quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Meu oriente poético: Eu boneco inflável


Alguns cineastas que marcaram meu retiro cinéfilo das férias desse último janeiro foram os asiáticos Wong Kar-Wai (Hong Kong) e  Hirokazu Koreeda (Japão). Assisti à parte (e pretendo assistir a muitas outras mais) das obras deles – de estilos bem diferentes, mas ao mesmo tempo extremamente poéticos, cada um em sua forma peculiar - graças ao blog Sonata Première, pois seus filmes Cult são de difícil acesso / locação (antes eu só havia assistido ao premiado “Beijo roubado”; através do blog, pude conhecer “Amores expressos”, “Felizes juntos” – que prefiro chamar de “Happy Together”, pois o título original faz referência à famosa canção do The Turtles –, os três de Wong Kar-Wai e “Boneca inflável” – este de Hirokazu Koreeda). De todos esses, apesar da maravilhosa fotografia e roteiro de “Felizes juntos”, o que mais me marcou foi o fodástico “Boneca inflável”. O filme causa um estranhamento no início, pois seu pacto ficcional (o ato de adentrarmos no universo imaginário do filme) se dá no plano do realismo fantástico: uma boneca inflável, objeto sexual de um homem solitário, toma vida e, durante as manhãs e tardes de ausência de seu dono, passa a andar pela cidade, conhecendo a atmosfera opaca do cotidiano humano. Caminhando com ela pelo vazio da cidade moderna, nós, os espectadores, nos damos conta de nós mesmos e o quanto da conhecida solidão nossa coletiva há no universo que a boneca vê; o estranhamento passa e estamos absolutamente envolvidos na trágica trajetória da boneca inflável. O filme e os universos dos cineastas asiáticos citados me marcaram tanto que o fenômeno da criação poética aconteceu naturalmente: como tudo que amo e absorvo, a obra se tornou uma inspiração para um novo poema.
Para a produção desse poema, me baseei na temática de amor e desamor, comum nos filmes de Wong Kar-Wai, e de vazio, impresso na obra-prima de Hirokazu Koreeda. Para isso, também retomei a personagem “Ela” (referência a uma música fodástica da antiga banda valenciana “Província”) de um conto fantástico meu chamado “Figuras de linguagem”, ainda não publicado no blog, mas presente em meu sexto livro “Diários de solidão” (2010). Inverti os papéis do filme – o boneco inflável é o eu lírico e “Ela”, a dona, que, após algum tempo de uso, abandona o homem-objeto. Os capítulos são divididos por frases de efeito ditas pelos personagens do filme “Boneca Inflável” ou impressões deixadas nos olhos do espectador (como é o caso do título do capítulo I). O poema traz várias referências pops nacionais (há citações de músicas da Legião Urbana, Herva Doce, Engenheiros do Hawaii, Biquíni Cavadão e até de funk – o “Bonecão do posto”), imitando a característica de inspiração pop dos cineastas  Wong Kar-Wai e Hirokazu Koreeda (em “Felizes juntos”, há a clara referência “Happy together”, do The Turtles; em “Amores Expressos”, “Califórnia Dreams”, do Mamas And Papas, é tocada frequentemente; em “Boneca Inflável”, há referência a poemas e a filmes – como a “Pequena sereia”, procurada incessantemente por um pai na locadora onde a boneca inflável passa a trabalhar).  Meu poema traz uma temática menos densa que a do fodástico filme homenageado, mas tenta seguir uma constante do universo cinematográfico de Wong Kar-Wai e Hirokazu Koreeda: a fragilidade e sutilezas das relações humanas.
Nos enchamos de ar e caminhemos pelos universos poéticos de Wong Kar-Wai e Hirokazu Koreeda, amigos leitores!
 
Boneco inflável

Parte I
A beleza é feia

Ela me dizia
Que eu era lindo,
Mas esqueceu de me informar
Que éramos jovens demais.

Ainda é cedo,
Eu lhe diria,
Mas Ela não me ouviria.
Saiu sem dizer adeus;
Talvez por isso Ela ficou em mim...

Andando pela cidade
Mais tarde,
Percebi sozinho
Que a beleza era vazia...

Parte II
Mãos frias é igual a coração quente

As mãos dela estavam quentes
Sobre meu ombro decadente.
Talvez eu fosse a solução
Pros seus problemas,
Mas fui problema sem solução.

Minhas mãos frias sobre a mesa aquecida
Pelo toque de suas mãos ardentes
Na colocação das cartas sobre a mesa.
No jogo da despedida,
A disputa acabou e eu perdi por W.O.

Eu deveria lhe dizer adeus,
Mas não disse.
Meu coração quente só percebeu o inverno
Quando Ela abriu a porta
E deu a partida...

Parte III
Somos todos vazios

O boneco do posto vive maluco,
Vive doidão,
Cheio de ar, cheio de vida artificial,
Enquanto consumidores exibem
Seu universo rarefeito
Na entrada e saída
Da loja de conveniência.

Realidade incoveniente
Ver tanta gente indiferente
Passando pelo boneco dançarino
Sem esboçar nenhum sorriso.

Nesses feriados sem Ela,
Minha mente não descansa
E, refém de pensamentos absurdos,
Imagino que o boneco do posto
Tão maluco, tão doidão
É só mais um homem inseguro
Enganando a solidão.

Parte IV
Dói ganhar um coração

Eu, que não a amava,
Agora fumo, bebo conhaque
E nem é mais inverno!
Agora percebo que tenho coração,
Mas ele bate demais.

Onde está a ferida
Que me abre?
Preciso estancá-la
Pra perder a falta de ar,,,

Então beijo outra e mais outras,
Assim volto a respirar,
Mas todo beijo acaba,
Então volto a esvaziar.

Parte V
Nem tudo é tristeza no mundo que vi

Enquanto as calçadas serviam
De lenço pra chuva,
Vi uma garota tentando abraçar
As gotas que caíam.

A garota tinha pressa,
A garota tinha vida,
A garota não era Ela,
A garota que, de repente,
Sorriu pra mim,
Fazendo cócegas de sol
Em meu coração sereno.

A garota era um sonho
Que eu não via;
Acordei e vi que a chuva infinita
Não mais me caía:
Seja tristeza, seja alegria,
O pra sempre sempre acaba.

Então percebi que pessoas tristes
Também sorriem;
Todas as estações passaram
E agora eu passo por Ela
Triste sorrindo,
Enchendo meu pulmão de ar,
Em busca da garota dos sonhos,
Em busca de um novo pra sempre
Que também vai acabar
(Dói, eu sei;
Mas é só de vez em quando).



2 comentários:

  1. Olá Guri!

    Uaulll!!! Simplesmente fantastico
    se baseio bem em um tema que lhe rendeu belos versos. Muito bom

    Bjim

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  2. Boneca Inflável parece ser muito louco! A ideia é original, e acho que é bom a gente tentar se ver de outra perspectiva...
    Vou procurar assistir!

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