segunda-feira, 22 de abril de 2013

Solidões históricas compartilhadas: A terra de Mirtes Fernandes não foi descoberta por Pedro Álvares Cabral


No dia 22 de abril de 1500, o navegador português Pedro Álvares Cabral tornou-se oficialmente o primeiro europeu a chegar ao Brasil. Tal episódio histórico recebeu o famigerado título de ‘Descobrimento do Brasil’, como se aqui não houvesse habitantes – que famigeradamente foram chamados de índios, como se fossem moradores da Índia. Foi o início da farsa (até porque Pedro Álvares Cabral possivelmente NÃO foi o primeiro europeu a chegar ao Brasil – muitos sustentam que foi o espanhol Francisco Pinzon que pisou em terras brasileiras em 1498, 2 anos antes do navegador português Cabral).
Pra atirar lama poética no ventilador da História, compartilho hoje minhas solidões poéticas com minha ex-aluna, a fodástica poeta teresopolitana Mirtes Fernandes, que, na época em que estudava na E. M. Nadir Veiga Castanheira, fez um poema sobre os primórdios históricos do Brasil, inspirada nas aulas de História da professora Andressa Prado e baseada no – diversas vezes, parodiado – poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias.
Vale a pena reparar como Mirtes usa habilmente a intertextualidade (comunicação com outros textos – no caso a “Canção do exílio” e textos informativos de livros de História) e os recursos poéticos (anáforas – repetições de expressões -, ritmo bem elaborado com uso de palavras com sons finais quase iguais gerando um sonoridade envolvente de quase rimas e hipérbatos – inversões da ordem comum das orações, etc).
Como o próprio eu lírico de Mirtes diz, é preciso rever o passado pra compreendermos nosso histórico gosto pelas farsas dos Cabrals do presente, amigos brasileiros!

Minha terra

Minha terra tem muitos índios
Mas dizem que quem descobriu foi Cabral.
Mentiroso de mão cheia,
Terra já habitada não pode ser descoberta.

Minha terra tem riquezas:
Ouro, prata, pau-brasil.
Portugal interessada
Veio colonizá-la.

Vivo sempre a pensar
Por que dividi-la
Em quinze faixas de terra?
Não seria melhor só uma?

Minha terra é tão fértil
Que até cana-de-açúcar
Que é de outro país
Se deu bem aqui.

Tantos anos se passaram
Por que do passado me lembro?
Acho que talvez para entender o meu Presente.


Um comentário:

  1. Olá Carlos! Tudo bom?
    Muito interessante sua postagem. Engraçado como há pessoas que ainda acreditam nisso. Pior, ainda ensinam isso nas escolas. Foi assim que eu aprendi até que no meu ensino médio me foi tudo desmentido. E até descobri que o famoso tradado de Tordesilhas havia sido assinado em 1496, ou seja, a galera já sabia muito bem que haviam terras aqui. Até porque Colombo "descobriu" a América muito antes. E acaso o Brasil não faz parte dela? Desculpe o desabafo... rs
    Quanto ao seu poema, só penso o seguinte: você conseguiu mostrar direitinho que desde o começo o nosso país sempre esteve errado. Dá pra entender com o passado como estamos hoje, não? rsrs É complicado. Será que olhando para trás não dá para aprender? Bem, desculpe-me mais uma vez o desabafo... rs
    Amei a postagem! Fica aqui o convite a visitar meu blog também. VAi ser um grande prazer te receber.
    Abraços e uma ótima semana.

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