti, sou a correnteza?
Deságuo no infinito do seu prazer em se refrescar num dia quente de verão.
Ouço o Ronco d’água me dizendo, o que se foi não voltará...
As águas correm...
Seguem seu rumo, seu ritmo, seu caminho.
Não sou água... Sou as pedras!
Elas duram como meu amor...
As pedras ficam, fazem as águas tocarem como se fosse o amor.
Toque-me, sinta que eu estive aqui te olhando e te amando.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Solidões históricas compartilhadas: A terra de Mirtes Fernandes não foi descoberta por Pedro Álvares Cabral


No dia 22 de abril de 1500, o navegador português Pedro Álvares Cabral tornou-se oficialmente o primeiro europeu a chegar ao Brasil. Tal episódio histórico recebeu o famigerado título de ‘Descobrimento do Brasil’, como se aqui não houvesse habitantes – que famigeradamente foram chamados de índios, como se fossem moradores da Índia. Foi o início da farsa (até porque Pedro Álvares Cabral possivelmente NÃO foi o primeiro europeu a chegar ao Brasil – muitos sustentam que foi o espanhol Francisco Pinzon que pisou em terras brasileiras em 1498, 2 anos antes do navegador português Cabral).
Pra atirar lama poética no ventilador da História, compartilho hoje minhas solidões poéticas com minha ex-aluna, a fodástica poeta teresopolitana Mirtes Fernandes, que, na época em que estudava na E. M. Nadir Veiga Castanheira, fez um poema sobre os primórdios históricos do Brasil, inspirada nas aulas de História da professora Andressa Prado e baseada no – diversas vezes, parodiado – poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias.
Vale a pena reparar como Mirtes usa habilmente a intertextualidade (comunicação com outros textos – no caso a “Canção do exílio” e textos informativos de livros de História) e os recursos poéticos (anáforas – repetições de expressões -, ritmo bem elaborado com uso de palavras com sons finais quase iguais gerando um sonoridade envolvente de quase rimas e hipérbatos – inversões da ordem comum das orações, etc).
Como o próprio eu lírico de Mirtes diz, é preciso rever o passado pra compreendermos nosso histórico gosto pelas farsas dos Cabrals do presente, amigos brasileiros!

Minha terra

Minha terra tem muitos índios
Mas dizem que quem descobriu foi Cabral.
Mentiroso de mão cheia,
Terra já habitada não pode ser descoberta.

Minha terra tem riquezas:
Ouro, prata, pau-brasil.
Portugal interessada
Veio colonizá-la.

Vivo sempre a pensar
Por que dividi-la
Em quinze faixas de terra?
Não seria melhor só uma?

Minha terra é tão fértil
Que até cana-de-açúcar
Que é de outro país
Se deu bem aqui.

Tantos anos se passaram
Por que do passado me lembro?
Acho que talvez para entender o meu Presente.


domingo, 21 de abril de 2013

Isto não é um poema: Para Isto não é um filme


Este é um poema não poema feito logo após Juliana e eu termos visto o filme não filme “Isto não é um filme”, do cineasta iraniano Jafar Panahi, de 2011.

O filme acaba e os créditos finais trazem mais dúvidas que conclusões, é noite e alguém do lado de fora grita brincando com colegas como se estivessem o que faz com minha namorada brinca que deve lem e lembram os iranianos comemorando a festa de fogos de artifícios citada no filme, procuro um caderno e nem sei por que, passos lá fora, abro a porta do meu quarto, som da tevê que mamãe no quarto de minha mãe, ela dorme com a tevê acordada, na procura pelo caderno minha namorada me pergunta o que estou fazendo, respondo monossilábico para que as palavras não me fujam, caderno encontro, começo a escrever, namorada perguntando se decidi escrever,mas não respondo, só escrevo, enquanto ela no Google pesquisa sobre o diretor de “Isto não é um filme”, um iranian cineasta iraniano realmente proibido de filmar em seus país e até hoje em prisão domiciliar, ela fala isso olhando pro notebook enquanto eu escrevo, o que afeta minha escrita no momento, agora silêncio dela, estará lendo algo novo sobre o cineasta proibido de filmar durante 20 anos no Irã e proibido de sair de casa durante 6?, o filme não filme “Isto não é um filme” que fala sobre sua condição de cineasta sem direito de fazer filme fica na minha cabeça, enquanto escrevo agora no quase silêncio esse escrito que não é um poema nem sei se deveria ser escrito assim automático e/ou publicado mas aí está o papel em meu quarto (agora minha namorada cita dúvidas suas sobre a culpa dos terroris supostos terroristas de Boston) e não sei mais o que dizer – sem mais encerro meu poema não poema “Isto não é um poema” assim igual  o filme ... é melhor não continu parar o fim ou até mais.  





