quinta-feira, 8 de março de 2012

Poemas femininos: Soneto Espancado


Mesmo estando um pouco atrasado (tenho trabalhado demais, amigos leitores, fato que dificulta uma atualização mais diária do blog), não posso deixar de destacar os meus parabéns às mulheres pelo Dia Internacional da Mulher, comemorado neste dia 08 de março (data em que, em 1857, foram queimadas diversas operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, porque fizeram uma grande greve, reivindicando melhorias em suas condições de trabalho. Um ingrediente poético a mais nos foi neste 08 de março de 2012: é o dia do lançamento, em Portugal, do filme “Florbela”, baseado na vida de uma das maiores poetas e portuguesas de todos os tempos, a extraordinária Florbela Espanca (1854-1930). E, pra homenagear uma data tão especial e, ao mesmo tempo, uma poeta tão ousada e vibrante, posto hoje o poema “Soneto Espancado”, publicado em meu quinto livro “Eu e outras províncias” (2008). O poema, escrito em formato de soneto (muito usado por Florbela Espanca, o soneto é uma forma poética clássica que consiste na construção de um poema com 2 estrofes de 4 versos – 2 quartetos – e 2 estrofes de 3 versos – 2 tercetos –  versos com 10 sílabas poéticas – versos decassílabos – e rico em ritmo e rimas), é uma homenagem aos eu líricos ousados e angustiados da maravilhosa poeta portuguesa Florbela e a toda mulher que preserva seu brilho, estilo e ousadia seja no Dia Internacional da Mulher, seja em qualquer outro dia do ano. Espero que gostem (posto também o vídeo com o trailer do filme “Florbela”, com a esperança de que ele chegue logo aos cinemas brasileiros).

Soneto Espancado

Não. Nem cantigas de amor, nem de amigo;
Trago apenas um soneto de angústia,
Quatorze versos de abandono e fúria,
Métrica das dores que vêm comigo.

Rasga os versos se evitas o que digo;
Rasga-me! Estou pronto para a renúncia
(Já conheço-a até com certa volúpia).
Na casa da ilusão, não faço abrigo.

Mas, se atentares pra estas linhas tortas,
Verás que este meu frio também comportas
No oculto do peito, no obscuro da alma.

Chora, flor bela, chora cada espinho
Destes versos sem calor, sem carinho;
Sente... assenta... neste jardim sem calma. 


2 comentários:

  1. Eh, tava aqui esperando o q viria de postagem pelo dia internacional da mulher, rs. Sabia q vc não ia deixar passar em branco! O poema sobre Florbela é ótimo!

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  2. Ah meu amigo, o que seria de mim sem tu? (rsrsr). Bem sabes o quanto amo a poesia de minha Florbela Espanca, intensa, angustiada, ingenua, precisa em nos transmitir determinadas emoções ou nos fazer relembrar de tantas outras. Adorei o soneto espancado e frui espancadamente com prazer cada verso.

    "Trago apenas um soneto de angústia,
    Quatorze versos de abandono e fúria,
    Métrica das dores que vêm comigo."

    Cara, isso é lindo. tua angustia é estética para mim (desculpe, nao que eu queira que sejas angustiado, mas sempre penso que a angustia nos torna mais humanos e ricos na alma). Estou a ler "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa, que maravilha, que homem terrivelmente angustiado e magnífico em suas colocações ante a vida.

    Obrigada pela informação sobre o filme, não sabia de sua existencia. Assim como tu, estarei esperando ansiosamente por ele. bjs

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