domingo, 10 de fevereiro de 2013

Mais de 50 tons de cinza nas “Aventuras de Pi”


Quando soube que o filme “As aventuras de Pi” estava passando no Cine Glória, de Valença/RJ, não sei por que tive uma reação de ojeriza ao filme (talvez – talvez não: com certeza - pelo fato de ter 11 indicações ao Oscar – muitas indicações de um festival de filmes que prima pela politicagem, com raras exceções, apego a valores estadunidenses de patrotismo cego e autorreferências de nação narcisista, me fez desconfiar do mais novo sucesso de bilheterias. Em resumo: não vi esse novo filme do diretor Ang Lee (ainda, pois, como vários outros filmes, pretendo me despir dessa pré-conceituação e assisti-lo – o que não tira minha desconfiança a obras ‘dignas de Oscar’), assim como não li o livro que o gerou (ainda também, por ainda não ter acessado a obra – fato que resolvo em breve), não é o que me importa agora, nem é o assunto dessa crônica que inicio. O fato é que tive uma ojeriza inicial ao filme e não sei explicá-la direito; algo me fazia antipatizar com a obra e me fez, inconscientemente, ignorar as notícias sobre ela.
Moacyr Scliar, o fodástico escritor
"meio desconhecido"
Algum tempo depois, ouvindo distraidamente uma conversa alheia (sim, não há moralidade nesse quesito de produção literária: cronistas têm ouvidos de fuxiqueiros e buscam assuntos pras suas crônicas muitas vezes através desse viés), soube que o livro “Life of Pi”, do canadense Yann Martel, obra que gerou o filme, foi acusada de ser um plágio de uma obra de um escritor brasileiro do Rio Grande do Sul “meio desconhecido”. Fiquei tentando imaginar qual era esse escritor gaúcho “meio desconhecido”. Mais tarde, numa investigação virtual, descubro que o escritor gaúcho “meio desconhecido” era o fodástico MOACYR SCLIAR (!!!) e o livro, possível vítima do plágio, era “Max e os felinos” (1981). Sim, MOACYR SCLIAR, vencedor de 3 Prêmios Jabuti de Literatura (1988, 1993 e 2009), 1 Prêmio APCA (1989) e 1 Premio Casa de Las Américas (1989), sétimo ocupante da cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras, autor de mais de 60 livros, em sua maioria muito elogiados pela crítica nacional e internacional, com obras traduzidas em diversas línguas – inclusive para o inglês, cuja possível tradução o escritor Yann Martel deve ter lido para realizar seu premiado (o autor ganhou o Prêmio Boker) 'quase plágio' bem-sucedido (as desculpas esfarrapadas do canadense só comprovam mais sua culpa e a falta de fineza ao considerar ter melhorado a "ideia" de outros escritores).
Obra de Moacyr Scliar,
traduzida para o
inglês
Mas não é o caso do plágio que me ofende (o próprio Scliar não quis processar o pretensioso Yann), não é o fato de o filme concorrer ao Oscar que me chama a atenção, não, nada disso é o assunto dessa crônica, isso é só uma introdução pra explosão, a montagem para a dinamite que me detona: o que me dói é o “meio desconhecido”, é a falta de conhecimento da maioria da população brasileira para escritores nacionais fodásticos como Moacyr Scliar (ah, ninguém tem a obrigação de saber tudo, né? Pois a mídia nacional e internacional sabia bem quem era Scliar, inclusive o escritor canadense Yann Martel); o que me faz baixar a cabeça de vergonha é lembrar que sou brasileiro numa hora dessas.
O tigre de bengala
da capa de "Life of Pi"
debochando do
patriotismo brasileiro
Dá vontade de chorar de raiva, amigo leitor, e se você acha esse comportamento completamente inconcebível e/ou inexplicável, só posso ter mais vontade de chorar de raiva, de medo de mantermos pra sempre essa identidade nacional de povo que samba, é feliz e que só valoriza as coisas de seu país nos momentos de folia parva. Aumentaram a passagem do ônibus? Putaquepariu, vou reclamar no facebook, no twitter, e ficar em casa. Mais um político corrupto no Congresso Nacional? No próximo ano, vou votar no Neymar, nada pode piorar, nosso negócio é driblar. Plagiaram a ideia de Moacyr Scliar? Ah, é mesmo... e quem é esse cara? 
Há muito mais que 50 tons de cinza na nossa relação com a bandeira verde, azul, amarela e branca; maltratamos a pátria idolatrada, somos sadomasoquistas, gostamos de bater, gostamos de apanhar. Só não gostamos muito de pensar. 
Me desculpem, foi só um desabafo sem nexo, sei que vocês têm que sair, afinal hoje é domingo de carnaval. Me desculpem, podem ir pra folia, curtam a vida, que é bonita e é bonita; só me deixem aqui quieto no meu canto. Acho que vou ler “Max e os felinos”, ficar diante da fera mais uma vez pra me distrair... 


        

2 comentários:

  1. Bem dito o que foi dito por voce Carlos. Eu também fiquei sabendo dessa triste notícia e do descaramento desse escritor canadense, o que me indignou foi ele dizer que não via problema em pegar a ideia de um escritor medíocre e melhorá-la. Acredito que ele não saiba o significado da palavra medíocre.

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  2. "Putaquepariu" é a melhor expressão da indignação!

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