terça-feira, 2 de outubro de 2012

Solidões Compartilhadas: Uma longa viagem de Jim (Morrison sem gelo, por favor!)


Hoje posto para vocês, leitores, a solidão poética compartilhada mais louca, psicodélica e hipnótica que esse blog já teve: um poema feito a quatro mãos, um dueto lisérgico realizado por mim e por Carlos Orfeu em homenagem a Jim Morrison, vocalista da banda The Doors. Após realizarmos, há tempos atrás, um poema escrito on-line, em tempo real e em dupla chamado “Ode ao ódio destilado” (em homenagem à cachaça e sua embriaguez – já publicado aqui no blog), Carlos Orfeu me convidou para novamente fazermos um poema em conjunto. Como eu sabia do fã-natismo do poetamigo pelas canções dos The Doors,  propus que o tema / inspiração fosse as canções da banda. Eis o resultado: abrirmos as portas (the doors, em inglês) para um poema alucinado, inspirado nas letras místicas e psicodélicas do lagarto-rei (como chamavam o fodástico poeta, compositor e músico Jim Morrison). As estrofes com a cor branca foram escritas por mim, as escritas em azul são do mais que psicodélico poetamigo Carlos Orfeu.
Em tempo: o poema foi declamado por mim e por Carlos Orfeu, acompanhados dos acordes psicodélicos de hélio Sória, no Identidade Cultural e Movimento Culturista 7, organizado por Janaína da Cunha (postei o vídeo após o poema pra quem quiser conferir como foi essa viagem lírico-musical).
Que comece a viagem, amigos leitores!

Uma longa viagem de Jim

I
Light my fire

Seria falso dizer que você me deixou,
seria frio o escuro se não houvesse tanto calor...
Inspiração Nua, acenda a luz
E me diga: sou sua!

Acenda a brasa de minha alma
com toda vitalidade e vapor,
faça-me dançar como os índios em torno da fogueira na celebração de um rito,
faça-me uivar com meus infinitos lobos despertos no peito

Só precisamos de um pouco de Jim pra acabar com esse pudor,
abrir as portas, curtir esse estranho fulgor...
Qual é, Inspiração Nua, acenda-me a luz, por favor!

Precisamos de ponte para delirarmos no deserto,
precisamos fugir,
precisamos correr eletricamente nas rodas dos carros,
nas patas dos cavalos de fogo

Yeah, Inspiração Nua, já vejo os raios da lua,
a luz da rua tocarem sua substância outrora obscura,
o quarto em chamas, seu corpo cada vez mais exposto, a volta do amor

O retorno de meu desejo,
as crianças vestidas de quimeras,
os leões rugindo na cidade,
os corvos em cada muro em cada avenida grasnando
e eu à espera ardente de seu corpo,
Inspiração Nua, ama-me, venha no cio de minha alma.


II
The Crystal Ship

O verso não está preso, amigo,
são nossos olhos que veem cadeias
e cadeias diante deste Jim
são só ilusão

Vamos desnudar nossa ótica e singrar as ondas de cristal

Sim, é a lua que brilha,
é o lagarto noturno que rasteja,
é essa a música,
é essa liberdade nos olhos fechados
que enxergam o fim da ilusão

Nos reverencia sorrindo lírio delírio, rasteja e rasga o infinito
sob as brisas e prelúdios das aves estelares da garganta eterna do lagarto rei, liberta os corpos das algemas da carne
Além das veredas do fim, do nada o meio entre o abismo e o abstrato, vaga Jim, vaga abrindo fendas, portas, colhendo seus ramos na lavra de cada alma que sonha

O espírito queima e trafega pelas ruas
beijos, delírios, donzelas prostitutas
de um poema sem fim
ah mais uma dose de Jim (Morrison sem gelo, por favor!)

Neste jogo louco, esta eternidade onde vaga, vaga Jim, vaga, Jim

E somos nós e Jim
on the road
na soturna noite
com sorrisos brilhantes
viajemos, companheiro, viajemos!

