segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Desabafo do abafo artístico no qual nos encontramos


Há algum tempo venho dando sinais de um certo desgaste no blog, mas evitava o assunto, como um raio de sol tenta desviar das nuvens negras. Mas as nuvens negras não passam e provocam estrondosas tempestades dentro e fora de meu universo coletivo particular.
Às vezes, me pego perguntando qual é o objetivo de fazer, transmitir arte hoje em dia. Você não vai alcançar o mundo, muitos abraçarão sua causa em facebooks e outras redes proliferadoras de fakes intelectuais, mas quando realmente olhar à sua volta contará nos dedos aqueles que compreendem os caminhos e descaminhos da rota artística coletiva. Às vezes, mando um foda-se pras dúvidas e apenas sigo em frente, louco pra não enlouquecer com tanta lucidez absurda. Mas, isso é só às vezes, muito às vezes. Na maioria dos momentos estou me perguntando, me auto-questionando, a partir de questionamentos de outros que pouco se auto-questionam – eles são o que são e ser o que são lhes significa ter suas posturas e conceitos estanques pra poderem me mandar rever minhas posturas em eternas metamorfoses. De tanto me questionar, descobri que o meu questionamento sobre arte estava completamente equivocado. Comecei com a pergunta errada: a discussão não está na arte; está em nós mesmos, os artistas questionadores. Vejo artistas pregando a criação de um universo cultural mais amplo e mais justo, enquanto seus versos aumentam centímetros de desigualdade no muro artístico entre ele e os outros, que estão tentando fazer uma arte diferente da dele. Sou metralhado várias vezes por aliar trash metal a bossa nova no mesmo sarau, como se os gêneros musicais vivessem cada um em sua trincheira particular. E o que mais me emputece nisso tudo: enquanto a metralhadora está apontada pra mim, nem o trash metal, nem a bossa nova têm espaço algum nos planejamentos e programações culturais.
Outros alvejam o blog, dizendo que “muitas vezes” publico “obras artísticas sofríveis e sem qualidade”. Então chego a outro ponto: o que é qualidade? Segundo os padrões do início do século XX, Lima Barreto era um escritor de bosta, que maltratava a língua portuguesa. Hoje o cara é visto como um visionário e teve as portas da literatura abertas por Monteiro Lobato, um dos mais questionados escritores do passado na crítica contemporânea. Um escritor modernista é avaliado como péssimo por classicistas e vice-versa, os trovadores em sua maioria julgam-se acima dos poetas como se a literatura e a arte fossem um termômetro que se move de acordo com a análise parcial de cada um.
Uma vez, num congresso, ouvi um sonetista me dizer que não entendia o valor absurdo que dão a Drummond, só por causa de um “poema chato da pedra no caminho”. Perguntei ao crítico se ele conhecia a “Máquina do mundo”, “Elegia 1938”, “José”, as rimas internas, o padrão rigoroso dos versos ‘sem rigor’ de Drummond. A resposta foi “humpf” ignorante e ele permaneceu na tese de que Drummond escrevia conversas e não poemas, pois estes deveriam ser metrificados segundo o método sonetista (versos decassílabos, rimas, 2 estrofes com 4 versos e 2 estrofes com 3). Resumindo: Drummond – que ele nem conhecia direito – era um poeta de merda para aquele sonetista. Me vejo sempre criticado por postar poemas meus e de outros autores numa tentativa de diversificar gêneros e estilos (sempre falha, é claro, sou tão pateta quanto qualquer outro autor que se propõe organizar o que traz o sublime caótico da arte), criticado por quem jamais tentou isso ou o fez de forma bem seletiva segundo critérios narcisistas. O incrível é que as mesmas pessoas que falam em qualidade rejeitam qualquer associação com fascismo e ou nazismo – transformam gêneros, autores e estilos literários diferentes deles em ratos que devem ser isolados e executados em campos de não literatura e matam futuros grandes artistas sem dó por não condizerem com o sistema de qualidade que as mentes críticas alucinadamente criaram. As mesmas pessoas que pregam esse fascismo e/ou nazismo literário clamam pelo apoio coletivo e pela peregrinação em prol da arte livre – que deve seguir, é claro, as algemas de qualidade que eles impuseram. E o que mais dói nisso tudo: enquanto os lados se ignoram e se segregam, o espaço artístico coletivo continua esmagado pela indiferença daqueles que desfazem de toda e qualquer forma artística.
Resumindo: enquanto os artistas se alvejam, se segregam, se torturam, se debatem, se masturbam com suas visões estanques de arte, a arte continua alienada da maioria esmagadora da população. Resumindo mais ainda: enquanto elegemos quem é o melhor, quem é o mais foda, quem é o mais desprezível, não há possíveis eleitores para escolherem o partido. Sendo curto e grosso: os artistas estão em guerra por uma terra que não existe!!! Em suma: estamos sumindo, por não assumirmos as nossas indiferenças com as diferenças artísticas dos outros. Não estou dizendo que não há textos ruins, e sim em como estamos separando-os e como há muita falta de autocrítica em nós mesmos. Já escrevi muita porcaria, sei disso. Passo dias em claro relendo alguns de meus poemas, me perguntando onde errei; leio e releio os textos de outros autores que posto no blog, pensando no que devo analisar deles, o que selecionar, qual é o momento, bato cabeça com meus próprios pré-conceitos. E sempre haverá um roxo que odiará o amarelo, por esta cor não fazer parte dele. Em nome da qualidade indefinível (ou seja, ter padrões artísticos diferentes dos dele), lá vai mais um texto para o campo de concentração dos ‘inaceitáveis’ pelo bom gosto particular. Enquanto isso, a poesia contemporânea e outros gêneros artísticos, admirados pela crítica ‘especializada’, nunca foram tão herméticos e tão impopulares (não confundir com impopulista, por favor) quanto nos tempos atuais. Brincamos de oróbulos, estamos comendo a nós mesmos, cachorros caçando o próprio rabo. E não me venham com aquele papo de super-homem, de que ‘só os selecionados’ darão valor a nossa arte cheia de pré-conceitos. Vou te contar quem são os selecionados: nossa família, um ou outro puxa-saco de sobrenomes pomposos e meia dúzia de seletos amigos. E aí é que está a foda mal tirada: do lado de fora desses selecionados tem uma porrada de escritores e leitores em potencial que estamos ignorando por ficarmos nos rachando em prol da qualidade pré-concebida. Me lembro dos versos de “Beautiful”, de Cristina Aguilera (sim, é pop, não é nenhum Alfredo Bosi, e daí? E se eu não tivesse te informado a autoria, hein?):