sábado, 20 de abril de 2013

Elegia para Emílio Santiago: Sem você, sem Saigon


Hoje trago o que sobrou de Saigon: um poema com eu lírico feminino, a resposta da estrela que perdeu a luz na falta de amor neon, uma elegia ao fodástico cantor Emílio Santiago, um poema sobre a ausência que seu silêncio nos deixa, uma saudade  imensa de quando o anoitecer era algo muito bom...
Em tempo: Esse poema será declamado no Sarau Solidões Coletivas In Bar de Aniversário de 1 Ano, hoje, dia 20 de abril, às 19h, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ.  


Sem você, sem Saigon

Nenhuma palavra
Nem meia palavra
Nosso apartamento
Alugado para novos amantes de Saigon
Nem me disse adeus
No espelho ainda ficaram meus escritos de batom
Borrados pela solidão.

Como vou ser estrela
Iluminando
A cidade pequena
Se todo o meu céu
Carece do nosso amor neon?

Meu brilho balbucia
Um novo som
Às vezes
Ainda ando por aí
Brincando de me entregar,
Mas evito me acordar, só penso em dormir
Pois só no sonho ainda é possível encontrar você aqui...

E quase sempre
Eu tento não deixar você partir,
Mas é só o dia chegar
Pra eu acordar o vazio em mim...

Amanheceu!
Olho pro sol
E não vejo nada de bom
Perderam-se todas as estrelas
Na falta de escuridão
Sem você, eu não posso mais voltar
Pra Saigon...


Solidões compartilhadas: Raquel Leal entre a Guerra e o Poema


Hoje compartilho mais uma vez minhas solidões poéticas com a fodástica  poetamiga valenciana Raquel Leal, atualmente residindo em Volta Redonda/RJ. Hoje ela nos traz mais um emocionante poema, “escrito a alguns dias atrás e inspirado pelas dores que a dengue trouxe à poetamiga. Raquel Leal também se inspirou em "And so it goes", composição já cantada por Renato Russo, em um poema que fiz com o também fodástico poetamigo Aquiles Peleios ("O diálogo do poeta e do guerreiro", já publicado aqui no blog) e o título veio de "Armas químicas e poemas", um dos temas do Sarau Solidões Coletivas In Bar, que acontecerá hoje, inspirado na canção homônima dos Engenheiros do Hawaii.
Em tempo: Raquel Leal já confirmou presença no festivo Sarau Solidões Coletivas In Bar de hoje, dia 20 de abril, às 19 h, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ, comemorando 1 ano do sarau!
Encontremos a luz do lirismo, entre as guerras de nossos íntimos e o poema quase perdido que nos ressurge, amigos leitores!
 
Entre a Guerra e o Poema

Desculpa, meu capitão.
Em tempos de guerra,
Escolhi a armadura errada,
Projetei em teus olhos
Minha clarividência
E fiquei com a visão embaçada.

Mas olha, o erro foi corrigido,
Um anjo que protege os iludidos
Guiou-me pela mão,
Mostrando-me que a leveza:
Era a salvação pro meu conflito.

Meu escudo é o vestido
Bordado de pérolas,
No qual brilham lágrimas invisíveis,
Mas que enfeitam os sorrisos
Oferecidos aos meus fantasmas.

Nessa guerra santa
Que se faz em terreno conhecido,
Meu maior inimigo
É o meu coração,
Bomba que não quis
Explodir na tua mão
Pra não te machucar.

E os cacos lançados
Da minha implosão
Voaram beijos radioativos,
Munição delirando de febre
Num corpo em guerra
Contra a própria perdição.

Infeliz se fez por um instante
Esse cansado e desfalecido
Estilhaçado, implodido
Coração de ninfa Oceania.

Mas Aquiles,
Aquele amigo guerreiro,
No instante derradeiro
Entre a falência e a vitória
Lembrou-me que a glória
Faz-se da união
De ombros cansados
Postos lado a lado.

