sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Solidões compartilhadas: Os disfarces negros e poéticos de Bruno Couto


Hoje compartilho minhas solidões poéticas pela primeira vez com o poeta e músico valenciano Bruno Couto. Conheci o fodástico artista no último Sarau Solidões Coletivas In Bar, quando ele me mostrou um poema de sua autoria e topou declamá-lo ao vivo, acompanhado pelo violão de Eddie Mendonça. Trago dois poemas do jovem autor. O primeiro, “Disfarce negro”, é rico em atmosfera gótica e em musicalidade (segundo Bruno, a obra foi concebida como letra de música, mas pareceu-lhe melhor como poema), uma crítica feroz ao autoritário “fazer direito” da sociedade (lembra-me muito os poemas de Baudelaire e da primeira fase de Cruz e Sousa – aquela do “Acrobata da Dor” entre tantos outros grandes poemas). O segundo, que batizei de “Negado”, desfaz a visão dogmática de ver Lúcifer simplesmente como um ser do mal (“acho que julgar que erra não é ser mau”, afirma Bruno Couto) e me lembra um pouco o “Rock do Diabo”, de Raul Seixas, e “Simpathy for devil”, do Rolling Stones (por sinal, os versos finais do poema “Negado” de Bruno Couto trazem um ritmo muito parecido ao do refrão da música dos Rollings Stones).
Encontremos nossos disfarces negros, sem hesitações, através do fodástico universo poético de Bruno Couto (todo mundo tem algo oculto por trás das máscaras do dia a dia, não adianta negarem, amigos leitores).

Disfarce negro

Há uma máscara para cada um de seus pecados,
Há uma indulgência que paga por cada violação,
Há um desprezo por tudo o que existe,
Mas como se não há nada além de tudo isso?

Sob a luz
Teatro da desgraça,
Negação da vida,
Miséria é breve...

No frio da noite,
Meu espírito vai queimar,
Precisando "fazer direito"
Para se esconder e não aprender!
Diante da cruz - lágrimas em vão!
Nos representando no palco de novo ...
Cubra os olhos para não ver a sua vida.
Mas até lá fique na escuridão meu coração!

Sob a luz
Teatro da desgraça,
Negação da vida,
Miséria é breve...

No frio da noite,
Meu espírito vai queimar,
Precisando "fazer direito"
Para se esconder e não aprender!
Sob um disfarce negro!
Oh, disfarce negro!
(Nos rendemos!)



Negado

Do seu lar fui negado por algo que não fiz,
Hoje pago por pecados pelos quais nem mesmo cometi,
Sempre sou lembrado nos momentos de dor
E esquecido nos momentos de amor,
Por várias culturas passei e vários nomes recebi
Mas por apenas um atenderei:
“Lúcifer”
E pela eternidade existirei!


2 comentários:

  1. Carlos, totalmente de peso esse menino hein. adorei os dois poemas (e como sempre não consigo marcar apenas fodástico - sou linguaruda, reconheço rsrsrs). Outro dia falei com algumas pessoas que fizeram até o cruz em credo para mim só porque eu manifestei a opinião de que em breve a humanidade terá que pedir perdão ao diabo por lhe inferir todos os erros em sua conta e se isentam de suas responsabilidades em seus atos e disparates.

    Lendo o poema "Disfarce negro" do Bruno couto, fortaleci ainda mais a opinião de que para mim "fazer direito" é o maior dos erros que podemos cometer, porque esse "direito" é pautado pelo que a sociedade acha que é direito, e nem sempre o que ela acha que é direito que eu faça é o que verdadeiramente eu acredito ser o direito. Portanto, fazer direito para mim é fazer errado (no sentido ambiguo do negativo e positivo).

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  2. Todo mundo tem desejo que não divide nem com o travesseiro!!!e o pecado é algo que nasce em nossas raizes!!!Não neguemos...aceitemos nossa profunda incapacidade de saber das verdades obscuras...Que verdades são essas??belos poemas...!!!

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