“Não importa o que fazemos
(não importa o que fazemos)
Não importa o que dizemos
(não importa o que dizemos)
Nós somos a música dentro da melodia
Cheia de erros bonitos
E para onde nós formos
(e para onde nós formos)
O sol sempre brilhará
(sol sempre brilhará)
Mas amanhã a gente poderá acordar
No outro lado

Porque nós somos bonitos não importa o que eles disserem
Sim, palavras não vão nos fazer cair
Nós somos bonitos em todos os sentidos
Sim, palavras não vão nos fazer cair
Então, não me faça cair hoje"

E o blog segue seu caminho. Como bem diria a poeta fodástica Janaína da Cunha, somos a mesma estrada, cada um com suas devidas retas e curvas, e o caminho está bonito demais. Precisamos mesmo é de carros leitores e não de semáforos nas pistas vazias. E isso tudo só foi mais um desabafo de alguém que tem sido bastante questionado por quem não se questiona demais. Enquanto as pedras são pra minha expressão artística, aceito de bom grado. Mas quando os alvos são outros artistas com quem divido o espaço, me jogo na frente (dizer: “quem não tiver nenhum pecado que atire a primeira pedra” não funciona para os donos de verdades absolutas). Depois de um tempo apedrejado, é preciso um instante de desabafo. Tava meio de saco cheio (esperamos sempre ataques externos, não da nossa classe; a porrada dói pra caralho). Já foi. Passou. Agora seguimos em frente. E, por favor, não me faça cair hoje.  

3 comentários:

  1. Meu caro amigo de gostares poéticos, a ditadura da suposta "qualidade", dos "cânones" a serem seguidos e copiados. Certa vez minha avó me questionou sobre um lugar que eu queria ir e que todos os meus amigos da escola ia: ela me perguntou se eles comerem merda voce também vai comer? Desse dia pra cá, ligo aquela tecla "F" para todos aqueles que querem que eu siga rigorosamente regras sem sentido.

    Lembrei do documentário "arquitetura da destruição", e relembrei que Hitler era um grande fã dos antigos gregos, por este motivo, os artista que não se enquadravam dentro desses parâmetros eram incinerados, enviados a campos de concentração porque seu pensamento produzia uma arte degenerada, eles tinham mentes aleijadas. Engraçado ver o lado psicológico desses arquétipos qualitativos fundamentados em critérios rigorosos de métrica e o car.... a quatro, sempre me indicam um quê de inferioridade a ser recalcada e recoberta por uma pseudo beleza estética, sempre sinto cheiro de podridão, ouço zumbidos de moscas varejeiras que tentam se autoafirmar, esses vivem como piolhos, pulando de cabeça em cabeça.

    Hoje levei uma turma de 3 ano para visitar o teatro de Municipal Niteroi, um aluno chegou para mim e disse: não esperava que um teatro fosse assim por dentro e ficou abismado quando a responsável comental que dias atras o teatro recebeu um evento de rock, ele virou para ela e perguntou e teatro pode apresentar rock? estranho pensar num templo da arte que rejeite o rock porque condicionou-se que teatro é coisa para ricos e intelectuais. Conheço letras de musica de roque que tem mais arte e poesia do que muito testo besta de "intelectuais" que sobrevive de uma turminha que lhes massageiam o ego para que o dele também seja massageado. Se o mundo fosse homogeneo, porque ele revela-se tão absurdamente heterogêneo.

    Tantas coisa a falar sobre seu desabafo que não é só seu, compartilhamos também esse desafortúnio da imbecilidade de muitos.

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  2. Um texto que faz pensar e repensar muito!

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  3. Me vem a cabeça um trecho de zaluzejo, música do Teatro Mágico: "... errado é quem escreve certo e não vive o que diz." Quanto ao nosso (já me considero parte integrante dele!) sarau, é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos. E uma coisa que sempre uso para divulgá-lo, é exatamente essa "não castração". ninguém me diz o que e como vou fazer minha poesia. E sou aceito assim. Ninguém mede o alcance dos meus versos nem os de ninguém lá e acho que esse é o caminho. Cada um na sua mas todos juntos. Só se faz arte fazendo!

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