A lembrança desse ensinamento antigo
Salvou meu coração iludido
Da mais terrível derrota
Que se daria a um poeta:
O silêncio...








quarta-feira, 17 de abril de 2013

Solidões compartilhadas: As diversas formas de amor de Thayslane Freitas


Hoje compartilho pela primeira vez minhas solidões poéticas com a poetaluna teresopolitana Thayslane Freitas, da E. M. Alcino Francisco da Silva.
Descobri o talento desta jovem artista por acaso – durante uma aula no 9.º A, em que solicitei aos alunos a produção de um conto baseado no clipe “Menina má”, de MC Anitta (esses textos em breve estrearão no blog também; aguardem!), Thayslane veio, lá de trás das filas das carteiras, pedindo socorro, pois tinha maior domínio para escrever poemas, e não contos. Ciente disso, passei a ela e a Greice, sua parceira nessa produção textual, algumas dicas para que executassem com eficácia a tarefa pedida. Mas não deixei a descoberta em vão: solicitei que Thayslane me passasse algumas obras de sua produção poética para eu avaliar o teor lírico de seus escritos.
No dia seguinte, recebi da poeta a primeira oferenda lírica, um poema de amor, iluminado por um estilo todo próprio,  ritmo bem trabalhado e emoção à flor da pele. A partir daí, sempre recebo um poema de Thayslane para me encher o cotidiano e os olhos com a permanente esperança de que a poesia jamais morrerá, apesar de todas as corrupções humanas, apesar de todas as intolerâncias do mundo atual. Como acontecera com Alcione Aparecida de Souza, minha antiga aluna e recentemente publicada aqui, Thayslane Freitas é outra poeta que me veio pronta – seu caminho lírico já está traçado; só lhe faltava o incentivo para brilhar. Tenho o privilégio de ser o cicerone desse jovem talento, sou o primeiro a ter a honra de publicar seus poemas e confesso que, diante de tão fodásticos poemas, esse ato me enche de orgulho. O jardim da poesia tem mais uma flor para preencher os campos líricos com o pólen do amor e da magia da arte bem escrita. Seu nome é Thayslane Freitas. (Re)conheçamos as diversas faces do amor com essa fodástica poeta; faz bem para os olhos, faz bem para os nossos corações!

Amor sofrido perfeito

E depois daquele dia
em que meu coração se feriu...
O dia em que ele disse que embora iria...

E depois do sentimento cruel
que me fez parecer infiel,
por todas as lindas palavras que eu ouvia...
Foi tudo em vão,
foi tudo aquilo que partiu meu coração...

Mesmo naquela dor eu ainda o amava...
Agia como o coração me mandava,
acreditando que ele era meu.

E assim seguiu a vida,
a mágoa desapareceu,
meu amor ele tinha conquistado;
mesmo ferida, eu estava junto do meu amado!



Amor passado

Aconteceu inesperado
aquilo que parecia sonho
meio que improvisado

foi rápido, louco
inesquecível e único
ao mesmo tempo trágico

tão lindo e triste
só tu que quiseste
minha mágoa e decepção

Doeu meu coração
por um amor do passado
que hoje está apagado
sendo agora enterrado.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Refrão de bolero, bolero com Ana, Ana com diplose


Essas noites estáveis de outono sempre me lembram a canção “Refrão de Bolero”. Essa canção, composta por Humberto Gessinger, líder da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, marcou minha ‘aborrecência’. Ouvia a música incessantemente e ficava imaginando como seria Ana, a personagem amada pelo eu lírico da canção, o que seriam os “lábios” – “labirintos” de Ana. E a melodia me arrastava para bares, lugares melancólicos como essas noites pálidas de outono, onde eu encontraria, em algum momento, um bêbado lamentando sua difícil relação com uma tal de Ana.
Foi nesse período de aborrecência também que comecei a me dedicar à poesia e a estudar as figuras de linguagem, os recursos estilísticos que enriquecem os escritos líricos. Num dos diversos livros didáticos que minha madrinha, a tia e professora Celeste Cicchelli, me presenteava, encontrei uma figura de linguagem chamada anadiplose. A anadiplose consiste na repetição da última palavra ou expressão de uma oração, frase ou verso no início da seguinte, com intenção de realce. O que mais me chamou a atenção nessa figura de linguagem, na época, foi o fato de a palavra ser iniciada com “Ana”, como a musa da canção “Refrão de bolero” (até hoje não perdoo Humberto Gessinger por ter suprimido o nome dela nas últimas interpretações ao vivo da canção) e também por que a anadiplose era uma figura de linguagem marginalizada, secundária, pois os professores do ensino médio (na minha época, chamado de 2.º Grau) dificilmente a citavam. Inspirado na anadiplose e na Ana de “Refrão de bolero”, construí, nos meus primórdios poéticos, o pequeno poema abaixo, publicado mais tarde em meu quinto livro “Eu e outras Províncias”, de 2008.
Curiosidade: na época, criei até um pseudônimo (nome falso, um disfarce poético): Gessinger Gardel – em homenagem ao líder dos Engenheiros do Hawaii e ao cantor argentino de tango Carlos Gardel – apesar de o nome da canção ser “Refrão de bolero”, a música sempre me lembra um tango rock rs.
Em tempo: o poema “Ana (diplose)” faz parte de meu set list poético e será declamado ao vivo no Sarau Solidões Coletivas In Bar do dia 20 de abril, às 19 h, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ, comemorando um ano do sarau.
Que vossos olhos dancem nos labirintos de Ana (diplose), amigos leitores.

