segunda-feira, 15 de abril de 2013

Solidões compartilhadas: Denis Pereira 'indionizando' a modernidade


Hoje compartilho pela primeira vez minhas solidões poéticas com o múltiplo artistamigo valenciano Denis Pereira. Conhecido pelos fodásticos desenhos que faz (ele é o responsável pelo desenho de toda última capa de minhas obras, do meu quarto livro até o mais recente, Diários de Solidão, de 2010), Denis Pereira agora transita das artes plásticas para a poesia. Há algum tempo, ele me enviou pelo face um fodástico poema, de sua autoria, uma espécie de manifesto poético de descivilização e insurreição indígena em nosso íntimo. O poema de Denis Pereira chega ao blog em um momento importante para refletirmos sobre nossa herança indígena, há tanto tempo negada; atualmente, quase que completamente rejeitada (a violenta expulsão dos índios do antigo “Museu do Índio” – que será demolido – no Rio de Janeiro/RJ, é uma prova de nosso desrespeito com os filhos mais dignos de nossa terra). Estamos próximos de mais um “Dia do Índio” (20 de abril), período em que deveríamos reconhecer que há muito pouco a se comemorar: há tempos, a cultura indígena é tão marginalizada que considero até vergonhoso comemorarmos um dia dele, sem fazermos nada pelo povo que representa alguns de nossos principais antepassados.
Quanto ao processo de produção do poema, o artista destaca um conceito já usado pelo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (a de que o escritor é apenas um ‘cavalo’, um receptor das vozes de seus personagens e eus líricos): “Na verdade, cara, [o meu poema] não é só meu. Sou apenas o instrumento. Acho que tô descobrindo em mim um tipo de mediunidade; são como sussurros psíquicos, se é que existe essa palavra”, confessa poeticamente Denis Pereira.
Em tempo: Esse poema de Denis Pereira será lido por mim no festivo Sarau Solidões Coletivas In Bar do dia 20 de abril, às 19 h, na Boite Mr. Night, em Valença/RJ, comemorando 1 ano do sarau!
Conheçamos a faceta lírica desse artista múltiplo chamado Denis Pereira, amigos leitores!

Indionizar a modernidade

Desumanos em fuga
Noite de prazer momentâneo
Dias de sofrimento duradouro
Às vezes olham para trás
Mas não é de lá que está vindo o inimigo
Às vezes para os lados
Porra! Mas não tem nada ali!
Deve ser coisa da minha cabeça.
O negócio é olhar pra frente e ser feliz.
Mas a mania de perseguição continua
Uma hora ou outra sempre olham para cima
Que luzes são essas? E que sinais são esses?
Droga!
E olhando para baixo a tristeza os consome
Se perguntam se valeu a pena
Se vale a pena
Mas mesmo sem admitir e saber sentir
Todos sentem
Pois não dá pra fugir para sempre de seu maior inimigo
Sempre tão perto
Sempre os alcança
É! Mas talvez seja necessário...
Nada acontece por acaso!
Hipócritas egoístas
Com tanto desmatamento, fumaça preta, fedor e água podre,
Sangue e traição
Até os índios e os animais ririam de nós
Se essa piada tivesse alguma graça
Mas vamos, precisamos seguir em frente!
Não podemos ficar aqui!
Acalmar-nos e buscar o verdadeiro amor!
O tempo é curto, temos que satisfazer nossos desejos!
Temos que provocar mais dor!
Não, irmãos,
Essa fuga é em vão
Pois todos temos um coração
Temos que parar e nos preparar agora
Pois só quando estivermos frente a frente com o nosso interior
Veremos que o que faz valer a pena é a nossa intenção
Ninguém gosta de sofrer e sentir dor
Todos buscam egoisticamente sua satisfação e paz
Não conseguimos nos ver uns nos outros
Não conseguimos sentir a dor dos irmãos
É difícil se preparar
Eu sei
O treinamento é duro
É verdade
Mas isso sim vale realmente a pena
Matamos e modernizamos nossos índios
Agora vamos nos matar e indionizar nossa modernidade
Parar de fugir e buscar com sinceridade
O equilíbrio e a verdadeira liberdade

Desenho de Greg Tocchini, artista de quem Denis é fã.
Conheça mais da obra de Tocchini em: http://gregtocchini.blogspot.com.br
 

2 comentários:

  1. Muito legal, mais uma ótima faceta do Denis, curti muito!

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  2. Muito bom e profundo o poema!

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