quarta-feira, 10 de abril de 2013

O sorriso de Cândido ou o Otimismo ou Sorria que eu tô te filmando


- Sorria e o mundo lhe sorrirá, Cândido.
Encantado com o sorriso faceiro do filósofo que lhe dirigira a palavra, Cândido foi conhecer o mundo.
Entrou no ônibus. Não tinha dinheiro para a passagem, mas precisava de um meio de transporte mais ágil que os próprios pés. O Cobrador fez jus ao seu nome e lhe cobrou a passagem (muito cara, por sinal, mas reclamar disso é tornar-se incômodo e tornar-se incômodo é tornar-se inapropriado ao mundo e tornar-se inapropriado ao mundo é negar as maravilhas que nele há). Cândido sorriu francamente para o Cobrador e lhe disse que não trazia um tostão sequer no bolso. O Cobrador tentou ler em Cândido a faceta de mais um malandro ou a proeza de um louco, mas surpreso com tão franco sorriso, apenas pediu que o alegre rapaz saísse do ônibus.
Apesar do primeiro fracasso em sua jornada, Cândido seguiu a viagem pelo mundo a pé e manteve o sorriso, afinal tal fato não deveria lhe trazer pesar, não se pode lamentar pelo que não teve, se não teve é porque não era pra ser seu, é um bem supérfluo, ainda havia uma linda estrada pra se admirar na caminhada; que ideia louca essa de entrar num ônibus sem pagar, ora! Assim Cândido amadureceu a filosofia iniciada: o sorriso seria mantido, mas só seria perfeito se ele tivesse dinheiro.
Após muitos quilômetros avançados, a fome apertando, Cândido sorriu para o seu estômago, mas descobriu que alegrias não alimentam o corpo. Procurou uma árvore com frutos gratuitos pela estrada, mas a natureza era rara na paisagem das queimadas. Bateu na porta das poucas casas que via durante a caminhada; com o êxodo rural por empregos nos centros da cidade eram cada vez mais raras as habitações naquela parte da estrada. Sempre que era atendido, Cândido sorria e, em algumas casas, recebeu até alguma comida para seguir sua jornada, mas alguns reclamavam que o dinheiro deles mal dava para alimentarem suas famílias. Sorrindo, Cândido condenou o negativismo destes e lhes recomendou que sorrissem como ele. Recebeu em troca sorrisos desdentados e desgostosos de seus interlocutores, que, cabisbaixos, apesar da alegria forçada, se despediam com recomendações de dias melhores em sua caminhada. Cândido obsequiava e, constantemente sorrindo, lhes dizia que o caminho já lhe era satisfatório, apesar dos obstáculos, mas o discurso sempre se encerrava no vazio, pois o interlocutor já havia partido pra dentro de seu lar.
Mesmo nesses altos e baixos da jornada, Cândido mostrava-se feliz, pois, apesar das dificuldades, conseguia seguia em frente. Chegando à área urbana, tratou de procurar um emprego; tinha os sapatos gastos, o corpo suado, a roupa um tanto amarrotada, o aspecto miserável, mas mantinha o sorriso impávido no rosto. Nos poucos pontos comerciais que ofereciam vaga, recebia em troca o sorriso, mas, devido ao aspecto horrível e o mau cheiro que exalava, nenhum empregador ousou lhe conceder o emprego desejado. Cândido também tentou buscar o mercado informal – lavar carros, esmolar, roubar -, mas, após receber alguns sopapos dos trabalhadores do ramo, reparou sorrindo que tais meios de sobrevivência já estavam sobrecarregados de empregados.
Novamente faminto, manteve o sorriso, mas reparou que as pessoas que passavam ou o julgavam louco ou o desprezavam ou simplesmente não o notavam. Talvez o método tenha falhado; buscou dentro de si todas as forças pra que seus lábios resistissem sorrindo e tranqüilos diante daquelas provações. Tornou-se uma lenda urbana: o mendigo que manteve o sorriso, mesmo desmaiado. Foi levado a um hospital público; quase morto, foi reanimado. Ressuscitou com um sorriso incorruptível, o mais feliz de todos os homens.
De tanto sorrir, foi aceito entre os pedintes em frente ao hospital. Cândido podia ter perdido a chance de conhecer o mundo, mas agora estava inserido numa sociedade, no melhor dos mundos possíveis. Desejava agradecer ao filósofo que o aconselhou, mas, mesmo que o procurasse na cidade, não o encontraria: enriquecido pela venda do manual de sua revolucionária teoria filosófica, o nobre sábio agora viaja pelo mundo, rindo à toa. 

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