Ana (diplose)

Você é minha
Minha vulgaridade íntima
Íntima desconhecida
Desconhecida amada
Amada sem palavras
Palavras caladas
Caladas mas ainda ditas
Ditas por entre as portas fechadas
Fechadas por seu coração
Coração sombrio
Sombrio mas ainda vivo
Vivo nos gestos
Gestos vazios
Vazios por serem tímidos
Tímidos por serem contidos
Contidos pelas portas fechadas
Fechadas por seu coração...


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Solidões compartilhadas: Denis Pereira 'indionizando' a modernidade


Hoje compartilho pela primeira vez minhas solidões poéticas com o múltiplo artistamigo valenciano Denis Pereira. Conhecido pelos fodásticos desenhos que faz (ele é o responsável pelo desenho de toda última capa de minhas obras, do meu quarto livro até o mais recente, Diários de Solidão, de 2010), Denis Pereira agora transita das artes plásticas para a poesia. Há algum tempo, ele me enviou pelo face um fodástico poema, de sua autoria, uma espécie de manifesto poético de descivilização e insurreição indígena em nosso íntimo. O poema de Denis Pereira chega ao blog em um momento importante para refletirmos sobre nossa herança indígena, há tanto tempo negada; atualmente, quase que completamente rejeitada (a violenta expulsão dos índios do antigo “Museu do Índio” – que será demolido – no Rio de Janeiro/RJ, é uma prova de nosso desrespeito com os filhos mais dignos de nossa terra). Estamos próximos de mais um “Dia do Índio” (20 de abril), período em que deveríamos reconhecer que há muito pouco a se comemorar: há tempos, a cultura indígena é tão marginalizada que considero até vergonhoso comemorarmos um dia dele, sem fazermos nada pelo povo que representa alguns de nossos principais antepassados.
Quanto ao processo de produção do poema, o artista destaca um conceito já usado pelo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (a de que o escritor é apenas um ‘cavalo’, um receptor das vozes de seus personagens e eus líricos): “Na verdade, cara, [o meu poema] não é só meu. Sou apenas o instrumento. Acho que tô descobrindo em mim um tipo de mediunidade; são como sussurros psíquicos, se é que existe essa palavra”, confessa poeticamente Denis Pereira.
Em tempo: Esse poema de Denis Pereira será lido por mim no festivo Sarau Solidões Coletivas In Bar do dia 20 de abril, às 19 h, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ, comemorando 1 ano do sarau!
Conheçamos a faceta lírica desse artista múltiplo chamado Denis Pereira, amigos leitores!

