sábado, 4 de fevereiro de 2012

A queda do “Information Society”: Falta informação na era do conhecimento


             Na década de 1980, surgiu uma banda americana chamada “Information Society” (“Sociedade Informada”, se traduzirmos ao pé da letra o nome do grupo), cujo estilo, misto de synthpop, techno e freestyle, pregava um ritmo futurista para o nosso universo pop-eletrônico e rico em novidades tecnológicas. Diante de um contexto tão apaixonado pelas máquinas (o período marca a evolução do computador) e por novas linguagens (a virtual, por exemplo, começava a engatinhar), as músicas eletrônicas da banda tornaram-se mundialmente conhecidas pelos frequentadores das discotecas dos anos 1980. Um dos grandes sucessos da banda foi a canção “What's On Your Mind (Pure Energy)” - em português: “O que está na sua mente (Pura energia)” – cuja letra trazia o seguinte fragmento: “Here I am in silence / Looking round without a clue / I find myself along again / All alone with you... / I can see behind your eyes / The things that I don't know / If you hide away from me / How can our love grow? “ (traduzindo mais ou menos para o português: “Aqui estou em silêncio / Olhando em volta sem uma pista / Eu me acho novamente / Só com você / Eu posso ver atrás de seus olhos / As coisas que eu não sei / Se você esconde longe de mim / Como nosso amor pode crescer?”. Os versos, apesar de aparentemente apresentarem apenas citações de um complicado amor, nos revela algo mais da geração de 1980: a sensação de estar perdido e a busca por informações que estão muito além do que os olhos veem.
            E, nesse momento, amigo leitor, você deve estar se perguntando: por que esse blogueiro metido a besta está falando de uma banda que as novas gerações desconhecem e cujas músicas atualmente só são tocadas em flashbacks e festas ploc? O que se passa na mente de Carlos Brunno S. Barbosa para, nesse lindo sábado quente e festivo, resolver falar desse tal de “Information Society”, cujo sucesso hoje é tão obscuro quanto o do blogueiro que vos escreve? Eu poderia simplesmente colocar uma foto da banda no facebook com os seguintes dizeres: “Quem lembra dessa banda e sente saudade, compartilha!” e pronto! Terei mil compartilhamentos, serei contemporâneo aos meus tempos e todo questionamento seria esvaziado. Mas não; eu não sou tão contemporâneo assim: resgato o “Information Society” para compartilharmos questionamentos da nossa atualidade e não saudades de outrora.
          A queda de sucessos e o consequente esquecimento da banda “Information Society” começam em 1993 e permanecem assim até os dias atuais (eles fazem vários retornos sem grandes alardes – mais revivals que novidades ou ressurreição do sucesso). Coincidentemente, a nossa “sociedade informada” recebe golpes frequentes com a globalização e a fragmentação da informação e, em plena era do conhecimento, nunca fomos tão ignorantes e partidários – as moedas não têm dois lados nas fotos compartilhadas em redes sociais virtuais -, ao invés de mais conscientes e conhecedores do universo à nossa volta. 
Resumindo (pois sei que poucos leitores atuais suportam textos longos e informativos demais): vejo as notícias sobre a violência contra o Movimento Sem-teto em Pinheirinho, São José dos Campos/SP, e um jornal defende, o outro ataca e os demais ignoram – ninguém (a não ser que acompanhe de algum lado ou acompanhe blogs – recomendo o do meu amigo e escritor Omar. Aí vai o link: http://terraypraxis.wordpress.com/) sabe a proporção real e trágica do problema. Então relembro da polêmica sobre a instalação da Usina Hidrelétrica em Belo Monte, no Estado do Pará: o Movimento Gota D’Água, cheio de atores da Rede Globo (o que já provoca desconfiança), ataca o projeto fazendo uso de informações imprecisas, enquanto engenheiros defendem a continuidade do projeto, menosprezando o impacto ambiental; a Globo fica indiretamente do lado dos ambientalistas, a Veja dá primeira página para os partidários da usina e, mais uma vez, uma rede de mentiras e meias verdades se espalha pela internet como certezas sem nenhuma restrição (assim como pessoas “reais” e “fakes” se relacionam em redes sociais virtuais, como se todos fossem autênticos). Há pouco tempo, houve o escândalo e a agressão mútua entre Rita Lee e a Polícia Militar do Estado de Sergipe: mais vídeos fragmentados, cada um mostrando o exagero de um lado, mais um monte de opiniões autoritárias, mais cenas fragmentadas do acontecimento nas emissoras de TV e poucos ‘perdem’ tempo de procurar assistir a todo o episódio (até porque teriam de entrar em diversos links – como quebra-cabeças, cada um faltando uma peça - para conseguir a versão completa do ocorrido). 
Então o que fazemos? Fácil, buscamos o meio mais fácil: falamos o que está em nossa mente (respondendo roboticamente ao popular “No que está pensando?”, pergunta básica que o facebook nos faz quando vamos atualizar nossos “status”), emitimos opiniões a partir de meias verdades e pronto: questionamos tudo pela metade, compartilhamos nossa meia conclusão do fato, nos mostramos grandes cidadãos e “block”: foda-se a complexidade de tudo! Ah, já tuitavam alguns artistas para os seus seguidores: “O que está havendo comigo? Sempre vim aqui pra falar de coisas alegres.” (tuitada 1) “Eu prefiro ser feliz a ter razão” (tuitada 2).
Esclarecendo os fatos: mesmo que a banda “Information Society” resista, a obscuridade continua, a “sociedade informada” deixou de ser popular. Vivemos agora numa sociedade de informantes, tudo que se informa é apenas metade/quase nada do que realmente há pra ser informado. A era do conhecimento já era. Bem vindos à nova era: a era da opinião, onde a razão não importa; importante é emitir seu palpite feliz para os infelizes que se tornam notícia (imagino o eu lírico da canção “What's On Your Mind (Pure Energy)”, atualmente eletrocutado pela pura energia de tolices que seu interlocutor libera quando este inconsequentemente lhe declara tudo o que está pensando sem moderação). E assim nos matamos ao inquestionável sucesso das indiretas diretas do eu lírico da canção “Ai, se eu te pego” de Michel Teló, ícone maior da exposição clara de ideias sem moderação. Adeus, Information Society. Fomos pegos pelo excesso de claridade das novas trevas.       

