domingo, 17 de novembro de 2013

Labor demais (ou Labor de mais)

Não foi a primeira vez que isso aconteceu, mas, como em outras cidades (Vassouras, em 2011, que o diga, entre outras) e momentos, doeu de novo.
Voltando de Petrópolis com gotas de raiva acompanhando a dança intensa da chuva. O evento ao qual fui convidado foi cancelado sem aviso prévio; Juliana Guida Maia e eu ficamos com cara de paisagem ouvindo a segurança do local dizer que a querida poeta-organizadora simplesmente "cancelou e não pôde avisar ninguém antecipadamente". Nenhum prêmio, os meus livros, os doces que levei pro tal Café Literário pesando nas mãos, sempre aquela sensação de cara que passou por idiota em mais um trote cultural; Ju e eu retornamos respirando fundo pra não gritar. Pelo menos, Petrópolis é bonitinha. Mas ainda gosto mais da beleza natural da Teresópolis onde trabalho ou dos ares multiculturais de Valença, Londrina e São Luís, onde vivi (e pretendo viver mais) momentos únicos de arte.
Como dizem os artistamigos Madalena Daltro e Guilherme Ferreira, são pedras do caminho que escolhi; é hora de levantar do tombo (cada vez mais rotineiro na estrada cultural) e seguir em frente. E, pra provar a persistência, o blog, como eu, segue em frente, com mais um poema inédito meu, um metapoema (poema que fala sobre o próprio poema) sobre o prazer tortuoso do labor de escrever incessantemente, sem pensar nenhum segundo em parar.
Arte Sempre, meio sofrida, mas ainda Arte, ainda Sempre.

Labor demais (ou Labor de mais)

Há labor demais em fazer nada,
Ficar ali trancado em si mesmo,
Nem aí pro mundo,
Enquanto o universo todo pesa em suas costas.

Há muito trabalho na busca pela palavra exata,
Sair de si fatigado de irrealizáveis desejos,
Dizer tudo em vocábulos mudos,
Enquanto o nada trafega em sua mesa de sonhos às moscas.

Há um suor seco em cada lágrima privada
Neste lírio delírio de desesperado sereno,
Sofrer muito, acordar-se moribundo,
Enquanto o prazer da vida eterna beija o seu rosto em cada estrofe composta.

Há um ordenado inválido nessa labuta forçada
Que você, poeta, aceita com insatisfeito desprezo:
O prêmio de ser lido, receber ais profundos,
Enquanto o verdadeiro sentido adormece cego em seu leito iluminado por luzes foscas...

Um comentário:

  1. No fundo queremos apenas essa luz fosca...o simples fato de escrever para extrair sentimentos trancados.Não queremos apenas o glamour e reconhecimento,mas sim ser reconhecido como um poeta que escreve o que sente.

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