Indionizar a modernidade

Desumanos em fuga
Noite de prazer momentâneo
Dias de sofrimento duradouro
Às vezes olham para trás
Mas não é de lá que está vindo o inimigo
Às vezes para os lados
Porra! Mas não tem nada ali!
Deve ser coisa da minha cabeça.
O negócio é olhar pra frente e ser feliz.
Mas a mania de perseguição continua
Uma hora ou outra sempre olham para cima
Que luzes são essas? E que sinais são esses?
Droga!
E olhando para baixo a tristeza os consome
Se perguntam se valeu a pena
Se vale a pena
Mas mesmo sem admitir e saber sentir
Todos sentem
Pois não dá pra fugir para sempre de seu maior inimigo
Sempre tão perto
Sempre os alcança
É! Mas talvez seja necessário...
Nada acontece por acaso!
Hipócritas egoístas
Com tanto desmatamento, fumaça preta, fedor e água podre,
Sangue e traição
Até os índios e os animais ririam de nós
Se essa piada tivesse alguma graça
Mas vamos, precisamos seguir em frente!
Não podemos ficar aqui!
Acalmar-nos e buscar o verdadeiro amor!
O tempo é curto, temos que satisfazer nossos desejos!
Temos que provocar mais dor!
Não, irmãos,
Essa fuga é em vão
Pois todos temos um coração
Temos que parar e nos preparar agora
Pois só quando estivermos frente a frente com o nosso interior
Veremos que o que faz valer a pena é a nossa intenção
Ninguém gosta de sofrer e sentir dor
Todos buscam egoisticamente sua satisfação e paz
Não conseguimos nos ver uns nos outros
Não conseguimos sentir a dor dos irmãos
É difícil se preparar
Eu sei
O treinamento é duro
É verdade
Mas isso sim vale realmente a pena
Matamos e modernizamos nossos índios
Agora vamos nos matar e indionizar nossa modernidade
Parar de fugir e buscar com sinceridade
O equilíbrio e a verdadeira liberdade

Desenho de Greg Tocchini, artista de quem Denis é fã.
Conheça mais da obra de Tocchini em: http://gregtocchini.blogspot.com.br
 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Solidões compartilhadas na garoa serrana: A chuva lírica de Alcione Aparecida de Souza


Hoje compartilho minhas solidões poéticas pela primeira vez com a poetamiga teresopolitana Alcione Aparecida de Souza. A artista foi minha aluna na época em que eu dava aula no 2.º segmento da Escola Municipal Nadir Veiga Castanheira – poderia lhes dizer que ensinei a ela os caminhos e descaminhos da poesia, mas ela já chegou pra mim como poeta pronta; desde os primeiros escritos, já demonstrava seu talento e, com o tempo, me confiou suas obras. Dona de um ritmo singular (adorava construir os poemas como se fossem letras de música, talvez pelo fato de também dedicar-se ao canto – arte que ela também se dedicou com muito talento, conforme vocês verão em alguns vídeos que ela deixou nos tempos de escola), rainha das anáforas (repetição de expressões ou palavras em diversos versos próximos do poema), Alcione sempre demonstrou brilhantismo e suas composições marcaram o professor-poeta-pateta-blogueiro que vos fala.
Segundo Natália Bento, também artista (em breve ela também estreará seus poemas aqui no blog), amiga dela e ex-companheira de turma dos tempos da E. M. Nadir Veiga, Alcione atualmente está em alguma cidade do Espírito Santo. Como não tenho um contato virtual (ou ela não tem, pois já fiz algumas buscas por Alcione) nem tenho seu endereço, infelizmente, não pude informar o destaque que seus poemas terão aqui no blog, assim como a única foto que tenho e que pude publicar dela é da época em que ela era minha aluna. Caso algum leitor a (re)conhecer, por favor, avise-a que sua arte permanece inundando de lirismo o coração deste professor-poeta-pateta-blogueiro que vos fala.
Inundem suas almas nessa enchente de poesia também, amigos leitores.
    
Se a chuva

Se for a chuva a cair
se forem pingos lilás
se for língua, saliva

se for cabeça, pensamento
se forem olhos, imagens
se forem orelhas a ouvir
se forem pés no chão

se for a mão a tocar
e se for coração
não será ódio
não será maldição

não será crueldade
não será maldade
não será preconceito

Será consciência do amor
não coisas que vem e vão

Será o broto do amor
que se planta, cresce
reproduz
e nunca morre.