2 comentários:

  1. Comentário I - tive que dividir o negócio em dois

    Carlos, tu é uma figura. "Resumindo (pois sei que poucos leitores atuais suportam textos longos e informativos demais)", foi ótimo.

    A leitora aqui pelo menos teve a sorte de ler seu texto de letra grande (preciso dos óculos rsrsr).
    Veja o desespero que causaste em mim? que maldade, em pleno domingo, querendo esfriar a "mufa" e tu me leva para um olho de furacão homem. Isso não é certo com uma amiga velha, cansada e, pior, prolixa. Com toda certeza vou me perder (releve por favor), pois de comentário, passará a ser um texto massante e confuso como tudo o que há em mim.

    Você diz: "A era do conhecimento já era. Bem vindos à nova era: a era da opinião, onde a razão não importa"

    Você me fez Relembrar algumas aulas sobre Sócrates, Platão, os sofistas e Aristóteles, no que tange a celeuma entre a doxa (opinião) e a ciência (conhecimento verdadeiro). Era um outro contexto, mas será que é tão diferente do nosso? Posso concordar que em muitos aspectos seja diferente, mas a história da civilização é tão repetitiva, tão cíclica.

    Bem Carlos, não poderia deixar de me lembrar que nessa questão, a aporia (os caminhos sem saídas - dada a relativização e a individualidade predominante na atualidade) talvez seja a verdade verdadeira, pois quem admite ou defende uma razão verdadeira, terá que admitir que também existe uma verdade universal e incontestável (na física, quem sabe não seja possível conceber isso, mas no que diz respeito ao juizo do ser humano, será possível?).

    O que percebi ao longo de meus 42 anos foi uma alternancia de "verdades verdadeiras" dependentes do partidarismo daqueles que estao no poder e podem legitima-la.

    O que voce quis dizer com opinião X razão? De que razão estamos falando? da coletiva, da individual, da jurídica ou da moral?

    Não estou querendo ser advogada do diabo, apenas tentando pensar a questão que voce apresentou. O que significaria nao emitir opinião? Mas não ter um opinião, também não é não admitir ter senso crítico.

    É claro que reconheço a dificuldade da situação "pinheirinho" está na "razão" direta de ver toda a questão da injustiça e todas as outras que atravessam a condição da desigualdade social brasileira tão claramente exposta e, no entanto, tão invisível, tão abafada e sempre tão desviada a atençao para outras desgraças ou escandalos político-economicos. Fico a me perguntar: por que tentar faze-la invisível aos olhos de quem e por que? Contudo, ao que parece, do ponto de vista do Legislativo, uma invasão ja se configura crime, portanto, feri a Lei e não aos moradores (isso nem é levado em conta).

    No face, o que presenciei foram xingamentos dos pros e dos contra num nível mais irracional do que o que imaginamos ser irracional. O que recolher dessa discussão pulverizante? ja que nao confiamos mais no que a mídia noticia, ela é tendenciosa. Por outro lado, o que fica dessa discussão ferrenha? qual é a que preconiza a RAZÃO? Estamos de fato lá para emitirmos um juizo de "verdade da razao"? Não temos que confiarmos em algo e, a partir desse algo, emitirmos uma concordância ou não? Mas veja,nunca conseguimos abranger todos os fatos. Entao, ela será sempre parcial, se é parcial, qual é a RAZAO?

    Continua no proximo comentário rsrsrsrsr – Eu bem avisei que o negócio ia ficar GRANDE kkkkkkkk

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  2. Continuação - comentário II - ME VINGEI TAMBÉM RSRSR (embora não seja tão contundente quanto o seu, eu sou mestre em tolices kkkkk)

    Não é minha opinião, estou a gritar por socorro para o Eco. http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2011/12/umberto-eco-o-excesso-de-informacao-provoca-amnesia.html
    Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"
    O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

    AGORA CARLOS, VOU EMITIR MINHA OPINIÃO SOBRE A QUESTÃO PINHEIRINHO: PARA MIM, A VERDADE É QUE TODAS AQUELAS E OUTRAS CRIATURAS ESTÃO DESABRIGADAS E JOGADAS NO LIXO COM SEUS REBENTOS. QUE FUTURO TERÃO? E NÓS, PITAQUEIROS DE PLANTÃO JUNTAMENTE COM TODO O RESTO, TEREMOS UM FUTURO OU UM COLAPSO NERVOSO E SOCIAL?

    Aproveitando que você não postou um poema, termino esse comentário esdrúxulo com um da poeta Lena Jesus Ponte, pelo menos alguma coisa tem que se salvar dessa droga (para não dizer p....) que escrevi:

    De passagem

    Na rua dorme um menino
    sem lençol de afeto.
    Na rua sonha um menino
    sonhos sem imagens.
    Na rua seca um menino
    sem sequer as miragens de um deserto.

    O menino dorme,
    abraçado à calçada,
    aconchegado ao cimento.
    Que faz todo mundo neste momento exato?
    Dormimos todos um sono profundo.

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