quarta-feira, 25 de abril de 2012

Poema iron-maníaco: A ousadia de Ícaro nas asas de um novo "The Trooper"

Hoje posto um poema em homenagem ao álbum "Piece of mind", da banda inglesa de heavy metal Iron Maiden, que produzi a pedido de Paulo Rodrigues, escrito entre a paz do espírito e a mais completa lobotomia do ser (esse comentário é uma brincadeira que faço com o jogo de palavras explorado pelo grupo no título do álbum - "Piece of mind" significa "Pedaço de mente" [por isso, a capa do disco traz a ilustração de Eddie, o mascote da banda, pós-lobotomia] e é um trocadilho com "Peace of mind", que significa "Paz de espírito").
Quando Paulo me solicitou um poema-tributo ao Iron Maiden, relembrei de minha juventude: eu era extremamente ligado ao punk e ao grunge e tais tendências me influenciavam a zoar com todo o ritual apaixonado de idolatria às bandas heavy adoradas por metaleiros como um de meus grandes amigos, Guinho. Gostava de zoar com o estilo de apresentação do Iron Maiden só pra irritar meu amigo; então ele me dissertava sobre a superioridade da banda e do estilo dela sobre nós, pobres mortais, seus olhos brilhavam tanto que eu silenciava meu escárnio e acabava participando de sua idolatria alucinada. Foi com esse meu radical amigo metaleiro que aprendi a respeitar e a gostar do estilo heavy metal do Iron Maiden - "autêntico, fruto dos deuses do metal, obras-primas cantadas pelo vocalista Mestre dos Mestres Bruce Dickinson, não é igual a esse monte de b... que aparece hoje em dia por aí", diria o Guinho - e, por ele e por Paulo Rodrigues, que acabei me dedicando arduamente à produção desse poema-tributo.
Para produzir um poema ao álbum "Piece of Mind", me baseei na base rítmica do single-maior do álbum, a excelentíssima canção "The Trooper", idolatrada por todo metaleiro que se preza. Porém, se a canção original, inspirada num poema de Lord Tennyson, traz como eu lírico um cavaleiro britânico que, sem esperanças, atira-se contra as linhas inimigas russas, numa das batalhas da Guerra da Criméia, em 1854, o conteúdo da minha (sub)versão inspira-se no tema do outro single do álbum "Piece of Mind", "Flight of Icarus", inspirado na lenda de Ícaro, personagem da mitologia grega conhecido pela sua tentativa frustrada de voar (ao tentar, ele se aproxima muito do sol, cai e morre). A lenda de Ícaro, tema da canção "Flight of Icarus", ficou popular entre nós, pois simboliza o sonho humano de sempre superar os seus limites, sonho este que se mostra extremamente sedutor e, ao mesmo tempo, perigosamente fatal. 
Pois bem: misturei o ritmo de "The Trooper", a coragem do eu lírico da canção citada em atirar-se contra o inimigo, mesmo sabendo da infalível derrota nessa empreitada somada à lenda de Ícaro, citada em "Flight of Icarus", com um eu lírico que admira a ousadia do homem que ousa desafiar o sol e voar além dos limites que o céu e a terra nos dispõem. Quanto ao trocadilho, feito no título do álbum e só possível na língua inglesa, refiz no título de meu poema com a palavra "alado" e a expressão "ao lado". Não é a mesma coisa, mas tentei respeitar a arte altamente conceitual que marca o álbum "Piece of Mind".
O processo de produção do tributo poético ao álbum "Piece of mind", que inaugura uma fase mais conceitual e madura da banda Iron Maiden, foi árduo, até porque sei como os fãs da "melhor banda de heavy metal de todos os tempos" (sim, o Guinho, com certeza, diria isso, sem a mínima hesitação na afirmação) são exigentes com qualquer arte feita inspirada no grupo. Espero que tenha conseguido pelo menos o dedo mindinho de aprovação dos leitores iron-maníacos: 


Cavaleiro alado 
(Ou Ícaro a[o meu]lado)

Mais uma vez queres matar tua vontade do azul
E logo feres tuas vestes contra o sol, estás nu,
Soldado alado lutando contra o vazio que te arde,
O sol te fere e as tuas asas de cera novamente derretem.

Agora eu vejo o teu corpo mais uma vez cair 
Mesmo ferido, tu insistes em me sorrir
E o teu ser queimado pelo próprio blefe
Vive com a morte um fantástico flerte.

Vooooooooou!
Vooooooooou!

Mais uma vez investes na loucura sã
E insistes nessas tuas lutas vãs
Então pensas que vences o pérfido sol
És pequeno; para o grande astro, és apenas pó. 

Mas tua vontade mostra-te enorme
E, mesmo vencedor, o sol se comove
E mais uma vez te vejo me sorrir
Insistes em voar, mesmo estando a cair.

Vooooooooou!
Vooooooooou!

Queres o céu doce mesmo que o sol te mate
Permaneces na luta, em teu íntimo combate,
Como um tigre contra o infalível caçador
Em salto livre sobre o próprio horror.

E ainda vejo o teu semblante brilhar
Numa luz que nenhum sol pode alcançar
Seguindo tua própria lei e teu próprio amor
Fazendo tudo pra superar a tua própria dor.

Vooooooooou!
Vooooooooou!



    

2 comentários:

  1. Não conheço o som do Iron Maiden, mas gostei do poema. A imagem do cavaleiro em eterno flerte com a morte é belíssimo.

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  2. Adorei super!
    A Donzela de Ferro é eterna!

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