quarta-feira, 21 de março de 2012

Poema progressivo: Depois do lado escuro da lua


Hoje posto um dos poemas mais árduos que me propus a fazer nesses últimos tempos. A pedido de Paulo Rodrigues, autor do programa de rádio “Simplesmente rock”, da radiovalença.net, faço uma homenagem a “Wish You Were Here” (1975), nono álbum da banda britânica de rock progressivo Pink Floyd. Produzido após o estrondoso sucesso do anterior “The dark side of the moon”, “Wish You Were Here” explora temas como ausência, indústria musical e a deterioração mental (devido ao grande consumo de drogas) de Syd Barrett, um dos fundadores do grupo. Sendo o primeiro álbum da banda sem Syd, o disco sofreu críticas contraditórias (os fãs de Barrett o detestaram, enquanto outros foram mais otimistas com os novos rumos da banda), enfrentou o desafio de manter o sucesso do trabalho anterior, proclamou o início da liderança de Roger Waters no processo de composição e concepção da arte pinkfloydiana e nos deixou dois grandes hits da banda: “Shine on You Crazy Diamond” e “Wish You Were Here”.
Para construir meu tributo poético ao álbum, me baseei nos temas originais desse nono trabalho pinkfloydiano, incluindo citações dos dois hits citados. Me inspirei também no relacionamento azedo da banda com a mídia da época, somado ao encerramento da música “"Welcome to the Machine" com sons de festa, sintetizando, segundo Waters, "a falta de contato e sentimentos reais entre as pessoas". Por isso, meu poema ambienta-se em uma “festa das estrelas sem luz”.  Outra declaração de Waters que influenciou o poema-tributo foi a que ele explica parte do que motivou a composição de “Shine on You Crazy Diamond”: "porque eu queria chegar o mais perto possível do que eu senti [...] um tipo de melancolia indefinível e inevitável sobre o desaparecimento de Syd". Nesse ponto, lembrei de diversos conhecidos e amigos que perderam a consciência de si mesmos, rendidos ao uso abusivo de drogas e, assim, construí o interlocutor a quem meu eu lírico se dirige. 
Acrescentei a tudo isso a grata experiência de ter vivenciado e curtido um dos melhores tributos a Pink Floyd, feito pela banda valenciana The Black Bullets, onde tive a oportunidade de ouvir versões primorosamente bem executadas de “Wish You Were Here” e “Shine On You Crazy Diamonds” (destaco o nome da banda valenciana no verso “Balas negras de progressiva tristeza atingem a multidão alegre e omissa”).
Espero que o progressivo poema que construí possa satisfazer os anseios de Paulo Rodrigues e os olhos pinkfloydianos dos amigos leitores. Que todos estejamos sempre de volta, após atravessarmos o lado escuro da lua.

Depois do lado escuro da lua 
(ou Como eu queria que você estivesse aqui)     

Depois de conhecer o lado escuro da lua,
É difícil fingir-se feliz para os rostos sem faces
Nas festas das estrelas sem luz...
Chega a doer os lábios o sorriso triste que ensaio
Para esses seres alegres que pensam com os dentes
E mastigam a gente;
Chega a escorrer lágrimas no sorriso amarelo,
Quando retorno a essas festas pálidas,
Cheias de estranhos vazios,
Cheias da ausência de você...

Ah, como eu queria, como eu queria que você estivesse aqui
Pra podermos rir dessas coisas tristes,
Pra não me sentir tão só e ruim nessa festa que não escolhi
Mas só vejo eles, vários sujeitos simples e indeterminados,
Nenhum composto, nenhum vestígio de nós
Nessa purpurina cinza sem o sol de sua presença...
(Quando atravessamos o lado escuro da lua,
Eu voltei e você ficou
Admirando diamantes loucos do satélite de luz artificial
E hoje esses falsos brilhantes consomem seus olhos,
Enquanto carrego o peso da volta sem você... )
Ah, como eu queria, como eu queria que você estivesse aqui!

E a festa continua, um porre de luz falsa em minha escuridão autêntica,
Sorrisos efêmeros atropelam minha tristeza permanente,
Olho pro céu e procuro seu corpo perdido no lado da lua que não vejo,
E não o reconheço, não me reconheço, a noite segue e me persegue
Com suas trevas brilhantes iluminando minha falta de luz...
Balas negras de progressiva tristeza atingem a multidão alegre e omissa,
São meus olhos procurando seu brilho invisível no meio dessa falsa alegria
É ruim, mas eu preciso continuar meu baile de melancolia, minha dança sem par;
É muito triste, mas eu preciso continuar, mesmo sem você...