Bêbadas avenidas, viadutos, asfaltos, postes chorando luzes amarelas, janelas abertas, mormaço, brinde aceito, escorre líquido Jim entre nossas gargantas
E tiramos os sapatos, provamos da estrada com pés descalços, como é bom sentir a terra queimar, a lua a rolar debaixo da pele, logo o sol queimará e pisaremos em tudo, sorveremos tudo; toda paisagem é líquida para nossos brandos peitos abertos como janelas sem fechaduras.
Viajemos, viajemos num carro lunar,
Viajemos entre os trópicos estelares,
Entre os continentes dos astros

E essa lucidez psicodélica é a nossa identidade:
caminhemos pelas ruas escuras,
beijando a luz da loucura,
olhos fechados e mente aberta,
ali a garota de Ipanema vestida de L.A. woman

Peixes, sagitário, aquário em colisão

Os rios de fogo nos copos dos bares

Eis que, com os olhos fechados, contemplamos o indizível desnudo, puro, e tocamos o corpo da garota de Ipanema, numa louca dança, numa dócil orgia

E a garota de Ipanema diz: toque-me
e seu corpo é feito de versos loucos
e seu vestido é a inspiração mais nua

E aceitamos seu convite, e provamos dos seios noturnos, da rosa entre as pernas
acendamos o fogo do cigarro que a garota lisérgica carrega
Seus olhos são epifanias, a diáfana paisagem sem cor definida

Yeah, estamos loucos, amigo
de olhos fechados
a inspiração de pernas abertas
o movimento sensual da mente liberta

E bebemos a fragrância

E os venenos dela são antídotos contra a falta de esperança
a chama da poesia não se apaga
nosso the end é a eternidade, amigo poeta

Entre nossos dedos, dançando num ballet russo enlouquecido, escorrem os versos vertidos do ventre fecundo da terra eterna da alma

Sim, a terra noturna da terra Planeta
a terra Planeta girando em nossa alma
em nossos versos
contínua
frequente
eterna

Girando, girando, giratório o verso transcendental

Somos demônios beatos nessa noite, amigo poeta

E ouvimos as batidas das ruas, dos esgotos, dos becos, de cada praça pública, ouvimos os cantos ocultos, ouvimos a música do coração de cada humano em sua morada, ouvimos, ouvimos os lamentos dos quartos mudos, ouvimos as preces, os sonhos, as esperanças, os sorrisos das crianças ainda em feto no útero da mãe e da mãe das mães que chora pelas mãos que a contaminam com sangue, arrancando suas filhas, as árvores e os animais

Estamos queimando
queimando
girando e queimando
e o inferno é a realidade derretendo em nossos olhos
nas ruas dessa longa viagem de Jim
nas ruas dessa longa viagem de Jim

Dançando, dançando, dançando desprezando os limites do corpo, desgarramos dos sentidos, da pele e osso, sejamos astrais, deixamos as estrelas voarem de nós como borboletas, dançamos, dançamos, dançamos, dançamos nas ruas, queimando nossos pés, contemplando a Ursa Maior, sendo súditos leais de Rimbaud e do Jim que corre em nós como brando tigre
Veja, meu amigo, os leões vestidos de sangue e terno batido
Veja, meu amigo, as serpentes vestidas de prostituição e drogas
Veja, meu amigo, a pomba branca assassinada nas ruas de nossa viagem, vamos renascê-la com nossa lira em fogo etéreo, nos guetos em murmúrios, nestes subúrbios, viajamos no carro lunar, cujo motorista é Jim ao lado de Kerouac

Então abrimos os olhos
e estamos livres
a poesia voltou, meu amigo
o Jim acabou, mas a poesia continua, amigo
amanheçamos
prontos para a calçada de corpos sem poesia
atravessamos ressaqueados com nosso carro invisível a falta de graça lírica desse dia
e sobrevivemos
mais à noite, outra dose de Jim

Não à morte perante a poesia, somente liberdade e reinícios

A poesia voltou, amigo poeta
a poesia nunca nos abandonou

A poesia nos ama, faz amor com nossas almas, nos beija em nossa boca, se torna fruto, em nossa lavra

Vivamos a trágica rotina e ressuscitemos novamente no fim do dia, amigo Orfeu

Somos gigantes em nossa dor, somos pássaros em nossos céus, nossas asas batemos (os ventos na plumagem inefável, nas veredas do horizonte) e dispersamos em quatro pontos cardeais. A poesia, meu amigo, a poesia nos ama e deleita, nos leva no colo tépido como filhos e somos filhos renascidos  a cada dia do ventre desta mãe eterna
Jim descansa em pó e em paz, Jim reverencia os astros, a eternidade na forma de ave azul, e nós vivos, sempre vivos, criando nossos corpos de versos renascidos do campo branco dos vergéis das palavras em movimento, escrevemos como quem faz amor, e goza e grita elétrico transbordando toda lira nos mares desertos de nossas estradas.
A poesia é eterna,
A poesia não morre jamais!


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