quarta-feira, 13 de junho de 2012

A prolixidade em Pessoa: Meu "Diários de Solidão"

Hoje faz 124 anos de nascimento de Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da nossa língua portuguesa, e falta um mês para que o blog faça seu primeiro ano de vida. Em homenagem a isso, finalmente posto o conto de máscaras que gerou o nome de meu sexto livro "Diários de Solidão", publicado em 2010, e, consequentemente, influenciou o nome desse blog (o poema que realmente gerou o nome do blog, ainda inédito em livros, só será publicado daqui a um mês). Eis o conto "Diários de solidão", um conto de várias faces em um só escritor:


Diários de Solidão

Rio, algum dia sem risos de agosto, talvez domingo.

            Um, dois, três passos e chego no palco. Luzes, muitas luzes (vermelhas, brancas, verdes, um etc de brilho e calor). Vozes, muitas vozes. Ouço meu nome nos quatro cantos do salão. Ecos, ecos: “Fabiano! Fabiano!” Sou eu, sou eu, meus pensamentos respondem ao público em minha cabeça. Me aproximo do microfone. Os corpos se agitam, os corpos sem rostos – pelo menos, não os distingo – esperam que eu cante, que eu fale, que eu... sei lá! E por não saber, nada digo.
            Então o salão escurece. Silêncio. Estou de volta à cama, ao quarto, a minha casa vazia. Preciso de um manual de etiquetas para os sonhos – saber como me portar para que eles durem mais. A escuridão do quarto... Na verdade, preciso de um emprego. Se eu pagasse a conta de luz, pelo menos o quarto ficaria menos sombrio. Preciso de um Q. I. – alguém Que me Indique, preciso de companhia para entrar naquela Companhia de Seguros.
            Inseguro, foi assim que o contratador me (des)qualificou durante a entrevista. Convidei-o para conversar melhor lá fora, quem sabe um choppinho depois do expediente? Eu ainda tinha uns trocados, estava desesperado, precisava do emprego, jogava minhas últimas moedas. Saiu tudo assim, sem querer, sem eu querer. Ele me entendeu mal, disse que era casado. “Bem casado e feliz com a MULHER que tenho”, ele destacou. “Faça a barba, adquira um porte mais apresentável, tome um chá, respire fundo, quem sabe da próxima vez?”, sua compaixão não compreendia meu desespero. Minha casa está às escuras, como posso me olhar no espelho? Não, não lhe disse, mas pensei – seria a ridicularização final dizer. Até porque dizer é uma prática incomum para mim, para esta vida encerrada numa casa vazia. Vazia não; melhor (ou pior... sei lá!), cheia de ausências. Ausências... Será que preencheram aquela vaga na companhia? Falo muito para dentro e estou cansado disso.
            Desses parágrafos, desses espaços, estou cansado; falar para dentro me deixou melodramático. Não sei quando sou brusco ou quando me estendo. Fica assim registrado meu desproporcional descontentamento. Está me ouvindo? Não, ninguém me ouve. E por isso escrevo. Talvez algumas palavras não acompanhem as linhas do diário, está escuro, já disse, não posso ser linear se não posso ver. Some isso  à irregularidade do texto e vai me conhecer: Fabiano, nordestino, tentando uma vida melhor na Cidade Maravilhosa. Não, não tenho nada a ver com a obra-prima de Graciliano Ramos. Sou o oposto, a prolixidade em Pessoa. Não, o personagem de Vidas Secas, diferente de mim, era analfabeto e muito menos infeliz. E aqui chove pra caramba, quem me dera ter ignorância para não entender porque estou aqui numa casa vazia, sem luz, enquanto o poste da esquina ilumina a calçada que nem vida tem. Talvez eu seja como a calçada, uma coisa... sei lá! Sei que o quarto é escuro, que mal consigo escrever, que até minha escrita mudou, meu sotaque acabou, eu mudei, de Ceará para o Rio, de sete irmãos sem perspectivas para sozinho num futuro sombrio, de homem para coisa; preciso de um  emprego, uma companhia de seguros, a companhia de um amigo, a segurança de um amigo. O escuro aumenta cada vez que me repito, preciso de vozes, carinhos. Melodramático, ridículo, prolixo: eis-me aqui sozinho.
            Talvez devesse voltar para o Nordeste, para minha verdadeira casa... sei lá!