E é por isso que eu acompanho esses falsos festejos
Desses donos do mundo, desses escravos sem alma;
Preciso aprender os passos deles pra fazer o contrário,
Pra reaprender a sorrir de verdade,
Pra reaprender a sorrir mesmo sem você aqui
E, quem sabe, assim você retorna?
Quem sabe, assim você novamente me sorri
Sem essa ausência brilhante, sem essa farsa calma;
Desespere, amigo perdido, desespere e me espere,
Porque eu vou continuar até reencontrar
Você!

Sim, eu queria muito que você estivesse aqui...

5 comentários:

  1. Putz, tão lindo que eu nem sei o q comentar, lindo demais!
    Vou até dar uma de Helene e destacar alguns versos:
    "Chega a doer os lábios o sorriso triste que ensaio
    Para esses seres alegres que pensam com os dentes
    E mastigam a gente;
    Chega a escorrer lágrimas no sorriso amarelo,
    Quando retorno a essas festas pálidas," - Muito fodástica essa parte!-

    "Mas só vejo eles, vários sujeitos simples e indeterminados,
    Nenhum composto, nenhum vestígio de nós"-demais-


    "E a festa continua, um porre de luz falsa em minha escuridão autêntica," - demais!-

    "Olho pro céu e procuro seu corpo perdido no lado da lua que não vejo,
    E não o reconheço, não me reconheço, a noite segue e me persegue
    Com suas trevas brilhantes iluminando minha falta de luz..." - paradoxos maravilhosos!-

    Amei, adorei, venerei o poema!

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  2. Meu querido amigo poético, o que dizer diante dessa pérola negra (mais valiosa, para mim)? Acho até que tem alguma coisa semelhante ao processo criador: é visceral, biológico, fisiológico, naturalmente essencial e existencial.

    obrigada Ju pela lembrança de meu método (não sei se foi ironia), rsrsrs - não me incomodo. mas eu o uso porque sou essencialmente prolixa e desconexa, daí o recurso de citar aquilo que nunca conseguiria dizer com tanta maestria.

    seguindo-o então, cito

    1- "Hoje posto um dos poemas mais árduos que me propus a fazer nesses últimos tempos." - ACREDITE CARLOS, VALEU CADA GOTA DE SUOR E ALMA.

    2- "Nas festas das estrelas sem luz... E Cheias de estranhos vazios," - ME FEZ LEMBRAR TAMBÉM DE ESTRELAS COMO AMY, WHITNEY, ELVIS, CAZUZA, RAUL E TANTOS OUTORS QUE SE AUTO-APAGARAM, RESTA SABER SE ISSO FOI UM PROCESSO LEGÍTIMO DE AUTOPRESERVAÇÃO, POIS EXISTEM PESSOAS QUE NÃO SE CABEM, NÃO PODEM SE LIMITAR, ELAS SIMPLESMENTE IMPLODEM, TAMBÉM ENCAIXO O KAFTA NOS IMPLODIDOS. MAS É CLARO QUE O BRILHO PERMANECE MATERIALMENTE PELAS OBRAS E EMOCIONALMENTE NA NOSSA MEMÓRIA.

    3 - "Preciso aprender os passos deles pra fazer o contrário,
    Pra reaprender a sorrir de verdade," - APRENDA MEU AMIGO, PRECISO DA LUZ DE SEUS POEMAS PARA LEVAR LUZ, OCASIONALMENTE, AOS MEUS ABISMOS EXISTENCIAIS. RSRSRS TAO EGOÍSTA.

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    1. Cara Helene, me desculpe se minha citação a vc soou irônica, não era, nem de longe, essa a intensão. Eu apenas quis dizer q o poema é tão bom que merecia um comentário ao seu estilo, cheio de recortes e citações. Eu acho q em uma boa análise literária cabem muitos recortes e citações. Me desculpe se soou irônico, desculpe mesmo. Putz, não era pra ter parecido isso! Eu adoro suas análises verborrágicas sobre os textos do blog, elas acrescentam mais Literatura ao blog! Alguns de seus comentários são praticamente novos textos acrescentados ao Blog.

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  3. Nãooooooooooooo! Não foi ironia!!!!!! Eu adoro seus comentários

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  4. Não esquenta Ju, acredito em você. Para mim, "em verdade vos digo": a ambiguidade move o mundo e os sentimentos, a incerteza das coisas nos faz não ser unívocos, afinal de contas somos corpo e algo mais que uns dizer ser espírito, outros alma ou qualquer outra designação. Mesmo que fosse ironia eu não abriria mão dos comentários nos textos do Carlos, que gosto sobremaneira. Já aviso a ele que "terá que me engoli" rsrsrsr

    Tenho lido muita coisa exdrúxula e repetitiva que chegam a me enjoar. Nos textos e nos poemas do Carlos encontro ares novos, um quê criativo que sempre busco nos textos. Gosto também da relação dele com os seus compatilhamentos, o que me diz que ele não quer brilhar sozinho, gosto de estrela, mas amo constelações.

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