O sorriso de Cândido ou o Otimismo ou Sorria que eu tô te filmando


- Sorria e o mundo lhe sorrirá, Cândido.
Encantado com o sorriso faceiro do filósofo que lhe dirigira a palavra, Cândido foi conhecer o mundo.
Entrou no ônibus. Não tinha dinheiro para a passagem, mas precisava de um meio de transporte mais ágil que os próprios pés. O Cobrador fez jus ao seu nome e lhe cobrou a passagem (muito cara, por sinal, mas reclamar disso é tornar-se incômodo e tornar-se incômodo é tornar-se inapropriado ao mundo e tornar-se inapropriado ao mundo é negar as maravilhas que nele há). Cândido sorriu francamente para o Cobrador e lhe disse que não trazia um tostão sequer no bolso. O Cobrador tentou ler em Cândido a faceta de mais um malandro ou a proeza de um louco, mas surpreso com tão franco sorriso, apenas pediu que o alegre rapaz saísse do ônibus.
Apesar do primeiro fracasso em sua jornada, Cândido seguiu a viagem pelo mundo a pé e manteve o sorriso, afinal tal fato não deveria lhe trazer pesar, não se pode lamentar pelo que não teve, se não teve é porque não era pra ser seu, é um bem supérfluo, ainda havia uma linda estrada pra se admirar na caminhada; que ideia louca essa de entrar num ônibus sem pagar, ora! Assim Cândido amadureceu a filosofia iniciada: o sorriso seria mantido, mas só seria perfeito se ele tivesse dinheiro.
Após muitos quilômetros avançados, a fome apertando, Cândido sorriu para o seu estômago, mas descobriu que alegrias não alimentam o corpo. Procurou uma árvore com frutos gratuitos pela estrada, mas a natureza era rara na paisagem das queimadas. Bateu na porta das poucas casas que via durante a caminhada; com o êxodo rural por empregos nos centros da cidade eram cada vez mais raras as habitações naquela parte da estrada. Sempre que era atendido, Cândido sorria e, em algumas casas, recebeu até alguma comida para seguir sua jornada, mas alguns reclamavam que o dinheiro deles mal dava para alimentarem suas famílias. Sorrindo, Cândido condenou o negativismo destes e lhes recomendou que sorrissem como ele. Recebeu em troca sorrisos desdentados e desgostosos de seus interlocutores, que, cabisbaixos, apesar da alegria forçada, se despediam com recomendações de dias melhores em sua caminhada. Cândido obsequiava e, constantemente sorrindo, lhes dizia que o caminho já lhe era satisfatório, apesar dos obstáculos, mas o discurso sempre se encerrava no vazio, pois o interlocutor já havia partido pra dentro de seu lar.
Mesmo nesses altos e baixos da jornada, Cândido mostrava-se feliz, pois, apesar das dificuldades, conseguia seguia em frente. Chegando à área urbana, tratou de procurar um emprego; tinha os sapatos gastos, o corpo suado, a roupa um tanto amarrotada, o aspecto miserável, mas mantinha o sorriso impávido no rosto. Nos poucos pontos comerciais que ofereciam vaga, recebia em troca o sorriso, mas, devido ao aspecto horrível e o mau cheiro que exalava, nenhum empregador ousou lhe conceder o emprego desejado. Cândido também tentou buscar o mercado informal – lavar carros, esmolar, roubar -, mas, após receber alguns sopapos dos trabalhadores do ramo, reparou sorrindo que tais meios de sobrevivência já estavam sobrecarregados de empregados.
Novamente faminto, manteve o sorriso, mas reparou que as pessoas que passavam ou o julgavam louco ou o desprezavam ou simplesmente não o notavam. Talvez o método tenha falhado; buscou dentro de si todas as forças pra que seus lábios resistissem sorrindo e tranqüilos diante daquelas provações. Tornou-se uma lenda urbana: o mendigo que manteve o sorriso, mesmo desmaiado. Foi levado a um hospital público; quase morto, foi reanimado. Ressuscitou com um sorriso incorruptível, o mais feliz de todos os homens.
De tanto sorrir, foi aceito entre os pedintes em frente ao hospital. Cândido podia ter perdido a chance de conhecer o mundo, mas agora estava inserido numa sociedade, no melhor dos mundos possíveis. Desejava agradecer ao filósofo que o aconselhou, mas, mesmo que o procurasse na cidade, não o encontraria: enriquecido pela venda do manual de sua revolucionária teoria filosófica, o nobre sábio agora viaja pelo mundo, rindo à toa. 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Kafkando com você e comigo mesmo (ou A esperança na Metamorfose desesperançada)


Às vezes a gente se sente um inseto.

