sábado, 5 de janeiro de 2013

Velhos poemas juvenis de um sobrevivente do fim do mundo: Hoje você não vê


Buscar a trajetória musical de Adriano Gonçalves, espalhada em fotos, vídeos e arquivos da internet, dos computadores meus, da Ju e do Zé Ricardo e nas gavetas da memória, me fez reencontrar velhos poemas juvenis meus, que permaneciam esquecidos ora por não se encaixarem em nenhum dos meus livros publicados, ora por fazerem parte de fases também superadas, ora por serem mais pessoais que líricas. Encontrei um poema que se encaixa a esse último caso (e um pouco à primeira situação – não visualizava esse poema como parte de alguns de meus livros iniciais), escrito num período tão delicado quanto o momento atual.
“Hoje você não vê” foi escrito de uma só vez, meio que febrilmente, mantido em sua forma bruta – a única vez que tentei mexer nele, ainda muito jovem, o resultado foi tão desastroso que o mantive na gaveta do esquecimento. Foi escrito após eu saber do suicídio de André, irmão do Alvinho. Sempre ia ou passava pela casa dele, na Rua do Sabão (era caminho pra Rodoviária, onde eu pegava o ônibus para Barra do Piraí, minha cidade natal e lar da minha família por parte de pai), e quase sempre o via na janela, sempre sereno ou sorrindo, ouvindo Faith No More (foi o André que me mostrou o, na época, recém-lançado “Angel Dust”, da banda, “a melhor do mundo”, segundo André, liderada por Mike Patton). Era comum visitá-lo também porque o irmão dele, o Alvinho, era amigo de meu primo Charles, com quem eu andava frequentemente. Outro ponto comum que tínhamos era a vida boêmia, eu era um moleque em comparação a ele, mas sempre nos esbarrávamos na rua, em clube, em bares (Valença é uma cidade pequena, o que facilita encontrarmos os conhecidos durante os giros noturnos pelos ambientes de tediosa diversão do centro do município), e ele sempre me cumprimentava, conversava, perguntava dos poemas, etc, e nossa diferença de idade era imensa e ele parecia não ligar pra isso. Foi muito estranho passar pela Rua do Sabão, perguntar pelo André e só ouvir de um familiar que ‘ele já não está mais aqui’, contemplar o rosto triste daquele estranho e seguir para casa sem entender nada. O Charles depois me contou o que houve, mas segui sem entender; na época, lembrei da minha prima Eliete, eu era criança e ninguém me explicava nada; cresci e continuei sem entender, “vivendo e não aprendendo”, como diria a banda paulista Ira!. Mais estranho ainda era passar pela Rua do Sabão e não encontrar André na janela; nada, nem sorriso, nem serenidade (com o tempo, passei a dar a volta pela outra rua pra evitar encarar a janela da casa dele fechada. Muito tempo depois, retomo o trajeto, mas confesso passar de cabeça baixa pela janela da casa onde ele residia). Agora relembrar de Adriano, resgatar sua arte viva, me faz me reencontrar com estas cenas do passado, com André na janela de sua casa, com o poema abaixo que finalmente crio coragem em publicá-lo.
Peço desculpas aos leitores se ando repetitivo, mas aqui não é um facebook, onde basta uma atualização e toda a sua página de status e notícias modifica num passe de mágica; aqui é um Diário de Solidões Coletivas, passado e presente permanecem em mim e em meu eu coletivo sem precisar consultar linha do tempo, “sou a soma de tudo que vejo”, como diria a canção “Meu reino”, do Biquíni Cavadão, sempre digo aos meus alunos e artistamigos “escrevam pra desabafar, pra manter seus universos particulares e coletivos vivos, escrevam por escrever, tirem o peso do mundo nas palavras pra marcarem a sua existência, pra sobrevivermos”, e eu escolhi escrever pra me sobreviver; lamento que as últimas postagens não correspondam com o sol que sorri ali fora, às vezes a melancolia persiste e o verão parece frio e distante. Sei que vai passar, nem tudo vai se esclarecer, mas o meu mundo e este blog voltarão a clarear os sentidos, mas por enquanto é assim que vejo o que “hoje você não vê”.

Hoje você não vê

Hoje você não vê o movimento
Através da janela,
Não ouve música,
Não bebe mais...
Me disseram que você mudou
De casa,
De tom,
De bar,
Me disseram que você não volta mais...

Eu era seu amigo,
Do meu jeito,
Eu tentava ser...
Se tivesse me pedido uma força,
Talvez um abraço,
Eu teria dado um jeito
De consegui-los pra você,
Mas nada disso importa agora;
Depois que a última palavra foi sua,
Nada mais importa...
Respeito sua decisão,
Mas não me obrigue a aceitar,
Você era um vencedor,
Pelo menos, tinha capacidade pra vencer,
Mas, agora, me diz:
O que ganhou desta vez?


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