quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Solidões compartilhadas: Bem (mesmo estando) no fundo do poço com Jessica Kaczmarkiewicz

Às vezes a tristeza profunda nos faz mergulhar no mar da poesia e, quando estamos totalmente afundados, encontramos as pérolas mais valiosas da escrita. Um bom exemplo disso é a fodástica poeta e musicista valenciana Jessica Kaczmarkiewicz, cujos poemas tenho o prazer de estrear e compartilhar hoje no blog.
Fruto de momentos extremamente depressivos, segundo a própria poeta me confessou, os poemas de Jessica Kaczmarkiewicz trazem uma tristeza profunda, ao mesmo tempo que seu lirismo de escuridão nos ilumina os olhos com momentos do mais intenso lirismo. Jamais havia encontrado tamanha magnitude na dor como encontrei nos poema de Jessica. Ambos os poemas trazem um aspecto formal peculiar, próprio e único: seus poemas começam como se fossem prova e, acompanhando o conteúdo (a queda do eu lírico na tristeza profunda retratada), os versos vão ganhando formatos menores até o mergulho final. De temática pesada, mais sufocante que Kafka e carregada da mais violenta depressão, sua elaboração e beleza transforma toda essa carga negativa em algo revigorante, iluminador. Tem o talento raro de super-impressionar o poeta-blogueiro que vos fala; ler os poemas de Jessica Kaczmarkiewicz me levaram a outro universo lírico, histericamente lírico, iluminado de escuridão, muito mais intenso que qualquer poema que já consegui elaborar. Como diz o eu lírico da fodástica poeta, “prefiro a solidão, o frio e o escuro do que um calor imaginário”.
Que imensa carga de profunda tristeza da poética de Jessica Kaczmarkiewicz mergulhe suavemente em nossos olhos encantados por tamanha imortal beleza, amigos leitores!

Medo da altura

Estou no chão, não há perigo, está tudo bem.
Já estou no mais baixo dos níveis.
Posso até me sentir inferior, abaixo de tudo, de todos.

Não há como descer mais.
É como se... Se eu estivesse no fundo do meu poço.
E estou.

Quero subir, aqui no fundo é frio, escuro, úmido.
Não há ninguém.
Apenas eu e mim mesma.

Olho para cima, desejando aquela luz, aquele calor.
Invejando.
Ah, luz... Que saudade de você.

Cá embaixo estou, sozinha.
Nesse frio, pétrea, estática aqui no chão.
Perdida em minha própria desilusão.

Uma vozinha ao fundo de minha mente insiste:
- Sobe!
- É o que mais quero! – Respondo a mim mesma.

- Então vá! – Disse a maldita novamente.
Eis que tentei.
Mas antes de iniciar minha escalada, parei por um instante.

Refletindo, pensei comigo.
Do chão nada temo, não pode piorar.
Mas se subir...

Toda escalada tem risco.
Tem sua glória também.
Mas para quê subir?

Posso sobreviver com o pouco que tenho.
Se tentar subir e cair, não terei nada.
Se conseguir terei tudo. Se... Apenas “se”...

Não quero arriscar o meu pouco.
É pouco, mas é meu.
É tudo que me restou.

Se subir, posso não suportar a dor do tombo.
Para quê me submeter a isso então?
Contento-me com minha infelicidade só para ter o pequeno prazer de sentir alguma coisa.

Já senti solidão.
Sinto.
Mas prefiro a solidão, o frio e o escuro do que um calor imaginário.

O meu poço eu sei que é real.
O sorriso de quem vive na luz, no calor, não expressa felicidade.
Mas sim, ilusão.

Tenho medo de altura, para que subir?
Estou infeliz, porém viva. Posso conviver com minha dor.
Quanto maior a altura, maior a queda. Estou bem, aqui no fundo do meu poço...



Queda

Sempre perdida em devaneios, nunca sei por onde minha mente irá vagar.
Cada segundo sozinha, em silêncio, uma tortura, um desespero, aflição inexplicável.
Vontade de fugir.
Não sei para onde...

