quarta-feira, 15 de maio de 2013

Agora é minha vez de abusar de MC Anitta (na ficção): Minha (sub)versão para a Menina Má


Ontem meus alunos-escritores, da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, de Teresópolis/RJ, mostraram seus talentos narrativos, recontando a história do clipe “Menina má”, de MC Anitta. Hoje, inspirado neles, chegou a minha vez, é o momento de apresentar minha (sub)versão da história do clipe de MC Anitta!
A minha (sub)versão da história é contada em primeira pessoa, como aconteceu em vários contos que eu publiquei ontem, mas o meu narrador-personagem não é a menina má, nem o rapaz que a esnobou na infância; resolvi recontar a história, com algumas alterações nos acontecimentos, na visão de um personagem que passa quase despercebido pela sua condição de objeto no clipe, narro minha história através do cara que a menina má utiliza para fazer ciúmes no rapaz que a esnobou na infância. Sim, aquele personagem secundário do clipe, em meu conto, é o narrador-protagonista, uma das estrelas dessa saga de amor, ódio e vingança.
O título do meu conto faz referência ao romance “Presença de Anita” (1948), de Mário Donato, que foi transformado em uma minissérie brasileira de 16 capítulos, exibida pela Rede Globo, de 7 de agosto a 31 de agosto de 2001.
Para lembrarmos que todos somos protagonistas de nossas histórias, por mais secundários que pareçamos, amigos leitores.




Presença de Anitta 
(ou A vida inteira em um beijo seu)