Você é um correntista do banco X e mais uma vez recebe uma cobrança indevida, está numa fila imensa para ser atendido por gerentes que não o compreendem, se sente uma presença incômoda no lugar; ele o atende com desdém, sem olhar pra você, dá justificativas que você não entende, parece enrolá-lo, você está cansado e lá vem aquela impressão de ser um inseto e a sensação de tempo perdido. Ou você é um usuário da operadora Y de telefonia ou internet e mais uma vez ela não oferece uma prestação de serviço satisfatório do produto que tão delicadamente lhe vendeu; ao reclamar, você é passado para ramais e ramais, transferido continuamente como se fosse uma batata quente nas mãos de quem tão rispidamente o atende, de novo a sensação de incômodo, ninguém compreende devidamente seus problemas com o produto, insinuam que você deve estar fazendo algo errado, parecem enrolá-lo, você está cansado e, depois de muito tempo perdido apesar de a lei dizer que você não deveria perder tanto tempo em sua solicitação, vem aquela impressão de inseto. Ou você é um telespectador e a programação da televisão não lhe agrada, mas todos a sua volta estão rindo, felizes com as porcarias que as emissoras nos empurram, você quer reclamar, mas está cansado e teme mais uma vez ser rejeitado pelos seus ‘semelhantes’, a tevê lhe diz que todo aquele lixo contido nela tem tudo a ver com você e eis o silêncio do inseto e a impressão de parasita em lugar aparentemente saudável. Ou você é empregado de uma loja ou operário de uma fábrica e sabe que mais uma vez as negociações por um salário melhor se arrastarão para um final miserável e melancólico, o sindicato diz que vai quebrar tudo, fazer greve, mas parece não ouvir suas reivindicações, você estranha os sorrisos maliciosos do líder sindical, seus patrões exploram você além do limite, você está cansado e, após várias reuniões em vão, o aumento real de salário não veio e amanhã você retornará ao trabalho, será novamente explorado e o tempo passa, suas condições financeiras são precárias, o sindicato só retornará a discutir sobre o assunto no ano seguinte, nada pode ser feito e você é mais uma vez um sábio inseto – o final da novela estava escrito e você interpretou o seu trágico papel a contragosto, conhecia o roteiro, mas jamais dirigiu as cenas que encena. Ou você é professor, teve os mesmos problemas na negociação por melhores salários, seus alunos muitas vezes não o escutam, seus superiores – estatais ou não – têm uma política de educação da qual você discorda, mas tá imposto nas leis, basta obedecer; homens de terno roubam milhões de sua nação, filósofos de quartos trancados impõem as novas tendências de ensino, os responsáveis nem sempre educam as crianças que crescem irresponsavelmente, a ignorância corre solta e perigosamente armada pelas escolas de seu país e, em rompantes de revolta, os seus alunos o escolherão para descontar todas as raivas que eles sentem do mundo à sua volta e mais uma vez você é um inseto no meio da agitação da sala de aula, da burocracia da escola, da pedagogia do pobre coitado que o oprime e lhe ensina que você sempre será culpado pelo que não fez, você tenta ser o herói que traz esperança ao futuro de todos, mas todos o tratam como apenas um mártir que tenta fazer o que mais ninguém faz, suas patas cada vez mais pequenas como as de uma barata e você está cansado demais, continua tentando, mas, no fundo, no fundo, espera ansiosamente que o dia termine sem tomar mais nenhuma chinelada. Ou você é humano e não gosta nada da humanidade ao seu redor, tenta sobreviver à vontade de cortar os pulsos a cada crime atroz, a cada corrupção revelada e, mesmo cansado, você resiste, afinal as baratas são os últimos seres a serem eliminados do Planeta Terra (caso se rendesse aos desejos suicidas, se tornaria apenas mais um ‘mosquitinho da luz’, um inseto que se atira na própria extinção, algo que lamentamos por uns alguns segundos e limpamos e esquecemos quando suja demais a luminária) e vem a sensação de sufoco diário, o mundo imenso e você tão pequeno, inseto valente encarando o inferno e o sereno, enquanto a vida se torna uma musa cada vez mais linda e inalcançável.



Tudo parece perdido, você se sente um inseto sozinho, mas eis o livro na cabeceira, a arte sempre, Kafka e seu livro “A Metamorfose” sempre a mão, um filme melancólico como o “Desapego”, desesperador, mas com cenas finais que aliviam a atmosfera sufocante, a possibilidade de um grito ouvindo canções como “Quem vai limpar o quarto de Gregor Samsa?”, da banda Dance of Days, a construção de um novo mundo a cada escrito seu, você ainda é um inseto, mas agora rege um mundo que é tão gigante quanto o mundo que o atordoa. Sim, você ainda é um inseto, mas é um inseto que cresce. Com a arte, você é um inseto gigante, Davi derrubando Golias; onde parecia não ter alívio, alguma esperança aconteceu. E Kafka, você e eu sabemos que os insetos ainda podem ser mais gigantes. Por isso que Kafka escrevia; por isso que um amigo consciente não deixou Kafka queimar seus escritos; por isso que Gregor Samsa, o personagem que se transforma em um inseto, vive na eternidade; por isso que você e eu escrevemos; por isso que ainda vivemos; por isso que o mundo, mesmo ferido por tantos conflitos, ainda é meu e seu.       