Essa estrada que trilho tem muitas pedras, já caí inúmeras vezes.
Sempre me levantei.
Sempre levantei me apoiando nas mesmas pedras que me derrubaram.
Automutilação?

Sou fraca, não aguento tamanha dor.
Queria encerrar logo esta minha jornada inútil, mas me falta coragem.
Só me resta continuar andando...
Só me resta isso.

Caminhando em direção ao abismo.
É pra lá que eu vou.
Esse abismo é frio, escuro, sombrio.
Longe, perto. Distante, próximo...

Você me pergunta curioso, quem sabe até preocupado, por que vou pra lá.
Respondo-te humildemente, olhando fixa e intensamente nos seus olhos através dos meus úmidos:
- Já que me falta coragem para encerrar minha trilha, só me resta seguir em frente.
Pergunta-me de novo por que pra lá, justo lá, para o abismo.
Respondo-te agora com um olhar cabisbaixo que emana conformação:
- Caminharei em direção à única trilha que consigo ver...

Já consigo até sentir o vento frio vindo de lá.
A trilha ficando cada vez mais íngreme, dificultosa.
Quanto mais perto desse abismo, mais escuro fica.
Não há luz alguma por aqui.

Está próximo, está próximo.
Já consigo até imaginar aquele pisar em falso, quando achamos que ainda temos chão, mas na verdade não temos.
Aquele gelo na barriga, a sensação da queda.
A queda é sempre a pior parte.

Tortura, tortura.
O vento gélido passando rapidamente por meu corpo.
Espernear em meio ao nada.
Nada para me segurar.

Mas por enquanto é apenas a imaginação.
A ansiedade por saber que está perto.
Aterrorizante.
Inquietante.

Mas ela está ali.
Está chegando.
A queda.
A queda...

É simplesmente inevitável.
Quem sabe não há um lado positivo?
Talvez...
Não, não há.

Em queda...
Tortura.
Minha tortura individual, egoísta...
Apenas minha...

Minha trilha.
Meus tombos.
Minhas singelas ascensões.
E agora, minha queda.

Sempre foi.
É.
E, até a minha queda, sempre será
Apenas eu.

    

Um comentário:

  1. Quando escrevi Queda, não imaginei que viveria para lê-lo 4 anos depois. Eu não me considerava capaz de superar aquilo.
    Hoje a situação é outra, graças à superação daquele maldito Medo da Altura. Eu vejo, sim, calores imaginários por aí. Mas não o meu.
    Caminhei descalça em direção ao abismo, pisei nos cacos da minha alma e mente que lentamente deixava eu deixava para trás. Eu, por muito, andei em círculos. Caí repetidas vezes nas mesmas pedras.
    Nesta trilha eu fiz de quase tudo. Errei, acertei, errei mais do que acertei. Quase tudo. A única coisa que não fiz foi desistir. Não me importava para onde, eu não parei de caminhar. E com tantas feridas e dores, descobri-me mais forte do que jamais pensei que fosse. Andando por tanto sobre os cacos e pedras, acostumei-me com a dor. O sangue dos meus pés já não me incomodava mais. E com persistência, e agora consciência, após tanta insistência, eu encontrei o abismo. Aquele maldito abismo, que até então era a única direção que eu pensava existir. Aquele maldito abismo que ao mesmo tempo eu tanto desejava e temia. Aquele maldito abismo que, para mim, seria o início do meu fim, que seria minha última queda.
    Foi naquele maldito abismo que eu descobri que posso voar.
    E naquele instante, eu percebi que ele era, de fato, a única direção possível. Ao chegar no limite do abismo eu vi que poderia voar para onde quisesse. E também percebi que, se eu tivesse a tal coragem de encerrar minha trilha, eu seria apenas um dos cadáveres que encontrei no caminho, sem nunca descobrir quão linda é a vista do topo daquele abismo.
    Eu venci o Medo da Altura, e hoje voo sobre tudo aquilo que um dia temi.

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