            Anitta era uma garota muito linda, a menina mais linda do 5.º ano C. Estudávamos na mesma sala, ela na primeira carteira do canto direito, eu na última do canto esquerdo. Ficava admirando-a de longe, razão pela qual o professor Sócrates sempre me chamava a atenção:
            - Sempre aéreo, Platão! Como vai passar de ano distraído desse jeito?
            Mas eu não estava preocupado com o ano, que, aprovado ou não, me passaria velozmente de qualquer jeito. Queria era gastar o tempo todo admirando a linda Anitta. Pena que ela só tinha olhos para o babaca do Homero, do 8.º ano A. Cego pelo ego, Homero só amava a si mesmo, vivia admirando sua própria musculatura e esnobando as garotas da escola.
            Eu seguia Anitta na entrada da escola, no recreio, na saída, em todos os momentos. Era como uma câmera de reality show que registrava cada instante da participante favorita. Tanto que eu estava bem perto dela, na saída da escola, quando vi Anitta tomar coragem, se aproximar de Homero e entregar-lhe uma carta. Assisti revoltado à cena: Homero leu a carta de Anitta em voz alta, com tom de deboche, na frente de todos, na frente dela! Vi o semblante doce de Anitta ganhando contornos de tristeza, vergonha e raiva. Homero e os amigos riam, enquanto Anitta se transformava em alguém irreconhecível; era o fim da garota doce, era o início da menina má. E eu não fiz nada... apenas senti o furacão furioso do corpo de Anitta passar por mim e partir.
            Depois disso, nunca mais a vi naquele ano. Disseram que a mãe dela a trocou de escola. Já Homero virou uma lenda entre os alunos: “Lá vem o garoto mau que espantou a pirralha da Anitta”. Ouvi tudo calado, reparei como Homero se sentia envaidecido com o mito criado, mas eu nada podia fazer, afinal também era considerado um pirralho. Mas desejei ardentemente que Homero, um dia, pagasse por seus crimes.
            Os anos seguintes passaram arrastado, sem Anitta, sem motivos para sorrir, nem para sonhar. Homero completou o nono ano e, sem aptidão para os estudos, abandonou o ensino médio e abriu uma oficina ao lado de minha casa, com patrocínio de seu pai, um senhor arrogante que vivia cantando as mulheres da vizinhança. Passei minha adolescência e início de juventude tendo que aturar a presença inconveniente de Homero como uma espécie de vizinho. Pra piorar, minha mãe começou a se engraçar com o pai de Homero:
            - Não me olhe assim, Platão! O pai do Homero é viúvo e eu estou separada de seu pai. Não há nada de errado nisso, rapaz!
            Jovem, descobri que o crime compensa: o pai de Homero passou a freqüentar minha casa e a oficina de seu filho prosperava. Pra se livrar de minha presença incômoda, o pai de Homero fez seu filho tornar-me aprendiz de mecânico na oficina.
            - Não é assim, seu burro! Presta a atenção, pô! – passei o resto de minha juventude aturando a ignorância de Homero, meu “irmão por consideração”, predicativo que minha mãe dava a ele e que eu negava veemente.
            Nesse período, os anos se arrastaram sem brilho e com muita graxa. Minha existência teria sido medíocre, se não fosse o retorno triunfal de Anitta.
            Era um dia de sol intenso, muito trabalho na oficina, Homero e eu ralávamos incansavelmente, apesar do forte calor. Foi quando ela entrou na oficina e o mundo pareceu ter parado para contemplá-la: Anitta estava na nossa frente, mais madura, maravilhosa, trajando um vestido transparente, mais linda e sensual que nunca! Apesar de seu olhar frio e hipnótico, diferente de outrora, reconheci logo minha musa de infância. Já Homero não; continuava sendo o mesmo babaca de antes, o mesmo idiota que só repara em si mesmo.
            No rádio da oficina, tocava um funk. Sem dizer palavra, ela começou a dançar e a provocar Homero. Pensando ter encontrado uma presa fácil para seus encantos ‘irresistíveis’, ele fechou a porta da oficina, olhou aquela deusa provocante lhe dando condição e me empurrou:
            - Vai lá pros fundos limpar as peças, Platão! Vaza daqui!
            Antes de sair, olhei para trás e vi Anitta continuar sua dança provocante e empurrar Homero na cadeira, próxima à mesa onde fazíamos os orçamentos para os clientes.
            - Ah, você gosta de bancar a mandona, cadelinha? Uh, vai me amarrar também! É isso aí, cadelinha, manda que o teu macho obedece! – definitivamente ficar nos fundos da oficina ouvindo as bobagens de Homero, imaginando-o com Anitta, depois de tudo que ele fez, era o fim. De costas para tudo, cerrei os punhos e pensei em finalmente tomar uma atitude, ou, pelo menos, sair daquele cenário de terror.
            Foi quando senti o toque ardente de Anitta em minhas costas. Me virei, nossa, ela estava linda! Mesmo suada, senti seu perfume provocante, nossos corpos próximos. Anitta trazia um sorriso maligno, mas permanecia fascinante pra mim:
            - Vem comigo, Platão! – pensei em lhe perguntar se ela lembrava de mim ou citava o meu nome porque ouviu Homero falar comigo, mas seus olhos não pediam dúvida, apenas obediência. Como na infância, apenas a segui.
            De volta à área principal da oficina, vi Homero amarrado na cadeira, se debatendo e praguejando. O som alto do funk no rádio abafava os xingamentos dele. Anitta colocou o dedo indicador da sua mão direita nos lábios dele, recomendando que se calasse. Desolado e intimidado pelo olhar de Anitta, Homero só pôde obedecer.
            Então, na frente dele, Anitta me puxou de encontro ao corpo dela e me beijou na boca. Senti meu corpo afastar-se da Terra e transformar cada segundo daquele beijo numa eternidade. “Ah, Anitta estava me usando pra se vingar de Homero; eu era um mero objeto de seu plano”, minha consciência condenava minha passividade diante da garota, mas, ah, bem que eu estava gostando! Ah, uma vida inteira em um beijo!
            Acordei do êxtase quando Anitta afastou seus lábios dos meus e suavemente me empurrou. Olhei nos olhos dela; éramos cúmplices de uma vingança bem feita. Não havia mais ódio em seu olhar, apenas um brilho satisfeito de justiça. Então ela desciou seu olhar para a porta. Não era mais uma menina má; era novamente a doce Anitta, que precisava partir, seguir em frente.
            Busquei ser cavalheiro, abri a porta da oficina e fiz uma leve mesura, indicando-lhe a saída. Anitta tocou de leve o meu rosto, fez uma breve carícia, deu o sorriso mais lindo que já vi em toda minha vida e foi embora, sem olhar pra trás, deixando ainda mais desolado o estúpido e amarrado Homero.
            Fora em alguns sonhos esporádicos, nunca mais vi Anitta. No dia seguinte à sua visita, Homero e eu continuamos os trabalhos na oficina. Ele não me demitiu, nem me dirigiu mais nenhuma ofensa. Homero parecia estabelecer com isso um contrato de silêncio sobre o vergonhoso episódio. Imagino a cara que ele vai fazer quando ver essa nota publicada no meu facebook e em outras redes sociais! Nunca gostei dele mesmo e, caso me demita, até que me faria um favor. Anitta mudou sua história. Está na hora de eu fazer o mesmo com a minha vida.    

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