sexta-feira, 27 de abril de 2012

Meu poema beatdylan ou A triste história do cachorro que me sorriu

Hoje, no meio de tanta correria e atropelos, dedico-me ao "Parque de diversões em minha cabeça", obra-prima de Lawrence Ferlinghetti, poeta estadunidense da geração beat, de 1950, que abalou as estruturas do hipócrita "american dream" e influenciou a música e arte do mundo inteiro (Bob Dylan, tropicália, manguebeat e muito mais, inclusive eu!). Convidado, por Janaína da Cunha e Nana B. Poetisa, para participar do Evento Identidade Cultural & Movimento Culturista - "Homenagem a Geração Beat e a Contracultura", amanhã, dia 28 de abril, a partir das 12h, no Bistrô Café do Bom, Cachaça da Boa, na Rua da Carioca, centro do Rio de Janeiro/RJ, resolvi ampliar meus estudos sobre essa geração de grandes artistas, que teve como ícone Jack Kerouac e sua filosofia "On the Road". 
Ler Ferlinghetti deixou-me 'com os olhos baixos o tempo inteiro e cantando pra mim mesmo' (parafraseando os versos finais do sexto poema do livro); viajei em sua cabeça alucinada, observando os "cidadãos mutilados em carros pintados que devoram a América"; pensei na cidade com ares de megalópole Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa do Brasil, e os milhões de cidadãos mutilados, perambulando pelas suas ruas, sem casa, num lugar que declara abrigar o mundo com braços e sorrisos abertos. Fui acolhido assim e só tenho a agradecer aos artistas cariocas amigos. Mas... e o mendigo? 
A reflexão permaneceu enquanto eu ouvia Bob Dylan, músico extremamente influenciado pelo beat. Ouço "Queen Jane Approximately", penso em todos os turistas partindo e o mendigo, aquele louco mendigo carioca da gema, continuando: "Won't  you come see me, Queen Jane?" ("Não queres vir me ver, Rainha Jane?"). Também lembrei (como é louca minha cabeça, né, leitor, uma verdadeira tour psicodélica-literária) do conto "O cachorro riu", de Arturo Bandini, personagem da obra "Pergunte ao pó", de John Fante - no livro, não há um fragmento sequer do conto citado em diversas passagens do romance. Lembro que alguém perguntou na Comunidade de John Fante, nos saudosos primórdios do Orkut, qual seria o conteúdo do premiado conto do melancólico Arturo Bandini. Não sei, talvez nem John Fante, autor da obra, saiba; talvez nada disso importe num romance em que o personagem-escritor Arturo vive o drama de ausência de inspirações e a mais degradante falta de dinheiro. Talvez o conteúdo do conto "O cachorro riu" não importe a nós, leitores de John Fante, mas a pergunta do distinto (e extinto) orkuteiro ficou na minha cabeça e retornou hoje, junto com Ferlinghetti, com Dylan, com Queen Jane, com a Cidade Maravilhosa, com o mendigo, com todo o movimento artístico, com a Geração beat, contigo, leitor, e comigo mesmo. 
Pois bem, depois de tanta viagem pelas estradas curvilíneas de meus pensamentos, vamos ao poema beat-dylanesco-a-la-John-Fante, inspirado em "Um parque de diversões em minha cabeça". Se acharem o quarto de meus pensamentos um tanto desarrumado, me perdoem a bagunça, sou assim meio espalhado, fragmentado em meus inteiros:

Maravilhosa Jane 
(ou A triste história do cachorro que me sorriu)

Hoje, Maravilhosa Jane,
agorinha mesmo, um cachorro me sorriu
e você não viu...
Passou sem olhar pra terra,
sem olhar pro chão,
a admirar o céu
com suas estrelas de ilusão.
Oh, Maravilhosa Jane,
você não me viu,
nem viu o cachorro que me sorriu;
por isso, não percebeu
que o cachorro se chamava Amor
e que o cachorro agora se chama Eu.
E ele é horrendo, Maravilhosa Jane!
Com suas patas sujas
pela poluição permanente
de nossas calçadas,
com seus olhos carentes
sem dono, sem casa,
com seus latidos gemidos,
com seu vira-latas sorriso
que você não viu...
Agorinha mesmo, Maravilhosa Jane,
o cachorro amor mancou
um sentimento atropelado
pra você
e você não viu,
não quis saber,
pisou na pata dele
sem perceber
e ele agora é somente
o cachorro que me sorriu,
o cachorro Eu
a ganir pela metrópole inexistência
de um oi seu, ao menos um adeus...
Maravilhosa Jane, você não viu
o triste cachorro que me sorriu,
foi agorinha mesmo,
você nem percebeu...      

5 comentários:

  1. Perfeito!!!!!!!!!!!!!!!!

    "Agorinha mesmo, Maravilhosa Jane,
    o cachorro amor mancou
    um sentimento atropelado
    pra você" Muitooooo foda!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  2. "(como é louca minha cabeça, né, leitor, uma verdadeira tour psicodélica-literária)"; "depois de tanta viagem pelas estradas curvilíneas de meus pensamentos, "; "Se acharem o quarto de meus pensamentos um tanto desarrumado, me perdoem a bagunça, sou assim meio espalhado, fragmentado em meus inteiros:"

    É por tudo isso que gosto de tua escrita. Não que eu despreze a linearidade dos textos, mas é que me parece mais orgânico, a nosso ser, a alternancia, os saltos de um lugar a outro atraves das viagens psicodélicas literarias. É a isso que chamo de osmose existencial e litero-cultural.

    Tens sorte em ter consciencia de teu inteiro na fragmentação. Eu, por cá, continuo espalhada, mais fractal do que antes e, cada vez mais, minha tendencia se aprofunda no pó. Dizem que do pó viemos e ao pó retornaremos, nada mais apropriado a mim do que tal sentença.

    agora ao "puema" (voltei ao prolixo)

    Como não estou imersa (por ignorancia mesmo) em todo o contexto do qual voce se refere, falarei apenas de minha impressão e tão somente dela, bem, na verdade sempre é assim mesmo, não gosto muito de academicismo no que tange a poesia, esta para mim, será sempre como um beijo roubado, um toque mutuo e sequioso na emoção da alma que escreve e da alma que ler.

    confesso que deu nó nos dois neuronios (o tico e o teco), o tico pensou algo e o teco outra coisa

    Tico: que Eu, flechado pelo sorriso de cahorro-cupido Amor, tornou-se um pobre cachorro horrendo e imundo porque Jane nem se deu conta de sua existencia.

    Teco: esse é mais complexo e acido, por isso não falarei dele, nao quero estragar o belo poema. estão brigando para ver qual dos dois eu adotarei, mas já disse a eles que meu voto não é de minerva e sim de uma quase cética: por ora, suspendo o juizo.

    concordo com a Ju, esses versos são de arrasar Carlos. Deu-me uma pena do cachorro, quis colocar no colo e tratá-lo para que ele possa continuar e, talvez, voltar a seu sorriso original e flechar outros eus.

    como voce pode ver, minha interpretação é fractal, mas sem forma perfeita. rsrsrsr

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  3. Oh maravilhosa Jane, aqui estou! Oh maravilhosa Jane...
    minha cabeça segue firme, no lugar. Mas meus pensamentos, nem sei por onde andam...
    olhe, apenas olhe para mim e meu mundo voltará ao normal meu amor.

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