Rio, agosto frio em meu desgosto, domingo

            Ele vem com passos firmes. Barbado, maltrapilho. Meio homem, meio bicho. Furioso, sensual. Arromba a porta de meu quarto, me invade. Trêmulo, pergunto: “como ousa?” Ele me agride: “CALE A BOCA!” Me beija. Lábios doces, minha boca arde em profundo contentamento. “Sou tua mulher!”, as palavras escorregam sôfregas de meus lábios, quase não me reconheço. E, nesse desconhecimento prazeroso, sinto seus braços fortes empurrarem meu corpo contra a cama. De costas para ele, aguardo novo contato de nossos corpos. Fecho meus olhos, espero. Um frio na barriga, uma coisa. Mas nenhum movimento. Viro-me. Ele foi embora.
            Sempre o mesmo sonho, o mesmo pesadelo. Acordo suado, excitado, desesperado, preso à realidade fria e solitária de minha cama. Levanto-me, acendo as luzes, procuro o fantasma. Nada. Nada, além de mim.
            Vago pela casa ainda à procura. Vazia, como sempre vazia. Talvez na cozinha... quem sabe? Nada. Então abro a geladeira e bebo um copo d’água.
            Lá fora chove. Aqui um deserto. Sinto medo. O silêncio parece que fala nesse apartamento.
            Faz dois dias que ele apareceu. Apareceu e saiu. Rápido. Falou algumas palavras e saiu. Mas deixou um sonho, um pesadelo, tão instantâneo quanto a sua aparição.
            Cretino! Como sabia? Como ousara? Surgir na minha companhia, oferecer seu corpo moreno e barbado em troca de um emprego. Safado!
            Mas como seus olhos brilhavam! Quase hesitei... Porém um dono de uma companhia de seguros como eu não pode revelar insegurança. Pus aquele estranho em seu devido lugar: na rua!
            Mas, enquanto ele saía, parecia que meu coração o acompanhava... Será que me precipitei – quem sabe não poderia...? Maldito! Por que não partiu inteiro? Por que parece que ficou e fui eu que saí? Que ridículo sou, ridículo estou, ridículo!
            Um instante! Uma entrevista! Um minuto! Quantas coisas se passam num milésimo de segundo? Uma proposta indecente... tudo que esperei, todas as noites de sábado que procurei, e ela – ele – me vem numa sexta-feira à tarde num horário comercial!
            Dinheiro, eles só querem dinheiro! Prostituta ou anjo? Algum dia, saberei a resposta? Quem sabe, quem sabe? Quanta insegurança me traz uma vida materialmente segura. Por que menti pra ele? Se a mulher que vive comigo estava em mim esperando por ele? Talvez o garoto tivesse boa intenção, interessou-se por mim de verdade, quem sabe?
            Não sei. Agora é tarde: só me resta o fantasma, o sonho, o pesadelo, essa chuva que não acaba, essa solidão que me maltrata, esse silêncio dizendo que o tempo passa, que tudo acaba.
            Talvez devesse mudar de negócio, virar a página. Talvez o futuro me dê uma segunda chance, quem sabe?

Alguma cidade, nem risos nem frios, sem data

            Fabiano e o dono da Companhia de Seguros, os diários e os sonhos são todos personagens, são todos só palavras que me distraem, esboços de uma narrativa angustiada. Trancado na histeria da criação, eu escrevo como se acendesse uma lâmpada nas trevas do porão, uma luz no fim do túnel. Mas nenhuma palavra alcança as proezas da carne, as ferragens do trem. Apenas uma luz embaçada, as palavras desconhecem o brilho latente da carne e vegetam no caderno... Corpos escritos não possuem a solidez dos corpos da realidade. As dores que aqueles trazem não possuem a gravidade física do sofrimento destes.
            É tarde, é tarde e encerro o conto insatisfeito. Ao amanhecer, a vida passará lá fora, furiosa como uma tempestade. Aqui continuará o sereno solitário, efêmero e mascarado das palavras, tentando a atenção, a companhia de vocês, de qualquer você que passeia indiferente pelo dia, pela tarde, pela madrugada.
            Apaga-se uma luz no fim do túnel... Durmo.
            E sonho que talvez alguém me acorde, talvez alguém...

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