KAFKA COMIGO

Leitura encerrada, livro fechado,
Janela aberta no quarto da consciência...
Uma barata me mordeu:
Gregor Samsa sou eu!












segunda-feira, 8 de abril de 2013

Solidões compartilhadas: A estrela preferida de Raquel Leal


Uma coisa que ilumina meu dia a dia é ler bons escritos de poetamigos e de alunos (em breve, os poetalunos voltarão a invadir as solidões compartilhadas do blog; aguardem!); dá aquela sensação de que, apesar do cotidiano meio ‘purgatório’, arrastado e cansativo, há ainda paraísos na terra. Hoje trago uma dessas prosas poéticas fodásticas que nos fazem voar e sonhar, mesmo tendo a gravidade da realidade querendo nos arrastar pro tedioso mundo cotidiano das regras e limitações. Mais uma vez, compartilho minhas solidões poéticas com a fodástica poetamiga valenciana (atualmente residente em Volta Redonda/RJ) Raquel Leal e mais uma de suas pérolas poéticas, trazidas dos mares de seus íntimos para os nossos corações. Há pouco tempo, Raquel foi mais uma vítima da dengue que atacou a região sul fluminense, adoeceu e retornou mais poética que nunca (acho que o mosquito que lhe causou a febre era algum inseto de Rimbaud rs).
Em tempo: a fodástica poetamiga Raquel Leal já confirmou sua brilhante presença no Sarau Solidões Coletivas In Bar de aniversário de 1 ano, no dia 20 de abril, às 19h, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ,
Ora, direis, amigos leitores, ouvirmos estrelas com Raquel Leal!

Minha estrela preferida

Sinto muito... Sinto por sentir, muito. Queria sentir menos. Hoje queria nem sentir. Hoje queria apenas o vento, forte, denso, bagunçando meus cabelos e levando todas as lembranças que te trazem aos meus pensamentos. Mas esse seria um alívio momentâneo, porque amo o céu e olhando pra ele te vejo lá, brilhando. Quando pequena aprendi a ouvir estrelas. Desolada, minha estrela preferida comigo não fala. Mas ouço seu brilho lírico derramando-se sobre a terra. Quantos quilômetros de distância podem existir entre uma estrela e a menina que a admira? No meu caso, infinitos... E mesmo de tão longe a estrela que mais amo me ensina. Eu tento apreender tudo que sua subjetividade sinaliza. Ela nem sempre foi silenciosa. Num diálogo anterior a recusa de suas palavras, ela me disse que se tivesse que escolher entre o fogo e a morte, escolheria queimar o que a mataria. Não me esqueci desse valioso, antigo e tão atual ensinamento. Eu a compreendo, já fiz fogueira com muitos sentimentos. Sendo menina de água, o fogo sempre me fez ferver. Detentora de graus extremos, curiosamente ver-te gelado hoje me assusta, também hoje não poderia queimar meu sofrimento. Pois queimar em mim o brilho que te eterniza, minha estrela preferida, seria covardia. Seria como queimar o livro que conta parte da minha história.


sábado, 6 de abril de 2013

Solidões noturnas compartilhadas: A noite escreve Carlos Orfeu


Noite quente de outono... É nesses momentos especiais que a poesia do poetamigo Carlos Orfeu, fodástico artista de São Gonçalo, retorna às solidões compartilhadas do blog: lírica, efervescentemente gélida, escuridão brilhando sem cessar.
Celebremos as noites que nos escrevem, amigos leitores!

A NOITE ME ESCREVE

A noite me escreve
uma elegia
lírica, gélida,
lívida no prelúdio
de minhas horas.

Plangente ode que o peito tece,
sente, guarda-me no ventre
à noite.

Me guarda e me solta
no ar;
escreve em minha alma
seus rastros,
quando parte
me deixa uma
estrela cintilando
sem cessar...