sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Solidões compartilhadas: Voos poéticos de Paulo Ras com o beija-flor

Pela terceira vez (já viramos sócios do blog rs), compartilho minhas solidões poéticas com o grande poetamigo curitibano Paulo Ras. Desta vez, o eu lírico dele, com claras influências do poeta gaúcho Mario Quintana, confessa sua natureza poética e complicada para a natureza alada e simples do beija flor:

É que sou assim, beija-flor.
Um pouco de tudo que me sustenta,
Um pouco das poucas coisas que me alentam,
E misture a tudo tolices,
Sonhos, sandices e viagens sem volta.
É, beija-flor!
Sou assim.
Indecifrável.
Intocável.
Ininteligível.
Sou poético,
Sem métrica,
Sem dom,
Sem tom.
Sou prostrado,
Sou vendado,
Sou vôo.
Em minha poesia
Sou criatura.
Em meu mundo sou criador.
Mas, beija-flor,
Quanta inveja,
Quanta tristeza,
Pois só você,
Beija-flor,
Para no ar.

2 comentários:

  1. Ah, adorei o poema. Por meio de suas palavras me transportei a tantos pensamentos e lembranças: a tolice, por exemplo, como é bom ser tolo, pois na pior das hipóteses, pode-se rir ou da tolice, do tolo ou de ambos;

    "Sou vôo.
    Em minha poesia
    Sou criatura.
    Em meu mundo sou criador."

    Vislumbro o eu lírico-metafísico a se observar enquanto criador e criatura de seu mundo.

    "Mas, beija-flor,
    Quanta inveja,
    Quanta tristeza,
    Pois só você,
    Beija-flor,
    Para no ar."

    Agora, pode me invejar eu-lírico, tenho o privilégio de observar completamente "estátua" o meu beija-flor depois de um voo, pois se me mexo, ele se assusta e vai embora, entao aprendi com ele, a controlar a respiração e enquanto ele descansa, eu pairo meu olhar em pleno voo sobre ele. Uma vez vi um reporter pegá-lo na mao dormindo, fica em estado de letargia, como uma semi-morte, pois em atividade, seu corpo exige tanto de seu organismo, que ao dormir é preciso parar quase tudo para se recuperar e recobrar as energias para os próximos voos.

    Desse modo, tenho a honra de ser a hospedaria onde ele vem se abrigar para descansar duas vezes: pela manha e a tarde (quando vem, hoje ele nao apareceu, to com saudades rsrsrsr)

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  2. muito obrigado pelo elogio e pela análise do texto. Mas quanto ao beija-flor, só ele continua podendo parar no ar, pois a estátua encarnada apenas para cravado no solo. E nada há de mais sutil do que poder ver o ninho do beija-flor delicadamente feito no galho de uma muda de limoeiro, com ovos que se quebram em filhotes. E dali saem mais pequenas aves. Tudo isso em frente à sua janela. E o eu-lírico não inveja, ele se felicita com pessoas sensíveis que ainda param para admirar o vôo manso e delicado do colibri.

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